Por um cristianismo mais humano

“Quantas irregularidades e injustiças entre patrões e os designados ‘colaboradores’, sem que a entidade inspetiva e reguladora investigue e atue. As situações generalizam-se, são conhecidas, mas o receio e o medo de retaliações leva as pessoas a calarem-se e a não as denunciarem. Caberia à Igreja esse papel, com base na sua Doutrina Social, mas não o faz.” 

 

Escrevo esta crónica no dia primeiro da Quaresma – quarta-feira de cinzas e também dia dos namorados.

As duas celebrações em simultâneo, podem ser contraditórias para quem não sabe conjugar as convicções da Fé e da vida nas suas diversas manifestações.

Desde cedo, interroguei-me sobre o porquê da celebração da quarta-feira de cinzas, a seguir aos festejos do carnaval. Independentemente das ligações ancestrais que o Entrudo possa ter tido, é um tempo de catarse, de alegria e de confraternização indispensável a uma sã convivência humana. Como tal deveria ter sido encarado pela Igreja, não como tempos de desregramentos e pecado, mas como dias em que se promove a amizade e o convívio tão importantes para a estabilidade e a paz nas famílias e nas comunidades.

Na base destes seculares procedimentos está a pregação religiosa orientada, predominantemente, pelo medo e pela prática do sacrifício, com base nos novíssimos (morte, juízo, inferno, purgatório ou paraíso), ou enfatizando o retorno ao pó da terra, como acontece no tempo da Quaresma. Falta a visão evangélica e teológica do Deus Amor, que se compadece com o pecador. Pelos homens morreu na cruz e ressuscitou para os salvar. Toda a economia da salvação vai neste sentido, como diz o Salmo 113,7: “Ele ergue o fraco do pó e tira das cinzas o pobre”.

Não deixa de ser sintomático que o Papa Francisco, hoje, durante a celebração das cinzas, tenha afirmado:“Se o fruto da fé é a caridade – como gostava de repetir Santa Teresa de Calcutá –, o fruto da desconfiança é a apatia e a resignação. Desconfiança, apatia e resignação: os demónios que caraterizam e paralisam a alma do povo crente”. E acrescenta: “É triste constatar, nas vicissitudes diárias, como se levantam vozes que, aproveitando-se da amargura e da incerteza, nada mais sabem semear senão desconfiança”.

Não é difícil perceber que o Papa, com a sabedoria que se lhe reconhece, tenha pretendido chamar a atenção dos pastores para a necessidade de mudança de discurso do medo, para a catequese da Misericórdia – na sequência, aliás da sua Carta Apostólica “Misericordia et misera”.

Francisco lança, pois, um repto ao compromisso, à fé e confiança, contra a apatia, a resignação e o medo.

Compete à pregação e à catequese alterar esta mentalidade, pois continuam centradas apenas nas perspetivas espiritualista e escatológica da alma.

Ao longo dos séculos, perdeu-se a visão cristã do mundo, dos graves problemas que enfrenta a humanidade, sobretudo das questões sociais como: os direitos humanos, o desenvolvimento, a pobreza, as injustiças sociais, a problemática da juventude, da saúde e da doença, a guerra e a paz, os sistemas políticos e económicos, a globalização, a telemática, o ambiente, etc.

João Paulo II, na sua encíclica “Laborem Exercens” afirmava: “a atenção aos problemas sociais faz parte, desde o início, do ensino da Igreja, da sua concepção do homem e da vida social e, especialmante, da moral social que foi sendo elaborada segundo as necessidades das diversas épocas.”(nº.3)

A este propósito, recordo a conversa mantida esta manhã com uma empregada comercial. Dizia ela que os ramos de flores vendidos no dia dos  namorados, a obrigariam a permanecer muito para além do seu horário normal de trabalho. “E não pagam horas extras?”- perguntei. “Qual quê, senhor, nem pensar. Se a gente pedir... Temos de trabalhar e calar!”

Estes lamentos vêm-se tornando habituais. É a empregada de hotel que trabalha, noite dentro, para além do horário, prejudicando a família e os filhos que já se encontram a dormir quando chega a casa; é o empregado de escritório, que vai para além da hora, sem mais um tostão, e boca calada, porque há centenas deles em fila, para contratos precários...

Quantas irregularidades e injustiças entre patrões e os designados  “colaboradores”, sem que a entidade inspetiva e reguladora investigue e atue.

As situações generalizam-se, são conhecidas, mas o receio e o medo de retaliações leva as pessoas a calarem-se e a não as denunciarem. Caberia à Igreja esse papel, com base na sua Doutrina Social, mas não o faz.

Quando João Paulo II afirma que “o trabalho constitui uma dimensão fundamental da existência humana sobre a terra” (nº 4) e que “A Igreja acha-se vivamente comprometida nesta causa, porque a considera como sua missão, seu serviço e prova da sua fidelidade a Cristo” (nº8), o Papa assume o público compromisso perante a comunidade inteira.

A começar pelos líderes da comunidade eclesial, há todo um percurso a fazer para que a “Igreja dos pobres”, se conforme com a sua doutrina social.

Mais importante que pregar o fim último do homem, é dignificar a pessoa e “a prioridade do trabalho humano em contraposição com aquilo que passou habitualmente a chamar-se “capital””. (nº12)

Quem tem medo de pregar esta doutrina não está a ser arauto do Evangelho.

 

14.fev.2018 – quarta-fera de cinzas

 

* jornalista c.p. 536

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