Cidade de Ponta Delgada “invadida” por 13 mil visitantes de quatro cruzeiros

Turistas de cruzeiroMovimento é bom, mas turistas “gastam pouco”, dizem comerciantes 

A ilha de São Miguel foi ontem “invadida” por turistas de quatro cruzeiros que estiveram atracados, em simultâneo, no porto de Ponta Delgada. Quem passou, esta segunda-feira, pela cidade não ficou indiferente ao movimento turístico. Hoje, o cenário repete-se com cinco navios de cruzeiro em escala. Os comerciantes da baixa manifestam satisfação com este fluxo, mas admitem, no entanto, que os visitantes, apesar de apreciarem os produtos dos Açores, “gastam pouco”. Defendem ainda que, nos Açores, há ainda trabalho a fazer no que toca aos meios disponíveis para receber os turistas. 

 

Celebrity Eclipse, Celebrity Silhouette, Arcadia e Marella Discovery 2 são os quatro navios de cruzeiro que estiveram ontem atracados no porto de Ponta Delgada e que trouxeram à ilha de São Miguel 13300 visitantes. O número bate o recorde anterior, registado a 14 de Maio de 2011, dia em que a mesma cidade recebeu 11209 visitantes.

Esplanadas repletas, turistas a entrar e sair de estabelecimentos comerciais, filas nos quiosques da avenida marginal, a par de um ‘ir e vir’ de ‘tuk-tuks’, carruagens turística, táxis e outros transportes para turistas. O movimento não passou ao lado de quem, esta segunda-feira, circulou na baixa da cidade.

O Diário dos Açores foi conhecer a opinião de alguns comerciantes e vendedores do centro da cidade e o sentimento geral é de satisfação, apesar de algumas críticas.

“É muito bom para a cidade e para nós, empresários. É uma mais-valia para todos. Falo por mim, que sou da área do pronto-a-vestir, mas penso que também os restaurantes e cafés beneficiam desse movimento”, diz Carlos Sá, dono de uma loja de pronto-a-vestir, em Ponta Delgada.

Por estes dias, Carlos Sá promove animação em frente ao seu estabelecimento, com o dançarino Luís Arruda e manequins ao vivo. Uma forma de atrair os turistas, que param para apreciar e tirar fotografia. “Já tenho feito isso em outras ocasiões e penso que é importante e é preciso promover animação”, refere o responsável, que defende a necessidade de mostrar as tradições açorianas aos visitantes. “Temos que mostrar o que é nosso”, salienta. Carlos Sá vai ainda mais longe, salientando que os comerciantes deviam ser “mais unidos” e promover iniciativas em conjunto. “Podíamos, por exemplo, trabalhar por rua e dinamizar o comércio com pula-pulas para as crianças”, exemplificou, garantindo que os custos não seriam elevados para cada comerciante.

cruzeiros - 23 abril 2018“O importante”, segundo destaca, “é abrir as portas aos turistas dos cruzeiros. E quem diz dos cruzeiros diz dos aviões. Venham eles, pois estamos de braços abertos para os receber”.

Também José António Moniz, responsável por um espaço de restauração localizado perto da igreja Matriz de Ponta Delgada, considera o movimento “muito bom para a economia da ilha”, mas lança algumas críticas à forma como o movimento é distribuído ao longo do ano.

 “Cada vez que chega um cruzeiro, há muito movimento e isso é muito bom para o comércio em geral”, afirma. “O problema que vejo é que esse movimento só se verifica agora e perto dos meses de verão. É preciso ampliar este turismo para os restantes meses do ano e também trabalhar mais nas outras ilhas”, acrescenta, por outro lado. 

José António Moniz aponta ainda a falta de preparação da ilha para receber este grande número de visitantes em simultâneo. “Não podemos ‘convidar’ tanta gente para a ilha, se não estamos preparados para recebê-los”, disse, exemplificando: “se tenho um espaço com lotação para 30 pessoas, não posso convidar 70 para cá virem em simultâneo…” 

“O aumento do turismo é muito bom, mas é preciso uma maior preparação em conjunto”, frisou, acrescentando que  “o turismo não são só os números e temos que trabalhar todos em conjunto”.

 

“São muitos, mas gastam pouco”

 

Já José Cortez, que tem uma loja de artesanato na avenida Marginal de Ponta Delgada, mostra-se satisfeito com o fluxo de turistas na cidade, mas garante que já teve dias com mais movimento.

“Estão aí quatro cruzeiros, mas já tivemos melhores dias, com mais turistas a passarem por aqui”, frisa ao nosso jornal. “São muitos, mas gastam pouco. Compram magnéticos, postais, um livro ou outro”, revela o responsável, que gere a loja com a esposa.

Sobre a animação que a autarquia de Ponta Delgada está a promover para acolher os turistas, José Cortez dá a sua opinião: “é muito bom, mas devia haver animação para receber todos os barcos, ou pelo menos os que trazem mais visitantes, e não só quando vêm quatro ou cinco barcos de uma vez”. 

 

“Não temos meios para tantos turistas”

 

Também na marginal encontramos um quiosque de venda de serviços de observação de baleias, onde o vendedor, Luís Lopes, admite que os turistas de cruzeiros “não têm tempo suficiente para efectuar a actividade”, pois permanecem na cidade apenas algumas horas. Mas ficam “curiosos”, garante o vendedor, e manifestam interesse em voltar para apreciar com mais tempo os Açores. 

Ao Diário dos Açores, o responsável tece críticas à quantidade de turistas que estão a visitar a ilha em simultâneo. “Nós não temos meios para contentar todos. Eles esgotam táxis, carros de actividades turísticas…, esgotam tudo. Penso que, neste aspecto, não temos, para já, condições para tantos turistas”, defende.

Aponta, como exemplo, as falhas no fornecimento de internet gratuito em Ponta Delgada. “Ainda hoje recebi turistas aqui a reclamar que o PDL Wi-fi estava em baixo e ninguém consegue aceder à internet, a não ser que entre num café. São pequenos pormenores que fazem a diferença”, afirma. 

Apesar destas falhas, o responsável salienta que “estamos no bom caminho”. “Há dez anos não havia nada disso, nada dessa oferta turística para quem nos visitava”, admite. 

Luís Lopes fala também da necessidade de aumentar a animação no centro de Ponta Delgada, dinamizando actividades “não só quando há cá cruzeiros”. “Esta é a minha opinião, mas também é a de muitos turistas que por aqui passam”, garante.

“Ponta Delgada torna-se uma cidade fantasma a partir de uma certa hora. As ruas ficam desertas. Não é só quando vêm os paquetes que há turistas”, alerta o responsável.

 

17 escalas e 46 mil visitantes numa semana 

 

Recorde-se hoje será mais um dia de grande movimento turístico em Ponta Delgada, com cinco navios de cruzeiros atracados no porto micaelense. São eles o estreante Zenith e os habituais Rotterdam, Royal Princess, Le Ponant e Celebrity Eclipse. Este último permanece do dia anterior. Juntos, trazem a São Miguel 12200 visitantes. 

Em dois dias, nove escalas e mais de 25 mil visitantes é algo digno de destaque e só vem contribuir para que os Açores consolidem uma posição de relevo neste nicho de mercado.

“Em dois dias, nove escalas e mais de 25 mil visitantes é algo digno de destaque e só vem contribuir para que os Açores consolidem uma posição de relevo neste nicho de mercado”, destaca a Portos dos Açores, empresa que gere os portos açorianos. 

Para o feriado de 25 de Abril, são aguardados os navios de cruzeiro Norwegian Bliss e do Prinsendam. No dia 26, será a vez dos habituais AIDAmar e Vision of The Seas visitarem o centenário porto micaelense. 

No dia seguinte, Ponta Delgada deverá receber o Serenade of the Seas e no sábado, o Norwegian Jade e o Deutschland. No domingo, é a vez do Navigator of the Seas e do Norwegian Star.

São um total de 17 navios de cruzeiro e mais de 46 mil visitantes no espaço de uma semana. 

“Se a estes impressionantes números de Ponta Delgada adicionarmos as escalas previstas na Horta e na Praia da Vitória, estimamos que, apenas numa semana, o arquipélago receba mais de 55 mil visitantes”, salienta a Portos dos Açores.

Recorde-se que a autarquia de Ponta Delgada promove, entre ontem e hoje, uma acção de boas-vindas aos turistas, com a colocação de dois palcos, um no lado norte da Matriz e outro no Campo de São Francisco, onde vários artistas têm actuado ao longo destes dois dias.