“Que padres são estes? E falam tanto no apoio aos pobres...”

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Padre WeberMonsenhor Weber sobre a “acção de despejo” dos autistas

 

A Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo de S. Miguel e Santa Maria já recebeu o aviso da Irmandade S. Pedro Ad Vincula para abandonarem as instalações onde se encontra, em Ponta Delgada, até ao dia 31 de Março, disse ao nosso jornal monsenhor Weber Pereira.

Aquela associação ocupa um edifício, pagando renda, que foi doado por monsenhor Weber Pereira à referida Irmandade, mas com a finalidade de se destinar a retiro dos padres idosos de S. Miguel. 

Em causa, naquela Associação, estão vinte utentes entre os 8 e os 26 anos.

Monsenhor Weber nunca concordou que a Irmandade recebesse renda pelo aluguer do espaço e pretendia que o edifício fosse doado à Associação de Autismo, já que não era utilizado para o fim a que se destinava.

A Irmandade não concordou e o caso foi a tribunal, dando razão a Monsenhor Weber, de que o edifício destinava-se apenas aos padres.

 

“A Irmandade não precisa da casa”

 

A Irmandade, alegando que está a cumprir a decisão judicial, manda agora a “acção de despejo” aos autistas de S. Miguel e Santa Maria, o que está a revoltar Monsenhor Weber Pereira.

“A única atitude nobre por parte da Irmandade, para dignificar todos os padres da nossa Diocese, como diz o Evangelho e o Papa Francisco, era fazer uma doação aos autistas, uma vez que não precisam da casa”, disse ontem ao “Diário dos Açores” Monsenhor Weber.

E interroga a seguir: “O que vão fazer com aquela casa? Espero que não a fechem para os ratos...”.

Os padres idosos que necessitam de retiro para os seus últimos dias estão noutra casa doada pelo Dr. Furtado Lima, junto à Clínica Bom Jesus, em Ponta Delgada, pelo que, segundo Monsenhor Weber, “ninguém percebe esta teimosia para ficarem com aquela casa e prejudicarem a Associação dos Autistas. A Irmandade não tem necessidade, porque tem dinheiro e património; esta atitude parece demonstrar que se eu não tivesse esta triste ideia de doar a casa, eles já tinham entrado em insolvência!”.

 

“Atitude degradante” da Irmandade

 

Confrontado com o facto da Irmandade estar a cumprir uma decisão do tribunal, Monsenhor Weber responde indignado: “É verdade, mas eu já disse que estou na disposição de libertar a Irmandade da cláusula modal, que diz que a casa se destina a sacerdotes. Posso libertar-lhes disso e eles que entreguem o edifício aos autistas”.

Monsenhor Weber classifica a posição da Irmandade de “vergonhosa” e avança: “Se a Associação não tiver outro lugar para onde ir, penso que não haverá coragem para pôr aquelas pessoas na rua. Isto é de uma insensibilidade total para com os problemas sociais. Falam tanto no apoio aos pobres e então como se classifica esta atitude degradante para uma Associação desta natureza?”.

 

“Que padres são estes?”

 

Monsenhor Weber acredita que este assunto não acabe deste modo e prevê que, se for avante, “os despojos desta vitória de Pirro não pagarão os prejuízos que irão causar na mente dos cristãos desta terra. Que padres são estes?”.

A Irmandade S. Pedro Ad Vincula tem 411 anos de existência nos Açores, a mais antiga a seguir às Misericórdias, com sede na Terceira. 

A Irmandade de São Pedro Ad Víncula, criada em 1604, com o intuito de proteger o clero pobre e mais vulnerável, é proprietária da Casa Sacerdotal, em Angra do Heroísmo e, numa parceria com a Diocese e a Fundação Pia Diocesana do Bom Jesus, gere o Lar Betânia, em Ponta Delgada.

A Irmandade dispõe, ainda, do referido edifício em Ponta Delgada, doado por Monsenhor Weber Machado Pereira, que se encontra arrendado e o proveito da renda reverte a favor do Lar Betânia. 

A actividade da Irmandade de São Pedro Ad Víncula circunscreve-se às ilhas Terceira e São Miguel, mas abrange todo o clero diocesano, espalhado por todas as ilhas, sem qualquer “condicionalismo”.

 

Associação de Autistas desde 2003

 

Por sua vez, a Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo de São Miguel e Santa Maria é uma instituição particular de solidariedade social, com sede em Ponta Delgada, fundada em 17 de Maio de 2003, por um grupo de pais com filhos com perturbações do desenvolvimento.

A necessidade da criação desta instituição ficou a dever-se à especificidade das problemáticas enquadradas no espectro autista e nas perturbações do desenvolvimento que é diversa das demais deficiências. 

A Associação tem como missão promover a qualidade de vida e a integração social das pessoas com perturbações do desenvolvimento e do espectro autista através da promoção de medidas adequadas quer nas áreas da formação e da educação quer no apoio a prestar aos pais.

O Diário dos Açores sabe que este assunto já foi apresentado ao Governo Regional, no intuito de se chegar a uma solução sem que os autistas sejam prejudicados.