A propósito da publicação da antiga secção “3/4 de Século”

A História faz parte integral da cultura dum povo; e os nossos jornais, por serem um dos meios mais acessíveis a esse conhecimento, que perdura por anos e anos, são um repositório onde ainda é sempre possível reconstituir, com alguma facilidade e ordenação, factos que fizeram parte da nossa matriz patrimonial, social e até familiar… e acrescentarmos valor ao nosso conhecimento pessoal.

Creio que por via das novas metodologias do Ensino – de que me honro de ter iniciado nos Açores as primeiras experiências - e pelos consequentes trabalhos de investigação que os alunos são solicitados a apresentar (hoje muito para além do que se notava há anos), é com grande satisfação, sempre que tenho de fazer buscas no Arquivo Regional, apreciar o interesse com que muitos deles ali vão realizar as mais diversificadas consultas não só aos livros e revistas, mas sobretudo aos jornais, sem esquecer o que se refere à genealogia.

Quanto aos jornais - e tomando-me como sujeito desta causa - estou certo de que, para além do tema da consulta, também não deixarão ainda de poder anotar outros factos, agora visto de relance, mas que mais tarde poderão constituir motivo para novos desenvolvimentos e, consequente, a consolidação e a transmissão de saberes.

É, afinal, o que algumas vezes denomino, noutros escritos que produzo, de “poeiras do passado”…

Conciliando estas considerações, aproveito a oportunidade que se me oferece para referir que ainda no mês de Dezembro o conhecido e muito creditado professor de História e Ciência Sociais, Dr. Joaquim Machado, publicou um valioso livro intitulado “Ponta Delgada, 1967 – Memórias da Cidade”, o qual tendo por base uma investigação feita em jornais e revistas locais daquele ano sobre a cidade e o seu concelho nos dá uma perspectiva histórico/política e até social do que aconteceu e foi mais evidente naquele ano, por entender o seu autor que abrange um período de tempo em que “a evocação de acontecimentos e de recordações mesmo através duma simples leitura é riquíssimo em acontecimento ocorridos localmente”.

 Aliás, creio tratar - se de uma iniciativa que se pudesse ser seguida por outros professores e investigadores, decerto que perspectivavam a Memória dum “espaço” que desperta e ajuda ao estudo da nossa cidade, do país e até dos Açores e ajuda os alunos a conhecer a sua História.

Sobrelevo ainda este facto porque muita dessa investigação ter sido feita através de jornais locais, sobretudo no “Correio dos Açores”, o que até certo ponto poderá justificar algumas das considerações que me serviram para a análise do tema que escolhi para elaborar esta “nota”.

Por se tratar de um passado que hoje posso considerar saudosamente já um tanto ou quanto longínquo, não me recordo a data em que o “Diário dos Açores” iniciou a publicação da Secção “¾ de século”, mas creio que deve ter sido no tempo em que o antigo director e seu editor, Dr. Carlos Carreiro, iniciou as funções de chefe de Redacção, após ter regressado a S. Miguel por ter terminado o curso de Ciências Económicas e Financeiras, função que nunca oficialmente exerceu para se dedicar de alma e coração ao “seu” Jornal e dispensar uma colaboração de muita proximidade a seu Pai, o jornalista e então director, Manuel de Resende Carreiro.

Daí sempre me lembrar, de ler, com muito entusiasmo, na edição da 2ª feira – logo a abrir a 2ª página - haver a secção “¾ de SÉCULO”, que ia aumentando de tamanho cada edição e cujos temas eram escolhidos pelo próprio, com todo o rigor, sempre “pela calada da noite”, na Redacção do Jornal que ficava por cima das oficinas, na Rua Dr. Gil Mont ‘Álverne de Sequeira…

Depois – como estávamos na era da impressão a “tipo”, cada assunto era depois manuscrito para dois ser composto e impressa, uma das trabalhosas  dificuldades que se verificavam naquele tempo!

Os leitores do “DIÁRIO”, fossem quais fossem as suas habilitações, apreciavam muito esta secção; e, quando ela começou a falhar, houve muitos que sentiram falta daquela leitura semanal que muito lhes agradava; e, por vezes, muitos dos factos relatados, coincidiam com o conhecimento recuado que ainda tinham desses acontecimentos relatados.

Colaborei em alguma dessas “procuras”, bem como o Manuel Jorge, a Eduarda e a Isilda, mas a minha vida oficial não permitia que mantivesse uma normal continuidade…

Daí que, quando agora se anunciou que esta secção ia ser reeditada a partir do passado domingo com o novo título 

 

MEMÓRIAS DO DIÁRIO DOS AÇORES

 

entendi que devia felicitar a Direcção e a Redacção do Jornal e acrescentar ao meu aplauso – e decerto de muitos leitores – aos acontecimentos que, no futuro, vai começar a registar.

Recordo que, após a minha aposentação, cheguei a pensar reunir todos estes acontecimentos de relevo que o “Diário dos Açores” publicou, até aos nossos dias, mas apenas, é claro, como uma espécie de antologia histórica resumida.

 Mas porque me dediquei a outros assuntos que queria deixar para memória futura, em relação à “História da Educação”, os meus planos alteraram-se.

Ainda penso neste projecto que acalentei… mas a idade já não é capaz de querer vencer essa incapacidade natural, de tal modo possa ainda conseguir este intento, que tanto me agradava!

Enfim … contradições da vida!...

E, parabéns ao “Diário” por mais esta renovação editorial.

Sempre em frente!…