Cristina Cordeiro recupera para livro obra do arquitecto Manuel António de Vasconcelos
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- Publicado em 30-06-2016
- Escrito por Olivéria Santos
“Personalidade rica na sua dimensão cultural e humana, viajante incansável e apaixonado pela Europa, Manuel António de Vasconcelos (1907-1960) passou pela vida com a mesma elegância, entusiasmo e generosidade com que construiu a sua obra arquitectónica”. As palavras são da jornalista Cristina Cordeiro, que hoje irá apresentar no Casino Terra Nostra, nas Furnas, pelas 18h00, o seu mais recente trabalho, o livro “Manuel António de Vasconcelos, pioneiro da arquitectura modernista”.
Uma obra que nasce fruto de um pedido feito pelos filhos do engenheiro químico (Ana Maria Faia e Maia e Manuel António da Câmara Vasconcelos) a Cristina Cordeiro que, conta à nossa reportagem, mergulhou “de cabeça neste desafio”.
A autora do livro explica que contactou “pela primeira vez com a obra do engenheiro Manuel António de Vasconcelos numa ida ao Terra Nostra nos anos 80. Na altura não investiguei quem era a personagem que estava por detrás da obra, mas chamou-me a atenção o casino, o hotel e o parque e tudo aquilo para mim foi mágico”, frisa.
Entretanto, dá conta, “há uns anos atrás, fui desafiada para participar num site sobre os Açores e inserido neste projecto, pela primeira vez, escrevi um artigo sobre Manuel António de Vasconcelos. Foi nessa altura, em 2013, que conheci Ana Maria Faria e Maia, filha de Manuel António de Vasconcelos, com quem criei muita empatia”. Uma relação que, mais tarde, em Fevereiro de 2015, foi reatada, precisamente quando Ana Maria desafiou Cristina Cordeiro para este projecto.
Perante o pedido da filha de Manuel António de Vasconcelos, Cristina Cordeiro assegura que “disse logo que sim; fiquei muito entusiasmada com a ideia e comecei a fazer o projecto”, que adianta, foi “muito interessante”, até porque, esclarece, durante a investigação foram revelados aspectos da vida deste engenheiro químico que a própria família desconhecia.
Entre o contacto e a finalização desta obra passaram apenas 12 meses, o que para a jornalista não é muito tempo, tendo em conta que o que estava em causa não era tanto a “questão da escrita, mas sim da reflexão sobre a escrita e sobre a informação, porque encontramos informação contraditória”, daí a necessidade de averiguar tudo o que era dito.
Depois de todo este trabalho, o livro de 156 páginas está estruturado em torno de três eixos temáticos, visando, em primeiro lugar, “resgatar do esquecimento todo um acervo documental disperso que chegou até nós sobre o percurso multifacetado de Manuel António de Vasconcelos e o seu legado arquitectónico, enquanto pioneiro do modernismo nos Açores”.
Como se pode ler no prefácio de Cristina Cordeiro, com este livro, “… se persegue, num primeiro momento, o rasto do homem no contexto do seu tempo”.
Do livro fazem parte também as obras em que esteve envolvido Manuel António de Vasconcelos, com pequenas notas introdutórias e, por último, seis entrevistas que a autora realizou de forma a aprofundar determinados detalhes da vida e obra do engenheiro químico.
A este respeito foram ouvidos os arquitectos Francisco Gomes de Menezes, Sofia Neto de Medeiros, João Maia Macedo, Luís Almeida e Sousa, Pedro Maurício Borges e José Manuel Fernandes. A fechar pode encontrar-se também nesta obra um ensaio da historiadora de arte Isabel Soares de Albergaria.
Reconhecendo que aprendeu muito nos últimos 12 meses, Cristina Cordeiro considera que conseguiu “escrever um livro para toda a gente e não para arquitectos, apesar de ser um livro sobre arquitectura”, adverte.
A autora faz questão também de tornar público todo o “apoio permanente de Ana Maria Faria e Maia, bem como a colaboração de Manuel Aguiar na fotografia e de Ivone Ralha no design gráfico”. Como disse, “os dois valorizaram muito o projecto que tinha idealizado”.
Legado ainda hoje de pé
A obra de Manuel António de Vasconcelos, um engenheiro químico na Fábrica de Açúcar de Santa Clara, que mais tarde viria a dirigir, está centrada sobretudo em São Miguel, nomeadamente com o Casino das Furnas (1937/8) e o Hotel da Terra Nostra (1934/5) que, ainda hoje, são uma marca da modernidade arquitectónica. O arquitecto também deixou a sua assinatura na ilha Terceira, em concreto no Montepio Terceirense (1938/9), um edifício de gaveto construído junto à Sé, no Centro Histórico de Angra do Heroísmo.
Para além destes três edifícios emblemáticos, Manuel António de Vasconcelos deixou como legado, para além da arquitectura efémera, projectada no âmbito da Exposição Industrial e Agrícola das Furnas (1933), quatro habitações unifamiliares (1939-1943), duas remodelações de fachada (1934 e 1943), o Bureau de Turismo (1934) e a Barbearia Gil (1936) - dois projectos hoje muito desfigurados -, o armazém de chá de Porto Formoso (1937) e, por último, a sede da Sociedade Produtores Açorianos de Papel (1952/7), edifícios que, de acordo com Cristina Cordeiro, “foram desenhados nas horas vagas do seu emprego a tempo inteiro enquanto engenheiro químico. Todos eles se encontram ainda hoje de pé, independentemente das alterações introduzidas ao longo dos tempos”.
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