Revelado Relatório e Contas: SATA piorou em tudo em 2014

sata2A SATA acaba de publicar no seu site o Relatório e Contas relativo ao ano de 2014. A publicação, que passou despercebida a muita gente, é reveladora do estado grave em que se encontra a transportadora nacional, com resultados piores do que no ano anterior: diminuiu o número de voos, diminuiu o número de passageiros, os proveitos caíram a pique, os custos com juros sobem e os resultados operacionais também diminuíram. Se fosse uma empresa privada, estava falida...

 

O documento da SATA, elaborado pela empresa de consultoria e auditoria PWC, é um extenso relatório de 86 páginas, com muitas generalidades e bem desenhado digitalmente.
O pior são as contas e as comparações com 2013.
Numa análise cuidada aos principais desempenhos da actividade é logo visível que praticamente tudo piorou durante 2014, não se confirmando assim as manifestações de fé da nova administração, segundo as quais 2014 poderia ser melhor do que no ano anterior.
A fé está agora no plano de negócios 2015-2020 (conforme se pode constatar pelas declarações do seu Presidente, na página aqui ao lado).
Numa análise sintética é possível concluir que, de 2013 para 2014, o número de voos diminuiu (19.144 para 17.256),  assim como diminui o número de passageiros (1.276.454 para 1.270.516).
Os proveitos caem de 204,456 para 185,157 milhões de euros, sendo que deste valor há uma quebra de subsídios (31,795 para 27,729 milhões de euros).
 Os gastos operacionais caem de 227,343 para 216,489 milhões.
Os custos com juros sobem de 6,983 para 6,058 milhões de euros.
Disto tudo conclui-se que a SATA  teve resultados operacionais piores (-22,887 para -31,332 milhões) e resultados antes de impostos também piores,  em cerca de 10 milhões de euros (29,870 para 39,390 milhões de euros).
A empresa continua a não libertar meios suficientes para o seu funcionamento, apresentando uma quebra dos rendimentos antes de juros, impostos e depreciações (EBITDA) (cai de -12,871 para -22,303 milhões de euros).
Em suma, está pior do que em 2013.
Nem a contabilização de créditos fiscais extraordinários consegue virar o resultado líquido depois de impostos, que passam de -30,36 para -34,784 milhões de euros.
As explicações do relatório para este desempenho são várias, mas nenhuma ligada directamente ao desempenho de gestão dos seus administradores...

“Culpa” é de acontecimentos vários em 2014

Diz o documento que a “culpa” foi dos acontecimentos que ocorreram em 2014.
Transcrevemos a seguir quais foram:
• Deterioração significativa da tarifa média na SATA Internacional e continuidade de rotas com rentabilidades historicamente negativas;
• Cancelamento da rota Funchal / Porto Santo. Apesar disso registou-se ligeiro crescimento de passageiros, verificado no transporte aéreo no interior da RAA;
• Ajuste directo do transporte aéreo inter-ilhas no 4º trimestre
Existem outras explicações, que estão detalhadas genericamente no documento, mas agora o futuro para melhorar o desempenho da empresa está colocado no novo plano.
Lê-se no relatório: “A SATA procedeu ao desenvolvimento de um plano estratégico a 5 anos, com horizonte temporal 2020, de forma a adaptar-se ao seu enquadramento atual, associado à liberalização do transporte aéreo na Região Autónoma dos Açores e às novas obrigações modificadas de serviço público”.
A seguir, enumera a “ambição e posicionamento estratégico” face a este horizonte até 2020:
• Vocação regional como fundamento da existência do transporte aéreo no Grupo SATA;
• Serviço público de transporte aéreo no interior da Região Autónoma dos Açores e serviços complementares associados;
• Companhia de referência dos Açores nas ligações de Interesse Público ao Continente Português;
• Serviço à diáspora açoriana como motivação para a operação comercial EUA e Canadá;
• Dinamização dos fluxos turísticos para a Região Autónoma dos Açores; • Operador de referência da Região da Macaronésia;
• Prestação de serviços complementares ao negócio do transporte aéreo na Região Autónoma dos Açores, nomeadamente os serviços e gestão aeroportuária e os serviços de handling”.
Ou seja, nada de muito diferente do que era até agora...

Passivo financeiro a agravar-se nos últimos anos

O documento reconhece que, “nos últimos anos, o passivo financeiro do Grupo SATA tem vindo a agravar-se substancialmente, em consequência dos desequilíbrios operacional e financeiro da SATA Internacional e da SATA Air Açores. Esta situação implicou o agravamento significativo da função financeira nos últimos anos, originando custos financeiros relevantes para a realidade do Grupo SATA”.
A seguir atribui as causas:
“Em termos operacionais, os elevados custos com pessoal e a sub-optimização da rede e da frota, sobretudo ao nível da SATA Internacional, constitui uma desvantagem competitiva para a empresa. Adicionalmente, a existência de irregularidades na frota A310 conduziu a custos não previstos.
No entanto, a SATA tem levado a cabo várias iniciativas de eficiência operacional e redução de custos fixos e variáveis, assegurando a segurança operacional”.
E quais são?
A resposta vem a seguir:
“Em 2014, os custos operacionais da SATA, em termos consolidados, reduziram cerca de 5% face ao ano anterior. O CASK, um indicador importante dos custos para os operadores aéreos, o qual indica os gastos operacionais por lugar disponível por quilómetro percorrido, reduziu na SATA Air Açores 2% face a 2013. Excluindo o combustível, a redução foi também de 2%.  No caso da SATA Internacional, o CASK aumentou 6% face a 2013. Excluindo o combustível, o aumento foi de 9%”.
Ou seja, tudo “iniciativas de eficiência” que não têm nada a ver directamente com a gestão da empresa, mas com as conjunturas externas e o facto de a companhia estar a transportar menos passageiros.
Resta agora o tal horizonte de 2020: 
“Desafios Futuros (2015-2020): • Reduzir custos administrativos e aumentar a produtividade;
• Reduzir custos das infra-estruturas de sistemas e potenciar investimentos em sistemas ERP;
• Adoptar programas de redução de custos operacionais e de estrutura por forma a inverter situação de insustentabilidade operacional que marcou os últimos anos;
• Desenvolver um programa de eficiência de combustível na SATA Internacional”.
Quanto à velha queixa dos emigrantes sobre o péssimo serviço da SATA, sobretudo na área das tarifas cobradas, há promessas também para o futuro:
“EUA e Canadá: • Potenciar a ligação às comunidades emigrantes e fluxos turísticos nestes mercados;
• Assegurar um posicionamento sustentável através do ajustamento da tarifa média e nível de serviço;
• Dinamizar o potencial negócio de carga e da vertente de exportação”.
Quanto a outros mercados:
“Mercados da Macaronésia: • Assegurar rotas regulares, algumas de carácter sazonal, mas com interesse para melhorar a utilização de frota e canalização de tráfego para outras rotas dos EUA e Canadá;
 • Oferecer uma ligação entre Cabo Verde e Boston onde reside uma forte comunidade emigrante cabo-verdiana”.
Destaque ainda para as práticas remuneratórias dos principais pares da SATA, que não vêm descriminadas.
Revela o documento que os membros do Conselho de Administração “só auferem remuneração pelas funções de gestores públicos que desempenham na SATA Air Açores”.
O valor total da remuneração auferida em 2014 foi 309.206,20 euros.
Se quiser saber uma média, é dividir por cinco...

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