Do “pai s’a bençã!” ao “tás bom, pá?”

Tenho a felicidade de poder ainda desfrutar da presença de meu pai, cuja memória, lucidez,  inteligência, sabedoria, bondade e Fé, atestam que a vida, mesmo aos 102 anos, merece ser vivida e partilhada.

Não pretendo aqui prestar-lhe uma homenagem e reconhecimento públicos. Apenas, ao aproximar-se o DIA do PAI que também sou, refletir sobre as mudanças que, em meu entender, alteraram profundamente os comportamentos dos filhos em relação aos progenitores.

Não foi há muitas décadas que as antigas saudações do “Pai, s’a bençã!” e o beijar a mão ao deitar e ao levantar, cairam em desuso. Esses gestos eram rotinas diárias que ninguém se atrevia a desrespeitar, sob pena de se ouvir reprimenda do Chefe de Família.

Nesses tempos, mesmo os filhos casados em casa obedeciam sem contestar a autoridade do Pai.

Na família patriarcal todo o património ia para um cofre comum e de lá se retirava para as necessidades básicas, para a atividade agrícola e para adquirir propriedades.

Estes velhos costumes, porém, já lá vão.

Primeiro a emigração, depois o serviço militar, a guerra nas colónias,  mais tarde a mecanização e o abandono dos campos, a democratização do ensino básico, a facilitação do acesso às universidades, a emancipação da mulher, as novas conceções sobre a sexualidade e o casamento, tudo isto, alterou profundamente os comportamentos familiares, a educação dos filhos e as regras de convivência na sociedade tradicional.

De tal forma que hoje, valores que se julgava quase absolutos, foram substituídos por outros mais permissivos e liberais. A sociedade do consumo dita as suas leis.

Os jovens trabalhadores, mesmo vivendo em casa dos pais até muito mais tarde, autonomizaram-se, acabando por gerir os seus salários sem darem explicações a ninguém. E os pais, que viveram vidas difíceis, de grandes privações, são os primeiros a disponibilizar-lhes as magras poupanças, para que não passem as dificuldades que tiveram.

Cria-se assim nos jovens falsas espetativas de abundância que nenhuma economia, nenhuma empresa, nenhum serviço público consegue retribuir em salário, sobretudo a quem não adquiriu competências profissionais para um melhor desempenho das suas tarefas.

À antiga sociedade regida pelo cumprimento da palavra dada, pela honradez, pelo orgulho do bom nome pessoal e da família, seguiu-se-lhe a sociedade do “vale tudo para subir na vida e a qualquer preço”.

Este contraste entre velhos e novos valores humanos e sociais reflete-se também no processo familar e no tratamento indiferenciado entre pais e filhos.

O trato respeitoso e delicado do “Senhor(a)” entre filho e pais, deu lugar ao “tu” e ao “pá” e sem qualquer distinção. Se este tratamento não reflete, em muitos casos, menor delicadeza ou dedicação aos progenitores, noutros traduz-se numa sobranceria e distanciamento reveladores da falta de respeito para quem, na maioria dos casos, deu o melhor de si para que o futuro dos filhos primasse pelos valores mais sagrados.

Na sociedade em que vivemos a situação dos pais idosos, doentes e abandonados, é um reflexo do que atrás afirmei e por isso carece de uma profunda reflexão e mudança.

“Honrar pai e mãe” é um ditame que vem do princípio dos tempos e constitui o reconhecimento do seu contributo fundamental na construção da pessoa humana.

Cabe, pois, à sociedade e à família darem qualidade a todos os que se encontram na última etapa da vida, relevando e aproveitando as suas virtudes e experiêncas, atribuindo-lhes justas e dignas pensões e proporcionando-lhes meios para, com cuidados de saúde adequados, suportarem doenças e um digno final de vida.

Neste sentido, defendo que os lares e outras instituições do género devem ser sempre e só o último recurso, pois constituem um corte traumático no relacionamento e convívio familiares. E se muitos a eles recorrem porque  os empregos impedem de cuidar convenientemente dos idosos, altere-se essa prática, dando aos cuidadores condições para poderem velar pelos seus.

Quantos mais lares existirem, pior é a imagem que dão as famílias e a sociedade, no modo como cuidam e integram os seus progenitores.

Pelo rumo que a sociedade neoliberal está a tomar, negando emprego e formação a trabalhadores mais velhos, forçando-os aos despedimentos para substitui-los por jovens mais mal remunerados, com tudo isto, os direitos humanos serão afetados e agravar-se-ão os conflitos sociais.

É por isso que os dias da Mulher, da Mãe e do Pai, devem contribuir para uma séria reflexão sobre questões tão prementes que afetam a família e os seus idosos e que mais se agravarão com o vertiginoso envelhecimento da população insular, portuguesa e europeia.

 

* jornalista c.p. 536

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