“Os condutores hoje são diferentes do que há dez anos”

alberto peixotoAlberto Peixoto é sociólogo e especialista em sinistralidade rodoviária. Foi Director da Polícia Municipal de Ponta Delgada, sociólogo na PSP dos Açores e tem publicadas várias obras e estudos sobre a sinistralidade rodoviária nos Açores. Há uma década atrás publicou um valioso estudo sobre a “Sinistralidade rodoviária - da evidência à realidade”. Agora, nesta entrevista, passa em revista a actualização deste tema.

Enquanto estudioso sobre a sinistralidade nas estradas açorianas, que balanço é que faz hoje, passados quase dez anos dos seus primeiros estudos sobre a matéria?
Na realidade, o estudo “Sinistralidade rodoviária – da evidência à realidade” sobre o fenómeno nos Açores já se realizou há dez anos. Foi o primeiro estudo sobre a temática e teve um grande impacto. Confesso que, na altura, fiquei surpreendido visto que chegou a ser referenciado além fronteiras. Chegou-me a informação, entre outras, de referências até no diário de Caracas, na Venezuela, onde lhe foi dado um amplo destaque.
A nível nacional, diversas foram as abordagens sobre a sinistralidade rodoviária que tiveram como referência o nosso estudo.
Quanto aos Açores, o estudo teve grande importância sobretudo na medida em que permitiu demonstrar que o fenómeno por cá tinha alguns indicadores ainda mais preocupantes que os nacionais quando a ideia imperante era de que a sinistralidade rodoviária nos Açores não era preocupante.  
Passados dez anos, a realidade é hoje bem diferente. Houve uma grande melhoria em praticamente todos os indicadores apesar de continuarmos a ter um grande défice ao nível da fiscalização.
A maior ajuda à melhoria dos indicadores da sinistralidade rodoviária prendeu-se com o aumento do preço do combustível associado a uma profunda crise económica que fez reduzir consideravelmente o tráfego rodoviário. Depois de termos assistido a uma democratização do acesso ao automóvel, também por força das exigências ao nível das inspecções periódicas, tivemos um recuo nesse acesso. Pessoas que no passado conseguiam ter um veículo, apesar de modesto, deixaram de ter condições económicas para o possuir. Tal fenómeno fez com que muitos dos veículos mais antigos deixassem de circular nas vias públicas contribuindo para uma melhoria do parque automóvel.
No passado, quando parávamos na berma de uma estrada, era frequente detectarmos carros com aspecto velho e com deficientes condições de segurança. Hoje a situação alterou-se profundamente.  Associada a este fenómeno, passamos a ter uma utilização mais racional dos veículos. Os veículos que circulam apresentam melhores condições de segurança. Por outro lado, acreditamos que houve também uma alteração ao nível do perfil dos condutores açorianos.


Acha que os condutores açorianos hoje estão diferentes do que eram há dez anos?
Trata-se de uma percepção. Talvez fosse oportuno fazer-se um novo estudo para clarificar esta e outras questões. Mas acredito que os condutores de hoje são diferentes daqueles que tínhamos há dez anos. Condutores pertencentes a grupos sociais com rendimentos mais baixos, com níveis académicos mais baixos, desempregados e detentores de profissões menos qualificadas, foram os que mais deixaram de conduzir. Existe, também,  a representação de que usufruir de apoios sociais não é compaginável com possuir um veículo automóvel.
Nestes dez anos, assistimos a dois fenómenos que praticamente eram desconhecidos entre nós e que ganharam alguma expressão, demonstrando o que acabámos de afirmar. Começou a haver condutores a abastecer as viaturas nas bombas e a abandonar o local sem pagar, levando a que as gasolineiras tivessem de adoptar medidas para combater o fenómeno. Isto há dez anos nos Açores não tinha qualquer expressão. Mas também começou a ser expressivo o número de condutores que, após segurarem os veículos e obterem a carta verde, cancelam o seguro para serem reembolsados. Depois não devolvem a “carta verde” à seguradora alegando extravio para desse modo terem um documento para exibir no momento da fiscalização dos veículos visto que por norma as entidades fiscalizadoras não confirmavam a validade do seguro. Enfim… Estes fenómenos são dinâmicos e acompanham as transformações sociais.

As novas estradas que entretanto se construíram vieram melhorar ou piorar a situação da sinistralidade?
Em termos gerais a velocidade é a principal causa de sinistralidade rodoviária, nos Açores, no Continente e em qualquer parte do mundo. A velocidade potencia a sinistralidade, havendo uma relação de causalidade directa entre a velocidade e as consequências dessa mesma sinistralidade.
Outra relação de causalidade que é possível estabelecer é que quanto melhores condições apresentam as vias, maior é a propensão para os condutores circularem a velocidades mais elevadas.
Se as estradas com boas condições representam uma melhoria ao nível da segurança e fazem diminuir a sinistralidade em termos absolutos, quando ocorrem acidentes, os danos tendem a ser mais gravosos. Claro que existem fatores de atenuação como o incremento da fiscalização, da melhoria das condições dos veículos e a melhor qualificação dos condutores.
Como já afirmámos, houve uma melhoria dos principais indicadores da sinistralidade, mas, quando voltarmos a ter uma melhoria das condições económicas, com uma situação de pleno emprego,  e o que isto representa, é bem provável assistirmos a um agravamento da sinistralidade rodoviária nos Açores. Contudo não com indicadores tão graves como os que tivemos nos anos noventa e início da década de dois mil, sobretudo devido à melhoria do parque automóvel ao nível da segurança dos passageiros.

Dizem os especialistas que, hoje, o maior perigo nas estradas está no uso do telemóvel durante a condução, sobretudo quando os condutores escrevem mensagens a conduzir. Como analisa esta situação?
O principal factor da sinistralidade rodoviária continua a ser a velocidade desadequada ao controlo e imobilização do veículo em segurança. Os telemóveis passaram a ser mais um factor de perturbação dos condutores. Hoje sabemos que falar ao telemóvel, ou escrever mensagens durante a condução, potencia grandemente a ocorrência de um acidente. Todavia, o simples facto de conduzir com o telemóvel com som de chamada ou de chegada de mensagem já é um factor perturbador e que potencia a sinistralidade. É um factor de distracção. Como é sabido, no exercício da condução uma simples distracção pode ser fatal.
O ideal é, sempre que se conduz, ter o telemóvel desligado, no modo avião, ou pelo menos, no silêncio e sem vibração.
O problema é que os condutores tendem a pensar que os acidentes só acontecem aos outros e nem o facto de todos termos um familiar, ou um amigo que já foi vítima de um acidente grave nos demove. A inibição de condução dos infractores a par de uma eficaz fiscalização é a via possível.

Esta nova realidade vai agravar-se ou entende que ainda vamos a tempo de avançar com uma grande campanha de sensibilização, sobretudo junto dos mais novos, para que se evite a generalização?
As acções de sensibilização são sempre de resultados muito modestos. São necessárias grandes campanhas para se conseguir a massificação da mensagem. O que os estudos nos dizem é que o factor que mais condiciona os comportamentos é a probabilidade de ser alvo de fiscalização e a consequente responsabilização pela infracção cometida. As pessoas não gostam de pagar coimas (multas na gíria), mas o que mais temem é a possibilidade de inibição de condução, ou seja, ficar sem carta.
Infelizmente, não é só ao nível da circulação rodoviária, mas de uma forma transversal, temos grandes deficiências ao nível da fiscalização. Para termos uma ideia, segundo o estudo que realizámos nos Açores, foi assumido pelos condutores que são praticadas, por ano, cerca de dois milhões e meio de infracções, enquanto as estatísticas demonstraram que apenas vinte a trinta mil infracções são autuadas pela polícia. Ou seja, a prática de uma infracção e a probabilidade de fiscalização e consequente autuação é muito baixa em relação ao desejado em termos securitários.

Há uma política de prevenção adequada nos Açores ou, por aquilo que conhece, considera que poderia fazer mais e melhor?
De forma intelectualmente honesta, ninguém individualmente, nem nenhuma instituição pode reclamar o mérito da redução da sinistralidade rodoviária. Tivemos uma inegável melhoria das vias. Uma melhoria das condições de segurança dos veículos em circulação. Tem havido uma maior exigência ao nível da formação e dos comportamentos dos novos condutores. Tem havido uma utilização mais racional dos veículos automóveis sobretudo devido ao custo do combustível e a uma redução dos rendimentos disponíveis das famílias. Estes foram os principais fatores de redução da sinistralidade rodoviária. Além disso, penso que é possível melhorar sobretudo a fiscalização e sem grandes custos. Tal como aconteceu em matéria de natureza e ambiente: tendo a Guarda Nacional Republicana passado a ter competência de fiscalização, denotou-se uma grande melhoria ao nível da fiscalização. Tem sido feito um trabalho notável.
Como costumamos dizer: em matéria de segurança, todos somos sempre poucos. Assim, enquanto o poder político não tiver coragem para fazer uma reestruturação da organização policial, cujo modelo, no nosso caso conta já com mais de setenta anos, devem ser alargadas à Guarda Nacional Republicana competências de fiscalização rodoviária. Nada justifica que a GNR não tenha competências de fiscalização rodoviária nos Açores.

Outra realidade na região, o alcoolismo durante a condução. Como se trava isto?
A condução sob influência de álcool é também um problema, com a agravante de apresentar uma correlação com o excesso de velocidade e a diminuição da capacidade de reação por parte dos condutores. Apesar de todas as acções de sensibilização e fiscalização, as frequências de consumo e do exercício da condução continuam muito elevadas e o problema é que as cifras negras a nível criminal, nesta matéria, são das mais elevadas que temos. Para termos uma ideia. Os números de detenções por condução sob influência de álcool igual ou superior a 1,2g/l de sangue são três vezes inferiores aos reais. Em termos criminais, os inquéritos de vitimização dizem-nos que, na criminalidade em geral, as cifras negras são de 50%. Ou seja, em cada dois crimes praticados apenas um é referenciado pelas autoridades, enquanto na criminalidade por condução sob influência de álcool a autuação policial é de um em cada três casos reais.
Há muito a fazer nesta matéria. Quem sabe se um dia vamos ter carros inteligentes que bloqueiam perante condutores sob influência de álcool ou de outra substância psicoactiva. Já estamos a caminhar no sentido dos veículos sem condutor, mas enquanto não forem uma realidade resta-nos investir seriamente na fiscalização e consequente responsabilização dos infractores. Não podemos esquecer que sempre que se regista um acidente de viação alguém cometeu uma infracção às regras estradais.
 
Resumindo: como vê o futuro nas nossas estradas? Negro ou com perspectiva positiva?
Temos de encarar o futuro com optimismo e esperança. Não podemos esquecer a melhoria registada nestes últimos dez anos. Por outro lado, não nos podemos conformar, até porque se perspectiva um aumento da sinistralidade rodoviária nos próximos anos. Não podemos esquecer que esta abertura da região ao turismo também potencia a sinistralidade rodoviária através de uma intensificação da circulação rodoviária. Infelizmente já temos registos. Por tudo isto, entendemos que temos de alargar as competências de fiscalização rodoviária à GNR, que se encontra sediada em todas as ilhas, podendo ser uma mais valia em termos securitários. Os benefícios de tal decisão são incomensuravelmente superiores aos custos. Num período em que todos defendemos a rentabilização dos recursos, não encontramos melhor demonstração.

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