“Ser guia turístico não é apenas mostrar paisagens a quem nos visita”
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- Publicado em 03-10-2016
- Escrito por Olivéria Santos
Assume-se como um verdadeiro açoriano e diz, como alguns escritores, que nas suas veias corre basalto negro. Depois de cerca de 20 anos dedicado ao sector da saúde, enquanto delegado de informação médica, Tony Resende, por força de algumas circunstâncias da vida, optou por se dedicar ao turismo e à actividade de guia turístico. Confessa-se um apaixonado pela ilha que o viu nascer, bem como por todo o arquipélago dos Açores, revelando ser para si um grande prazer poder mostrar e dar a conhecer tudo o que a ilha de São Miguel tem para oferecer a quem nos visita. Como diz: um guia é, acima de tudo, um informador da história, da cultura, da gastronomia, dos usos, costumes e tradições dos Açores”.
À hora marcada, o grupo de 35 turistas provenientes dos Estados Unidos da América ia se reunindo na entrada do hotel onde estavam hospedados, todos bem-dispostos e sorridentes ou não estivessem de férias nos Açores num dia em que o sol brilhava e convidava a um passeio até à ponta da ferraria, nos Ginetes.
A saída do hotel estava marcada para as 14h15, mas não sem antes o guia, Tony Resende, trocar umas palavras com o Diário dos Açores para dar conta do quanto gosta da actividade que exerce desde 1991.
Como conta, “nem sempre fui guia turístico a tempo inteiro. Durante cerca de 20 anos fui delegado de informação médica, mas aquando da crise e com a entrada no mercado dos medicamentos genéricos, a empresa para a qual trabalhava viu-se forçada a despedir perto de 150 pessoas, e eu fui uma delas”, explica, adiantando que optou pela área turística uma vez que já tinha uma empresa ligada ao turismo e alguma experiência nesta área.
Uma decisão que Tony Resende confessa que, na altura, não foi muito fácil de tomar, tendo em conta o facto de ter trabalhado cerca de 20 anos noutro ramo de actividade. Ainda assim, revela que as formações que foi recebendo para desempenhar as funções de delegado de informação médica acabaram por beneficiar o desempenho da sua actividade como guia “em particular no que diz respeito a lidar com pessoas, o que foi uma mais-valia e acabou por ser uma grande escola e muito importante para a vida que hoje tenho”, ressalva.
De part-time a tempo inteiro, Tony Resende não esconde a sua satisfação pela decisão que tomou há 25 anos atrás até porque, comenta, “para mim é muito gratificante trabalhar com pessoas, gosto de trabalhar com elas, de me relacionar e de aprender com os turistas”, frisando que “cada dia com os turistas é uma aprendizagem”.
Sem falsas modéstias, este profissional não esconde que, como todas as actividades profissionais, também esta tem dias difíceis, ora porque o guia pode não estar no seu melhor, ora porque as condições não sejam as mais adequadas. Situações que Tony garante que têm que ser logo resolvidas porque o “turista merece que o profissional que está a acompanhá-lo esteja no seu melhor, sempre alegre e bem-disposto. Pelo menos é assim que entendo e encaro esta profissão, até porque quando escolhi fazer isto é porque gosto muito do que faço”, frisa à nossa reportagem.
A forma apaixonada e entusiasmada com que fala da ilha de São Miguel, dos usos, costumes e tradições, do folclore açoriano e das paisagens da ilha verde revelam bem o sentimento que este guia diz ter pelos Açores. De sorriso nos lábios, Tony Resende não tem qualquer dificuldade em responder do que mais gosta nesta actividade: “o que me dá mais prazer é falar da minha ilha, que para mim é um paraíso. Temos uma qualidade de vida excelente em termos de conforto. Cá podemos ir tomar um café no final de um dia de trabalho, com o sol ainda a brilhar e a olhar para o mar”. Assertivamente, garante que tem “uma alma muito açoriana, e nas minhas veias corre lava açoriana, por isso dá-me muito prazer mostrar a nossa ilha a todos aqueles que nos visitam. Gosto daqueles momentos em que se sobe a uma Vista do Rei, nas Sete Cidades, ou à Lagoa do Fogo, ao Pico do Ferro ou quando entramos numa estufa de ananases… é com muito agrado que o faço e é muito gratificante ver depois as reacções dos turistas, e ouvi-los comentar que já deveriam ter vindo cá mais cedo”…
E engana-se quem pensa que um guia só serve para mostrar paisagens a quem nos vista. Trata-se de uma actividade que vai muito para além disso. Como diz Tony Resende, “um guia é, acima de tudo, um informador da história, da cultura, da gastronomia, dos usos, costumes e tradições dos Açores”.
Reportando-se a alguns anos atrás, este profissional dá conta que em “outros tempos, ouvia-se dizer que os guias eram pessoas que iam nos autocarros, mostravam umas paisagens, contavam umas anedotas e o tour estava feito. Hoje, fruto também da evolução tecnológica e do acesso mais facilitado à informação, o turista já chega à Região sabendo muitas coisas. Ainda recentemente tive uma senhora que já sabia, por exemplo, a localização de alguns pontos turísticos, já sabia a que temperatura estavam as águas da D. Beja, sabendo até alguma história dos Açores”. Por isso mesmo, e uma vez que os turistas estão cada vez mais exigentes e querem sempre saber mais, Tony Resende considera que “o guia de hoje em dia não se pode cingir a ser apenas um bom comediante ou alguém simpático. Nós temos que fazer muito trabalho de casa, temos que estar bem informados, temos que estudar diariamente e, acima de tudo, aprender com os outros, principalmente com os próprios turistas. Por exemplo se um turista me faz uma pergunta que eu não saiba responder no imediato, não lhe posso mentir, ou sequer inventar uma resposta. O melhor é responder com a verdade, dizer que não se sabe, mas não ficar por aí. O guia deve procurar saber a resposta para aquela pergunta para, caso mais alguém pergunte pelo mesmo, já saiba responder correctamente numa outra ocasião”.
Como diz, “nós, guias, temos que estar preparados para tudo, ser guia é uma aprendizagem contínua, e por isso todos os dias tento aprender mais”.
Profissionais de turismo são imagem dos Açores
Sem reservas, este profissional adverte que todos os profissionais de turismo, sejam guias, empregados de restauração, hotelaria, etc. são, “sem sombra de dúvida, os melhores promotores do nome e da marca Açores. Somos nós, todos juntos, que vendemos os Açores e somos o primeiro contacto com o turista e essa imagem irá como recordação quando o turista regressar à sua terra, porque esse profissional é alguém que lhes dá algo na sua passagem por cá”, frisa, comentando que “é tão bom quando chegamos ao final do dia e recebemos palmas. Essas palmas traduzem não só o nosso trabalho, mas são também uma forma do turista mostrar a sua satisfação e a certeza de que irá regressar e recomendar os Açores”.
Tony Resende acredita que é o fruto desse profissionalismo, no seu todo, que poderá fazer com que “muitas das vezes este turista regresse”, afirmando que, “felizmente, tenho tido muito boas experiências no que a mim diz respeito e posso garantir que muitas das vezes o turista volta porque foi bem servido, bem acolhido e sentiu-se bem por cá, não só com o guia, mas também no restaurante ou no hotel”.
Verão de 2016 com mais turistas
É sabido que a ilha de São Miguel sofreu um incremento ao nível do número de turistas que visitaram este Verão a Região. Um número que os profissionais sentiram no dia-a-dia. Contudo, Tony Resende não atribui este fenómeno apenas à liberalização do espaço aéreo. A seu ver, esse aumento fica também a dever-se aos conflitos mundiais, nomeadamente no Médio Oriente e à insegurança que se vive em alguns países da Europa que leva a que tanto o turista português, como de outras proveniências venham aos Açores porque é um destino seguro, “eu diria que ainda é um cantinho do céu”, refere.
Por outro lado, comenta, “é claro que as low cost também vieram impulsionar o sector turístico da Região, principalmente ao nível do valor das passagens aéreas. Em comparação com outros anos, posso garantir que por essa altura, finais de Setembro e princípios de Outubro, nós já sentíamos uma quebra no número de turistas, e isso não se verificou até ao momento. Continuamos a ter muito trabalho”.
Um trabalho que pudemos assistir por uns instantes antes da saída para a ferraria. Depois de acondicionados no autocarro que esperava o grupo à hora certa, o guia deu algumas indicações, gracejando com a presença da comunicação social.
Já na manhã do dia seguinte, foi a vez de mostrar o centro histórico de Ponta Delgada. Junto à Igreja Matriz de São Sebastião e depois de alguns elementos do grupo terem passado pelo Mercado da Graça, onde puderam apreciar e adquirir alguns produtos locais, novamente, Tony Resende dá algumas informações a propósito do património. Em seguida, acertam-se os relógios e combina-se o horário para o tour da tarde.
Acompanhado por Linda Rose-French, Travel Product Specialist, ou seja a líder que acompanha este grupo de americanos, o guia deixa os turistas à vontade para descobrirem esta zona de Ponta Delgada.
Numa pequena conversa com Linda Rose-French, facilmente se percebe que a relação com o guia local é levada muito a sério. Até porque, como diz, “é muito importante ter um guia turístico no local do destino, porque é importante que durante a nossa estadia tenhamos o que fazer do ponto de vista de actividades turísticas mas não só. É bom ter alguém que nos possa apoiar, por exemplo, se alguém estiver com alguma dificuldade, ou necessitar de ir ao hospital, se estiver insatisfeito com alguma questão no hotel, restaurante, etc.”
Ou seja, adianta, “um guia turístico local é fundamental até porque nós não sabemos tudo, há muita informação sobre os Açores que ficamos a saber apenas porque tínhamos um guia e, devo acrescentar que, nesta nossa viagem o Tony foi muito importante para nós. Neste caso em particular eu não quereria um guia que viesse de Lisboa”, comenta.
A concluir Linda reforça que “um guia sabe onde estão as boas histórias, quais são os melhores sítios para ir, quais são os melhores restaurantes, para além de estar informado sobre a história dos Açores. Eu diria que essa parte é mesmo bastante importante, porque os turistas gostam de saber sobre a história, a cultura e as tradições do sítio que estão a visitar”.
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