Adelaide Freitas lembrada no lançamento do livro de Joel Neto

lançamento livro joelCasa cheia na Livraria Leya Solmar, em Ponta Delgada, na passada quinta-feira à noite, para o lançamento do novo romance do escritor açoriano Joel Neto

O autor falou demoradamente do seu “Merediano 28”, que já aqui descrevemos em entrevista com Joel Neto, tendo mesmo lido algumas passagens do romance e explicado os contornos da obra de ficção.

Público atento e a merecer por parte do autor uma explicação pormenorizada sobre como se inspirou e onde viajou para recolher muita informação.

Mas o ambiente geral estava dominado, neste dia, pela morte da escritora Adelaide Freitas, cujo funeral tinha sido poucas horas antes na Achadinha.

Ademais, Vamberto Freitas seria o apresentador da obra de Joel Neto, pelo que, à última da hora, Joel convidou o escritor Urbano bettencourt para ser o orador, mas para evocar Adelaide Freitas.

Urbano Bettencourt fez a seguinte síntese:

“Ao fim da manhã de ontem, o Joel telefonou-me ainda da Terceira pedindo-me para fazer uma breve intervenção à noite. Tentei escusar-me, «preferia não fazê-lo», como dizia a personagem do Melville, o autor que a Adelaide trabalhou demoradamente. O último argumento do Joel: «és da geração dela.»

No regresso da Achadinha, ainda em choque, e enquanto o Onésimo conduzia, fui organizando umas ideias, esquematicamente reduzidas a 3 tópicos:

 

1. O «lugar» da Adelaide numa geração açoriana masculina e predominantemente francófila (teria havido também, num campo completamente diferente, a Ivone Chinita, mas esta ficou aos 34 anos numa estrada de Espanha). As referências literárias e teóricas da Adelainde vindas do campo americano, a marcar um ensaismo elegante na expressão e inteligente na abordagem; um ensaísmo que traçava  linhas oblíquas, mesmo quando se ocupava de um objecto que nos era comum,  a literatura açoriana. A apresentação nacional, a partir dos Açores, dos escritores açor-americanos (Katherine Vaz para começar), em parceria com o Vamberto.

2. A ficção literária: a poesia, mas sobretudo o romance «Sorriso por dentro da noite». Faltava-nos, no tratamento da  emigração, este olhar feminino que a  vê do lado de cá, como um desgarramento e uma orfandade. Uma personagem em crescimento e aprendizagem: Xana. 

3. A intervenção política e governativa: o seu trabalho no Instituto de Acção Social, Para lá dos livros (que provavelmente nunca leram), as pessoas da Achadinha guardam  uma grata  imagem  e memória da Adelaide (disse-mo o Vamberto) graças à sua passagem pelo IAS: os gestos, o afecto (quando ainda não era moda falar dele), as «respostas».