“Não me lembro de fazer outra coisa que não seja no ramo da ourivesaria”

Milton Teixeira

Nasceu no meio dos ouros e das pratas, na ourivesaria do pai e, aos 17 anos, foi para a cidade do Porto tirar o curso de ourives. De regresso a São Miguel, Milton Teixeira decidiu seguir o seu caminho e abriu o seu próprio negócio nas traseiras da ourivesaria paterna. Mais tarde, adquire o seu próprio espaço, localizado na Rua El Rei D.Carlos I, concelho da Ribeira Grande, onde permanece até hoje. O ourives contou ao Diário dos Açores toda a sua história.

 

Diário dos Açores - Como nasceu a Milton Teixeira Ourivesaria?

Milton Teixeira – Em 1988 fui para a cidade do Porto tirar um curso de ourives e comecei a trabalhar com o meu pai que já tinha uma ourivesaria na Ribeira Grande. Fiquei com o meu pai até ter 20 anos, altura em que fui cumprir serviço militar. Entretanto, aos 21 anos, decidi abrir o meu próprio negócio, em 1991, que era uma oficina de ourives, ao lado da minha actual ourivesaria, onde fazia pouca coisa. Vendia uns relógios e outras pequenas coisas e fazia arranjos. O meu ponto forte nesta altura eram os consertos.

Em 2000 adquiri, então, o espaço onde tenho hoje a minha ourivesaria e, em 2010 fiquei com todo o imóvel, alargando assim o meu leque de serviços e oferta. Durante este tempo e até à presente data fui inovando no que diz respeito ao espaço físico. Comecei com 40 m2 e actualmente a minha ourivesaria é das maiores na ilha de São Miguel, com cerca de 100 m2. Com tudo isso, já estou neste ramo há cerca de 30 anos.

 

Como surge o seu gosto por esta área?

MT – Eu costumo dizer que nasci numa ourivesaria. O meu pai era o proprietário da Ourivesaria Pinto, e quando eu tinha 6/7 anos, costumava ir ajudá-lo todos os Verões. Eu e os meus irmãos. Recordo-me de limpar muitas pratas e de preparar as caixas das ofertas. Hoje em dia estas caixas já vêm prontas, mas na altura era preciso encher a caixa com algodão. E era isso que o meu pai nos mandava fazer, isso se quiséssemos ir para a praia. Porque fomos educados desta forma: de manhã ajudávamos na ourivesaria e à tarde íamos então para a praia. Algo que, apesar de na altura ser uma obrigação, acabou por nos incutir o gosto por esta área.

Quando o meu pai faleceu em 2002, eu já tinha o meu próprio negócio, e a família continuou o legado do meu pai. Actualmente a minha irmã também está no ramo, a trabalhar na ourivesaria Pinto e o meu irmão, que trabalha num banco, também ajuda no negócio. Ou seja, é uma área que cativou a família toda. Não me lembro de fazer outra coisa que não seja no ramo da ourivesaria.

 

É uma área que evoluiu muito ao longo dos anos?

MT – Há 30/40 anos atrás era fácil comprar nos fornecedores que vinham do continente. Eram muito poucos, talvez um ou dois, vinham de barco e traziam sempre as mesmas coisas. Fios de barbela, fios de friz e os brincos eram sempre os mesmos. Ou seja, estávamos muito limitados. Com a evolução do mercado e com o aparecimento da internet, começaram a aparecer os fornecedores italianos. É este mercado que vem provocar um boom nas ourivesarias e aparece com designs completamente diferentes, com produtos arrojados, com máquinas diferentes, com peças muito mais bonitas e com uma mentalidade muito diferente. Tudo isso começa a ver-se nas feiras internacionais em Itália e na Suíça, nomeadamente em Milão e em Genebra.

Com esta evolução, hoje em dia já temos muitos fornecedores. Por exemplo, chegamos a ter uma semana inteira ou até mais, em que todos os dias estamos a receber fornecedores diferentes com muito material para poderemos escolher o que queremos.

 

A aposta que fez em abrir a sua própria ourivesaria foi uma decisão acertada?

MT – Os números respondem a esta pergunta. Ou seja, comecei num pequeno espaço na parte de trás da ourivesaria do meu pai e hoje tenho uma oficina com 80 m2. Creio que isso representa bem o facto de ter vingado nesta área.

Ao longo dos anos, tudo evoluiu até a forma como se trabalha o ouro. Hoje tenho uma máquina de soldar a laser, que é única nos Açores e também fui o primeiro em São Miguel a ter uma máquina de gravar. A de soldar já a tenho há 11 anos e a de gravar há 10 anos. E isso foram apostas ganhas. Quando comprei a máquina de gravar, durante uma das minhas deslocações às feiras, neste caso foi na Exponor, no Porto, ouvi os maiores palavrões ditos pelo meu pai (risos). A este propósito devo dizer que nunca falhei uma feira e isso é das melhores coisas de faço, porque dá-nos uma visão mais ampla e real do mercado.

No entanto, quando comprei a máquina, que custou 20 mil euros, o meu pai considerou que era um grande erro porque uma gravação custava 1 euro. Mas, posso garantir que ao nível do negócio tenho uma história bem diferente antes e depois de ter adquirido a máquina. Ou seja ter aquela máquina fez toda a diferença ao nível da facturação, porque veio aligeirar muito mais o processo de gravação. O mesmo aconteceu com a máquina de soldar a laser. 

No entanto, considero que fiz as apostas certas e arrisquei para chegar onde cheguei até hoje. Acredito que o sucesso de qualquer negócio também está nestes factores. Quando comprei a ourivesaria e todo o imóvel foi um investimento bastante avultado, mas foi um risco que decidi correr porque tinha como objectivo melhorar o meu espaço e dar mais qualidade aos meus clientes. Foi por isso que consegui ter hoje uma ourivesaria ampla, bonita e agravável a todos. Hoje, sinto uma grande satisfação ao entrar na ourivesaria e ver todo aquele espaço, tanto na loja, como na oficina. 

 

Ao nível dos serviços e/ou produtos qual é o seu ponto forte?

MT – Antes dos tempos da crise, há cerca de 10 anos atrás, toda a gente tinha ouro. Em qualquer família havia sempre quem tinha anéis, fios e outras peças em ouro, mas com a chegada da crise, houve muitas famílias que sentiram dificuldades e começaram a vender este ouro, isto aliado ao facto de também ter sido uma altura em que se verificaram muitos roubos. Posso garantir que naquela altura venderam-se, em São Miguel, centenas de quilos de ouro. Com isso houve uma diminuição de trabalho ao nível dos arranjos das peças e começa a surgir muito mais prata. Os ourives começaram a apostar na compra de mais e variados produtos em prata e a preços bastante económicos. Estamos a falar de peças que custavam entre 10 e 20 euros e foi isso que safou os negócios como o meu. Foi com isso que conseguimos sobreviver nos anos da crise. Com o pouco, fazíamos muito. Uma vez que tive um grande decréscimo ao nível dos consertos, vi-me obrigado a arranjar alternativas e a fazer novas apostas, porque a crise levou as pessoas a deixarem de comprar ouro. No entanto, as pessoas não deixaram de ir às ourivesarias, principalmente nos Natais, mas optaram foi por comprar outros artigos menos despendiosos.

Apesar de já notarmos alguma retoma, nunca mais, até aos dias de hoje, tive aqueles clientes à procura das gargantilhas ou dos grandes colares em ouro que era costume vender-se nos anos 90. Isso acabou e não sei se voltará.

 

Actualmente o que as pessoas mais procuram numa ourivesaria?

MT – A prata continua a ser ainda muito procurada, principalmente porque agora há muita oferta prática em prata. Antigamente a prata não era muito valorizada e não existia tanta e variada oferta. Nos dias de hoje, já vemos peças em prata muito valiosas e muito lindas. Acredito também que as pessoas ainda compram prata também porque o preço do ouro disparou. Enquanto nos anos 90, um grama de ouro estava, por exemplo, nos 8/12 euros, actualmente está nos 35 euros o grama. Isto para falar apenas na cotação diária, sem incluir a mão-de-obra. É uma grande subida, o que leva as pessoas a não comprarem. Há artigos para bebé, como as simples pulseiras, os anéis ou os brincos para meninas que hoje estão o dobro ou o triplo do preço do que nos anos 90.

 

E novos projectos para levar a cabo, existem?

MT – Ao nível do espaço físico, não! Tenho o espaço que ambicionava e cheguei onde queria. Agora só mesmo remodelações ao nível da pintura e pouco mais. Andei dois anos e meio em obras e creio que cheguei ao limite neste capítulo. Também não pretendo abrir novos espaços em outras localidades. Gosto de onde estou. Não tenho um negócio para ficar rico, mas permite-me viver tranquilo, sem grandes preocupações com o dia de amanhã. É claro que tudo isso foi conseguido com muito juízo. Não se pense que ter uma ourivesaria é fácil, porque não é.

Em relação ao futuro, é sempre incerto. Não sabemos como vai ser o futuro das ourivesarias, para onde vão evoluir ou quais vão ser as tendências. Isso dificilmente se saberá. Vamos tendo fases e ciclos, alturas em que se vende muita prata, outras em que é o ouro que mais se vende. Quanto ao futuro, é esperar e ver… Tudo pode acontecer de um momento para o outro. O que é certo é que as ourivesarias não vão desaparecer; as pessoas vão continuar a comprar: o quê, é que não se sabe…

 

Onde é que a Ourivesaria Milton é diferente da concorrência?

MT – Penso que no atendimento e, sem dúvida, no espaço físico que tenho ao dispor do cliente. Uma coisa é ir ao uma ourivesaria com 8 ou 10 m2 e outra coisa é entrar num espaço com 50/70 m2. Podem vir várias famílias ao mesmo tempo e vão sentir-se e estar à vontade na minha loja. 

No atendimento, conto com a colaboração de Luís Filipe Sousa Vasconcelos Amaral há 18 anos. Ele está comigo desde o início e mais do que um funcionário é um amigo. É uma pessoa em que deposito toda a minha confiança. Sei que me posso ausentar sempre que necessário que ele fica responsável pela ourivesaria. 

 

Nos trabalhos que produz na oficina, também faz peças por encomenda?

MT – Se me pedirem para criar, faço-o, mas, infelizmente, as pessoas ainda não estão preparadas para determinados tipos de arte. Uma coisa é criar uma peça normal, outra, bem diferente, é criar peças únicas. Nem sempre as pessoas estão preparadas ou despertas que a exclusividade paga-se. É garantido que se eu criar uma peça única, nunca mais vou conseguir criar outra igual. Por outro lado, para se fazer um trabalho deste género também se perdem muitas horas. Nós, ourives, somos artistas, e temos que ser pagos como tal, é importante sermos valorizados. Existe, em São Miguel alguns ourives que não se valorizam, e isso não pode ser. Trabalhamos com material nobre, como o ouro e a prata, e às vezes, isso não é valorizado.

 

Olhando para trás, desde o seu começo, tem orgulho do que conseguiu construir?

MT – Em 2002, quando o meu pai faleceu, que foi o momento mais triste da minha vida, (emocionado), eu já dizia: Faço da minha profissão um passatempo agradável. Hoje continuo a dizer o mesmo e tenho muito prazer nisso. 

Sem dúvida que tenho muito orgulho em tudo o que construí, mas não só: tenho orgulho da vida que tenho, da mãe que tenho, das filhas que tenho, da esposa que tenho que também é uma grande mulher, a Claúdia… Se me perguntassem se alguma dia sonhei que ia ter o que tenho hoje, eu respondia prontamente que nunca. Nunca imaginei que aos 47 anos ia ter o que tenho. Nem nos meus melhores sonhos! Nunca pensei! E, por isso, reafirmo: tenho mesmo muito orgulho em tudo o que construí e tenho!

 

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