Lagoa Cidade Presépio desde 1862

Presépio da Lagoa em Bristol R. I. da autoria do bonecreiro lagoense  Eduardo Gouveia

Em São Miguel, as primeiras referências a presépios remontam ao século XVI, por influência da fixação na ilha da Ordem dos Franciscanos, sendo que o fabrico de bonecos de presépio é uma tradição da Vila da Lagoa. Um costume que perpetua até aos dias hoje, existindo ainda quem continue a produzir no concelho estes bonecos de barro.

As figuras dos presépios da cidade de Lagoa encontram-se espalhadas por várias partes dos Açores e, ainda, pelas comunidades de emigrantes do Canadá e Estados Unidos da América.

A este respeito, o Diário dos Açores foi falar com Roberto Medeiros, coleccionador de presépios e promotor do Presépio da Lagoa nos EUA e Canadá desde 1996, que nos explicou um pouco mais da arte bonecreira da Lagoa.

 

 

Diário dos Açores – Como começou esta tradição na Lagoa?

Roberto Medeiros - Em São Miguel, as primeiras referências a presépios remontam ao século XVI, por influência da fixação na ilha da Ordem dos Franciscanos. Porém, é no século XVII que aparecem as primeiras “lapinhas”, confeccionadas pelas freiras nos conventos, decoradas com minúsculas conchas e flores artificiais de seda, penas, escamas de peixe, cera, papel e algodão, de onde sobressaem figurinhas de barro representando a Sagrada Família.

O século XVIII assistiu a um maior brilho e expansão dos presépios em São Miguel, sobretudo na Lagoa devido à influência de artistas continentais de Vila Nova de Gaia trazidos pelo empresário Bernardino da Silva e pelo artífice-barrista José Pereira Leite, quando se estabeleceram neste concelho em 1862 com uma fábrica de louça no Porto dos Carneiros. 

Na antiga vila da Lagoa, grande parte dos bonecreiros da Lagoa teve ligação às duas fábricas de cerâmica de louça vidrada existentes na Vila: Cerâmica Vieira, fundada em 1862, e ainda em funcionamento, sendo, por muitos considerada o ex-libris da Lagoa, e a Cerâmica Leite, fundada em 1872 tendo sido desactivada em 1984.

Com a fundação de fábricas de louça na Lagoa onde o barro era cozido, vidrado e pintado, na vila da Lagoa, na segunda metade do século XIX dá-se a expansão e aperfeiçoamento dos bonecos de presépio, que passam a ser produzidos com a técnica de molde. Nesta arte popular, destacamos a preocupação dos artífices em representar não só as personagens típicas do presépio, mas também cenas do quotidiano, como a matança do porco, a mulher na fonte, procissões e várias figuras, nomeadamente foliões, mulher de capote e capelo, homem de carapuça, padre, camponês, pescador, ou bandas de música, entre outros.

 

Uma tradição que perdurou e ainda se mantém viva na Lagoa…

RM - Actualmente os artesãos - bonecreiros lagoenses - continuam a dedicar-se, com empenho e preciosa habilidade, à produção de “presépios”, contribuindo a Lagoa para manter viva uma das mais belas demonstrações da religiosidade do povo açoriano. São eles, Maria de Fátima Varão, Carlos Pacheco, António Amaral e João Manuel Arruda. No entanto outros começam a aprender e a mostrar seus trabalhos, na sua formação, o que é importante para que esta tradição continue a ter pernas para andar e manter-se na Lagoa.

 

O certo é que actualmente estas figuras já deram lugar também a muitas exposições. Onde se podem encontrar estes presépios?

RM - Inserida em maquinetas de esferovite ou vilas esculpidas, pintadas e decoradas e com cenários bíblicos ou do quotidiano insular, podemos ver coleções de bonecos de artistas lagoenses em exposição no Convento dos Franciscanos da Lagoa e nos Estados Unidos. Estas permitem uma narrativa alargada, revelando em planos separados o Nascimento do Menino Jesus na Gruta de Belém, a Aparição do Anjo aos Pastores, a Adoração dos Reis Magos, a Apresentação do Menino no Templo, a Degolação dos Inocentes, o Baptismo de Jesus, isto no plano bíblico. Também se podem ver a procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres, os Romeiros, a matança do porco e outras cenas do quotidiano insular.

 

Estes presépios já foram além-fronteiras e são também apreciados na diáspora. Há algum objectivo concreto para levar esta arte para fora do concelho?

RM - As exposições de Presépios da Lagoa, no concelho ou coordenadas por mim junto das comunidades emigrantes nos Estados Unidos, Canadá e em Santa Catarina, no sul do Brasil, têm como principais objectivos serem espaços de pesquisa etnológica, de conservação e de valorização da actividade criativa dos barristas da vila da Lagoa. Pretende-se também que sejam um centro explicativo dos presépios dos Açores, um laboratório pedagógico vocacionado para a expressão e comunicação visual e um lugar de descoberta e de encontro de pessoas e culturas.

 

Neste Natal, e por cá, onde se podem encontrar os trabalhos destes bonecreiros?

RM - Podem ainda observar-se neste Natal, na Lagoa, em exposição visitável no Convento dos Frades, na freguesia de Santa Cruz, muito do trabalho dos artistas de figuras de presépio, onde se mostram, fotografias de artistas e figuras de presépio da sua autoria, despertando-se, deste modo, o público para a questão da produção individual, ligada ao estilo que cada bonecreiro vai desenvolvendo.

Muitas destas figuras eram produzidas em oficinas improvisadas no espaço doméstico, em horário pós-laboral, uma vez que muitos bonecreiros eram funcionários nas Fábricas de Cerâmica. De resto, esta era a forma encontrada para angariar mais algum dinheiro para o sustento familiar, embora também constituísse uma forma de ocupar os seus tempos livres.

Numa vitrina, no Convento dos Frades, junto da exposição do Presépio, mostra-se o processo técnico de produção de uma figura de presépio, onde são apresentadas, de modo sistemático e sequencial, as diversas fases do processo de fabrico – com moldagem, aparamento e pintura -, pelo qual, partindo de um pedaço de barro e, com o auxílio de moldes feitos em gesso, pequenos canivetes, tintas variadas, finos pincéis, e muita habilidade manual se produz um boneco de presépio.

Ainda na mesma exposição visitável do convento observamos as Representações da Natividade - A Sagrada Família; a representação da Gruta e da Cabana; a Vaca e o Burro; os Pastorinhos; os Reis Magos; os Anjinhos; a representação da “Fuga para o Egipto”; e algumas figuras do Oriente bíblico: árabes, soldados romanos, etc., ou não tivessem os Açores tradições religiosas muito fortes.

A representação do Oriente Bíblico pelos barristas e ceramistas da Lagoa, é feita através do fabrico de elementos da arquitectura como castelos, torres, casas, etc.-, aqui revelados num conjunto intitulado: Construções de Jerusalém.

Podem ainda apreciar-se as Imagens do quotidiano insular onde são expostas uma Procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres, além de outras cenas da vida quotidiana como o camponês a cultivar a terra, a criação, a matança do porco, a recolha de água e a higiene do corpo e da roupa, a farinação do cereal e a feitura do pão, a prensa do vinho, a limpeza da via pública, a recolha de lixo, a venda de produtos num bar, a venda de gelados, figuras sarcásticas e de crítica social e uma cena da vida moderna – dois homens à lareira.

 

Ou seja, todas as figuras não são feitas ao calhas. Todas elas mostram de certa forma alguma história…

RM - A análise das figuras de presépio, suportada nos conhecimentos da etnologia, permite-nos perceber como a criação destas figuras revela o conhecimento que os bonecreiros, juntamente com outras pessoas que com eles contactam, têm das Sagradas Escrituras, assim como a capacidade que os mesmos mostram de, com grande astúcia e sagacidade, captarem aspectos de vivências sociais que presenciam. Neste sentido podemos dizer que a par da temática religiosa em causa – o Nascimento de Cristo -, a realização social é a fonte/modelo de inspiração para a produção de figuras de presépio. 

Consequentemente, no espaço do presépio, além do tratamento do tema central da encenação – A Natividade -, são também transpostos momentos e situações da sociedade envolvente. Deste modo, podemos dizer que os bonecos produzidos na Lagoa, destinados à ocupação do espaço do presépio, apontam para o conhecimento da sociedade, e revelam aspectos da interpretação popular do texto bíblico. Portanto, estudando as encenações montadas no presépio podem inferir-se hábitos, práticas e costumes da sociedade passada e actual, uma vez que eles são o espelho de vivências quotidianas.

 

O Roberto Medeiros tem sido um dos impulsionadores em dar a conhecer os presépios da Lagoa junto da diáspora. Até onde já levou estes presépios?

RM - Por iniciativa da Câmara Municipal de Lagoa e sob minha coordenação, uma amostra do presépio açoriano da Lagoa já esteve patente em Toronto - Canadá, aquando da X Semana Cultural Açoriana, em Setembro de 1996. Nos Estados Unidos já esteve em New Bedford no New Bedford Art Museum 1999; em Taunton, no Old Colony Historical Society em 2000 e 2013 e na Galeria Art Works, no Whaling Museum na “Rotch-Jones Duff House de New Bedford em 2001; em East Providence, estado de Rhode Island, em 2002 na Biblioteca da Igreja de São Francisco Xavier; em Hyannis, Cape Cod, Massachusetts, na “Creche Convention”, no Cape Codder Resort, em 2003; na Biblioteca Casa da Saudade, em New Bedford e na cidade de Pawtucket, Rhode Island, no Centro Comunitário dos Amigos da Terceira em 2004; em 2005 no Museu de Stephen Cabral, em Fall River; no Bristol Court House em Bristol, R.I.,em 2006; em Newport na Mansão Belcourt Casttle em 2007; no Museu da Baleia, New Bedford em 2008.

Por minha iniciativa e coordenação continuou a estar patente nos EUA uma amostra do presépio açoriano da Lagoa no Santuário Lasalette, Atleboro, em 2009; na mansão de Newport de Connie Silva em 2010; no Parque Histórico Nacional de San José da Califórnia em 2011; em Taunton, no Old Colony Historical Society em 2013; na cidade de Pawtucket, Rhode Island, no Centro Comunitário dos Amigos da Terceira em 2014; na Portugalia Marketplace, em Fall River em 2015, 2016 e 2017.

Desde 2004 até 2017, anualmente realiza-se um presépio da Lagoa na Biblioteca da Casa da Saudade, oferecido por mim. Desde 2014 que se realizam cinco exposições nas cidades americanas, de New Bedford e Fall River. E, em Bristol a partir de 2017 também.

 

 

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