Vamos acolher refugiados? Por que não?

criança morta1.-A imagem correu mundo esta semana e demonstra a dramática história dos refugiados.
São aos milhares os que diariamente batem à porta da Europa pedindo asilo devido à guerra e à fome que alastram em países africanos e do médio oriente, onde o exército islâmico extermina gentes e culturas a seu bel-prazer.
A imagem de Aylan, o menino curdo de três anos, deitado numa das mais conhecidas praias da Turquia – Bodrun – e que juntamente com o irmão de cinco anos naufragaram quarta-feira num barco, pouco depois de terem partido da costa sudoeste da Turquia em direção à ilha grega de Kos, é o espelho da desumanidade da Europa, cada vez mais resistente à abertura das fronteiras aos fugitivos da guerra.
É confrangedor e revoltante assistirmos à persistente teimosia de governantes que blindam fronteiras à entrada de refugiados. Noutros tempos não muito recuados, esses povos foram socorridos quando outras “cortinas” impuseram muros entre os dois blocos militares. A Hungria, dita “católica” que agora propaga imagens de fronteiras aramadas,  representa o que de pior a humanidade encontrou para fazer face à crescente insegurança gerada pelos atropelos aos direitos humanos.
Quem está atento e sensibilizado ao drama de milhares de refugiados indefesos que pretendem viver na chamada “Europa dos cidadãos”, fica revoltado com a demora das respostas burocráticas e economicistas dos governantes dos chamados países ricos.
Nas redes sociais, onde cada vez mais se faz ouvir a opinião pública mundial, milhares de cidadãos protestam contra tanta inércia resultante não apenas da falta de consensos internacionais, mas sobretudo de conceções estratégicas de pendor maniqueista e fundamentalista sobre o islamismo, considerado um perigo real que urge travar ainda nas costas africanas do mar Mediterrâneo.
Contra esta estratégia que só alimentará o terrorismo e novos conflitos, cresce cada vez mais a consciência de que a terra é pertença de todos e, por isso, não se deve limitar a circulação de pessoas e bens no espaço comum da humanidade.
Reconheço que os senhores dos Estados, muitos dos quais agem como donos dos destinos dos povos, julgariam perder a autoridade se os países não tivessem fronteiras.
A atual ordem política e económica internacional apresenta, porém, cada vez mais disfunções que, inevitavelmente, darão lugar a outras práticas e novas respostas consentâneas com a paz e o “desenvolvimento do homem todo e de todos os homens”(1).

2.- O problema dos refugiados gera também na consciência de qualquer cidadão, interrogações sobre: o que se pode fazer, ou como se pode ajudar a  resolver essas situações.
Nós, açorianos, com uma cultura arquipelágica, mas universalista, já nos vimos em situações difíceis, decorrentes de catástrofes e calamidades. As mais recentes que retemos na memória coletiva, foram a crise do Vulcão dos Capelinhos (1958), que reabriu as portas da emigração para os Estados Unidos e, a crise económica e social dos anos 60, que levou milhares de açorianos para o Canadá - famílias inteiras com muitas crianças e jovens.
Daí decorre a atual crise demográfica e o consequente e preocupante envelhecimento de várias ilhas, sem que se tomem medidas para o combater.
Perante esta situação, os Açores deveriam abrir as suas portas e acolher refugiados, oferecendo-lhes condições atrativas de apoio à habitação, educação, formação profissional e integração nas comunidades das várias ilhas. Sem discriminações de qualquer espécie, sejam ideológicas ou religiosas, mas num projeto solidária e integrador, semelhante ao que tomaram os povos dos países de destino da nossa emigração.
Várias ilhas, desde que preparadas, sem demora, constituiriam bons espaços onde gente de outras culturas poderiam integrar-se com vantagens mútuas.
Fica a ideia, na convicção de que a dimensão do drama dos refugiados é de tal ordem que os governantes, as comunidades religiosas e instituições de intervenção social podem ficar indiferentes. Como está a acontecer em várias dioceses do continente, nomeadamente do interior.
A imagem do menino Aylan, jazendo morto numa praia da Turquia, deve gerar uma reação positiva, para que outros homens, mulheres e crianças encontrem aqui um lugar tranquilo, onde vale a pena viver.

 *jornalista c.p. 536
http://escritemdia.blogspot.com 

1)Paulo VI,”Populorum Progressio”,n.º 8