“Hoje, a preocupação das pessoas com seus os animais é muito maior do que há seis anos”

Francisco Teves

Em plena época de crise abria, em 2012, a Clínica Veterinária de Vila Franca do Campo. Apesar do contexto inicial desfavorável, a actividade tomou um bom rumo e, nos últimos anos, só tem vindo a melhorar. É o que diz o médico veterinário e sócio-gerente do espaço, Francisco Teves, ao Diário dos Açores. Radiologia para equinos, serviço de recolha e entrega ao domicílio, ‘pet sitting’ e um hotel canino com transmissão à distância são alguns dos serviços através dos quais a clínica marca a diferença. O responsável conta como tem evoluído a mentalidade da população no que toca ao bem-estar animal, revelando ainda que o futuro do negócio passará pela expansão.

 

Diário dos Açores – Como surgiu a Clínica Veterinária de Vila Franca do Campo?

Francisco Teves (FT) – A clínica surge em 2012, fruto da ideia que tinha, desde que me formei, de ter uma actividade própria. Apesar de ter passado por outros dois locais de trabalho, sempre ambicionei ter a responsabilidade  e a mais-valia de ter a minha própria actividade. Porquê aqui em Vila Franca do Campo? Porque a dada a altura, quando já considerava abrir o meu espaço, vim morar para uma casa de família em Vila Franca e apercebi-me, depois de alguns meses, que a população solicitava-me imensos serviços, desde vacinações, a pequenas cirurgias, que muitas das vezes tinha de encaminhar para clínicas de colegas de profissão. Apercebi-me, portanto, que a realidade em Vila Franca era de alguma oportunidade. Além disso, a situação geográfica era também uma mais-valia. Apesar de ser uma zona mais rural, achei que faria sentido abrir aqui a clínica, em vez de estar em Ponta Delgada, numa concorrência mais próxima com os meus colegas.

 

Já lá vão, entretanto, seis anos de actividade. Que balanço faz desde então? Como tem evoluído a actividade?

FT – Devo dizer que, no início, foi difícil. Eu adquiri, em 2008, o lote com um edifício muito degradado, que teve de ser recuperado e todo o processo de constituição levou algum tempo a se desenvolver. Entretanto, já com o projecto montado e o lote comprado, “arrebenta” a crise – e o termo a utilizar é mesmo esse, pois foi uma espécie de bomba que nos ficou nas mãos. Cheguei a considerar vender o que já tinha adquirido, mas o que é facto é que, em termos de valor imobiliário e oportunidade de venda, não era uma boa altura e acabei por não optar pela venda. Estive mesmo muito tentado em abdicar do projecto – e ainda bem que não o fiz –, porque o contexto não era nada favorável. Todos nos lembramos de como foram aqueles anos de crise, que foi algo que a nossa geração ainda não tinha vivenciado. Era dramático ver as notícias diariamente. Portanto, abrir um negócio com zero histórico de clientes, em plena crise, altura em que os cuidados com os animais, infelizmente, não eram tidos como um bem de primeira necessidade, claro que deixou-me assustado. Fiquei muito reticente em relação ao sucesso que poderia vir a ter. 

No entanto, devo dizer que estou satisfeitíssimo com a instalação em si e com a evolução que tem tido. Começar a actividade em plena crise, acabou por resultar num balanço muito positivo. Posso dizer que estou radiante com a melhoria que temos verificado, principalmente nos últimos dois anos. A verdade é que, actualmente, não cingimos a nossa actividade apenas a Vila Franca do Campo, pois já temos clientes da ilha toda. Numa primeira fase, esse plano que tínhamos de actuar por toda a ilha não foi possível, mas nos últimos três anos já foi. Aliás, nos últimos tempos, temos andado quase sobrecarregados pelas distâncias que temos que percorrer. Em termos de viaturas, por exemplo, já adquirimos mais duas este ano para fazer face às deslocações.

 

Prestam, portanto, serviços ao domicílio?

FT – Sim. Quando os donos não conseguem se deslocar à clínica, temos o serviço de recolha e entrega no domicílio. As razões são várias: ora porque a pessoa tem uma limitação física ou clínica e não pode vir à clínica, ora porque, devido ao trabalho, não tem horários compatíveis com os nossos, ou por não terem forma de transportar o animal, se for de maior porte. Damos esta facilidade, face à dificuldade do cliente, e tem sido um serviço muito utilizado.

 

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De que equipamentos dispõe a clínica, que a diferencie de outras em São Miguel?

PT - Desde que abrimos que dispomos de um serviço exclusivo, que é a radiologia nos equinos. Somos a única clínica que faz radiologias a cavalos, pois é uma área muito específica e são poucos os veterinários que trabalham nesta realidade. Isto permitiu-nos ter alguma diferenciação, que sempre foi a nossa principal ideia. Fazemos também ecografias, electrocardiografias. Temos as máquinas de análises clínicas – hemogramas e bioquímicas. Ou seja, sempre tivemos uma série de equipamentos que nos permitiu diferenciar de outros serviços que já estavam há mais tempo instalados na ilha.

 

clínica VFCTêm também o serviço de hotel canino, com a especificidade de os donos poderem observar os seus animais à distância. Fale um pouco desta iniciativa…

PT – No início, no projecto que fizemos para a clínica, enquadrado num anterior quadro comunitário do Empreende Jovem, tínhamos que apresentar valências empreendedoras e diferenciadoras. Uma das valências que apresentamos foi então o hotel canino, em que cada canil dispõe de uma câmara ligada ao nosso site e, através da atribuição de um ‘username’ e ‘password’, os donos conseguem aceder ao canil e observar o seu animal à distância, seja dia ou noite, pois a câmara tem visão nocturna. Quem adere ao nosso hotel canino é um cliente específico, que valoriza esta visualização e esta inspecção do seu animal à distância. Desde que os donos consigam estar ligados à ‘net’, em qualquer ponto do mundo podem ver o seu cão. E vêem o melhor e o pior... Vêem se está mais angustiado ou mais activo, se está mais alegre ou mais triste. É engraçado perceber que este serviço conseguiu dar aos donos uma percepção da realidade que, por vezes, os assusta. Alguns donos já tinham deixado os seus animais em outras clínicas, mas não faziam ideia como reagia o seu animal na sua ausência. Alguns até passaram a optar pelo ‘pet sitting’, quando estão fora, por acharem mais vantajoso para o cão ficar na sua própria casa. Noutros casos, os cães reagem bem ao canil, sempre animados e a brincar, mesmo fora do seu contexto, o que deixa os donos descansados. Cada caso é um caso e as reacções dos cães são muito individuais.

 

Há muita procura pelo hotel canino?

FT – A procura é crescente. Temos clientes, inclusivamente, que fazem reservas com três a seis meses de antecedência, para as alturas do Verão, Natal, passagem de ano, Páscoa e também no Carnaval. Isto para garantir que conseguem ter o serviço da câmara à distância, que, pelo que sei, será exclusivo da nossa clínica. Entretanto, já expandimos e criamos um outro núcleo do hotel, localizado em Ponta Delgada.

 

Nota que as pessoas estão mais sensibilizadas para a necessidade de cuidar da saúde dos seus animais? Tem havido alguma evolução neste sentido?

FT – Sim, sem dúvida. Deixa-me muito agradado esta consciência e esta preocupação para com os animais, pois eles sozinhos não podem procurar ajuda. Acho que esta preocupação, pelo menos no último ano e meio, cresceu muito devido a alguns factores específicos. Por um lado, devido à recuperação económica que se vive na nossa Região e no nosso país e, por outro lado, pela influência estrangeira. Muitos turistas que nos visitam denunciam imensas situações que lhes ferem a sensibilidade. Situações que por vezes não têm nada de errado, mas que, por não estarem habituados ou por não terem qualquer contacto com a produção primária no seu país, chegam cá e ficam muito sensibilizados com, por exemplo, um vitelo amarrado. Também deparam-se com outras situações que, infelizmente, não são boas, como animais mantidos em condições que não são aceitáveis. Portanto, acho que a sensibilização por parte dos locais está a aumentar por esta influência dos turistas e também por influência das associações estrangeiras que actuam cá.

 

E o que fazem estas associações exactamente?

PT – Estas associações estrangeiras colaboram tanto no apoio a casos de animais mal tratados, como em projectos de carácter social, aos quais a nossa clínica tem-se associado desde a primeira hora. Estamos a falar de ajuda a famílias carenciadas e diversos projectos na área social, em que é feita a vacinação, desparasitação e, claro, a esterilização, que é a forma de controlo desta realidade de sobrepopulação e de animais errantes que, desde sempre, vemos em São Miguel. Aliás, em países que estão à nossa frente nesta área, já está mais do que provado que a estratégia para combater estes fenómenos passa pela esterilização. Os animais que não têm interesse reprodutivo, que são a grande maioria, devem estar esterilizados. Esta influência estrangeira – que já está muito presente na nossa ilha e nas nossas clínicas – fez evoluir a nossa mentalidade neste aspecto. 

 

clínica4De que forma a Clínica Veterinária de Vila Franca do Campo colabora com estas associações? 

PT – Desde o início que a clínica trabalha com associações protectoras dos animais. Pouco meses após entrarmos em actividade, procurou-nos uma presidente de uma associação alemã – que, entretanto, criou uma segunda associação para actuar especificamente na ilha de São Miguel, a Tierhilfe Angel da Relva -, a solicitar ajuda para recrutar um animal nas piores condições na Rocha da Relva. Outras clínicas não mostraram abertura para ajudar, mas nós tínhamos disponibilidade e alinhámos em lá ir. Reconheço que, na altura, fizemo-lo por termos ainda pouco trabalho, mas a verdade é que daí nasceu uma relação muito boa. Actualmente, já existem várias associações estrangeiras a recolher fundos e a encaminhá-los para São Miguel para apoiar, quer causas sociais, quer campanhas de esterilização, de sensibilização ou de adopção. Há muitos animais a serem recolhidos de centros de recolha oficial por estas associações, que são colocados nas clínicas veterinárias onde é dado seguimento a todo um processo de preparação até os animais serem encaminhados para uma família adoptiva no estrangeiro. Geralmente são enviados para a Alemanha, mas não só. De modo geral, tem sido muito interessante colaborar com estes projectos e sinto que demos um salto cultural muito importante na nossa comunidade. Hoje, a preocupação das pessoas com seus os animais nas nossas consultas é muito maior do que há seis anos.

 

Tem conhecimento do número de animais de cá que, anualmente, são adoptados no estrangeiro?

FT – Tive acesso a informação relativa ao ano passado, no concelho de Ponta Delgada, e tenho ideia que foram encaminhados para o estrangeiro cerca de 600 a 800 cães. Geralmente, são adoptados no estrangeiro mais cães do que gatos. Estamos a falar de cães que saíram do Centro de Recolha Oficial (CRO) de Ponta Delgada, que é o que mais movimento tem. Se juntarmos os outros CRO da ilha, é possível que o número chegue aos 1000 cães enviados para outros países.

 

Em 2022 vai entrar em vigor a lei do ‘abate zero’ nos Açores. Qual é a sua opinião sobre esta questão? A Região vai estar pronta para dar este passo?

FT – Ainda temos algum tempo, mas o meu receio é que, até lá, não tenhamos conseguido esterilizar o número de animais suficiente para que os animais errantes ou abandonados sejam comportáveis pelos CRO. Devo dizer que os três centros que conheço têm, hoje em dia, muito boas condições, nomeadamente os da Lagoa, Ribeira Grande e Ponta Delgada, mas é preciso que haja a devida estratégia associada à nova lei. Por um lado, a identificação e por outro a esterilização: a identificação para responsabilizar um detentor, por ter perdido ou abandonado o animal, e a esterilização para que não haja reprodução e, em consequência, sobrepopulação. Se não conseguirmos ter sucesso, na Região, nestas duas condições, chegaremos a 2022 com uma dificuldade enorme em comportar os animais nos CRO. Os canis não terão capacidade para acolher todos os animais. 

 

Como é que olha para o futuro da Clínica? Estão previstos novos investimentos?

FT – A clínica teve uma expansão muito fogaz e interessante, com a abertura de um consultório nos Arrifes. Esteve aberto durante cerca de um ano e meio, mas pela dificuldade de alocar mais um elemento para o espaço e, também, pelo facto de a colega que lá estava ter regressado ao continente, ficamos sem meios de manter o consultório aberto. Isso frustrou algumas expectativas de clientes nossos da zona de Ponta Delgada, pelo que a empresa tem considerado voltar a expandir. A clínica de Vila Franca, no meio em que está inserida, está estabilizada e não tem muito mais por onde crescer. Mas temos tido muito trabalho, fruto das várias parcerias que temos com associações e, dada a distância geográfica da clínica da zona onde essas parcerias nascem (Ribera Grande e Ponta Delgada), temos chegado à conclusão que a melhor estratégia é criar uma subunidade da clínica deslocada de Vila Franca. Ainda não há decisões, mas estamos a estudar esta hipótese. Já de modo geral, devo dizer, para concluir, que as nossas clínicas veterinárias em São Miguel, em termos médios, estão muito bem equipadas e a satisfação do cliente está acima da média nacional. Nós, médicos veterinários, estamos todos de parabéns. Os delegados de laboratórios e de fornecedores que nos visitam reconhecem que, em termos de equipamentos, estrutura e dimensão das clínicas, temos cá uma média muito superior à média nacional. Penso que a nossa população está muito bem servida.