“O PSD-A continua a cometer os mesmos erros do passado e o actual líder fecha o partido sobre si”

célio tevesCélio Teves, 41 anos, é licenciado em economia pela Universidade de Coimbra, com pós graduação em finanças, conhecido empresário em vários ramos de actividade, desempenha cargos de gestão e de consultor em várias empresas e grupos empresariais nos Açores. Foi palestrante em várias conferências, leccionou empreendedorismo em cadeiras de mestrado na Universidade dos Açores, formador convidado em curos de finanças para quadros superiores de empresas, especialista em recuperação de empresas, entre outros. Foi um dos novos rostos que apareceram na campanha do PSD-Açores nas últimas regionais. Acreditava na renovação. Hoje está desiludido. Uma entrevista a reter.

 

Você colaborou com o PSD nos tempos recentes, nomeadamente na campanha das últimas regionais, mas parece arredado da actividade. Porquê?
Sim, colaborei activamente nas últimas eleições legislativas regionais, depois da Dra. Berta Cabral ter-me dirigido um convite para participar num novo projecto de renovação e de abertura do partido à sociedade. Infelizmente, a percepção de renovação e abertura foram totalmente liquidadas com a formação das listas agarradas ao passado e com as promessas fáceis de ocasião. Na altura percebi o erro e que o eleitorado não confiava nesse tipo de alternativa, pelo que a derrota não foi surpresa para mim. Tive, na altura, oportunidade de manifestar várias vezes essa minha opinião e preocupação à líder e a outros, como o consultor e coordenador da campanha, fui uma das poucas vozes activas discordante dessa estratégia. Não era o Povo um “ingrato” ao não confiar o seu voto ao partido, o PSD é que não estava à altura de ser uma alternativa credível de governo. Essa afirmação era tão verdadeira na altura, como o é actualmente, como o demonstram os resultados eleitorais Regionais.
O meu afastamento tem precisamente a ver com a discordância da estratégia e do rumo deste PSD, que na sua essência continua a cometer os mesmos erros do passado, mas com novos protagonistas, e com o agravar das circunstâncias do atual líder ter fechado o partido em torno de si. Repare-se: na prática temos um partido que sabe e advoga que é preciso renovar-se e se abrir à sociedade para captar mais pessoas e quadros técnicos válidos, quando na realidade a mensagem que verdadeiramente transmite cá para fora, nos momentos cruciais, é que o que conta para o partido são aqueles que “ali estão”, os “que mandam no partido” e que os lhe são próximos.
Na prática, Duarte Freitas, ao fazer esse tipo de afirmação, e que corresponde àquilo que ele verdadeiramente quer, afasta o interesse e a vontade de qualquer pessoa em querer participar num partido que não aceita bem as críticas e opiniões, para além dos que “ali estão”. A realidade é que Duarte Freitas, desde o primeiro momento, procurou rodear-se de elementos completamente alinhados com a sua estratégia, afastando todos os que pensam de forma diferente. Ao ponto de ser recorrente, insistente mesmo, desde o seu primeiro dia como líder do PSD, que será presidente do partido independentemente dos resultados eleitorais, ao afirmar que nunca se demitirá. Esta afirmação, não é uma mensagem de convicção pessoal, mas sim uma demonstração de uma posição de ameaça à contestação da sua pessoa.
O que Duarte Freitas quer transmitir para o interior do partido, é que qualquer contestação à sua liderança será saneada pelo aparelho do partido, controlado por ele próprio e uns próximos. A pluralidade de opinião, de um partido de pensadores livres, de críticas construtivas, de defesa da nossa autonomia, de sentidos e rumos diferentes dos da liderança, são castrados logo à partida com este tipo de afirmação e de liderança. Aliás, a prova disso mesmo é o facto de Duarte Freitas, logo no congresso a seguir à sua eleição, ter-se barricado atrás dos estatutos, evitando alterações estatutárias fundamentais a uma verdadeira abertura e renovação interna do partido. Resultado: a renovação faz-se sem nexo entre as pessoas e a substância do que é a social-democracia, o que contam é se são apenas caras novas, nada mais importa o que representam ou defendem ou as suas capacidades e o seu valor. Claro que esta postura fechada e autoritária afasta as bases eleitorais e partidárias do partido.
Repare-se na noite eleitoral das últimas legislativas. Para além da sala vazia, o que tem um significado profundo e nada desprezível, mesmo que se finja que não, a sala estava vazia de militantes e simpatizantes sem a condição de assalariados do partido, vazia das pessoas mais genuínas e sem interesses pessoais. A razão para esse facto é a descrença no rumo que o PSD tem seguido e desta liderança e não o receio dos militantes darem a cara nas derrotas. Aliás, as declarações de Duarte Freitas roçam o insulto aos militantes que ali não estavam.
Fechar o partido em torno da sua figura, sem contestação, aliado à falta de conteúdo e substância governativa da mensagem ou os erros gerados pela política tacticista que advoga, como é o caso das abstenções em orçamentos que implicaram aumento de mais de 100 milhões de euros em impostos aos Açorianos, ou a incapacidade de apresentar soluções para a redução de impostos, quando tinha afirmado que o iam fazer, aquando da reposição fiscal, ou a imagem que transmite de apenas navegar à vista e à boleia de factos que nitidamente teve pouca influência, como é o caso das vinda das low cost, transmitem uma imagem pouco credível desta liderança e do próprio PSD/A. Essa não é a postura e atitudes de um partido que se apresenta como alternativa de governo, face à fasquia que os governos do PS têm imposto.

Como analisa os resultados eleitorais de 4 de Outubro nos Açores?
Sem surpresa, quer na dimensão da vitória do PS, quer na derrota do PSD. É fácil perceber o efeito catalisador de Carlos César, até pela sua proximidade permanente junto de António Costa, tornando-o ministeriável num hipotético governo socialista, logo muito amigo, entre aspas, dos Açores, o que nos poderia beneficiar como região, para além da sua imagem de ter sido um bom governante. Contudo, estas eleições dizem menos da posição do PS/A do que o PSD/A, junto do eleitorado açoriano. Ou seja, a dimensão da derrota do PSD/A, expressa em votos, só não foi mais vergonhosa, porque beneficiou do efeito positivo Passos Coelho. Repare-se que o eleitorado açoriano, historicamente, aproxima-se mais e é mais identificável com o eleitorado litoral/centro/norte do país do que do interior/sul, logo, nitidamente houve um efeito rejeição do PSD/A, ao perder contra ciclo nacional. Na prática, não foi a Dra. Berta Cabral a derrotada, o seu peso foi marginal, até porque pouco disse. A rejeição directa foi ao PSD/A, o que fez engrossar os votos em branco e a abstenção de muitos votantes sociais democratas. Quando se diz e se vangloriam que os resultados não foram tão maus como “muitos agoiravam” é porque se recebeu ao longo da campanha muitas mensagens negativas vindas dos militantes e simpatizante. Julgo que o BE apenas beneficiou de algum efeito de rejeição de votar PS, devido a medidas demasiado centristas de António Costa. O CDS demonstra desgaste da direcção do partido.

Os resultados destas nacionais podem ser vistos como um sinal para as próximas regionais?
A cara feliz de Vasco Cordeiro diz-me que sim, apesar de eu acreditar que ele gostaria que Carlos César tivesse menos votos! Na realidade, e infelizmente, tenho a forte convicção e antecipo que sim. É fácil de perceber: o eleitorado sabe votar e tem olhos na cara. Existe claramente a percepção na sociedade açoriana que o percurso que Duarte Freitas e o PSD/A têm seguido, darão em 2016 a vitória a Vasco Cordeiro, que ficará fortemente posicionado para ganhar também em 2020, por “falta de comparência em jogo” do PSD/A. Mesmo reconhecendo graves fragilidades deste governo PS, que neste momento é mais um dificultor de soluções, mesmo um empecilho na resolução de problemas, do que um solucionador, problemas muitas vezes criado por eles próprios, como consequência da falta de alternância governativa nos Açores. Veja-se o castigo imposto à economia açoriana na tentativa de evitar a vinda das low cost. Veja-se o castigo do agravamento fiscal imposto à economia em plena crise, quando este governo apenas repôs marginalmente o diferencial fiscal, que tanto apregoava para os Açores, veja-se os problemas do sector empresarial, os projectos sem retorno, o grave problema do desemprego, a desigualdade de distribuição de recursos imposta pela bicefalia do centro de decisão deste governo!
Quais as soluções do PSD/A para esses problemas? Não se conhecem ou não tem opinião. Repare-se num simples e básico exemplo de um facto: aquando do desafio que Vasco habilmente lançou aos partidos, proposta tipo “esparrela”, que indicassem quais investimentos a cortar, para acomodar uma maior redução dos impostos, o PSD/A deu o dito pelo não dito e não disse nada, com o receio de indicar quais os investimentos a cortar para não cair mal junto do eleitorado. Caiu na esparrela! A realidade, é que do plano de investimentos aprovado anualmente pelos orçamentos regionais, cerca de 30% a 40% (à volta de 200 a 300 milhões de euros) nunca são realizados, passam de ano para ano e alguns vão sendo posteriormente abandonados. Solução para reduzir os impostos: adiavam-se esses mesmos investimentos, que na prática tem o mesmo efeito que cortar, já que a realização é sucessivamente adiada e teríamos margem suficiente para repor a totalidade do diferencial fiscal. O dinheiro faz mais falta às empresas e famílias e à economia em crise profunda. A “falta de comparência” ou de capacidade numa questão tão fundamental como esta e outras não dão credibilidade nem confiança para o PSD se apresentar como alternativa ao governo socialista.
Juntando a liderança à da “falta de comparência”, salta à vista que o PSD já está a correr atrás do prejuízo para 2016.
Se o partido não mudar já de rumo, não só 2016 está perdido, como fica fortemente penalizado para 2020. Foi dada uma oportunidade a Duarte Freitas, e este a desperdiçou, demonstrou claramente que era um líder de transição. Se mantiver a posição que não se demitirá, fruto da sua crença e ambição pessoal, que o poder lhe irá cair no colo de maduro, sem ter de provar nada, só tenho a dizer, que quem sairá a perder são todos os açorianos, porque continuaremos a ser mal governados sem um oposição credível e perderá a democracia e alternância, já que o PSD/A será cada vez mais marginalizado e parecido, em resultados eleitorais, ao PS Madeira, eternamente na oposição.

O sistema eleitoral devia ser alterado já para as regionais? Concorda com as propostas para criação de círculos uninominais e listas abertas nos partidos?
Julgo que a nossa democracia está fortemente enferma, resultado do sistema partidário que se fecha sobre si mesmo, protege e favorece os seus e é pouco propícia ao diálogo e à discordância de opinião. Essa é a realidade de todos os partidos. É também por essa razão que se assiste ao afastamento das pessoas da vida política ou mesmo das mesas de voto, engrossando a abstenção consciente. As pessoas não acreditam que verdadeiramente temos uma democracia representativa plural e livre, porque o sistema que assenta a nossa democracia não favorece outro tipo de lógicas mais plurais. Essa é a nossa realidade. Daí que defendo a evolução do sistema político para lógicas que aproximam os eleitores dos eleitos e que mobilizem os cidadãos para uma democracia participativa. Defendo que sejamos ambiciosos nessa evolução e que os partidos não ponham os seus interesses à frente dos interesses dos cidadãos, até porque eles existem é para servir o povo e não o contrário. Nesta perspectiva é desejável a evolução do sistema, e não existem timings melhores ou piores, devemos corrigir quando há melhores soluções, que podem passar pela criação de círculos uninominais, listas abertas nos partidos ou outras formas mais representativas da democracia.

Há sinais de retoma económica nos Açores. É conjuntural ou estamos no bom caminho?
Há mais sinais de expectativa de regresso à retoma do que propriamente efeitos de retoma. Na realidade, sentimos os efeitos positivos do regresso do acesso dos bancos aos fundos, facilitando o crédito e a baixa dos preços do dinheiro, bem como o efeito entrada das low cost nos Açores. São dois fenómenos completamente exógenos à nossa vontade e governação. Por outro lado, a expectativa criada com a entrada do novo quadro comunitário, gera uma forte vontade de investimento, aliada à expectativa de recuperação económica que se assiste no continente e cujos efeitos acabam por ser posteriormente transmitidos á economia açoriana. A diminuição do desemprego regional, neste momento, está mais relacionada com as políticas activas de estágios e de ocupação de desempregados, do propriamente sinais relevantes de recuperação. A economia açoriana, enfrenta agora um conjunto maior de dificuldades, face ao ponto de partida da crise e da entrada da Troika, o que nos levará a uma recuperação mais lenta que a nível nacional. Isso acontece, porque nos Açores, o governo não fez o trabalho de casa, como a nível nacional. O governo regional, ao não diminuir o nível de impostos para a situação anterior à crise, retira capacidade de investimento á economia privada e de criação de emprego sustentável, substituindo-o por estágios e ocupação precária de desempregados. Na prática o nível fiscal manter-se-á elevado para financiar erros do passado que continuam a persistir e outros que virão agora à tona. O gravíssimo problema das empresas públicas, em especial a SATA, Sinaga, Sta. Catarina, Atlanticoline e muitas outras, bem como as parcerias público-privadas que proliferam na Região, ou o desvio desproporcional de fundos para a ilha da Terceira, serão um fardo pesado e criarão um rombo nas contas públicas, para além de serem barreiras ao crescimento económico. Como disse anteriormente, o facto de termos um governo que não governa, há algumas excepções, como a direcção do mar, ciência e tecnologia, e ao facto de ser muitas vezes o governo ser um empecilho às soluções, faz-me querer que os próximos anos continuaremos a ter um desemprego elevado e empresas fragilizadas. Continuaremos na ser das Regiões mais pobres do país. É uma das causas da falta de alternância governativa nos Açores.

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