Um espaço museológico ao vivo transformado em turismo rural

quinta do marteloDesde ontem que está a decorrer em S. Miguel um importante encontro sobre o turismo sustentável nas nossas ilhas, terminando hoje com intervenções de vários operadores e empresários, para além da apresentação de propostas concretas para uma cartilha a subscrever por todos os operadores do sector. O turismo de natureza é uma das fortes apostas do nosso destino, como comprova um estudo internacional de que damos conta na página ao lado. E um dos melhores exemplos deste tipo de turismo é a Quinta do Martelo, na ilha Terceira, premiado várias vezes, como conta o nosso colaborador Luís Bento Silva.

 

A economia açoriana foi marcada, ao longo dos séculos, por ciclos produtivos baseados, essencialmente, na agricultura: o do pastel, o do trigo, o da laranja, o da “vaca” e, o mais recente, que interage com a produção agropecuária e com o ambiente, que é o do turismo.

É no coração de uma propriedade que atravessou vários desses ciclos, sempre com autossustentabilidade para os seus proprietários, e que foi fundamental na produção para exportação de um desses ciclos – o da laranja –, que nasceu o primeiro projeto de turismo rural e de natureza dos Açores, já lá vão 28 anos.

 Classificada de utilidade turística pelo Governo Regional dos Açores, a Quinta do Martelo é uma propriedade rural situada a 5 quilómetros da cidade Património Mundial, Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, arquipélago dos Açores.

Podemos aqui observar e experimentar toda a evolução da cultura gastronómica e civilizacional dos Açores ao longo dos séculos.

 

Um autêntico museu de artes e ofícios

 

A aposta neste empreendimento de alojamento rural e de restauração típica sempre se pautou pelo escrupuloso respeito pela autenticidade das vivências ancestrais, pelo enquadramento ambiental e por proporcionar uma experiência única de contatos com essas realidades já muito difíceis de encontrar. 

  A partir de exaustivas recolhas e de vestígios encontrados e estudados, existem na Quinta os melhores conjuntos de estruturas, como oficinas de artes e ofícios tradicionais em vias de extinção, reconstituição de casas desde o princípio do povoamento e zonas da Quinta recuperadas e adaptadas a agricultura biológica, bem como preservação de espécies autóctones de animais domésticos para uso da Quinta, nas suas várias vertentes.

É voz comum que na Quinta do Martelo se come o melhor da culinária da ilha Terceira. 

Isso até poderia ser atestado pela atribuição do 1º lugar nos Concursos “Gastronomia – Património Nacional” e “ Gastronomia - Património Cultural”, galardões de nível nacional, conquistados pelo seu restaurante, entre dezenas de outros prémios, tanto na vertente gastronómica como pela autenticidade da instalação em si mesma, como, por exemplo, o galardão “Green Key”, atribuído a esta unidade em todos os onze anos que existe em Portugal.

 

Hóspedes reagem com mensagens agradáveis

 

A par desses prémios, é reconfortante para o seu proprietário, Gilberto Vieira, receber feedback dos hóspedes e comensais que, na esmagadora maioria, manifestam agradável surpresa pela experiência aqui vivida, não só pessoalmente mas nas diversas plataformas ligadas ao setor turístico.

Olhando mais em detalhe para a relação e contributo que este empreendimento dá no que respeita ao turismo sustentável, algo que foi preocupação desde o início da atividade, destacamos alguns aspetos.

Desde logo, o conceito - o compromisso de que Gilberto Vieira nunca abdicou de ser fiel à tradição rural açoriana, e terceirense, em particular. 

Isso manifesta-se desde a organização dos espaços, aos materiais e tipologias de construção, mobiliário, artefactos de uso doméstico ou de trabalho, culinária e de cultivo biológico em pomares, hortas, courelas e pequenos jardins.

 

Casas à moda antiga

 

No caso das habitações, elas reproduzem o evoluir das técnicas de construção e formatos das casas terceirenses, desde a época do povoamento, utilizando materiais endógenos até onde é possível, o mesmo se aplicando aos móveis e instrumentos utilitários do lar ou do trabalho rural.

A par disso, a Quinta do Martelo conta com um conjunto de oficinas de artes e ofícios tradicionais que não são apenas um espaço museológico que reúne um vasto espólio muito interessante de peças utilizadas em cada profissão do mundo rural, mas estão, também, em boa parte, aptas a funcionar, com a colaboração dos poucos artífices que ainda há na ilha, quer em demonstrações educativas, quer produzindo peças que ainda são úteis para uso na quinta. 

 

Produções agrícolas utilizadas na Venda do Ti Manel

 

O parque é composto por oficinas de ferreiro, latoeiro, oleiro, cesteiro, marceneiro, carpinteiro, tecedeira, caiador/Pintor, serrador/lenhador, sapateiro, tanoeiro, barbeiro, cabouqueiro, canteiro, calceteiro e ainda um alambique.

Quanto às produções agrícolas, que são utilizadas na confecção de muitos pratos no restaurante do empreendimento – a venda do Ti Manel da Quinta -, são usadas as técnicas ancestrais, quer na forma e épocas do cultivo, quer no enriquecimento dos solos, que é feito à base de estrume animal e outras compostagens vegetais.

Noutra vertente, procura-se sensibilizar os  hóspedes para o consumo responsável de água, possuindo sistemas próprios de captação e armazenamento de água da chuva, através de calhas e cisternas decalcados de antigos saberes, utilizam-se lâmpadas de baixo consumo e tem instalado um pequeno ecoponto, a uma distância acessível a todos.

Em última análise, o respeito intransigente pela herança vivencial dos nossos antepassados e a perfeita integração no mundo rural circundante de hoje, fazem da Quinta do Martelo um local único, onde se é bem recebido.

 

Por Luís Bento Silva, Angra do Heroísmo