“O Natal aqui é preparado com muita alegria”

casa saude sra conceiçãoA Casa de Saúde Nossa Senhora da Conceição (CSNSC) é um estabelecimento de saúde fundado a 8 de Dezembro de 1973 em Ponta Delgada e dirigido pelo Instituto das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus. O centro tem capacidade para 175 utentes, estando, neste momento todas as vagas preenchidas e com uma lista de espera de cerca de 70 pessoas. Uma instituição que o Diário dos Açores foi conhecer de perto e ver como utentes e colaboradores do centro prepararam o Natal.

 

A Casa de Saúde Nossa Senhora da Conceição é uma Instituição Particular de Solidariedade Social cuja missão assenta na prestação de cuidados de saúde no âmbito da saúde mental e psiquiatria, segundo um modelo de assistência integral e dinâmico da pessoa que engloba as dimensões biopsicossociais, espirituais, éticas e relacionais, numa perspectiva humana e com máximo respeito pelos direitos fundamentais da pessoa doente.

A CSNSC desenvolve uma actividade assistencial, desde a prevenção, ao tratamento, reabilitação e reintegração social no âmbito da psicogeriatria, psiquiatria e deficiência mental, tendo em conta as necessidades e urgências de cada tempo e lugar, com preferência pelos mais marginalizados.

Com uma lotação total de 175 lugares para a prestação de cuidados de saúde, este centro está estruturado pelos seguintes programas de internamento: psiquiatria, psicogeriatria e deficiência intelectual. O programa de ambulatório inclui as consultas externas de psiquiatria e psicologia, desenvolvendo ainda diversas actividades de reabilitação e ocupação, incluindo ateliers ocupacionais, musicoterapia, equitação adaptada, natação, ginástica animação musical, treino de AVD’s, treino de gestão económica e treino de aptidões sócio-comunicativas, entre outras actividades.

À conversa com o Diário dos Açores, Raquel Coelho, a Directora do Centro dá conta que as grandes áreas de intervenção na instituição são psicogeriatria, psiquiatria e deficiência mental, sendo que a área com maior incidência de utentes é a psicogeriatria “e isso tem a ver com as necessidades actuais da nossa região”, explica, adiantando que é ao nível das demências “que é uma área muito delicada, onde tem que haver especialização ao nível dos cuidados continuados”. Por outro lado, esta responsável refere que o centro também intervém bastante ao nível dos cuidados paliativos.

Um trabalho que é feito tendo sempre em conta as necessidades da população e da comunidade e fazendo com que a própria sociedade se envolva. Até porque, avança Raquel Coelho, “hoje em dia as necessidades são outras e trabalharmos hoje sem falarmos na área comunitária, é impensável. Aliás, esta é uma das questões que vai ao encontro do Plano Regional da Saúde Mental que, certamente, em 2018 começará a dar os primeiros passos, esperando nós que tenha muito sucesso e que estejamos integrados”, ressalva.

Outra área onde a CSNSC presta assistência é nos cuidados paliativos e também nos cuidados continuados em saúde mental. 

Fruto de todo este trabalho ao longo de quase meio século de actividade em São Miguel, é com regozijo que Raquel Coelho reconhece que a CSNSC tem vindo “ao longo dos anos a ganhar credibilidade ao nível da prestação de serviços”.

Aliás, assegura, “ qualidade é um objectivo institucional inerente à missão do instituto das irmãs hospitaleiras, cuja concretização constitui um compromisso dos centros assistenciais, dos profissionais e das equipas”. Trata-se de um objectivo que Raquel Coelho garante que é “algo pelo qual o centro de debate todos os dias. Sejam os cuidadores, familiares, colaboradores, profissionais e dos próprios utentes estão todos envolvidos nesta missão, trabalhamos para haja uma cada vez maior qualidade dos nossos serviços. A nossa certificação já vem desde há alguns anos, com as irmãs a apostarem na certificação da qualidade, procurando a envolvência de todos e isto é, sem dúvida, uma mais-valia para cada utente”, ressalva à nossa reportagem.

 

Natal prepara-se com alegria

 

Sendo o Natal uma época em que se decoram as casas e colocam-se luzes, também na CSNSC este pormenor não é descurado nesta altura do ano. As utentes produzem vários artigos decorativos que depois servem para embelezar os corredores de todo o edifício, ficando outros em exposição. Aqui, diz Raquel Coelho, “o Natal é preparado com muita alegria. A felicidade é um tema discutido várias vezes. Para nós um dia feliz para cada utente é um dia sucesso”, frisa, alertando que não é só no Natal que se fazem actividades diferentes, “mas também em outras épocas festivas, como o Carnaval, a Páscoa, ou dias da família. Temos o cuidado de realizar várias actividades, para que não haja uma diferenciação entre o utente que está cá internado e o utente que está na área comunitária”, explica.

Também a aproximação do utente às famílias e à comunidade em geral, em particular nas épocas festivas, é outra preocupação dos responsáveis desta instituição. Considera Raquel Coelho que é importante “haver uma intervenção entre as duas áreas”.

A par das exposições preparadas pelas utentes, o CSNSC preparou ainda “uma grande festa de Natal em que fizemos questão que estivessem presentes os colaboradores, cuidadores e os familiares. Para que todos estivéssemos unidos em confraternização não só no convívio no almoço, mas também na parte mais recreativa e lúdica. A presença dos colaboradores e utentes no palco e de outros grupos externos à instituição que nos vieram visitar é também muito importante nesta época do ano, adverte a responsável pelo centro, adiantando que também as visitas de escolas e de áreas do ensino, são, igualmente, importantes porque as utentes interagem com alguma saudade, principalmente aquelas que não conseguem ir a casa”.

Depois do convívio, vem a Noite de Natal que neste centro cumpre, com todo o rigor, o que manda a tradição. Garante Raquel Coelho que na CSNSC “fazemos o que se fazia se estivéssemos nas nossas casas”, tudo para o bem-estar das utentes e para que não haja qualquer diferenciação com o resto da comunidade.

“Fazemos a Ceia de Natal com todos, inclusive com os colabores que estão de serviço naquela noite, porque é importante que não só os utentes se sintam bem, mas também os que cá trabalham. Temos o Peru, doçaria regional, e tudo isso é feito com muito agrado e amor”.

 

Melhor prenda é a gratificação

 

À pergunta qual a melhor prenda que a CSNSC poderia receber este ano no sapatinho, Raquel Coelho responde que todos os dias já recebe uma grande prenda. “A melhor prenda que temos todos os dias é a gratificação de ver os nossos utentes bem e felizes e saber que todos os que interagem com os utentes e aquilo que fazemos é congratulado por elas. Ou seja, verificamos nas nossas utentes o nosso bem-estar, o nosso trabalho diário, a nossa missão, o nosso esforço, a nossa persistência e não desistência. Isso é uma beleza gratuita tao grande que não conseguimos sequer transmitir o suficiente”.

Numa vertente mais material e abrangente esta responsável considera que um dos “melhores presentes que poderia haver para 2018 seria termos as portas abertas para a área da saúde e psiquiatria com grandes projectos e planos que nos façam ter uma projecção futura e de grandeza com as necessidades actuais”.

Por outro lado, também Fernanda Esteves, a coordenadora do voluntariado no centro, falou com o Diário dos Açores revelando que gostaria como prenda que “fora de portas, e apesar de sermos um instituto conhecido e reconhecido, há ainda um estigma forte em relação à saúde mental e aliado a tudo isto, gostava que a sociedade olhasse para estas pessoas com toda a naturalidade, com toda a humanidade e com toda a aceitação. Isso seria a cereja em cima do bolo”, disse.

Raquel Coelho completa este pensamento avançando que “bastava termos todos um pouco mais de humildade e a abertura para o que é uma doença de saúde mental que o próprio estigma já desvanecia e é isso que falta um pouco em nós. Se desmistificarmos isso, eu penso que a saúde mental deixa de ser um tabu e passa a ser uma conversa corriqueira do dia-a-dia”.

 

Voluntariado hospitaleiro “Um serviço gratuito à pessoa que sofre”

 

Este centro desenvolve um modelo assistencial que integra as dimensões técnicas e humanizadoras. Baseia-se no respeito pela dignidade da pessoa e expressa-se numa assistência integral.

O voluntariado integra-se plenamente no modelo assistencial, reforçando a atenção hospitaleira baseada nos princípios de gratuidade e solidariedade, contribuindo para a humanização na atenção e para o envolvimento da sociedade.

Um voluntário neste centro pode colaborar em diversas actividades como: refeições e mobilização dos doentes; acompanhamento, escuta activa, diálogo, relação de ajuda, lazer e tempos livres: jogos, passeios, animação de festas, colónias de Verão, actividades desportivas e outras; ocupacionais e de expressão: pintura, expressão plástica, artesanato, clube de leitura, alfabetização, informática, teatro e outras; socialização: favorecer a imagem visual da pessoa, ajudar na correspondência, chamadas telefónicas, visitas quando o doente está hospitalizado noutra instituição, apoio na consulta externa; Cuidados espirituais e religiosos: colaboração em actividades na área da evangelização e celebração, grupos de oração e outras actividades da Pastoral da Saúde.

Para esta instituição, “os voluntários não substituem os profissionais, são porém, uma mais-valia para a humanização dos cuidados e uma manifestação da dimensão sanadora dos afectos.

Conforme explica Fernanda Esteves, para se ser voluntário não basta só querer e ter boa vontade. Há todo um processo que o candidato deve passar para, efectivamente, se perceber se o voluntário aceita tal missão, “porque nem todas as pessoas têm perfil para estar numa missão como esta”, frisa a irmã, adiantando que a formação é uma exigência para a qualidade do voluntariado. A ser voluntário também se aprende; só quem mantiver a atitude de aprendiz da hospitalidade poderá realizar bem a sua prestação.

A formação é contínua e progressiva e visa dar maior qualidade à acção voluntária e criar uma cultura responsável, solidária e de coesão na comunidade hospitaleira da qual o voluntário faz parte.

O processo de voluntariado no instituto das irmãs hospitaleiras obedece às regras da certificação da qualidade, pela qual os centros estão acreditados.

Para Fernanda Esteves, coordenadora do voluntariado, “o voluntariado é muito importante na nossa instituição, precisamente pela relação e pela ponte que consegue fazer enquanto sociedade. No fundo, cada voluntário é a sociedade que vem a casa, é a família e costumo até dizer que é uma lufada de ar fresco para a nossa instituição porque também nos ajuda um pouco também a ver as coisas de outra forma”. Ou melhor, acrescenta, “complementa aquilo que vamos fazendo”.

Actualmente o CSNSC conta com 11 voluntárias. Sem querer admitir que o centro tem falta de voluntários, a irmã Fernanda Esteves apenas refere a este propósito que “se tivéssemos mais [voluntários], era mais facilitador para podermos desenvolver mais actividades e as utentes poderem ser acompanhadas pelo voluntário, porque muito que estejam à vontade connosco, um voluntário da bata amarela é aquela pessoa que os utentes vêem de outra forma. É aquela tia, vizinha ou o amigo que os vem ver. Há uma grande sintonia entre o utente e o voluntário. Eu diria que o voluntário acaba por trazer mais um pouco de aconchego aos nossos utentes, não que lhes falte esse aconchego, mas acaba por ser uma forma diferente de eles se sentirem bem”, comenta.

A este respeito Raquel Coelho elucida que muitas vezes os voluntários são pessoas reformadas porque são pessoas com maior disponibilidade na sua vida pessoal, dizendo acreditar “que o facto de não termos mais voluntários e mais jovens prende-se com o facto das exigências actuais serem tão grandes e limitarem a disponibilidade para se ser voluntário”.

Esta responsável garante que o centro tem feito um grande trabalho nessa área, “mas é necessário fazer mais”, frisa, considerando que “os jovens têm que ser alertados para isso. É importante que se diga e se mostre o que é ser voluntario. Se se começar desde cedo a ser voluntário, os valores sociais da comunidade e da própria pessoa vão-se envolvendo de tal maneira que se acaba por se ter outra postura e atitude perante a nossa vida”.

“Costumo dizer como pessoa e não só como directora do centro, que ser voluntário é uma experiência única na vida. Acaba por dar outras riquezas, complementar sentimentos e emoções das quais se calhar não tinham partilhado até ao momento em que se tornam voluntários”, finaliza.

Mas, alerta Fernanda Esteves, ser voluntário, exige compromisso e entrega. “Vir ao nosso centro, estar aqui uma hora, ou aparecer de vez em quando não é ser voluntário, é uma visita que a pessoa faz. O voluntário é aquele que dá de si continuamente. Vem uma ou duas vezes por semana, está uma manhã ou uma tarde ou até um dia inteiro se for preciso, quando é o caso, por exemplo, dos passeios”.

Sobre esta matéria, Fernanda Esteves realça que “o compromisso com a instituição é importante e é feito todos os anos de uma forma simbólica e ao nível público todos os dias 8 de Dezembro de cada ano. O nosso grupo de voluntárias fez recentemente o seu compromisso e todas assumiram publicamente que querem continuar a ser voluntárias hospitaleiras nesta instituição concreta”, até porque “há valores e uma cultura própria do instituto que os voluntários respeitam e obedecem”, explicou, ressalvando que “a continuidade é mesmo importante porque se o voluntário leva aconchego ao doente e é uma mais-valia tem que haver continuidade na sua dedicação e no seu serviço”.

Em jeito de desabafo Fernanda Esteves comenta como é “é interessante ver a forma como o utente se abre ao voluntário. Atrevo-me a dizer que o voluntário ajuda e como que reconstrói o utente, mas, por outro lado, o utente também faz o próprio voluntário porque puxa e ajuda por ele, levando o voluntário a redescobrir-se como pessoa. Isso só se consegue com compromisso”, finaliza.

 

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