Sindicatos denunciam “pouca clareza” nos despedimentos na Cofaco e apontam dedo ao Governo

46e7bf1f-b804-4d33-a977-9defb3fa2736O Secretário Regional do Mar, Ciência e Tecnologia assegurou ontem, na Madalena, que o Governo dos Açores vai continuar a dar “todo o apoio” aos trabalhadores da fábrica da COFACO na ilha do Pico “para que os seus direitos sejam atendidos por parte da empresa”.

 Gui Menezes falava à margem de uma reunião com os profissionais daquela unidade fabril da Cofaco, onde esteve acompanhado por técnicos da Segurança Social, da Inspeção Regional do Trabalho e da Agência de Emprego.

 O Secretário Regional afirmou que este encontro foi “uma oportunidade de esclarecer muitas das dúvidas que os trabalhadores tinham [sobre o processo de despedimento colectivo]”, sendo que as entidades competentes em matéria de trabalho já disponibilizaram elementos a tempo inteiro para dar atendimento personalizado a estes profissionais.

 O governante defendeu que o despedimento colectivo é encarado como “uma solução entre poucas que existiriam”, frisando que “compete ao Governo dos Açores garantir que esta opção seja cumprida na íntegra e que os direitos dos trabalhadores sejam salvaguardados”.

Gui Menezes realçou ainda que “não se trata de uma empresa falida”, referindo que este despedimento colectivo se deve a “um momento de transição”, com a criação de uma nova unidade fabril, que será construída no local onde está instalada a actual fábrica.

 

Apoios públicos “inaceitáveis” depois de despedimento colectivo

 

O Bloco de Esquerda considerou, entretanto, como “inaceitável” que a empresa continuasse a receber apoios públicos e apontou o “total desrespeito e insensibilidade social” por parte da empresa.

“A Cofaco tem recebido, ao longo dos anos, milhões de euros de apoios públicos, directa e indirectamente. A este apoio público, com o dinheiro de todos os açorianos e açorianas, a empresa responde com um despedimento colectivo que vai afectar 180 pessoas, e que terá um enorme impacto social e económico na ilha do Pico”, disse o partido, que está contra o encerramento da fábrica. 

Questionado sobre esse assunto, o Secretário Regional defendeu que os apoios servem “precisamente para apoiar as empresas quando necessitam e para, assim, garantir os postos de trabalho e o desenvolvimento económico da Região e, em particular, da ilha do Pico, onde esta empresa tem um impacto importante”.

Gui Menezes recordou que as empresas conserveiras dos Açores “estão a passar por momentos que não são muito fáceis”, apontando as más safras de bonito nos últimos anos, o contexto de competitividade e os custos que estas empresas têm por laborarem numa região ultraperiférica.

Prevê-se que a nova fábrica tenha novas valências, nomeadamente o processamento de lombos e a transformação de atum para segmentos de mercado de valor acrescentado.

Os cerca de 180 trabalhadores da fábrica da Cofaco no Pico estarão ao serviço até 31 de Abril, altura em que a contrução da nova fábrica deverá arrancar.

 

PSD: apoios devem depender de nova fábrica no Pico

 

Por sua vez, o Presidente do PSD/Açores defendeu ontem que os apoios públicos que venham a ser concedidos no futuro à conserveira Cofaco na Região devem ficar dependentes do compromisso da empresa de construir uma nova fábrica na ilha do Pico.

“Qualquer apoio [público] que possa ser dado à Cofaco nos Açores deve ser ligado à responsabilidade de construir uma nova fábrica na ilha do Pico e dar emprego a estas pessoas”, afirmou Duarte Freitas, em declarações aos jornalistas, após reunir com cerca de uma centena de trabalhadores da Cofaco.

“Esta é a notícia que esperávamos nunca ter ouvido. É a pior notícia para a economia do Pico em muitos anos. Esta empresa tinha um papel histórico na ilha, empregava 187 pessoas e trouxe muita riqueza ao Pico”, sublinhou.

Duarte Freitas lembrou que os trabalhadores da Cofaco no Pico “não querem subsídios, mas sim o seu posto de trabalho”, e lamentou que a empresa possa a estar a “criar falsas expetativas nas pessoas”. O social democrata recordou que, em Julho, o Parlamento açoriano aprovou uma resolução dos sociais-democratas pedindo o acautelar de postos de trabalho na Cofaco. 

 

PS lamenta despedimento colectivo

 

Por sua vez, os deputados do PS eleitos pela ilha do Pico lamentaram o despedimento colectivo.

“É uma situação muito complicada. São muitos postos de trabalho, são muitas famílias que dependem daquela unidade fabril que é histórica na Vila da Madalena, na ilha do Pico e nos Açores e que tem uma importância vital para a economia desta ilha”, sublinhou o deputado Miguel Costa.

Os deputados defendem ainda que é “preciso unir esforços entre todas as entidades para salvaguardar que os direitos dos trabalhadores são respeitados e para garantir que a empresa concretiza a intenção anunciada de construir uma nova fábrica na ilha do Pico e que poderá integrar funcionários agora despedidos”.

 

PCP contra encerramento 

 

O PCP manifestou-se também contra o encerramento da fábrica e quer explicações do executivo açoriano.

“Os trabalhadores devem exigir e lutar pelos seus direitos e postos de trabalho, bem como as estruturas vivas da Ilha do Pico e população. Só existirá outro desfecho para esta situação se existir uma união de forças e de vontade política para salvar estes postos de trabalho”, refere o partido.

Para o PCP, “é fundamental que o Governo Regional tome medidas, e faça tudo o que estiver ao seu alcance para travar o encerramento da fábrica”.

O PCP avança ainda que irá intervir “quer através da sua Direcção Regional, quer através da sua Representação Parlamentar, mas também intervirá a nível nacional e no Parlamento Europeia sobre essa matéria, os trabalhadores e a Região têm de ser defendidos e merecem respostas.

O Parlamento dos Açores aprovou em julho do ano passado, por unanimidade, uma resolução apresentada pelo PSD, para que fossem acautelados os postos de trabalho na conserveira Cofaco, na ilha do Pico, durante o processo de construção da nova fábrica.

 

 

Sindicato apela aos funcionários que defendam postos de trabalho

 

O Sindicato dos trabalhadores de Alimentação, Bebidas e Similares, Comercio, Escritórios e Serviços dos Açores (SABCES/Açores) apelou ontem à participação “de todos” no plenário do próximo dia 12 de Janeiro, pelas 15h00, à porta da fábrica Cofaco.

“O SABCES/Açores repudia a medida anunciada e manifesta total solidariedade para com os trabalhadores abrangidos e suas famílias, reafirmando a sua determinação em defender os postos de trabalho e garantir a protecção dos direitos e interesses dos trabalhadores, pelo que apela à mobilização de todos – abrangidos e não abrangidos – na participação no plenário do próximo dia 12 de Janeiro pelas 15h00 à porta da Cofaco e nas iniciativas que vão seguir-se (manifestações, concentrações e reuniões, na semana do Plenário da Assembleia Regional)”, apela o sindicato num comunicado enviado às redacções.

 

Processo teve “pouca clareza”

 

O SABCES/Açores afirma ainda estar contra o encerramento da fábrica e refere que irá exigir explicações à administração da Cofaco e ao Governo Regional. Para o sindicato, o processo de despedimento “teve contornos de pouca clareza e seriedade por parte da administração da empresa, não havendo diálogo, informação e a devida consideração pelos trabalhadores”.

A estrutura sindical recorda que também em 2010, a Cofaco encerrou a unidade fabril da ilha do Faial, “voltando agora, uma vez mais, a contribuir para o retrocesso da economia das ilhas do triângulo e consequentemente da região”.

O SABCES/Açores considera que a medida tomada não deve ser “a única solução das administrações para resolver as dificuldades económicas” e adianta que irá participar “activamente nos processos de informações e negociações que se seguirão e vai realizar reuniões colectivas com os trabalhadores abrangidos, destinadas à informação e esclarecimentos sobre os procedimentos e prazos a observar”.

“O SABCES/Açores apela a todos os trabalhadores para resistirem ao despedimento e defenderem os seus postos de trabalho”, concluiu na mesma nota.