“Turismo rural é a grande mais-valia da actividade turística açoriana”

Gilberto vieira 2Gilberto Vieira é Presidente da Associação Casas Açorianas, organismo que reúne os espaços de turismo rural e de natureza. É também o proprietário da Quinta do Martelo, um dos espaços mais inovadores de turismo rural e de gastronomia regional, situado na ilha Terceira. Gilberto Vieira, há décadas envolvido no sector, fala nesta entrevista ao “Diário dos Açores” do sucesso do turismo rural e de natureza e ainda do futuro da nossa gastronomia, numa altura em que uma loja de fast food internacional, a Burger King, abriu naquela ilha.

 

O turismo rural e local parece estar em grande força em todas as ilhas. É neste sector que devemos apostar, em vez dos grandes edifícios da hotelaria tradicional?
 Creio que hoje já não há dúvidas de que o turismo rural e de natureza é a grande mais-valia que alavanca a actividade turística açoriana. Pode não ser – não é –, ainda o segmento de alojamento que mais turistas traz aos Açores, mas, acredito, essa distância vai ser paulatinamente encurtada. Isto não representa nenhum conflito entre a hotelaria convencional e o turismo rural e de natureza nos Açores. A imagem crescente do destino Açores cativa vários tipos de visitantes e há espaço para as diversas tipologias de alojamento. É bom constatar que a opção pelo alojamento em espaço rural tem vindo a ser reforçada. Mas isso não significa que estejamos em condições de abrandar o esforço de promoção disso que temos verdadeiramente distintivo para oferecer.
 
Que futuro é que augura para o sector?
 Há dados actuais que podem baralhar o raciocínio nesta análise. Nos anos mais ou menos recentes, a aposta das entidades públicas, com responsabilidade na promoção do destino Açores, começou a centrar-se na divulgação de aspectos que iam além da paisagem das ilhas, para valorizar o que e pode desfrutar ficando alojado em meios rurais, com as respectivas vivências de proximidade. Apesar disso, como é natural, foi a hotelaria convencional a beneficiar mais dessa promoção, em quantidade, do incremento do número de turistas, devido aos pacotes que saíam mais baratos.
Tivemos o fenómeno recente das low-cost que, de um momento para o outro, levaram a São Miguel um número insuspeitado de turistas. Aquilo por que se clamava. Curiosamente, passado menos de um ano – muito menos –, já há responsáveis empresariais a declarar que há que arranjar mecanismos para que a massificação não mate a nossa “galinha dos ovos de ouro”. Registo, com agrado, essa clarividência, que defendo desde sempre.
Só me resta desejar que, nessa ilha que já se confronta com esse problema, e nas restantes oito, que ainda não testaram as vantagens e/ou desvantagens dessa massificação, se abram os olhos e se discuta e decida o que verdadeiramente interessa ao turismo sustentável nos Açores.
 
 É proprietário de um espaço inovador também em termos de gastronomia regional na ilha Terceira. Agora que abriu um “Burger King” na ilha, acha que a fast food está a ameaçar a nossa gastronomia regional?
 O facto de surgir agora, na Terceira, um “Burger King” não será, propriamente, uma ameaça à gastronomia tradicional. Relembro, até, que por razões históricas, esta ilha conhece fast food, e outras novidades, há muitas décadas, derivado à presença norte-americana nas Lajes. Hamburguers, hot-dogs, pizzas, bacons, onion rings, french-fries, donuts, ice-creams, ketchups, mayoneses, relishes, coca-colas, fantas, 7-ups, mountain-dews, canada-drys, ginger-ales, dr. peppers, root-beers, chewing-gums, candies, tudo isso são produtos a que, provavelmente, a ilha Terceira teve acesso antes de qualquer parcela do território nacional.
A instalação de uma loja “Burger King” na ilha não é, por isso, uma novidade relevante – aliás, curiosamente, já existiu um “Burger King” na ilha, nas instalações do bowling na Base das Lajes.
Acresce dizer que, independentemente de não serem lojas de franchising das grandes multinacionais, existem estabelecimentos na ilha que se vêm dedicando a este ramo da fast food. Calculo que essas empresas se possam ressentir desta nova realidade.
No caso da oferta de cozinha tradicional séria, em que o restaurante da Quinta do Martelo se insere, não acredito que esta novidade prejudique a afluência de clientes, não só por serem conceitos diametralmente opostos, ou seja, o que apresentamos é único e só possível de encontrar aqui, enquanto que uma hamburger de uma dessas multinacionais é igual e pode ser encontrada na Terceira, em Pequim ou Nova Iorque. Já para não discutir os malefícios mundialmente provados que a fast food provoca.
 
 Apesar destes estabelecimentos de comida rápida, os tradicionais restaurantes com comida tradicional açoriana terão futuro?
 Como lhe acabei de responder, continuo a acreditar que estamos em mercados diferentes: a nível de turismo e, mesmo, a nível local. Pelas razões que atrás apresentei. Convém, aliás, lembrar, que entre estes polos opostos representados pela fast food e pelos restaurantes com oferta genuína e única do melhor da nossa gastronomia ancestral, existem muitos estabelecimentos de restauração nas nossas ilhas que oferecem uma cozinha mais internacional – antigamente designada “continental” –, onde coexistem pratos comuns a diversas zonas do globo com alguns assomos da gastronomia tradicional. Mesmo esses, não acredito que vão ver a sua clientela diminuída pela presença de lojas de cadeias internacionais de fast food.
 
É difícil encontrar restaurantes, pelo menos nalgumas ilhas, que incluam no menu pratos regionais e até produtos locais. Como é que se ultrapassa esta falta? Mais formação? Mais sensibilização?
 Há duas vertentes igualmente importantes no que se refere a esta questão. Se se trata de um restaurante que tem uma clientela local, numa base de “refeitório diário”, é natural que tente diversificar ao máximo a ementa semanal, controlando custos e tentando agradar sempre aos seus fiéis comensais. Calculo que seja isso que faça com que, devido exactamente aos custos, se tente fornecer refeições baratas mas, mesmo assim, atractivas, sem preocupações com a disponibilização de pratos regionais que, pela qualidade e preço dos produtos, tornariam essa opção pouco viável. Se pensarmos que essa oferta se dirige não a “prato do dia” mas a um universo que engloba turistas e locais interessados na gastronomia e produtos regionais, creio que há, perfeitamente, lugar para coexistir na ementa pratos de baixo custo e especialidades, mesmo que a outro preço, que terão ambas mercado. Se falta sensibilização? Talvez seja por aí.

 

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O que é a Associação das Casas Açorianas

A Associação das Casas Açorianas tem como objectivo o apoio aos associados, bem como a defesa dos seus interesses específicos e a garantia da genuinidade do produto turístico, nomeadamente:
Desenvolver as relações públicas e de representação exigidas pelo dever que lhe ­incumbe de ser protagonista comprometido perante o produto turístico e o seu envolvimento ambiental, económico e social ;
Promover a realização de jornadas de estudo e formação, seminários, congressos e realizações similares;
Conduzir acções de promoção da região na óptica do turismo em espaço rural, tanto na região e país, como no estrangeiro, em feiras e outros eventos em que as modalidades de alojamento turístico associadas estejam representadas;
Comercializar os empreendimentos dos seus associados, através de uma Central de Reservas cujas regras de funcionamento serão objecto de um Regulamento próprio;
Elaborar meios de divulgação tais como brochuras, mapas, vídeos, diapositivos ou sítios na Internet;
Especificar condições, preços, serviços a prestar e níveis de qualidade;
Manter e fazer funcionar uma sede onde estejam disponíveis os serviços de apoio à associação;
Diligenciar junto da Direcção Regional de Turismo pelo correcto e exacto cumprimento da legislação em vigor sobre o T.E.R.;
Promover a dignificação e prestígio do TER, nas suas diversas modalidades, através da prestação de um serviço que se pretende de muita qualidade e características próprias e específicas;
Apoiar potenciais associados, nomeadamente através do aconselhamento na fase de execução do projecto;
Associar-se ou filiar-se em outros organismos quando tal se mostre conveniente para os fins da associação.
A Associação tem os seus órgãos sociais eleitos, constituídos pela Assembleia Geral, presidida por João Comba, das Casas do Areeiro,  pela Direcção, presidida por Gilberto Vieira, da Quinta do Martelo, e pelo Conselho Fiscal, presidido por Emanuel Veríssimo, da Casa do Ouvidor.

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