Passou o Carnaval...

“Assim o chamado Entrudo começava semanas antes e confinava-se às casas onde grupos de vizinhos e de amigos se juntavam aos serões para fazer as famosas limas que constituíam a principal atracção quer nas «batalhas» realizadas em lugares devidamente assinalados, sobretudo no largo da Matriz (a Avenida ainda era um sonho…) quer nas próprias ruas onde a vizinhança, ao principio da tarde, preparava as janelas e varandas das residências para a «luta» que se seguia durante toda a tarde”

 

As imagens que a RTP transmitiu durante o tempo deste Carnaval fizeram-me recordar alguns momentos passados na minha infância e juventude, pois se muito era diferente na forma de o festejar, parece que ainda se vai mantendo aquilo que representa de mais peculiar: bons momentos de confraternização e de divertimento.

Enfim, um espaço diferente para aliviar as contrariedades da vida…

Assim o chamado Entrudo começava semanas antes e confinava-se às casas onde grupos de vizinhos e de amigos se juntavam aos serões para fazer as famosas limas que constituíam a principal atracção quer nas «batalhas» realizadas em lugares devidamente assinalados, sobretudo no largo da Matriz (a Avenida ainda era um sonho…) quer nas próprias ruas onde a vizinhança, ao principio da tarde, preparava as janelas e varandas das residências para a «luta» que se seguia durante toda a tarde, à mistura com uma prova das saborosas malassadas sempre como uma troca amigável, a ver qual a que tinha melhor sabor…

De vez em quando passava o desejado «camião» com grupos mais agressivos; mas era uma alegria ver qual aquele que sustentava por mais tempo a batalha…

Numa contrapartida de defesa, quase sempre das janelas e varandas também surgiam canecas e vasos de todas as qualidades e feitios, cheios de água para que a defesa fosse mais «valorosa» .

Por vezes era surpreendido um ou outro transeunte que passava para partilhar do divertimento, mas se era atingido, a linguagem em resposta ao gesto era de se lhe «tirar o chapéu»!

Os serões dos dias de amigas, amigos, comadres e compadres, sobretudo nas sociedades de futebol, (saliento os do Clube «Micaelense») eram muito frequentados por sócios e convidados, o que dava um crescente espírito social aos jovens e atletas, a par do requinte que emprestavam os bailes do Clube Micaelense e do Ateneu Comercial.

Afinal, era um tempo em que a sociedade micaelense tinha as suas «hierarquias» muito vincadas… hoje felizmente ultrapassadas, o que sempre muito ajudou a contribuir a realização dos bailes do Coliseu, que souberam marcar aquela expressão social que faltava à cidade. 

Honra e louvor seus introdutores.

No Liceu Antero de Quental, o Carnaval começava no dia de Amigas, onde de tarde o Senhor Reitor – no meu tempo o Dr. João Anglin - dava dispensa às aulas para que rapazes e raparigas, num verdadeiro ambiente de cordial amizade comemorassem essa efeméride, que também agregava os professores que nunca faltavam com o seu pé de dança com as mais «simpáticas» alunas!

Não cito nomes, mas guardo no meu espírito muitas daquelas que mereciam essa delicada cordialidade…

Conforme as boas intenções aconselhavam, era ali que se combinavam outros encontros… sobretudo os chamados «assaltos carnavalescos», mas estes realizados, sob o maior sigilo, na residência de cada um dos que era escolhido para receber, noite dentro, amigos e colegas, devidamente caracterizados; mas que por dever cívico e de cortesia, tinham que se «descaracterizar», à entrada, ao dono da casa.

Os rapazes levavam as bebidas e as raparigas os doces, sem esquecer as malassadas e os sonhos.

Nas ruas, sobretudo nos domingos coincidentes com a época do carnaval não faltavam numerosos grupos de rapazes ( muitos disfarçados de raparigas), quer da cidade, quer das freguesias mais próximas de Ponta Delgada que integravam as antigas e sempre apreciadas danças, sendo a mais original a «dos cadarços»:

 

Esta dança dos cadarços

Feita com delicadeza

Das fitas se fazem laços

Isto é mesmo uma beleza!

 

Por vezes um ou outro «bailarino» era brindado com uma lima… e se ela tinha a infelicidade de atingir a cara, a tinta que a caracterizava, escoria pelo rosto, como se fosse um duplo disfarce…

Anos houve que se realizaram concurso, premiando-se os grupos que se apresentassem pela compostura do vestuário, pela música que entoavam, bem como o respectivo efeito corográfico.

Recordo que numa tarde infantil realizada no então Coliseu Avenida um desses grupos foi convidado a fazer ali a sua apresentação perante o espanto da pequenada, pois os homens, para melhor disfarce usavam máscaras de rede, muitas feitas de meias já em desuso!

Nas sociedades recreativas também se realizavam concursos de costumes infantis onde cada família, muito em segredo, escolhia o traje mais original, quase sempre baseado no vestuário usado por um actor de cinema mais celebrizado; ou então uma vestimenta mais consentânea com uma profissão mais em uso no nosso meio, tudo numa expressão de arte e de bom gosto.

Contudo a velha « batalha de limas» hoje substituída, em grande parte, por sacos plástico, foi sempre o ponto forte dos festejos da terça feira de Carnaval e ainda hoje apreciada sobretudo pelos estrangeiros que nos visitam; e, talvez se devidamente orientada e não só circunscrita ao mesmo lugar, talvez continuasse a constituir um cartaz de diversão e mérito para o turismo.

Aliás já em 1838 quando os celebres ingleses escritores irmãos Bullar’s nos visitaram e escreveram um documento, em livro, que revela o nosso património artístico e etnográfico já faziam referência, com algum espanto, a essa forma de divertimento, pois estando em Vila Franca do Campo deixaram escrita a seguinte nota : «O divertimento de quantos se sentem dispostos a divertir-se consiste em atirar uns aos outros água aos potes ou aos esguichos, munidos de toda a espécie de vasilhas, cercando os moradores que das varandas repeliam o assalto com bom resultado».

Enfim coisas do passado, mas que se repetem na actualidade decerto mais aperfeiçoadas – sobretudo as danças - pois agora «os noivos» também colaboram …

E agora é pensar no que vai ser para o ano…