Viagens no Tempo - As revoluções

Decorrem cem anos sobre a revolução russa de Outubro de 1917.

Segundo o espírito prudente de Eça de Queirós, as revoluções, apesar de ocorrer algum desmando, trazem sempre algo de bom: o povo respira novos ares de mudança, liberta-se de um regime bolorento, desfasado das novas ideias e sai às ruas feliz.

Porém, Eça morre em 1900 e, se sobrevivesse, teria uma opinião bem diferente acerca da revolução bolchevique.

   Derrubar o regime autocrático do imperador Nicolau II, aceitar-se-ia a mudança, mesmo o desterro para a longínqua e inóspita Sibéria. Contudo, Lenine receava a admiração de muitos russos pela causa imperial e optou pelo assassinato de toda a família.

   Com a morte do mentor da revolução, em 1924, e a subida de Stalin, por quem Lenine não morria de amores, o descalabro foi total, ante a carnificina da primeira guerra mundial e a deserção de milhares de soldados.

  Stalin, agora senhor incontestado da Rússia soviética, depois de deportações e assassínios em massa, detinha um enorme poder para pôr em prática a teoria socializante de Carl Max, um teórico alemão. É óbvio que da teoria à prática, há um vazio de conceções que tenham consistência. E daí resultou, em desastre, todos os domínios da produção agrícola e a consequente fome do povo russo.

   Os anos foram passando com novos senhores, a seguir às depurações de Stalin, até que Gorbatchev, ciente das incoerentes políticas em vigor, desabotoou um novo rumo se abertura (Perestroika) para a pátria russa, conferindo-lhe a indispensável transparência (Glasnnost).

Atualmente, e depois da desintegração do império soviético, a nação tem outros desígnios – a ordem e a paz social.

Em remate, os impérios, em todo o curso da história, ostentaram arrogância e o destemido desafio de afrontar outras nações, com alianças altivas, como foi o conflito bélico da Segunda Guerra mundial.

Será que os homens vão entender que a paz é filha do respeito mútuo entre os homens, sem afrontar a dignidade dos seus semelhantes? É o que se espera dos políticos e de todos aqueles que detêm o poder democrático, com todas as suas ambiguidades.

Tenhamos esperança de ver surgirem soluções que vão ao encontro das mais merecedoras aspirações, pois que a humanidade tem de ser poupada a essas tremendas calamidades.

 

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A guerra

Sermão do Padre António Vieira

 É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre que leva os campos, as casas, as vilas, as cidades, os castelos, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que ou não se padeça ou não se tema, nem bem que seja próprio e seguro: – o pai não tem seguro o filho; o rico não tem segura a fazenda; o pobre não tem seguro o seu suor; o nobre não tem segura a sua honra; o eclesiástico não tem segura a imunidade; o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus, nos templos e nos sacrários, não está seguro.