As tarifas aéreas inter-ilhas têm de baixar!

O movimento aéreo no Aeroporto de Ponta Delgada, numa análise muito superficial, parece não ter abrandado grandemente, embora só as estatísticas mensais o possam comprovar.

Quem se recorda do ambiente taciturno de Ponta Delgada, mal terminavam as férias de agosto, nota uma diferença abismal nas artérias citadinas, infelizmente, só ocupadas por visitantes.

Embora noutra dimensão, tem-se registado também uma apreciável presença de estrangeiros nas outras ilhas. Não como seria de esperar, mas os indiciadores assinalam que algo está a mudar. 

Há quem atribua o aumento da procura pelo destino Açores às transportadoras de baixo custo e ao abaixamento das tarifas que as companhias de bandeira, nos voos regulares, foram obrigadas a praticar. Não terá sido só isso, certamente. 

A visibilidade que os Açores passaram a ter nos media internacionais, promovidos como destino de singulares belezas naturais e ambiente invulgar, situado no meio do Atlântico Norte entre o velho e o novo mundo, facilita o acesso aos turistas com poder de compra médio e a permanência de alguns dias em entre nós. Numas ilhas mais que outras, certamente.

Acresce que os pacotes turísticos têm sido atraentes, pelo que as entidades responsáveis do setor percebem, minimamente, que não podem desbaratar a “galinha dos ovos de ouro”, sob pena de gerarem danos aos cofres das empresas que investiram no ramo. E são muitas, sobretudo de pequena dimensão.

No fulcro do dinamismo deste setor económico estão os transportes inter-ilhas.

Esta semana, o PSD-Açores reclamou o abaixamento do tarifário da SATA inter-ilhas para residentes, para o máximo de 90€. 

Não sei em que estudos económicos se baseou aquele partido. Espero, todavia, que a reivindicação seja justificada e bem fundamentada, para que os açorianos, sobretudo os que têm de deslocar-se a São Miguel, à Terceira ou ao Faial em viagens de negócios, para cuidados de saúde, ou para visitarem as famílias, acreditem na proposta e lutem por ela.

Segundo fonte da SATA, as atuais tarifas aéreas normais(1) de residentes, variam, nos percursos de ida e volta, entre os cerca de 90€ nos trajetos: S.Miguel/S.ta Maria, Terceira/Graciosa e Flores/Horta, e os 120€ nos restantes trajetos: S.Miguel/Pico ou Faial, S.Miguel/Terceira, Terceira/Pico ou Faial, S.Miguel/Flores ou Corvo e Terceira/Flores ou Corvo.

Estamos a falar em distâncias menores que outros destinos de médio e longo curso para os quais pagamos tarifas mais baixas.  

Estas discriminatórias diferenças agravam, indubitavelmente, o custo de vida na maioria das ilhas, como prova o estudo do INE relativo a 2015, e que constitui um obstáculo à fixação das populações.

O abaixamento do IVA e do IRS nos Açores, quando foi consagrado estatutariamente, visava compensar os açorianos pelas dificuldades da insularidade. No entanto, constata-se que só os residentes nas ilhas mais populosas e com melhores acessos de transportes estão a beneficiar desse desagravamento. Assim não há uma justa e equitativa cobrança de impostos. Pelo contrário. Com produtos mais caros nalgumas ilhas, agrava-se o IVA pago pelo consumidor e baixa o seu poder de compra, dificultando ainda mais a vida de largos milhares de açorianos, muitos dos quais, vivendo com pequenas pensões. 

É por isso que é imperioso que as tarifas da SATA baixem. Facilitar-se-ia assim a deslocação inter-ilhas dos açorianos, naturais das Flores, do Corvo, de Santa Maria, Pico, São Jorge e Graciosa que, ao longo de décadas se viram obrigados a procurar emprego nas três ilhas com capitais de distrito e por lá ficaram, como se de emigrantes se tratassem. Para já não referir a necessidade de incrementar o comércio interno. 

Agora que gozam a última etapa da vida, com reformas reduzidas, só têm meios para regressar “a casa” no Verão, graças ao baixo tarifário dos ferries,  que lhes permite matar saudades dos tempos de infância e cuidar das heranças familiares.

Oxalá os governantes entendam estes considerandos como justificações suficientes para alterar as tarifas elevadas que nos impedem de regressar as vezes que gostaríamos à ilha-mãe.

Os argumentos aqui invocados podem não ter consistência empresarial e económica, mas as decisões políticas devem responder às aspirações das populações e os governos servem para isso. 

Os argumentos aqui expressos são os que ouvimos das pessoas que sofrem na pele o isolamento que vai corroendo a estabilidade e saúde das populações. 

Esta é que é a verdade.

 

1) Há tarifas inferiores ou promocionais, mas com penalizações caso haja alteração do voo.

 

*Jornalista c.p. 536

http://escritemdia,blogspot.com 

Viagens no Tempo - As revoluções

Decorrem cem anos sobre a revolução russa de Outubro de 1917.

Segundo o espírito prudente de Eça de Queirós, as revoluções, apesar de ocorrer algum desmando, trazem sempre algo de bom: o povo respira novos ares de mudança, liberta-se de um regime bolorento, desfasado das novas ideias e sai às ruas feliz.

Porém, Eça morre em 1900 e, se sobrevivesse, teria uma opinião bem diferente acerca da revolução bolchevique.

   Derrubar o regime autocrático do imperador Nicolau II, aceitar-se-ia a mudança, mesmo o desterro para a longínqua e inóspita Sibéria. Contudo, Lenine receava a admiração de muitos russos pela causa imperial e optou pelo assassinato de toda a família.

   Com a morte do mentor da revolução, em 1924, e a subida de Stalin, por quem Lenine não morria de amores, o descalabro foi total, ante a carnificina da primeira guerra mundial e a deserção de milhares de soldados.

  Stalin, agora senhor incontestado da Rússia soviética, depois de deportações e assassínios em massa, detinha um enorme poder para pôr em prática a teoria socializante de Carl Max, um teórico alemão. É óbvio que da teoria à prática, há um vazio de conceções que tenham consistência. E daí resultou, em desastre, todos os domínios da produção agrícola e a consequente fome do povo russo.

   Os anos foram passando com novos senhores, a seguir às depurações de Stalin, até que Gorbatchev, ciente das incoerentes políticas em vigor, desabotoou um novo rumo se abertura (Perestroika) para a pátria russa, conferindo-lhe a indispensável transparência (Glasnnost).

Atualmente, e depois da desintegração do império soviético, a nação tem outros desígnios – a ordem e a paz social.

Em remate, os impérios, em todo o curso da história, ostentaram arrogância e o destemido desafio de afrontar outras nações, com alianças altivas, como foi o conflito bélico da Segunda Guerra mundial.

Será que os homens vão entender que a paz é filha do respeito mútuo entre os homens, sem afrontar a dignidade dos seus semelhantes? É o que se espera dos políticos e de todos aqueles que detêm o poder democrático, com todas as suas ambiguidades.

Tenhamos esperança de ver surgirem soluções que vão ao encontro das mais merecedoras aspirações, pois que a humanidade tem de ser poupada a essas tremendas calamidades.

 

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A guerra

Sermão do Padre António Vieira

 É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre que leva os campos, as casas, as vilas, as cidades, os castelos, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que ou não se padeça ou não se tema, nem bem que seja próprio e seguro: – o pai não tem seguro o filho; o rico não tem segura a fazenda; o pobre não tem seguro o seu suor; o nobre não tem segura a sua honra; o eclesiástico não tem segura a imunidade; o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus, nos templos e nos sacrários, não está seguro.

 

A cidade rejuvenesceu com a reabertura do histórico CAFÉ CENTRAL

Se tentar ainda reavivar no meu espirito o que era o centro histórico de Ponta Delgada que conheci há mais de 80 anos, lembro-me de existirem ainda (mas poucos), alguns estabelecimentos daquela época – precisamente no mesmo local onde foram inaugurados – que continuam a relembrar o que foi a continuidade duma vida social e comercial mais que centenária  que muito contribuiu para valorizar e animar o progresso citadino. Por isso, cada um desses emblemáticos edifícios constituem, ainda hoje, um elemento histórico e até etnográfico que muito nos honra e que não é vulgar noutras partes, mesmo tendo em conta a natural  alteração que o progresso, num  curto espaço de tempo, foi capaz de alterar a sua configuração.

Daí que muito se  tem escrito, aqui e noutras partes, sobre a necessidade de acautelar a manutenção desse valor patrimonial; mas não há dúvida que, como actividade particular que é, só terá essa expressão de continuidade se houver alguém com deliberado “espírito de perseverança” que seja capaz de o conseguir. 

Enquanto estive na Comissão Municipal de Toponímia cheguei a recolher alguns dados históricos sobre as nossas antigas e actuais firmas comerciais, no intuito de que um dia talvez pudesse transmitir às gerações vindouras um pouco da sua história e do seu consequente valor económico… mas como o destino às vezes nos trás contratempos que estamos longe de os saber enfrentar, o “estudo” aguarda uma nova oportunidade.

Talvez para despertar desse estado de alma, tentei agora trazê-lo ao de cima por via dum recente acontecimento que Ponta Delgada acaba de viver, com a “reabertura” há dias, do histórico CAFÉ CENTRAL, sempre  situado em pleno coração da cidade, mas agora sob a nova gerência das organizações do “ GRUPO  ANJOS”, o que felizmente permitiu que a cidade retomasse aquele ar cosmopolita e de encontro fraterno a que nos habituáramos. 

Inaugurado em Outubro de 1934 pelo prestigiado e saudoso comerciante José Matias Tavares, possuidor da experiência e do saber adquiridos nos anos em que exerceu a gerência do Café Royal, soube ao longo de muitos anos impulsionar com inexcedível rigor e competência um inovador serviço de cafetaria que Ponta Delgada já então há muito reclamava, seguindo uma outra iniciativa  a nível da restauração.

 Ao mesmo tempo foi criando os primeiros “ self-services” para casamentos e outras festas particulares, num poder de modernidade só comparável ao que já existia em Lisboa e noutras grandes cidades, inclusive o Funchal.

Na continuidade desse arrojado serviço de cafetaria e de restauração, construiu, anos depois, o modelar Salão “A Barcarola”, no andar superior ao Café, onde acolhia, com elevado requinte, jantares de aniversário e ainda outros convívios para assinalar acontecimentos de relevo da vida comercial e social da cidade.

Segundo se pode deduzir das “Escavações” do investigador José Torres, o Café Central já renasceu, com este mesmo nome, das ruinas dum outro destruído, nos finais do século XIX, por um incêndio, por sinal situado no mesmo local e onde diziam os mais antigos, ser lugar de encontro, por vezes “ruidoso” da marinha de guerra americana que demandava o nosso porto durante a 1ª guerra mundial…

José Matias Tavares devia ser um homem de grande sensibilidade artística, pois desde sempre o “seu” café obedeceu a características de construção muito ligadas à arquitectura local e nacional, a começar pelo primeiro arquitecto que o concebeu, Jorge Segurado e às históricas pinturas que guarneciam as suas paredes interiores, da autoria de Domingos Rebelo.

Por outra informação que consegui colher, talvez nos finais dos anos 40, o Café Central sofreu novas alterações na sua arquitectura interior, então da autoria do grande Mestre Raul Lino, o que só por si poderia ter sido sinalizado como um “monumento regional”… 

Seguiu-se a construção de “ A Barcarola”, então sob direcção do arquitecto D. Luís de Melo.

A todo este empreendedorismo, ainda se destaca a criação dum bem organizado serviço de bilhares, que era no meu tempo do Liceu (já lá vão quase 75 anos), um dos mais frequentados lugares de lazer dos alunos do Liceu, nas horas vagas - mas com horários  rígidos, para abrir e fechar - sempre sem direito a qualquer contestação…

Outra grande iniciativa que a cidade ficou a dever ao Café Central foi a produção e venda de gelados, que creio o sr. Matias chegou a ir pessoalmente aprender a arte de os confeccionar aos Estados Unidos, guardando onde só ele sabia a forma de os conceber…

Ainda rapaz, recordo as tardes de domingo no Campo de S. Francisco, onde um grupo de rapazes, vestidos a rigor vendiam esses afamados gelados ( e não eram nada baratos para o tempo…) num pregão constante que fazia as delícias de uns e deixava crescer “águas na boca” a muitos outros:

- Gelados do Café Central!

Ice creem… Ice creem…

O Café Central e o “ canto” do Clube Micaelense foram lugares de eleição da academia do Liceu. Era o que pode chamar-se o “ponto de mira” onde rapazes e raparigas trocavam entre si um dos primeiros e sempre fugidios olhares amorosos; e onde também se firmaram namores que chegaram ao casamento …

O Café Central, como os demais que existiam na cidade, era um lugar de agradável convívio, mas este, pelo seu porte e tradição de serviço, acolhia mais uma sociedade muito eitista, de modo que não era fácil estacionar ali por muito tempo…

Nisso o senhor Matias era um bom “guardião” . Falava pouco, mas agia rapidamente…, de modo que nós dispersávamos pelo passeio que confrontava com a Casa dos Irmãos Cavaco e, por vezes, junto à montra da Papelaria do senhor Travassos, mas aí só se não havia estrangeiros a circular na baixa… pois como ele dizia “era o dia do seu negócio!”.

Bons tempos!

Que o “Grupo Anjos” seja feliz nesta sua nova aposta comercial, de modo a que o CAFÉ CENTRAL desenvolva o continuado espírito de inovação e de confraternização que já fazia falta à cidade, de modo a servir os de cá e quem nos visita num serviço que aproxime sempre e cada vez melhor os seus clientes.

Ponta Delgada, merece-o!

Chegam alarmes da periferia

“Os processos de envelhecimento e despovoamento parecem  tornar-se irreversíveis e não vejo que inquietem deputados, governo, municípios e outras entidades do saber e da cultura. Instalados nas cidades, onde se vive melhor e o Estado Social dá melhores respostas, devemos estar atentos aos sinais de alarme que chegam da periferia, prejudicada pelo afastamento e por um crónico abandono.”

 

A divulgação do estudo do INE sobre o poder de compra nos 308 concelhos portugueses vem demonstrar à evidência que, quanto mais populosos são os concelhos, as cidades e as regiões do país, maior é o poder de compra dos seus habitantes.

O estudo merece, certamente, uma análise cuidada nas universidades, nos gabinetes governamentais e de quem promove o investimento público e privado, pois nele se revelam dados relevantes sobre o índice de dinamismo das populações. 

Se é certo que empresários e investidores apostarão mais nos municípios e centros urbanos onde há maior concentração populacional, maior poder de compra e mão-de-obra tecnicamente preparada, as universidades farão análises mais científicas, escalpelizando os porquês da concentração urbana e do despovoamento do interior e, no caso açoriano, a debandada dos jovens de concelhos e ilhas mais ultraperiféricas; apresentarão as vantagens de certos investimentos para a criação de emprego e riqueza, e as desvantagens do envelhecimento de ilhas e concelhos, do abandono de terrenos agrícolas e florestais e das dificuldades em fazer chegar aos recantos mais distantes os serviços do Estado a que qualquer cidadão tem direito. 

Este é o dilema constante da Região, porque tem a ver com a igualdade de oportunidades dos cidadãos, consagrada na Constituição. 

É positivo saber que o indicador per capita do poder de compra no concelho de Ponta Delgada rondava, em 2015, os 105,50 igualando-se a Braga e Portalegre. Mas é negativo constatar a diferença abismal entre aquela posição e os concelhos de Lisboa (214), e do Porto (161), valores muito distantes entre si. 

Esta penalização que gera fenómenos migratórios perigosos para os Açores no seu todo, e para cada ilha em particular, atinge também a ilha de São Miguel. 

Há um enorme fosso entre o poder de compra dos habitantes do concelho de Ponta Delgada (105,50)(1) e os do Nordeste (62,69), de Vila Franca do Campo (62,99), Povoação (65,89) e da Ribeira Grande (69,53). 

A situação é alarmante porque estes são também os quatro concelhos com as mais baixas percentagens de poder de compra dos Açores. Pior que os florentinos (79,82), corvinos (74,25), graciosenses (72,07), picoenses (79,79) e jorgenses (77,54). 

Uma das razões pode estar na reduzida população daquelas ilhas e na existência de profissionais qualificados nas áreas do ensino e da saúde, com salários acima da média da função pública. 

O problema, porém, deverá agravar-se, se nãda fôr feito. 

Atendendo ao evidente decréscimo da natalidade, à migração de muitos jovens, à diminuição do emprego, ao despovoamento, e ao envelhecimento da população, tudo se irá alterar, se nada for feito para suster e contrariar o plano inclinado em que se encontram vários concelhos insulares.

A antiga concentração da população nas três ex-capitais de distrito é um erro histórico do nosso processo de desenvolvimento, o qual continua a gerar graves dificuldades às zonas mais periféricas.

Descentralizar e relocalizar serviços da administração pública - a maior empregadora regional -, conceder incentivos fiscais e captar investimentos, é a única solução para combater a situação económica e social, que implica também a revisão do Estatuto político-administrativo e a reforma da administração pública. Não se pretende o aumento de funcionários públicos, mas respostas de proximidade e atempadas, com técnicos ligados às áreas económicas e sobretudo à saúde, para melhorar a produção, os rendimentos e o poder de compra e o bem-estar dos cidadãos.

Os processos de envelhecimento e despovoamento parecem  tornar-se irreversíveis e não vejo que inquietem deputados, governo, municípios e outras entidades do saber e da cultura.

Instalados nas cidades, onde se vive melhor e o Estado Social dá melhores respostas, devemos estar atentos aos sinais de alarme que chegam da periferia, prejudicada pelo afastamento e por um crónico abandono.

Porque estou certo que não é esta a Região e o Arquipélago que terão futuro, importa que todos, unidos, encetemos uma nova via do desenvolvimento.

Respingos - Pico

O Pico. A Ilha onde nasci, vivi os primeiros anos e, depois, os anos mais que Deus me tem dado. Mas nunca deixei de viver no Pico, quer estivesse ausente por dias, semanas, meses ou anos. É uma ilha que está sempre presente no meu espírito, no melhor do meu ser. 

Mesmo ausente da terra, os seus projectos, os seus problemas, as suas iniciativas, o seu progresso vivem comigo.  Recordo os meus anos de juventude, cujos estudos me afastaram meses seguidos da terra… Como era enleante subir aquele magnífico monte que defende a cidade e ver ao longe o pico do Pico. Que nostalgia… que saudades da terra. Que desejos tinha de atravessar o mar imenso que nos separava e vir somente, por um instante que fosse, pisar as “pedras negras “ do Pico. 

Ainda agora é a soberba montanha que, ao amanhecer, vigio da minha janela, para que me indique o estado do tempo que vamos ter. E lá no alto, no cimo do pico do Pico vejo a direcção das nuvens… os reflexos do Sol nascente… as nuvens encapeladas… tudo indicativo do tempo que vamos ter...  E o poente do Astro Rei?!... 

Deixem-me que escreva, hoje, prosa solta, talvez sem nexo, somente para exaltar a beleza maravilhosa deste Pico que um dia remoto, que a História não registou, emergiu das salsas ondas para ficar no meio deste Atlântico. 

O marinheiro e o agricultor, de madrugada, quando saíam do leito e espreitavam o tempo para um novo dia de trabalho, era pelo rodar das nuvens ao redor da montanha, que sabiam o tempo que os esperava: Lã crameada, chuva grada; raivas no poente, coze massa e mete gente; raivas no nascente, toca os bois e anda sempre. E tantos mais que a sabedoria popular criou e utilizou durante tantas décadas...

Mas o Pico é mais do que o barómetro natural que os naturais sabem observar e “ler”.

É, igualmente, inspiração poética para muitos que deixaram, ao redor dos tempos, poemas maravilhosos que, ainda hoje, são o encanto de quantos nele se inspiram.

Recordo Manuel de Arriaga (não discuto, por agora, a naturalidade, e podia fazê-lo…) amante do seu Pico, como tantos outros e lembro somente o saudoso Doutor José Enes, (1) com o excelente poema ao Pico, que outro saudoso picoense, o maestro Emílio Porto, inspiradamente musicou. 

Fico-me pelos poentes outonais que os pintores estrangeiros e vários são os que por aqui têm passado, aproveitam para deixar impressões em suas telas artísticas.

Nunca subi à maravilhosa montanha. Um dia, por acaso, em que tive a ventura de viajar num avião da SATA, ao aproximar-se do Pico, uma hospedeira de bordo anuncia que o Comandante ia mostrar aos passageiros um espectáculo inédito: O pico do Pico. E fê-lo de maneira distinta fazendo o avião circular sobre o “eirado” e dando a volva ao Pico. Naturalmente, nós os passageiros que viajávamos da Terceira para o Faial, ficámos maravilhados com o espectáculo que não mais se me foi dado apreciar. Ao longe, a Terceira, e depois: a Graciosa, São Jorge, o Faial e o Pico… a nossos pés. Noutra ocasião, e foi só, Minha Mulher, de saudosa memória, e eu, viajávamos quase madrugada ainda, de São Miguel para o Pico. Ao aproximar-se o avião (SATA) da Ponta da Ferraria, quando se preparava para deixar S. Miguel e sobrevoar o Atlântico, Minha Mulher chama-me a atenção para o que via no horizonte, a Oeste: O Pico do Pico, um triângulo bem definido sobre o Oceano. Uma maravilha que desapareceu quando a aeronave fez rumo à Terceira. Depois só vim a descobrir entre nuvens o meu Pico, quando me aproximava da minha ilha. Fenómenos maravilhosos!

Fenómenos que não se repetem…

 

Lajes do Pico - Capital da Cultura da Baleia 

 

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