A cidade rejuvenesceu com a reabertura do histórico CAFÉ CENTRAL

Se tentar ainda reavivar no meu espirito o que era o centro histórico de Ponta Delgada que conheci há mais de 80 anos, lembro-me de existirem ainda (mas poucos), alguns estabelecimentos daquela época – precisamente no mesmo local onde foram inaugurados – que continuam a relembrar o que foi a continuidade duma vida social e comercial mais que centenária  que muito contribuiu para valorizar e animar o progresso citadino. Por isso, cada um desses emblemáticos edifícios constituem, ainda hoje, um elemento histórico e até etnográfico que muito nos honra e que não é vulgar noutras partes, mesmo tendo em conta a natural  alteração que o progresso, num  curto espaço de tempo, foi capaz de alterar a sua configuração.

Daí que muito se  tem escrito, aqui e noutras partes, sobre a necessidade de acautelar a manutenção desse valor patrimonial; mas não há dúvida que, como actividade particular que é, só terá essa expressão de continuidade se houver alguém com deliberado “espírito de perseverança” que seja capaz de o conseguir. 

Enquanto estive na Comissão Municipal de Toponímia cheguei a recolher alguns dados históricos sobre as nossas antigas e actuais firmas comerciais, no intuito de que um dia talvez pudesse transmitir às gerações vindouras um pouco da sua história e do seu consequente valor económico… mas como o destino às vezes nos trás contratempos que estamos longe de os saber enfrentar, o “estudo” aguarda uma nova oportunidade.

Talvez para despertar desse estado de alma, tentei agora trazê-lo ao de cima por via dum recente acontecimento que Ponta Delgada acaba de viver, com a “reabertura” há dias, do histórico CAFÉ CENTRAL, sempre  situado em pleno coração da cidade, mas agora sob a nova gerência das organizações do “ GRUPO  ANJOS”, o que felizmente permitiu que a cidade retomasse aquele ar cosmopolita e de encontro fraterno a que nos habituáramos. 

Inaugurado em Outubro de 1934 pelo prestigiado e saudoso comerciante José Matias Tavares, possuidor da experiência e do saber adquiridos nos anos em que exerceu a gerência do Café Royal, soube ao longo de muitos anos impulsionar com inexcedível rigor e competência um inovador serviço de cafetaria que Ponta Delgada já então há muito reclamava, seguindo uma outra iniciativa  a nível da restauração.

 Ao mesmo tempo foi criando os primeiros “ self-services” para casamentos e outras festas particulares, num poder de modernidade só comparável ao que já existia em Lisboa e noutras grandes cidades, inclusive o Funchal.

Na continuidade desse arrojado serviço de cafetaria e de restauração, construiu, anos depois, o modelar Salão “A Barcarola”, no andar superior ao Café, onde acolhia, com elevado requinte, jantares de aniversário e ainda outros convívios para assinalar acontecimentos de relevo da vida comercial e social da cidade.

Segundo se pode deduzir das “Escavações” do investigador José Torres, o Café Central já renasceu, com este mesmo nome, das ruinas dum outro destruído, nos finais do século XIX, por um incêndio, por sinal situado no mesmo local e onde diziam os mais antigos, ser lugar de encontro, por vezes “ruidoso” da marinha de guerra americana que demandava o nosso porto durante a 1ª guerra mundial…

José Matias Tavares devia ser um homem de grande sensibilidade artística, pois desde sempre o “seu” café obedeceu a características de construção muito ligadas à arquitectura local e nacional, a começar pelo primeiro arquitecto que o concebeu, Jorge Segurado e às históricas pinturas que guarneciam as suas paredes interiores, da autoria de Domingos Rebelo.

Por outra informação que consegui colher, talvez nos finais dos anos 40, o Café Central sofreu novas alterações na sua arquitectura interior, então da autoria do grande Mestre Raul Lino, o que só por si poderia ter sido sinalizado como um “monumento regional”… 

Seguiu-se a construção de “ A Barcarola”, então sob direcção do arquitecto D. Luís de Melo.

A todo este empreendedorismo, ainda se destaca a criação dum bem organizado serviço de bilhares, que era no meu tempo do Liceu (já lá vão quase 75 anos), um dos mais frequentados lugares de lazer dos alunos do Liceu, nas horas vagas - mas com horários  rígidos, para abrir e fechar - sempre sem direito a qualquer contestação…

Outra grande iniciativa que a cidade ficou a dever ao Café Central foi a produção e venda de gelados, que creio o sr. Matias chegou a ir pessoalmente aprender a arte de os confeccionar aos Estados Unidos, guardando onde só ele sabia a forma de os conceber…

Ainda rapaz, recordo as tardes de domingo no Campo de S. Francisco, onde um grupo de rapazes, vestidos a rigor vendiam esses afamados gelados ( e não eram nada baratos para o tempo…) num pregão constante que fazia as delícias de uns e deixava crescer “águas na boca” a muitos outros:

- Gelados do Café Central!

Ice creem… Ice creem…

O Café Central e o “ canto” do Clube Micaelense foram lugares de eleição da academia do Liceu. Era o que pode chamar-se o “ponto de mira” onde rapazes e raparigas trocavam entre si um dos primeiros e sempre fugidios olhares amorosos; e onde também se firmaram namores que chegaram ao casamento …

O Café Central, como os demais que existiam na cidade, era um lugar de agradável convívio, mas este, pelo seu porte e tradição de serviço, acolhia mais uma sociedade muito eitista, de modo que não era fácil estacionar ali por muito tempo…

Nisso o senhor Matias era um bom “guardião” . Falava pouco, mas agia rapidamente…, de modo que nós dispersávamos pelo passeio que confrontava com a Casa dos Irmãos Cavaco e, por vezes, junto à montra da Papelaria do senhor Travassos, mas aí só se não havia estrangeiros a circular na baixa… pois como ele dizia “era o dia do seu negócio!”.

Bons tempos!

Que o “Grupo Anjos” seja feliz nesta sua nova aposta comercial, de modo a que o CAFÉ CENTRAL desenvolva o continuado espírito de inovação e de confraternização que já fazia falta à cidade, de modo a servir os de cá e quem nos visita num serviço que aproxime sempre e cada vez melhor os seus clientes.

Ponta Delgada, merece-o!