Mais de 40 mil acidentes e 269 mortos nos últimos 15 anos

AcidenteOs recentes acidentes em S. Miguel e no Corvo, que provocaram vítimas mortais, trouxeram uma dúvida a muita gente acerca da qualidade da condução nas nossas ilhas: os açorianos são maus condutores? Fomos ver as estatísticas dos acidentes dos últimos anos e concluímos que não há razões para grandes alarmes. O problema poderá estar no surgimento de novas estradas, as vias rápidas, onde o impacto dos acidentes nessas vias é maior em termos de prejuízos. Seja como for, há uma boa notícia nos últimos dois anos: houve menos acidentes no ano passado em relação ao ano anterior e a tendência tem sido de diminuição.

 

Os açorianos são maus condutores?
É uma dúvida que nos assalta sempre que vamos na estrada e vemos um acidente ou assistimos a manobras perigosas.
Em S. Miguel é frequente ouvir-se longas buzinadelas nas vias rápidas e nas rotundas, travagens a fundo ou arranques loucos do motor, porque ainda há condutores que ainda não estão habituados a conduzir nessas vias.
O problema coloca-se sobretudo nos mais idosos, que não actualizaram a sua formação na condução e nos sinais, daí as notícias sobre a circulação  em contramão, confusão nas vias das rotundas e lentidão nas mudanças de via na via rápida.
Mas há outra teoria interessante, explicada à nossa reportagem por Luís Rego, conhecido empresário do Grupo Ilha Verde, que detém uma rent-a-car e uma escola de condução.
É que nos últimos anos começaram a surgir muitas escolas de condução nas freguesias e, “sem querer tirar o mérito ao profissionalismo de cada uma delas, a verdade é que os alunos que circulam nas vias dessas freguesias podem depois estranhar a pressão do tráfego em cidades como Ponta Delgada”.
“É como muita gente que diz que não consegue conduzir na confusão de Lisboa”, avança Luís Rego.

“Se até temos campeões de ralis...”

À pergunta sobre a qualidade de condução dos açorianos, Luís Rego não tem dúvidas: “não somos piores do que lá fora; temos boas escolas de condução, as estradas não são complicadas, há fiscalização; não é por aí”.
Ouvimos outra teoria de um condutor profissional: “se até temos nos Açores campeões de ralis, mesmo a nível nacional, só ouço falar bem da condução dos açorianos, apesar de acelerarem um pouco...”.
Há ainda quem aponte algumas falhas de informação sinalética nalgumas estradas, as distracções de muitos condutores e também muito álcool.
Luís Rego elogia a virtude das renovações de carta, porque permite a pessoas de mais idade actualizarem a condução e os sinais de trânsito.
É verdade que se assiste cada vez mais a reclamações e queixas de muita gente, que dizem que há muita “azelhice” nas nossas estradas e que não pára de aumentar o número de manobras perigosas a que assistem.
Mas se formos consultar as estatísticas oficiais, constata-se que o número de acidentes até tem vindo a diminuir nas nossas estradas.

Mais de 10 mil feridos desde 1999

Dados fornecidos à nossa reportagem pela PSP dos Açores indicam, por exemplo, nos anos mais recentes, que de 2013 para 2014 houve uma diminuição de acidentes nas estradas açorianas.
Enquanto que em 2013 os Açores registaram 2.757 acidentes, no ano passado desceram para 2.698.
O Comando de Ponta Delgada registou 1.781 acidentes em 2013 e 1.764 em 2014.
O de Angra do Heroísmo registou 631 acidentes em 2013 e 587 em 2014.
Já o da Horta registou 345 em 2013 e 347 em 2014.
Fomos ainda consultar os números entre 1999 e 2011.
Nesse período registaram-se 40.554 acidentes, com 269 vítimas mortais e 10.318 feridos.
São números que impressionam, sobretudo porque nesses anos o número de acidentes em cada ano ultrapassava os 3 mil, nada comparado com hoje.
O pior ano foi o de 2002, com 4.025 acidentes.
Mas o número de acidentes não significa que a gravidade dos prejuízos seja igual.
Por exemplo, foi em 1999 que se registou o maior número de vítimas mortais nas estradas dos Açores, com 36 mortos, enquanto que em 2003 se registou o maior número de feridos (1.060).

Terceira tem menos acidentes

Não há estudos recentes comparativos, mas o sociólogo Alberto peixoto, que trabalhou na PSP dos Açores e foi director da Polícia Municipal de Ponta Delgada, publicou há quase uma década um estudo intitulado Sinistralidade rodoviária - da realidade à evidência”, onde se diz que a ilha Terceira é a ilha dos Açores com menor taxa de sinistralidade.
Enquanto em cada 100 açorianos 25 já tiveram acidentes, a taxa referente à Terceira é de 10 por cada cem automobilistas.
Alberto Peixoto afirma que existe um desfasamento entre as causas apontadas para a sinistralidade nas estradas açorianas e os motivos que levam a que aconteçam.
“Os inquiridos consideram que o consumo excessivo de álcool está na origem nas maioria dos acidentes mas verificamos que o excesso de velocidade é a principal causa da sinistralidade nos Açores.
De acordo com Alberto Peixoto, a melhoria da rede viária poderá ser a causa do aumento das mortes nas estradas regionais.
“Com melhores estradas as pessoas passaram a conduzir com maior velocidade mas mantiveram os erros de condução que tinham quando as vias eram de pior qualidade”, afirma.

Telemóvel: sinal de alarme

Há outros factores que entretanto vão surgindo, com o tempo, e que afectam a condução automóvel.
Um dos mais falados nos últimos tempos é o uso e abuso do telemóvel a bordo.
No continente, por exemplo, a sinistralidade tem aumentado.
José Manuel Trigoso, Presidente da Prevenção Rodoviária Portuguesa, diz que, nos dias de hoje, já não é só o falar ao telemóvel: “Neste momento é muito pior: é o problema das mensagens. O velho telemóvel está a ser substituído pelos ‘smartphones’. Entram pelo carro dentro as mensagens, os e-mails, o facebook e as outras redes sociais. Entra tudo. Além da distracção provocada pela desconcentração da conversa telefónica, acresce uma deslocalização do olhar”.
E acrescenta: “o risco de acidente grave enquanto uma pessoa está a ler/enviar mensagens é cerca de 20 vezes maior do que se estiver concentrado na condução (e é mesmo claramente superior ao nível médio de risco de uma condução sob influência do álcool). Em simulações, com câmaras dentro do veículo, que mostram todo o tipo de distracções do condutor, há casos de desconcentrações totais com desvio do olhar durante cinco segundos consecutivos. É uma coisa absolutamente bárbara. Basta andar na estrada para ver as pessoas que não arrancam nos semáforos porque estão ao telemóvel ou, cada vez mais, a olhar para o ‘smartphone’ . E inclusivamente também por parte dos peões”.

Açores já foram 7ª posição na sinistralidade europeia

Neste momento não existem números recentes que tenhamos conseguido obter, mas os Açores já ocuparam, em 2011, a 7ª posição no ranking da sinistralidade rodoviária da União Europeia, à frente de Portugal Continental, que ocupava a 10ª posição.
Nessa altura o Governo Regional comprometia-se para os cinco anos seguintes situar a taxa de sinistralidade rodoviária do arquipélago entre as cinco mais baixas da Europa a 27.
Não sabemos se foi conseguido.
Mas uma coisa é certa: os açorianos parece não serem assim tão maus ao volante, a julgar pelos números...

 

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