“Ainda continuamos no mundo das desigualdades” que “prevalecem no nosso meio”

Violência domésticaNo dia em que se assinala mais um Dia Internacional da Mulher, a União de Mulheres Alternativa Resposta (UMAR), aproveita a efeméride para uma vez mais denunciar todas as formas de violência que sofrem as mulheres.

Em declarações ao Diário dos Açores, Maria José Raposo, presidente da UMAR recorda que para a instituição, o Dia Internacional da Mulher tem sempre duas vertentes, sendo uma de celebração e outra de sensibilização. Conforme explica, neste dia importa “celebrar os direitos que as mulheres já conseguiram nos últimos 40/50 nos Açores e no nosso país. Celebramos sempre estes direitos já conquistados e já sobejamente usados”, no entanto, refere, “infelizmente ainda há outros direitos a conquistar. Ainda continuamos no mundo das desigualdades, sendo a violência sobre as mulheres a primeira grande desigualdade e que prevalece no nosso meio, sendo bastante marcante e evidente”, como é o caso da violência no namoro, a conjugal e sobre as mulheres idosas.

Esta responsável chama ainda a atenção para um novo fenómeno que tem aparecido nas camadas mais jovens e que se prende com a violência social. Ou seja, explica, com o “uso das redes sociais para humilhar, denegrir e coagir a outra. Trata-se de um fenómeno dos últimos tempos que temos que trabalhar para que o possamos aniquilar”.

Maria José Raposo - UMAR copyOutra desigualdade referida por Maria José Raposo, diz respeito ao facto das mulheres continuarem com triplas jornadas, considerando que as mulheres têm que ser mães, esposas e profissionais e o dia só tem 24 horas, “mas há muitas mulheres que trabalham 14, 15, 16 e 17 horas por dia”, frisa.

Por outro lado, esta dirigente denuncia ainda o facto de se continuar “a assistir em muitas empresas, quer do público quer do privado, salários diferenciados. As pessoas têm medo de falar nisso, têm medo de dar a cara e medo de reconhecer, mas ainda continuamos com salários diferenciados para a mesma função”, alerta, dando conta também que “ainda continua a se verificar na nossa Região entrevistas de emprego com perguntas diferentes”, consoante o sexo. “Há perguntas que fazem às mulheres que não fazem aos homens”, adverte, recordando que “mesmo no que concerne à taxa de emprego, os números revelam taxas de emprego maiores para os homens do que para as mulheres e não tem a ver com habilitações, mas sim com o acesso ao trabalho. Há muitos trabalhos nocturnos que as mulheres não têm acesso ora porque tem dificuldades nos transportes, ora porque não tem quem lhes fique com os filhos”, explica.

Outra discrepância apontada por Maria José Raposo prende-se com o mundo do desporto, onde “há uma grande desigualdade financeira nos apoios que são dados ao desporto feminino e ao desporto masculino, frisa, adiantando, por outro lado que “também ao nível da pobreza é muito mais evidente numa comunidade feminina do que masculina. Por exemplo, quando se dá um divórcio numa família com filhos, geralmente é a mulher que fica com os filhos e o que acontece é que os rendimentos desta família caem abruptamente. Ou seja, a realidade de pobreza nestes casos vai ser muito mais evidente”, salienta.

Situações que Maria José Raposo diz existirem nos Açores, frisando, contudo que se “olharmos de um modo mais global, vamos encontrar a mutilação genital ou o tráfego humano de mulheres”, considerando que “tudo isso são desigualdades que aproveitamos reflectir neste Dia Internacional da Mulher, todos em conjunto. Porque isso não é um problema das mulheres, mas sim da nossa comunidade e sociedade. Precisamos também dos homens para reflectirem connosco e para fazermos uma abordagem integral. Ou seja, para que todos possamos trabalhar para o mesmo”, alerta.

Para esta responsável importa “daqui para a frente trabalharmos em parceira, com todas as associações, instituições e Governo. Todos temos que trabalhar e esquecer as politiquices, porque ninguém faz nada sozinho. Temos que erradicar este problema, e só podemos fazer isso em conjunto. Este é o nosso grande desafio: trabalhar para a igualdade”.

 

Mulheres concentram-se

hoje nas Portas da Cidade

 

No âmbito da efeméride que hoje se assinala, a UMAR organizou algumas actividades de forma a assinalar o dia. Assim, de manhã, pelas 11h00, será inaugurada uma exposição no Centro Comercial SolMar, numa parceira com o SolMar e com todas as instituições que pertencem à rede de apoio integrada de mulheres em situações de risco.

Para a tarde, pelas 17h00, está agendada uma concentração/greve de mulheres a ter lugar, em Ponta Delgada, nas Portas da Cidade.

À noite, pelas 22h00, decorrerá no bar Lava Jazz, outro evento dedicado às mulheres, com música ao vivo pelo quarteto do próprio bar e de outras artistas. Haverá também momentos de poesia e marcará ainda presença neste evento a sexóloga, Natália Batista que falará sobre a mulher e a sua sexualidade.

 

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