“Na altura vendíamos um bife de vaca por 80 escudos”
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- Publicado em 19-11-2017
- Escrito por Olivéria Santos
António Santos proprietário do Restaurante “O Roberto”
Foi a 8 de Abril de 1977 que abriu portas em Ponta Delgada o Restaurante O Roberto. Um projecto que foi desenvolvido por um grupo de amigos, mas que, com o passar dos anos, passou a ser pertença exclusiva de António Santos. O Diário dos Açores foi conhecer a história deste restaurante localizado na Avenida Marginal. A caminho das suas bodas de ouro, António Santos não esconde o orgulho e satisfação que tem do negócio que construiu.
Diário dos Açores - Como nasceu o Restaurante O Roberto?
António Santos – Na altura eu trabalhava na Melo Abreu, e tudo começou depois de um amigo, João Correia, que hoje é dono do Hotel Camões, ter vindo ter comigo com a proposta de sermos sócios num restaurante novo em Ponta Delgada. Tinha naquela época 22 anos e decidi arriscar. Entrei de cabeça sem perceber se ia ou não dar certo.
Inicialmente, também tínhamos por intenção abrir uma discoteca por baixo do restaurante, na cave. As instalações ficaram praticamente concluídas, mas depois essa ideia não foi avante.
Mas o restaurante abriu com mais sócios. Fomos buscar duas pessoas que também trabalhavam comigo na Melo Abreu, um deles o cozinheiro. Falamos ainda com Dâmaso Cabral que também trabalhava na área, nomeadamente na Tabacaria Esperança, e com uma outra pessoa que trabalhava no Hotel São Pedro.
Assim se formou a sociedade, mas importa referir que quem teve a ideia da sociedade foi um senhor que tinha vindo de Angola, conhecido como Larama, mas que se chamava Manuel Amaral. Foi ele quem andou com o projecto no início.
A sociedade foi criada oficialmente em Fevereiro de 1976 e contávamos abrir o restaurante em Agosto daquele ano. Mas as obras atrasaram e como já nos tínhamos despedido dos nossos empregos tivemos que fazer outras coisas. Enquanto O Roberto não ficou pronto, fomos a Lisboa fazer uma formação em mesa/bar e cozinha. Tivemos lá oito dias e ficamos logo com uma outra visão do que era a restauração.
Como assim?
AS – Antigamente, a restauração em Ponta Delgada passava por oferecer peixe cozido, frito, o bife de vaca, o bife de porco, bacalhau cozido, com grão, com batata e pouco mais. Depois de termos regressado de Lisboa é que implementamos novas ideias. Trouxemos o bacalhau à brás, escalopes à madeira, bitoques e omeletes… tudo pratos que não existiam nos nossos restaurantes. Hoje tudo está diferente. Aliás, actualmente até já existem pratos que eu desconheço totalmente. Agora faz-se cozinha todos os dias nas televisões.
Depois da formação e como o restaurante ainda não estava pronto, foi-nos oferecida a possibilidade pela Direcção Regional do Turismo de irmos explorar o bar da praia do Pópulo, que ainda hoje existe. E assim aquela «malta» toda foi para o bar da praia, na altura com poucas condições, e transformamos aquele espaço num restaurante. A fama foi tão grande que os clientes faziam filas nos carros à espera para serem atendidos. Estamos a falar de um espaço que tinha apenas seis/sete mesas.
Naquela altura cozinhávamos numa prancha de madeira, que servia de bancada, e com um fogão de trempes com bocas muito fortes. Começamos a apresentar novidades ao nível da ementa. Devo dizer que até hoje o meu bacalhau à brás é reconhecido pelos clientes como um dos melhores que se faz nos Açores.
Depois das obras do Roberto estarem finalmente concluídas abrimos as nossas portas a 8 de Abril de 1977. Os clientes do bar da praia acompanharam-nos nesta transição. Ainda assim, ainda mantivemos o bar da praia durante algum tempo, tendo o João Correia ficado a gerir aquele espaço.
No Roberto, desde o início que fiquei responsável pela área financeira.
E como foi o negócio?
AS – No início correu muito bem. Tivemos logo sucesso porque era um restaurante diferente e já tínhamos a fama que ganhamos com o bar da praia. Como o Larama também era muito conhecido e tinha bastantes contactos, isso trouxe-nos muitos clientes e foi muito vantajoso.
Estamos a falar de uma altura em que as pessoas comiam ao balcão. Tínhamos 22 lugares em balcão e depois ainda tínhamos a zona exterior. A cozinha era feita onde hoje é o restaurante. Tínhamos sempre dois tipos de sopa, porque antes as pessoas comiam sopa e sobremesa, agora é que só comem o prato principal.
Tivemos sucesso porque éramos diferentes dos outros restaurantes. Fomos os primeiros a ter uma ementa com vários pratos. Antes os empregados perguntavam apenas se o cliente queria peixe ou carne e as ementas estavam afixadas na parede ou num placard à entrada. Nós introduzimos as ementas nas mesas e também com isso, contribuímos para mudar o panorama na restauração.
E dificuldades iniciais?
AS - Tivemos um problema de sub orçamentação. Antes das obras, o restaurante estava orçamentado em 3 mil e 800 contos, e isso em 1976. Esse dinheiro dava para comprar quatro ou cinco casas, mas depois das obras o orçamento acabou por ficar em 5 mil e 500 contos, o que era um valor muito elevado para nós, mesmo connosco a vendermos o bife por 80 escudos, e era o bife mais caro da cidade! Os outros restaurantes vendiam a 50/60 escudos.
Para fazermos este dinheiro tínhamos que vender muitos bifes (risos) e na altura ainda não tínhamos a sala de cima. Só tínhamos uma sala na frente que, inclusive, mais tarde, o senhor Mário Machado entendeu que estava na via pública, mas que depois eu vim a saber que efectivamente, aquela sala não estava na via pública porque fazia parte do prédio, carecendo apenas de licenças se quiséssemos fechar, que é como está agora.
No entanto, no nosso percurso, entre os anos 1979/80 passamos por uma crise, muito semelhante à última crise que passamos. O restaurante foi um pouco abaixo porque não havia sequer dinheiro ao fim do mês para pagar os ordenados. Como tínhamos também empregados, para além dos sócios, a nossa prioridade passava por primeiro pagar as contas e só depois pagar aos sócios. Uma situação que acabou por afastar alguns sócios, tendo permanecido apenas como sócio António Fontes, que até hoje é um grande amigo meu. Mas a crise continuou e tive a ideia de falar com alguns familiares com o objectivo de ter algum dinheiro emprestado para tentar manter o negócio e levá-lo em frente. Foi nessa altura, em 1981, que acabei por ficar com o restaurante só para mim, depois deste sócio ter-me dito que não podia injectar dinheiro.
E como foi depois desta fase?
AS – O negócio começou a melhorar, mesmo com o pouco dinheiro que tinha. A minha mulher também veio trabalhar comigo e, felizmente, a economia começou a subir. Foi uma altura em que também tive que diminuir a equipa.
Tive a sorte de ter conseguido ultrapassar aquela crise. Mas devo acrescentar que actualmente também não está fácil gerir este negócio. Apesar de haver quem defenda que o turismo está de vento em popa, é preciso dizer que Ponta Delgada está morta. A Câmara e o Governo mataram o centro da cidade. Entretanto, foram criadas novas infra-estruturas, como as Portas do Mar, para colmatar esta situação, mas o centro continua morto. Só conseguimos melhorar alguma coisa no Verão, com alguma animação que vai surgindo.
Para além disso, antigamente os trabalhadores de Ponta Delgada almoçavam nos restaurantes, agora já não. Muitas pessoas optam por trazer a marmita de casa e os que não trazem e têm algum poder de compra, acabam por ir almoçar a restaurantes nas zonas limítrofes de Ponta Delgada.
Também os restaurantes de fast-food afastaram os clientes. Agora os mais novos preferem ir a estes restaurantes, em vez de virem a restaurantes como o meu que ainda são à moda antiga, em que servimos a sopa, o prato principal e a sobremesa. E também não posso estar a servir refeições de peixe ou carne por cinco ou seis euros, porque assim não dá para as despesas.
Depois de ter ficado o único proprietário do restaurante, como foram os anos que se seguiram?
AS – A partir de 1983/84 assistimos a uma evolução que estagnou quando tive que resolver o problema da sala no exterior. Tive que voltar a fazer obras na zona do balcão e fiz uma sala em cima, numa zona onde tinha um bar, mas que estava encerrado. Estas obras custaram algum dinheiro. No entanto foi um investimento que fui conseguindo recuperar lentamente.
Mais recentemente voltamos a passar por mais uma crise no nosso país, e, uma vez mais, fomo-nos aguentando o melhor possível. Tivemos que reduzir despesas, mas sem nunca despedir ninguém… O que aconteceu foi que à medida que os meus funcionários iam saindo, não ia contratando novos colaboradores. Hoje tenho 7 funcionários, mas cheguei a ter 17. E nos tempos da crise tive a meu cargo 12 colaboradores. Eu tive funcionários que trabalharam comigo mais de 30 anos. Por exemplo, meu irmão trabalha comigo desde que O Roberto abriu. Já lá vão 40 anos…
Porquê o nome “O Roberto”?
AS – Nenhum dos sócios se chamava Roberto. Demos esse nome porque na altura em que o mar chegava até às portas de cidade, havia nesta zona uma via que era o antigo Aterro. Naquele local, onde hoje está o Banco de Portugal existia um café chamado Roberto. Era um espaço requintado, onde se serviam algumas iguarias e onde se faziam tertúlias, mas que foi demolido para as obras da Avenida Litoral. Como o Roberto era muito conhecido, optamos por dar esse nome, até porque as pessoas comentavam na altura que ia abrir um Roberto novo… Para além disso, Roberto é um nome fácil de memorizar e é conhecido em muitas línguas.
E em relação à ementa… Foram fazendo novas apostas ao longo dos anos?
AS – Há três pratos que ainda se mantêm desde o início da nossa actividade. É o caso do bacalhau à brás, dos lombinhos com molho picante e o bife. Ao longo dos anos fomos evoluindo em alguns pratos e introduzindo outros. Um prato que servimos apenas aos Domingos e que tem muita aceitação, com críticas muito positivas é o nosso arroz de pato. Tenho clientes que dizem que esse prato é o melhor que já comeram em qualquer outro lado.
Tenho uma vasta ementa, gostava que fosse mais pequena, mas como gosto de agradar aos clientes, isso reflecte-se na ementa porque vou introduzindo pratos que os clientes me pedem.
Também tenho uma forte aposta no peixe fresco, com uma oferta bastante diversificada.
Eu fui também o primeiro restaurante a ter festas temáticas. Hoje já toda a gente faz e até com música e animação. Mas foi o Roberto quem fez as primeiras festas de São Martinho, de Amigos e a Amigas.
Entretanto, o seu filho Luís Santos, também já se envolveu neste projecto…
AS – Ainda costumo ir ao restaurante todos os dias de manhã, mas, de facto, o meu filho é quem já está a tomar as rédeas do negócio. No entanto, desde muito novo que o meu filho já vinha para o restaurante e ficava a ajudar-me. Ele ainda tirou um curso de electrónica, mas a partir dos 21 anos, ele optou por ficar no Roberto a tempo inteiro.
Entretanto, tive um problema de saúde há cerca de dois anos, e foi nessa altura que decidi que ele tinha que ficar a gerir o restaurante porque eu precisava de abrandar.
Há novos projectos em mente?
AS – Isso agora é para o meu filho. Creio que ele já tem algumas ideias, mas a seu tempo se saberá.
Sente orgulho no que construiu?
AS – Sem dúvida alguma! Se não tivesse orgulho, já tinha vendido este restaurante há muitos anos porque apareceram muitos compradores. Mas valeu a pena todo o meu esforço ao longo destes 40 anos de actividade. Foram anos de muita luta e de muito trabalho porque trabalhar na restauração não é fácil. Se hoje eu tivesse 20 anos e soubesse o que sei actualmente, não me metia nesta vida.
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