As eleições na análise de três comentadores

Assembleia-da-RepúblicaJoel Neto, escritor
“Vale a pena perguntar se a lista do PSD-Açores foi convenientemente renovada”

Como analisa os resultados nacionais?
Escrevi-o logo no domingo à noite. A História julgará favoravelmente Passos Coelho, e isso não deverá surpreender-nos: ele foi o primeiro-ministro que conduziu os portugueses ao resgate do seu país no momento mais difícil em pelo menos uma geração. Mas esta reeleição é demasiado racional, até demasiado sábia, para não constituir sobretudo sintoma de outra coisa: da ausência de escolha.
Os portugueses tinham o direito de tomar agora uma decisão emocional – mesmo que errada, mesmo que injusta –, e esta elite não conseguiu produzir o candidato capaz de proporcionar-lha. É muito difícil saber o que esperar de um país nestas condições: um país que fez das tripas coração para retomar o controlo possível da sua economia e depois não encontrou uma válvula de escape, um meio de ajustar contas com esse suplício.
A derrota de Costa não é apenas a derrota de Costa, nem sequer a derrota do PS. Costa é o rosto da maior humilhação eleitoral destes 41 anos de democracia. Mas o que aqui fica definitivamente posto em causa é a nossa psique colectiva. Nós não pudemos virar a mesa. De um povo que, depois destes anos de sufoco, não tem a oportunidade de virar a mesa pode dizer-se tudo, menos que é um povo a respirar saúde.

António Costa faz bem em não demitir-se?
Estou convicto de que a carreira política de António Costa, tal como ele a sonhou, acabou aqui. Mas, se não acabou, então esta é a única opção que lhe resta: ficar. Só ficando Costa pode minimizar os danos e, ao mesmo tempo, forjar (se é que ela é forjável) uma oportunidade de relançamento.
O único problema é que, provavelmente, isso funciona contra os interesses estratégicos do PS, ao qual dava agora bastante mais jeito um recomeço de fresco. Mas, como funciona em favor dos interesses do país, sai a ganhar o mais importante.

Haverá condições para uma legislatura estável?
A legislatura anterior foi estável? Na legislatura anterior foi preciso resistir à chuva e ao vento, nesta será preciso resistir ao frio e à trovoada. Enquanto os recursos forem escassos, a manta será curta.
Passos Coelho já provou que pode governar no meio do caos. E creio que, em muitos sentidos, a oposição está bastante amarrada. Não apenas o PS, em função dos esforços de sobrevivência do seu líder. Sempre quero ver o Bloco de Esquerda, por exemplo, levar a Assembleia da República à dissolução e trocar estes 19 deputados por 7 ou 8...

Nos Açores, como analisa o facto do PSD ter perdido mais umas eleições, ao contrário da “onda” nacional?
Os Açores não foram o único círculo em que o PSD passou para uma posição de derrotado. Isso aconteceu em sete círculos e, desses sete, os Açores foram o único em que o PSD concorreu sozinho. Portanto, há atenuantes para esta derrota. Mas é evidente que se trata de uma derrota, até porque em 2011 a vitória fora muito expressiva. Não se pode deixar de tirar ensinamentos dela.

A estratégia de Duarte Freitas foi toda errada?
A estratégia de Duarte Freitas foi, em certa medida, aquilo que devia ser e pôde ser. A minha admiração pelo dr. Mota Amaral é infinita, mas o PSD-Açores precisava de facto de renovar a sua lista nacional. Eu teria gostado muito de ver o dr. Mota Amaral despedir-se no último congresso, saindo em ombros como merecia. Correndo as coisas como correram, Duarte Freitas não teve grande escolha de processos.
Mas também vale a pena perguntar se a lista foi convenientemente renovada. Ou, por outra, que capacidade o PSD-Açores ainda tem para mudar de aspecto, cheiro e sabor, para recrutar massa crítica e para fazer chegar um discurso ao eleitorado do século XXI. Uma coisa é beneficiar dos últimos suspiros da velha alternância, outra – bem diferente – apresentar um projecto distintivo, seja a que nível for.

Isto é um mau começo para o PSD a caminho das Regionais?
Isto não é um começo. Mau seria se o caminho das Regionais começasse agora. Para mais, o PSD apareceu nestas eleições, mesmo concorrendo sozinho nos Açores, como um projecto “de direita”. O caminho das Regionais, do meu ponto de vista, deve ser radicalmente diferente. E não por conveniência eleitoral, note-se: porque os Açores precisam.
Os Açores precisam de um PSD verdadeiramente social-democrata, em muitos aspectos claramente à esquerda do PS de Vasco Cordeiro e Sérgio Ávila, porque a situação é de emergência social.
Se o PSD-Açores será capaz de operar essa transformação em si próprio, isso já é outra conversa. Duarte Freitas é homem para a tarefa. Não sei se as estruturas concelhias e de ilha, se as bases, as sensibilidades e os grupos o serão. Mas tenho esperança.

Nuno Barata, comentador político
“CDS está moribundo e alimentado por bairrismos bacocos”

Como analisa os resultados nacionais?
O resultado nacional confirma a tendência dos últimos anos, a bipolarização e a manutenção do mesmo espectro partidário como escolha maioritária. A vitória do grande “centrão” confirma, assim, as convicções europeístas e universalistas do eleitorado português. Na verdade, os partidos do arco da governação foram a opção de cerca de 70% do eleitorado. Os partidos mais à esquerda e radicais, apesar da subida do Bloco de Esquerda, o mais “Syrizado” de todos, para quase o dobro do seu eleitorado habitual, ficaram aquém do que se tem verificado na tendência europeia. A Grécia pode ter servido de lição pelo menos para alguns. Essa lição ainda está longe de ter acabado.

António Costa faz bem em não demitir-se?
Deontologicamente Costa devia ter-se demitido. Costa e mais alguns líderes nacionais e regionais. O mau resultado que o Partido Socialista teve foi muito pior do que a vitória por “poucochinho” de António José Seguro na europeias de 2014, que serviu de pretexto para Costa assaltar o poder no PS e tentar catapultar-se para São Bento. Desse ponto de vista a sua derrota foi estrondosa.
Teleologicamente entende-se a decisão de manter-se na direcção do PS, o Partido necessita de alguma estabilidade interna para poder garantir a estabilidade do País. Dai uma notória inflexão no discurso de Costa antes e depois de conhecido o resultado eleitoral (César terá estado na base dessa decisão). No entanto, Costa será alvo de grandes ataques internos e externos. Internamente, sem lugares e benefícios para distribuir, sofrerá a corrosão natural dos discursos dos apoiantes de Seguro que estavam certamente à espera desta hora para desferirem os primeiros golpes. Externamente já começou a sofrer, logo no discurso da noite eleitoral de Jerónimo de Sousa um ataque feroz. O Bloco de Esquerda também não lhe dará descanso tentando colar o PS às políticas da direita (eufemismo).

Haverá condições para uma legislatura estável?
Neste momento essas condições estão criadas. Obviamente a coligação de governo terá que ceder em alguns pontos do seu programa eleitoral, mais no discurso do que na forma, mas não interessa ao PS de Costa ir a votos de novo tão cedo com o ónus de não ter permitido a estabilidade do Pais numa altura crucial do relançamento da sua economia e da devolução gradual dos direitos perdidos ao longo dos últimos quatro anos de governação. Na decorrência das disposições constitucionais sobre o Mandato Presidencial, Cavaco Silva pouco mais poderá fazer depois de empossar um Governo desta maioria relativa, por essa mesma razão, quem for o próximo Presidente da República só poderá tomar medidas lá para Outubro de 2016. Portanto, essa estabilidade está garantida para o próximo ano e a sua manutenção dependerá da escolha que os Portugueses fizerem para a Presidência da República e do resultado das eleições regionais e autárquicas de 2016 e 2017 respectivamente. A evolução dos indicadores económicos e do desemprego vão ditar a táctica do PS cuja estratégia de médio prazo ficará refém dessa mesma táctica.

Nos Açores, como analisa o facto de o PSD ter perdido mais umas eleições, ao contrário da “onda” nacional?
O resultado do PSD-Açores tem dois responsáveis que importa referir e tirar as devidas ilações. Em primeiro lugar há a referir a responsabilidade de Duarte Freitas na forma desastrosa como geriu o não convite de Mota Amaral deixando passar a ideia de que o histórico do PSD tinha sido afastado. Nesta República não há Senadores nem lugares cativos, no entanto há maneiras mais ajeitadas do que outras de dizer e fazer as coisas. Essa decisão e a forma como foi operacionalizada poderão ter desmotivado e afastado algum eleitorado mais próximo de Mota Amaral que entretanto não fugiu para o CDS, o que seria normal, mas sim para o Partido Socialista e Bloco de Esquerda. Outro grande responsável por essa derrota do PSD foi o imbatível Carlos César. Na verdade, o PS potenciou de forma muito bem conseguida o ascendente que César detém junto dos Açorianos apesar de se notar algum desgaste ao nível das estruturas mais tradicionais do partido. César foi igual a si mesmo, implacável, piscou o olho à esquerda e à direita, trouxe a lavoura para a campanha, envolveu os jovens empresários, controlou o aparelho do partido, foi aquilo que se esperava dele. Um dos melhores políticos portugueses da actualidade.

A estratégia de Duarte Freitas foi toda errada?
Nem de todo. A desgraça podia ter sido ainda maior (acerta altura esperava-se o 4-1). Freitas optou por não coligar-se com Artur Lima capitalizando algum do chamado “voto útil” e anulando assim um potencial opositor a nível regional. O PSD de Duarte Freitas deixa de se preocupar com o CDS moribundo reduzido aos concelhos de Angra do Heroismo alimentado por bairrismos bacocos e Velas de São Jorge pelo ascendente de Luís Silveira. Ao invés, o Partido Socialista que deve ter os olhos postos no Bloco de Esquerda.

Isto é um mau começo para o PSD a caminho das regionais?
Neste momento a única força partidária que pode ir para o terreno com confiança e começar a trabalhar com tranquilidade rumo a Outubro de 2016 (eleições deverão realizar-se a 16 de Outubro desse ano) é o Bloco de Esquerda. Todos os outros têm um longo e penoso caminho a percorrer. No entanto, fruto da estratégia montada, Duarte Freitas tem o seu papel muito mais facilitado do que por exemplo Artur Lima cujo score eleitoral bateu no fundo tendo mesmo chegado a ser a 5ª força politica em alguns concelhos, longe do reforçado 3º lugar a que nos tinha habituado. Também o Partido Socialista tem um trabalho árduo pela frente, desgastado por quase 20 anos de governação, com os vícios que dai advêm a se evidenciarem cada vez mais e liderado por um Vasco Cordeiro ainda órfão de Carlos César. Cordeiro esteve muito bem na noite eleitoral, declarando a “glória aos vencedores e Honra aos vencidos” contrariando alguns discursos da esquerda mais radical e do próprio PS a nível nacional.

Rui Bettencourt, comentador político
“Liderança do PSD-A está submissa à vontade de líderes nacionais”

 Como analisa os resultados nacionais?
Poderíamos aqui ir buscar um certo número de razões que levaram a estes resultados. Mas a escolha dos portugueses sendo esta, é com esta escolha que devem ser encontradas soluções de governabilidade dentro de um novo novo quadro político em Portugal. E se o PS não alcançou os resultados que desejaria para governar Portugal com o seu programa, também é verdade que a coligação, perdendo a maioria absoluta, também é avisada que os portugueses não dão um cheque em branco.
 
António Costa faz bem em não demitir-se?
 
Evidentemente que sim. Desde logo porque, agora mais do que nunca, é necessário que o PS seja liderado por alguém que consiga aliar uma postura de responsabilidade e uma firmeza de convicções. Com António Costa todos sabemos quais os seus compromissos. Eles foram claros e Costa já disse que ia defendê-los. E, igualmente, não deve o PS andar em contínuos processos de campanhas internas permanentes para escolha de líderes, mas, sim,  inscrever a sua acção numa estratégia duradoura e de fundo. Também é necessário observar que, apesar de tudo, o PS é o partido mais votado nessas eleições já que, vendo os resultados, o PSD teria valores inferiores, fora da coligação.
 
 Haverá condições para uma legislatura estável?
 
A próxima legislatura será naturalmente instável. E cabe à coligação assumir o governo do país e propor soluções. Evidentemente que a estabilidade dependerá muito do comportamento do Governo, da oposição (que tem maioria na Assembleia da República) e até do Senhor Presidente da República.
A grande incógnita nem é como se irá comportar a esquerda - PS, BE e PCP - pois é previsível que apoie ou não segundo a compatibilidade das propostas do Governo com os respectivos compromissos eleitorais. A grande incógnita para mim é como irá a coligação conciliar agora o discurso e a prática de “únicas políticas  possiveis”, tendo sempre dito não não haver outras, considerando como inevitável tal ou tal medida (lembrem-se da irredutibilidade até perante o Tribunal Constitucional !) com uma necessária procura de consensos que nunca teve?  Como irá a coligação conciliar uma abordagem extremamente ideológica, ultraliberal, da economia e do mercado de trabalho, com a abordagem completamente diferente da esquerda?  Como irá o PSD lidar com deputados na Assembleia da República que têm visões diferentes quando não admite sequer (vimos pelas regras impostas) nenhum desvio dos seus deputados? Certamente irá a coligação esticar a corda e tentar embrulhar as medidas que até agora chamavam de reformas estruturais, que eram de facto de desmantelamento do Estado Social, de palavras douradas: de novo a prática da ilusão semântica.
Veremos.
 
Nos Açores, como analisa o facto do PSD ter perdido mais umas eleições, ao contrário da “onda” nacional?
 Três factores fizeram a vitória do PS nos Açores e a derrota do PSD - Um forte candidato do PS; uma campanha de Berta Cabral colada ao nacional e, por momentos, escolhendo o Governo da República contra os interesses regionais (o que os açorianos não gostam); e a diferenciação que os açorianos fazem entre a situação nacional do Governo do PSD e a situação regional
 
A estratégia de Duarte Freitas foi toda errada?
 A questão delicada para Duarte Freitas que estas eleições revelaram nem foi a evidência de o PSD Açores ter tido um mau resultado, mas o facto de os açorianos terem tido a confirmação que a liderança do PSD Açores está submissa à vontade de lideres nacionais. E isto está a ser uma marca que Duarte Freitas dificilmente apagará. A gestão do caso “Mota Amaral”, mas não só, evidencia isto mesmo. A partir disto, Duarte Freitas estava - e está - condicionado na sua credibilidade e na sua estratégia.
 
Isto é um mau começo para o PSD a caminho das regionais?
 Penso que as eleições regionais de 2016 não decorrem destas eleições nacionais. O Governo e o PS Açores não devem nem adormecer com estes resultados nem desviar do objectivo central da governação e da ação política que é o de resolver os problemas dos açorianos, aliando uma abordagem de tratamento imediato destes problemas com uma visão de médio e longo prazo que projecte a construção sólida dos Açores. Como, aliás, referiu o próprio presidente do PS Açores, melhorando o que está mal feito e continuando a fazer o que está bem, fazendo de novo para resolver novos desafios e abandonando, sem problemas, aquilo que faz mal. A grande questão das eleições regionais de 2016 para o PS Açores é a de explicar o que pretende fazer e como entre 2016 e 2020.

 

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