“Sinto-me um homem realizado na profissão que tenho”
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- Publicado em 13-06-2016
- Escrito por Olivéria Santos
Foi no comércio tradicional que começou e é neste ramo de negócio que se mantém há 42 anos. Aos 13 anos, Carlos Sá iniciou a sua actividade profissional como moço de recados e a limpar os vidros da montra da hoje bem conhecida loja de pronto-a-vestir “Londrina”.
Natural do Livramento, de onde vinda a pé para Ponta Delgada, Carlos Sá, com 55 anos, apresenta-se na loja onde outrora era um simples empregado, mas hoje é o proprietário, com um ar descontraído, sorriso simpático e com algumas “piadas à mistura”. Aos clientes que vão aparecendo na Londrina, faz questão de os cumprimentar a todos, mostrando-se sempre disponível para ajudar. O Diário dos Açores foi conhecer melhor o empresário e umas das lojas mais antigas de pronto-a-vestir de Ponta Delgada.
Diário dos Açores – A Londrina é uma das lojas mais antigas de Ponta Delgada. Sabe como tudo começou?
Carlos Sá – A Londrina já existe há cerca de 70 anos, tendo sido uma das lojas pioneiras em pronto-a-vestir. Eu já faço parte desta empresa há 42 anos. Vim para a Londrina aos 13 anos para ser moço de recados e limpar vidros. Na altura, vinha a pé do Livramento, batendo de porta em porta, à procura de um lugar no comércio que era uma área que gostava muito. Cheguei a deixar o meu nome em vários estabelecimentos e, na altura, alguns comerciantes para verem se éramos inteligentes mandavam-nos fazer uma conta de cabeça. Pediam que nós disséssemos, por exemplo, quanto poderia custar 30 cms de tecido se o metro tivesse o valor X. São situações que me recordo bem e que têm a sua graça.
Entretanto, tive a sorte de ser chamado a trabalhar para a Londrina. A empresa pertencia a Clemente Amâncio Borges, que também tinha outros estabelecimentos comerciais, e a um outro sócio nomeadamente Manuel de Sousa Soares Junior, que detinha 30% da Londrina.
Os anos foram passando, cresci, casei, sou pai de dois filhos e com a morte do meu primeiro patrão, que não tinha filhos, o senhor Soares queria um novo sócio, e convidou o seu tio, Henrique Arruda Pavão para fazer parte da sociedade, tendo os dois ficado com 50% cada um. Entretanto, manifestei meu interesse em sair da loja, mas o senhor Soares não deixou e tornou-me sócio da empresa com 30%. Mais tarde, com a morte do Sr. Soares, o outro sócio, Henrique Pavão, deu-me a possibilidade de ficar com a loja só para mim, podendo ir pagando a prestações. Foi um gesto que até hoje agradeço e reconheço. Quanto à quota que era detida pelo Sr. Manuel de Sousa Soares também acabei por adquiri-la, tendo-a pago aos respectivos herdeiros.
Já lá vão 42 anos, continuo na Londrina e gosto muito do que faço. A loja foi crescendo com muito trabalho e muitos sacrifícios que não foram só meus, mas também de toda a equipa de trabalho, porque se tenho o que tenho, também o devo aos meus colaboradores, porque quem faz a casa são os empregados. Estou grato também à minha esposa que soube estar sempre ao meu lado e aceitar as minhas ausências. Havia alturas em que mal a via, quando passava muitos serões a trabalhar na loja. Além de ser esposa, ela sempre foi uma amiga, uma companheira e alguém que sempre me apoiou.
Outra pessoa a quem também estou muito agradecido e que serviu de exemplo para mim na minha caminhada como comerciante foi Pedro Paulo Soares Justo, para além de muitos amigos e da minha família.
DA - A Londrina sempre foi uma loja de pronto-a-vestir como a conhecemos hoje?
CS – A Londrina também chegou a ter roupa para rapaz e de senhora, mas quando vim para a Londrina já tinha muito pouco para esse segmento e não cheguei a apanhar essa fase. Mas, já comigo, e a pedido de muitos clientes e amigos, cheguei a fazer a experiência e fiz uma área com artigos de senhora, mas não resultou, tendo sido uma má aposta.
Outra das minhas apostas passou por dar 30% da Londrina a um jovem que trabalhava comigo, Pedro Miguel do Couto Tavares, que era muito esperto e com muito gosto para a confecção. Nesse sentido, e como forma de fazer crescer a loja, criamos a Londrina Jeans, uma loja só de gangas, mas que com a abertura do Parque Atlântico acabou por fechar, também porque as próprias marcas não foram correctas connosco. Muitas passagens de modelos fizemos, muita promoção fizemos destas marcas e, à primeira oportunidade, tiraram-nos o tapete.
Depois dessas apostas que não correram bem, acabei por ficar só com a loja principal.
DA –Ao longo dos anos, como a Londrina foi reagindo ao mercado e ultrapassando os obstáculos, como foi o caso da abertura do Parque Atlântico que, na altura, retirou muitos clientes ao comércio tradicional e ao centro histórico de Ponta Delgada?
CS – De facto eu ressenti-me com a abertura do Parque Atlântico (PA), mas utilizando um ditado já muito antigo, digo-lhe: “Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe”. E após cerca de 4 anos da abertura do PA, começou-se a ver os clientes a regressarem à baixa. Nota-se, cada vez mais, que os clientes estão a voltar à baixa, principalmente na altura do Natal, mas não só, também durante todo o ano. Hoje as pessoas já não fazem compras só pelas festas. Cheguei a saber onde havia festas em todas as localidades, mas felizmente, nos dias de hoje, as pessoas já compram quando precisam.
Só é pena ver-se no centro histórico muitos estabelecimentos fechados e alguns prédios devolutos. No entanto, considero que já foi pior. Hoje a cidade está mais dinâmica, mais animada, tem mais vida e nota-se um maior cuidado quanto aos edifícios antigos. As Noites de Verão levadas a cabo pela autarquia de Ponta Delgada também vierem contribuir e beneficiar, em muito, para esse crescimento e dinamismo da cidade.
DA – Qual o segredo para o sucesso?
CS – Arregaçar as mangas e trabalhar muito todos os dias, inclusive Sábados, Domingos, feriados e dias santos. Sabendo cuidar e agradecendo a equipa de trabalho que faz a Londrina. Optei também por reduzir algumas margens de lucro, realizar muitas passagens de modelos para dar a conhecer os nossos produtos, colocar alguma animação na frente da loja para chamar a atenção dos clientes e ter horários mais alargados. Nesse aspecto, entendo que os horários dos estabelecimentos deveriam mudar. A mentalidade do comerciante também tem que mudar. Sou de opinião que no Verão o horário deveria ser alargado até às 20h00 ou às 21h00, ou em vez de abrir às 08h00, abrir às 09h00 ou às 10h00. Mas isso teria que ser consensual entre todos os comerciantes.
DA – Em que é que a Londrina é diferente das restantes lojas de pronto-a-vestir?
CS – (risos)… Não me sinto diferente. Sou talvez mais agressivo, não sei… Temos a nossa maneira de ser, gosto de mimar os clientes, fazer “uma atenção”, mas não nos consideramos diferentes. A minha postura é também fruto do meu gosto pelo comércio desde muito jovem. Lembro-me de ser criança e ir fazer recados à minha mãe e de achar imensa graça em ir a uma loja e ver as pessoas atrás do balcão. Gostava de ver os lojistas a embrulharem os produtos que pedíamos. Gosto do diálogo que temos com os clientes, das brincadeiras que fazemos… enfim… Posso dizer que tive sorte em fazer o que gosto. Sinto-me um homem realizado na profissão que tenho.
DA – Considera a Londrina uma loja de referência em Ponta Delgada?
CS – A Londrina é o símbolo da moda masculina (risos)… sinceramente eu acho que a Londrina é aquilo que as pessoas querem. Temos simpatia para o cliente, damos o máximo da nossa atenção, estamos atentos aos pormenores e procuramos sempre o bem-estar de cada cliente.
DA – Sente orgulho da casa que conseguiu criar?
CS – Sim, muito! Actualmente já partilho algumas responsabilidades com o meu filho que está na área da facturação e já faz muitas encomendas. A minha filha, que está a estudar Educação de Infância, também tem muito jeito e gosto por este negócio.
DA – Ou seja, está assegurado o futuro da Londrina?
CS – Não sei. Em princípio, sim. Estou a trabalhar para isso. Se um dia a Londrina vier a fechar as portas não será de certeza por falta de trabalho, de garra, de dinamismo, ambição, de gosto por aquilo que fazemos, ou por horários curtos, será por outra coisa qualquer.
DA - Por mais quanto tempo estará pela Londrina?
CS – Daqui só saio com os pés para a cova. Volto a frisar que gosto muito do que faço e do contacto que tenho com os meus clientes e com todas as pessoas que nos visitam. Vejo-me velhinho de bengala a trabalhar aqui na Londrina, só espero é ter saúde para continuar.
DA – E há novos projectos, novas ideias?
CS – Há sempre ideias. Estamos a pensar arranjar outro espaço, quem sabe termos uma Londrina só para o sexo feminino. Sonhos, não nos faltam… Com a minha equipa de trabalho, creio que consigo passar dos sonhos à prática. Já dizia o poeta Fernando Pessoa: “Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce”, quem se não conseguirei realizar os meus sonhos.
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