“Temos formações com uma taxa de empregabilidade alta e isso é muito importante”

Vila EnsinaFoi em Dezembro de 2014 que abriu o Vila Ensina - Centro de Estudos e Formações, em Vila Franca do Campo, numa iniciativa que partiu de duas jovens empreendedoras, Cátia Barbosa e Marlene Sousa, que viram naquele concelho uma oportunidade de investir num centro de estudos e formação. “Era uma necessidade que havia”, diz Cátia Barbosa ao Diário dos Açores. Hoje, a actividade do Centro estende-se a outros concelhos de São Miguel e também à ilha Terceira. A procura tem registado um bom crescimento, pelo que está para breve a abertura de um novo espaço  no Faial.

 

De que forma surgiu a ideia para a criação do centro Vila Ensina?

Cátia Barbosa (CB) – Esta ideia surgiu cerca de um ano antes de abrirmos a empresa, em conversa com a minha sócia Marlene Sousa. Eu vim estudar para a Universidade dos Açores em 2001, mas depois regressei para o continente para trabalhar numa empresa de segurança. No entanto, queria muito voltar para os Açores e um dos meus grandes sonhos pessoais era abrir uma empresa na área da formação profissional. A Marlene era minha amiga há já alguns anos e, em conversa com ela, surgiu a ideia de criarmos um centro de estudos, visto que as formações não acontecem sempre e tínhamos que ter algo que sustentasse a empresa todos os meses. Pensámos, então, em juntar a parte dos estudos com as formações profissionais. Tivemos um ano a fazer um estudo de mercado na ilha inteira. Não o encomendamos a ninguém, nós, pessoalmente, é que elaboramos este estudo de mercado. No final, verificámos que Vila Franca do Campo era o concelho com maiores necessidades a nível de apoio escolar, principalmente por causa do insucesso escolar que existia e ainda existe no concelho de Vila Franca do Campo. Já havia um pequeno centro de explicações aqui, mas queríamos algo diferente. Procurámos um espaço, demos início ao projecto de investimento no âmbito do programa Empreende Jovem e, após algum tempo à espera que o processo fosse aprovado e que todas as burocracias terminassem, abrimos o nosso centro em Dezembro de 2014.

 

Quando abriram desenvolviam as mesmas actividades que hoje promovem?

CB – Inicialmente, começámos só como centro de estudos, pois tínhamos um processo de certificação da empresa na área da formação profissional que demorou cerca de um ano e meio a ficar concluído. 

 

Que serviços têm actualmente a oferecer?

CB – Neste momento, damos acompanhamento ao estudo com explicações, fazemos formações profissionais, terapia da fala, psicologia. Trabalhamos também na área da inovação e marketing, em que ajudamos os nossos clientes a fazer planos para a criação de empresas, com estudos de mercado. Tentamos perceber se as empresas que querem abrir serão viáveis no mercado. No fundo, fazemos com estas novas empresas o que fizemos antes de abrir a nossa própria empresa. 

 

Que serviço é mais procurado?

CB – É a formação profissional, a par do acompanhamento ao estudo.

 

Dão formações profissionais em que áreas?

CB – Além das nossas áreas de formação certificadas nos Açores, nós temos duas parcerias com mais duas empresas do continente. Uma delas dá formação na área da segurança privada e a outra em áreas como higiene e segurança no trabalho e produção agrícola. No total, temos doze áreas de formação. Portanto, segurança privada, educação, área agrícola, serviços de transporte, saúde e protecção social, marketing e publicidade, desenvolvimento pessoal, secretariado e trabalho administrativo, são alguns dos exemplos.

 

Estas formações são promovidas não só em Vila Franca, certo?

CB – Exacto. Além de darmos formação nas salas da nossa sede, também temos empresas que pedem os serviços pessoalmente. Por exemplo, já nos deslocamos à Associação Agrícola de São Miguel para dar formações e também a juntas de freguesias. Temos dado formações pela ilha inteira de São Miguel, além de outras ilhas onde também já estamos presentes. 

 

Estão presentes em que zonas e ilhas?

CB – Estamos sedeados em Vila Franca, mas já temos pequenas filiais da empresa em Ponta Delgada, em Angra do Heroísmo e vamos abrir também na Horta, dentro cerca de um mês.

 

Em 2014 imaginavam que o negócio ia expandir para outras ilhas dos Açores?

CB – Não, era impossível nós pensarmos nisso naquela altura. Pensámos que iríamos desenvolver as nossas formações e as explicações na nossa sede, em Vila Franca do Campo. Mas a procura que acabámos por ter acabou por nos levar a abrir novos espaços. Este espaço, em Vila Franca, acabou por se tornar pequeno. Por exemplo, a procura que existe em Ponta Delgada e em Angra do Heroísmo, que são cidades, é grande e isso levou a esta nossa expansão. 

 

Que balanço faz destes cerca de três anos de actividade?

CB – Inicialmente, não foi fácil. Não nos cingimos a abrir o típico centro de explicações e, por isso, não foi fácil. O crescimento foi acontecendo muito gradualmente, apesar de no último ano ter sido muito grande. Posso dizer que, em 2017, crescemos o cerca do triplo ao nível do número de formandos. Mas foi um crescimento sempre muito controlado e sentimos que estamos a evoluir cada vez mais como empresa, com o número de trabalhadores a aumentar, a par das nossas responsabilidades. Temos, contudo, a noção que somos ainda uma empresa pequena na área da formação profissional. Existem empresas muito grandes na Região Autónoma dos Açores.

 

Qual é o maior desafio na gestão desta empresa?

CB – Sabemos que temos pessoas à nossa responsabilidade e o maior desafio é termos, todos os meses, a capacidade para conseguir manter os nossos postos de trabalho e, se possível, aumentá-los. Outro desafio é termos os nossos formandos satisfeitos, felizes e, principalmente, a arranjarem trabalho. Este é um grande desafio para nós e fazemos muito essa análise: tentamos saber qual a taxa de empregabilidade das formações que estamos a dar e realmente temos formações com uma taxa muito alta. Em algumas áreas é de 90 a 95% e isso é muito importante para nós.

 

Veio para cá estudar em 2001 e depois regressou ao continente… O que a fez querer voltar aos Açores para investir num negócio e não o fazer no continente?

CB – Eu fiz a minha tentativa de ficar próxima da minha família. Tinha recebido um bom convite para trabalhar numa grande empresa e tentei lá ficar. Mas cheguei à conclusão que gosto é dos Açores. Foi aqui que cresci como pessoa e como profissional e é aqui que gosto realmente de estar. Quis fazer esta aposta nos Açores não por achar que ia ter mais sucesso cá, mas por gostar de viver aqui. É um gosto pessoal. 

 

Como é que olha para o futuro do Vila Ensina? Que expectativas têm?

CB – Sou sincera, tento não olhar muito para o futuro. Claro que temos que ter perspectivas para o futuro, mas vamos analisando as coisas trimestre a trimestre. Temos de ser realistas. Hoje em dia não é fácil ter uma empresa, por isso tentamos ver se, trimestralmente, suportá-la. Temos noção que temos que crescer e apostar em várias zonas e cada vez mais públicos diferentes. Mas queremos, acima de tudo, colocar mais pessoas a trabalhar connosco e tentar colmatar as falhas e necessidades que existem cá nos Açores.

 

E que falhas são estas?

CB – Por exemplo, algumas inovações chegam aos Açores muito tempo depois de chegarem ao continente. Na área do acompanhamento ao estudo, existem cada vez mais fórmulas de evoluir, de tentar fazer com que as crianças e jovens percebam que existe um futuro, pois o desemprego que existe actualmente pode levá-las a não pensar nisso. Na parte da formação profissional, há também falhas. Há pessoas sem qualquer formação devido ao insucesso escolar, só que para se entrar no mercado de trabalho as exigências são cada vez maiores. O que vemos é que falta, realmente, formação profissional nos Açores. Por exemplo, agora com o aumento do turismo vemos esta grande necessidade de formação. O que nós tentamos é colmatar estas falhas e estas necessidades.

 

Como é ter que competir com grandes empresas que se dedicam à mesma actividade que a vossa?

CB – Não é fácil. Estão no mercado há muitos anos, enquanto o Vila Ensina é ainda uma empresa pequena. Estas grandes empresas apanharam uma fase muito positiva, que foi a fase das formações financiadas e nós já não apanhamos isso. Os nossos formandos pagam do seu bolso pelas formações. Além disso, são empresas que já são conhecidas. Já nós temos que trabalhar mais no processo de marketing.

 

As vossas formações variam entre que preços?

CB – Variam entre os 80 e os 800 euros. Depende do tipo de formação e dos custos que lhes estão associados. Além disso, damos facilidades de pagamento aos nossos formandos. 

 

Quantos colaboradores tem a empresa actualmente?

CB – Somos cinco funcionários a tempo inteiro, três na área da educação e dois na área da formação. Depois temos 12 formadores a prestações de serviços. 

 

Estão satisfeitas com o trabalho desenvolvido até ao momento?

CB – Em geral, estamos muito satisfeitas. Estamos a evoluir muito bem e sentimos que as pessoas que nos procuram já vêm por terem alguém que frequentou uma formação nossa. Apesar de não sermos uma grande empresa, já começamos a ter algum reconhecimento e isso é sinal que estamos a fazer um bom trabalho.