“Há preocupação! O Outono e Inverno poderão ser sombrios”

Mario fortuna111

O Presidente da Câmara do Comércio e Indústria dos Açores está preocupado com a queda do turismo que se está a registar este Verão e manifesta apreensão com o Outono e Inverno.

Nesta entrevista concedida ontem ao nosso jornal, em reacção aos últimos números, Mário Fortuna deixa algumas sugestões para inverter a tendência de queda.

 

As dormidas estão em queda este verão na hotelaria tradicional dos Açores. Como interpreta isto, depois dos fortes crescimentos?

Em primeiro lugar é importante sublinhar que não era expectável que continuássemos a crescer acentuadamente, particularmente na época alta. 

Já não esperávamos era uma travagem brusca tão depressa. Estamos com evoluções negativas nos meses de Verão e arriscamo-nos a ter uma evolução acumulada negativa para o ano todo. 

A travagem e até retrocesso vem, sobretudo, de operações externas com a Alemanha à cabeça, seguida do Canadá, da Holanda e de Espanha. 

Estes são mercados que dependem, sobretudo, da SATA e de operações charter. 

No mercado alemão, recorde-se, deu-se a falência da Air Berlim, circunstância que poderá ter afectado o turismo deste mercado e do da Holanda. 

Os resultados do Canadá serão mais surpreendentes e poderão estar associados a uma operação menos eficaz da SATA sem reflexos aparentes nos Estados Unidos apenas devido aos efeitos positivos da operação da Delta.

 

Há aqui razões para alguma preocupação?

Há! Dependendo o sucesso do turismo da qualidade da operação aérea, a indefinição na evolução da SATA e os eventuais tropeções nas operações charter deixam-nos num contexto menos bom, mesmo mau. 

Para além da qualidade da operação pontua muito o preço das passagens. 

A concorrência nas ligações para os Açores não está no seu melhor. 

Nas ligações com os Estados Unidos e Canadá não há propriamente concorrência porque não há nenhum aeroporto próximo de que opere mais do que uma companhia. 

A concorrência é, por isso, ténue, se é que se pode dizer que existe. 

A presença da TAP, ou de outro operador, nestas rotas da América do Norte seria muito positivo sendo um propósito no qual deve ser feito investimento activo. 

Nas ligações com o continente a concorrência está contaminada com a prática actual das tarifas no âmbito do subsídio de mobilidade. 

Todos os “stakeholders” já aprenderam a maximizar o valor do modelo para si, o que tem levado a passagens com preços absurdamente elevados e que, naturalmente, privilegiam estratégias das operadoras de primazia para a satisfação do mercado interno e não do mercado do turismo. 

Em certa medida, somos nós próprios, através da aquisição de passagens com preços elevados que estamos a afugentar o turista. 

É urgente rever este aspecto do modelo para que não continue a trazer estes efeitos perversos indesejados. 

 

Há quem diga que, para além da reabertura dos novos destinos em África e Médio Oriente, a indústria turística açoriana aumentou demasiado rápido os preços, conforme se pode comprovar pelos proveitos totais da estatística, e que isto poderá também contribuir para um turismo mais seleccionado. Concorda?

Concordo. De facto, os preços da hotelaria tradicional aumentaram bastante, o que era normal e desejável num processo de qualificação do destino. 

Esta política poderá ter de ser revista para não degradar mais a procura. Este é um processo que as empresas terão de encetar por si, tornando o sector mais comedido nos progressos que vinha evidenciando.

É também bom que percebamos que não estamos no mercado sozinhos e que a crise do Norte de África não durará para sempre. 

Tivemos um momento muito bom, propiciado por uma onda favorável, mas as ondas não são eternas e quebram. Temos de estar sempre preparados para isso.

É por isso que contestamos a ideia do maná do turismo, propalada por forças políticas que evidenciam um total desconhecimento da dinâmica destes mercados e da fragilidade em que ainda vive o sector do turismo nos Açores.

 

Com a paragem, nesta época baixa, da operação de Nova Iorque da Delta Airlines, o mais previsível é que vamos ter novas quedas até ao final do ano?

Claramente que esta será a expectativa para os próximos meses. 

O Outono e o Inverno poderão ser sombrios, a não ser que arranjemos uma estratégia competitiva (via preço ou promoção, por exemplo) para contrariar a tendência que se veio a instalar este ano.

A operação da Delta confirmou que há mais mercado para os lados da América, com aviões, que cheguem e partam a tempo e horas. 

É pena que não se tenha trabalhado mais na não interrupção da operação no Inverno e que não estejamos em condições de criar nova oferta imediata dirigida àquele mercado.

Vai haver muito para ler e estudar nas estatísticas finais do turismo de Julho, Agosto e Setembro. 

As de Junho não são um bom pronúncio nem os indicadores agora publicados o serão. 

Haverá, também, que adicionar o impacto do fenómeno do alojamento local que já assume dimensão de mudança estrutural, o que justifica que se passe a publicar estas estatística numa base mensal coincidente com as da hotelaria tradicional. É um novo desafio para o SREA.

 

“Açores precisam de um resgate para pagar a fornecedores”

 

Mário Fortuna, na qualidade de Presidente da Câmara de Comércio dos Açores, declarou ontem numa entrevista à Antena 1-Açores que os Açores “precisam de um resgate entre 200 a 300 milhões de euros para pagar a fornecedores”.

De acordo com o empresário, “os pagamentos em atraso às empresas privadas por parte das empresas públicas estão a contaminar a economia açoriana. É uma epidemia!”. Adiantou ainda que há empresas públicas que devem à Segurança Social, “uma vergonha!”, declarou.

Mário Fortuna explicou também que as dívidas das empresas públicas que vão fechar serão transferidas para o Orçamento da Região, “o que vai mais do que duplicar a dívida directa da região, passando dos actuais 600 milhões para mais de 1,5 milhões de euros”.