Leituras e Escritas do Mundo (II) - (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus

O Papa Francisco tem dado Lições ao Mundo e aos líderes políticos. Ele, sim, tem feito as leituras corretas das escritas, umas boas outras más, deste Mundo em que vivemos e que vivemos. Interpelando a Europa, o Papa Francisco formula várias questões. E nesta linha são tão oportunas e certeiras as questões formuladas pelo Papa Francisco:
“Que te sucedeu, Europa humanista, paladina dos direitos humanos, da democracia e da liberdade? Que te sucedeu, Europa terra de poetas, filósofos, artistas, músicos, escritores? Que te sucedeu, Europa mãe de povos e nações, mãe de grandes homens e mulheres que souberam defender e dar a vida pela dignidade dos seus irmãos?” [itálico nosso] (Papa Francisco, no seu Discurso de Agradecimento, proferido na Sessão em que lhe foi entregue o Prémio “Carlos Magno, na Sala Régia, 6 de maio de 2016”).
O Papa continua a sua reflexão, da qual extraímos, apenas, alguns excertos, de um Discurso que muito nos ajuda a pensar humanamente a Europa e o Mundo. De seguida, citamos aspetos do pensamento do Sumo Pontífice, que, por si, nos faz meditar profundamente, com sentido retrospetivo e prospetivo, em Horizontes de Futuro.
“(…)
 “A criatividade, o engenho, a capacidade de se levantar e sair dos seus limites pertencem à alma da Europa. No século passado, ela deu testemunho à humanidade de que era possível um novo começo: depois de anos de trágicos confrontos, culminados na guerra mais terrível de que se tem memória, surgiu – com a graça de Deus – uma novidade sem precedentes na história. As cinzas dos escombros não puderam extinguir a esperança e a busca do outro que ardiam no coração dos Pais fundadores do projeto europeu. Estes lançaram os alicerces dum baluarte de paz, dum edifício construído por Estados que se uniram, não por imposição, mas por livre escolha do bem comum, renunciando para sempre a guerrear-se. Finalmente, depois de tantas divisões, a Europa reencontrou-se a si mesma e começou a edificar a sua casa.
(…)
Continua o Papa Francisco:
“O escritor Elie Wiesel, sobrevivente dos campos nazistas de extermínio, dizia que hoje é de importância capital realizar uma «transfusão de memória». É preciso «fazer memória», distanciar-se um pouco do presente para ouvir a voz dos nossos antepassados. A memória permitir-nos-á não só de evitar cometer os mesmos erros do passado (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 108), mas dar-nos-á acesso também às conquistas que ajudaram os nossos povos a ultrapassar com êxito as encruzilhadas históricas que iam encontrando. A transfusão de memória liberta-nos da tendência atual, muitas vezes mais fascinante, de forjar à pressa, sobre areias movediças, resultados imediatos que poderiam produzir «ganhos políticos fáceis, rápidos e efémeros, mas que não constroem a plenitude humana» (ibid., 224).
Por isso, - continua o Papa – “será útil evocar os Pais fundadores da Europa. Eles souberam procurar estradas alternativas, inovadoras num contexto marcado pelas feridas de guerra. Tiveram a audácia não só de sonhar a ideia de Europa, mas ousaram transformar radicalmente os modelos que provocavam apenas violência e destruição. Ousaram procurar soluções multilaterais para os problemas que pouco a pouco se iam tornando comuns.”
(…)
Referimos, para terminar, as seguintes afirmações do Papa Francisco:
Esta transfusão de memória permite inspirar-nos no passado para enfrentar corajosamente o complexo quadro multipolar dos nossos dias, aceitando com determinação o desafio de «atualizar» a ideia de Europa; uma Europa capaz de dar à luz um novo humanismo baseado sobre três capacidades: a capacidade de integrar, a capacidade de dialogar e a capacidade de gerar.
(…)
As raízes dos nossos povos, as raízes da Europa foram-se consolidando no decurso da sua história, aprendendo a integrar em sínteses sempre novas as culturas mais diversas e sem aparente ligação entre elas. A identidade europeia é, e sempre foi, um dever para com todos. Sonho uma Europa da qual não se possa dizer que o seu compromisso em prol dos direitos humanos constituiu a sua última utopia.”
Papa Francisco, no seu Discurso de Agradecimento, proferido na Sessão em que lhe foi entregue o Prémio “Carlos Magno, na Sala Régia, 6 de maio de 2016”).
Talvez fosse tempo – caros ouvintes – de ouvirmos uma canção tão bonita, intemporal, “We are the World” – “Nós somos o Mundo”. E a Europa é Mundo e mundos no Contexto do Mundo. (momento musical, letra e música).
Desafiamos a nossa reflexão na História e em relação à História.
E com a história o que se aprende? Em parte já o dissemos: Nada, rigorosamente nada, quando nos falta memória e capacidade de aprender com os erros, nossos e alheios. Mas os contextos mudam, transformam-se. O que podemos, então, fazer, se os protagonistas mudam, cometendo os mesmos erros? Sendo protagonistas de nós próprios, uns “ilustres desconhecidos” para o humano mas uns ilustres conhecidos para Deus e para o Universo, para o Mundo. Deus sempre nos chama pelo nosso próprio nome. Para onde quer que vamos estamos condenados a estar com Deus, nas alturas e nos abismos, nos montes e nos vales. Somos o nosso nome imemorial, que Deus docemente chamou. Vivemos, talvez sem disso termos uma consciência nítida, a “Nostalgia de Deus”.
No Livro Segundo Isaías, podemos ler, em signo de “Missão”: “Ouvi-me, habitantes das ilhas, prestai atenção, povos de longe. Quando ainda estava no ventre materno, o SENHOR chamou-me quando ainda estava no seio da minha mãe, pronunciou o meu nome” (Is, 49, 1).
Num tempo de Solidão, de tantas formas de Solidão, fazemos a pior das solidões, expulsamos o Deus Humano que há em nós. Tiradas as vísceras, o que fica, em humanidade de ser? Quem nos chama? Quem chama pelo nosso nome? De quem esperamos? Em que depositamos confiança? Estamos num humanismo de lama, de alienação, sem um toque divino ou um toque humano.
Precisamos do humanismo cristão numa civilização que faz da laicidade - necessária - um pretexto para um laicismo inóspito que legitima, indiretamente, fundamentalismos muito perigosos. Veja-se o que se passa na Europa e no Mundo. O ceticismo corrói, a crença acrítica expõe-nos aos lobos e inimigos. E hoje esse exame radical - que vai à raiz - é condição para resgatar. Só o Olhar Generoso de Deus nos pode salvar e regenerar. Também a essa Luz podemos ler o Livro do Papa Francisco: O Nome de Deus é Misericórdia.
Quem pensava, em primeiras impressões, apressadas, que o Papa Francisco vinha para facilidades e facilitismos, enganou-se redondamente. Este Papa tem dado vários murros no estômago da Humanidade e das Instituições, sem deixar de confrontar a própria Igreja católica consigo própria, no seu lado humano, com severos avisos e críticas, em tom de generosidade e de autocrítica.
Quem tem legitimidade de atirar a primeira pedra? Mas quem pode exercer a sua atividade profissional - ou o seu múnus - se não souber decifrar o sentido do seu Magistério e Ministério, seja ele qual for? O que importa não são os doutores da lei mas a Mensagem Salvífica, o Espírito, deixarmo-nos surpreender pela realidade da Vida, ajuizando de modo ponderado, sem precipitações, sem acenar com a maldade do institucionalismo. O legalismo e regulamentalismo é próprio dos medíocres e do poder despótico, por mais aparentemente democrático e legítimo que possa parecer. O que importa é o espírito da lei, o que importa é a lei do coração, do perdão e da misericórdia.
[…].

Nota: Este texto é uma parte do Texto Integral lido no 1º Programa Leituras e Escritas do Mundo, da autoria do próprio, proferido na Rádio Atlântida, no dia  02 de abril deste ano de 2017, sobre o tema geral  (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus. O Programa encontra-se disponível, na íntegra, para audição, no Arquivo Digital (PODCAST) da Rádio Atlântida.


*Doutorado e Agregado em Educação e na Especialidade de Filosofia da Educação 



Leituras e Escritas do Mundo (I) - (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus

O Mundo que aí está é inóspito, onde é muito desagradável morar e habitar. Um mundo de violência, de muitas formas de violência, de terrorismo, de muitas formas de terrorismo. Mas não chegámos aqui por acaso, há causas, há razões. Todos e cada um são responsáveis. Uma Sociedade, uma Instituição, qualquer organismo humano, é, ou não é, o que as pessoas que aí habitam ou trabalham são ou não são. Já os gregos, na época clássica, o viram e disseram com nitidez.
Como intervir neste nosso Mundo, tão violento, agressivo, cheios de incertezas, mudanças permanentes, imprevisibilidade onde parece que os valores maiores desapareceram e desapareceu o sentido do Sagrado, que se deve ou pode conciliar com a “laicidade sadia”, na expressão de Bento XVI, num livro da sua autoria intitulado “Aprender a acreditar”.
E hoje há uma fratura entre fé e razão e há várias formas de descrença. Em que é que as pessoas acreditam, em que acreditamos? E será que acreditam? Há uma grave crise de confiança e de credibilidade que atinge o plano económico, financeiro e moral. As pessoas já não são de confiar nem de fiar. Antigamente dava-se fiado porque as pessoas acreditavam umas nas outras e a Palavra tinha valor. Eis a maior crise de todas, a crise da Palavra e na palavra. Não basta argumentar, é preciso fazê-lo com e em valores. E mais do que argumentar, é preciso comunicar e mais do que comunicar é preciso falar. Sobre estes temas poderíamos citar vários autores. Cito o Professor Doutor José Enes, que tanto escreveu sobre a Palavra, o ato de expressar, o Pensamento e a Linguagem. No livro à Porta do Ser (1969) – livro atualíssimo, cheio de futuro - afirma José Enes: “O pensamento conduz à fala como quem conduz o ânimo humano à própria casa. […]. O pensamento, por conseguinte, é essencialmente falante. Sendo assim, segue-se, também, da mesma essência manifestativa da fala, que o pensamento, falando a fala, fala-se a si mesmo. […]” (Enes, 1969, 28 – 29).
Onde está na Sociedade e no Mundo a coragem de pensar?, a coragem do pensamento, da verdade de o manifestar? Traindo o pensamento e a sua manifestação verdadeira o ser humano trai-se a si mesmo e vai criando uma Sociedade de mentiras e de enganos. O Mundo – nas suas várias dimensões e manifestações – não pode avançar com paralíticos do pensamento, nem, em termos metafóricos, com dislexia de pensamento, de fala e de escrita, sublinho, em termos metafóricos. Por isso diz o provérbio: “a boca fugiu-lhe para a verdade”. Essa é a sina e o fado do homem, do ser humano, comprometer-se, em verdade, no que diz e faz. Por isso são muito importantes os discursos. E, todavia, em certos universos político-partidários as pessoas desconfiam deles, pura e simplesmente não acreditam neles. Há muito para regenerar, em valores, nos discursos humanos. Tudo é texto e contexto. É preciso fazer leituras críticas, reflexivas e interpretativas do Mundo, para que ele avance, para mais e melhor.  
Saber falar – e todos sabem, se forem verdadeiros – é da maior responsabilidade e, ao contrário, com que ligeireza ouvimos falar todos os dias, com que facilidade as pessoas mentem, sem se aperceberem que ficam prisioneiras do que dizem e capturadas nas suas redes e armadilhas. Todos os dias há mais desinformação, ocultação e produção de declarações falsas e mensagens tóxicas, que envenenam a relação entre as pessoas e entre os responsáveis – sempre transitórios – das nações e povos. E saber como João Paulo II sempre chamou a atenção para os direitos dos povos – de cada povo -, ao mesmo tempo, que, antes, exortava, sempre, para os direitos humanos, para os direitos da pessoa humana. Como falou da Europa, da queda do Muro de Berlim, do desmoronamento do comunismo, do que se passava em todo o Mundo, como se opôs, até ao fim, à intervenção militar no Iraque. Faleceu em 2005. Todos se curvaram perante a Figura de João Paulo II. Todos se curvaram perante a sua morte.  
Estamos em 2017.  
O que aprendemos com a História? Nada ou quase nada. E, no entanto, é à História que vamos buscar a Memória e a Luz para avançar e fazer futuro. Mas que leituras e escritas estamos a fazer do Mundo? Do nosso Mundo, desde o mais pessoal e próximo ao mais longínquo, em termos físicos. E tudo fica perto pelos meios de comunicação social e outros meios de informação, já à mistura com o falseamento da informação, em mentiras que se escondem em noções como “pós-verdade” e “factos alternativos”.  
É esse o nosso Mundo. Mas o diagnóstico e a leitura sobre o que acontece, sobre o que há, não nos impede, bem pelo contrário, de pensar e realizar outros Mundos, outros Mundos a Haver, como sonhava, com grande sentido histórico e de realidade, o Filósofo Agostinho da Silva.
E um dos graves problemas que o Mundo enfrenta é o do Ambiente, mesmo que negado pelo economicismo e politicismo mais primário e acéfalo.
Precisamos do Ambiente da Natureza e do Ambiente Humano. Precisamos de um Mundo mais Ecológico, mais Respirável.
E Deus, na Sua Bondade, no Ato Criador, Original, viu que tudo era bom. Tudo o que saiu do Seu Verbo Criador e se fez Realidade, Mundo Físico, - natural e sobrenatural - era Bom. A Criação Original de Deus é um Poema Singular e Irrepetível.  Mas onde o homem põe as mãos estraga ou tende a estragar tudo. Foi assim, em tempos primordiais, desde os Primórdios. Foi assim, é assim, no Curso da História, que se faz no Espaço e no Tempo. Nos Génesis e desde o Génesis está tudo. É preciso fazer essas leituras. Tantas e plurais. “Deus viu que isto era bom” (Génesis, 1, 11 – 12).

Na Carta Encíclica Laudato Si, Sobre o Cuidado da Casa Comum, o Papa fala para o Mundo, para crentes e não crentes.
Afirma o Papa Francisco: “A atitude basilar de se autotranscender, rompendo com a consciência isolada e a autorreferencialidade, é a raiz que possibilita todo o cuidado dos outros e do meio ambiente; “ (Francisco, 2015, p. 138). Quem não gosta de fruir de um bom ambiente natural e humano para viver? As migrações são também essa busca e os refugiados estão em êxodo, à procura da Terra Prometida, em Busca de Deus. Todos andamos - cada um à sua maneira - à Procura de Deus, da Paz, da nossa Harmonia de Ser, do Direito a ter Direitos.  
Quem educar o seu coração para a paz, rejeita a guerra e a violência como agressões e destruição. É preciso “renunciar” e abrirmo-nos ao “mistério” e à “compaixão”, talvez dos valores humanos mais profundos e mais universais. É preciso uma Educação profunda, que tenha conteúdo, sentido e seja portadora de valores.
Afirma o Papa Francisco:

“A educação ambiental deveria predispor-nos para dar este salto para o Mistério, do qual uma ética ecológica recebe o seu sentido mais profundo. Além disso, há educadores capazes de ordenar os itinerários pedagógicos de uma ética ecológica, de modo que ajudem efetivamente a crescer na solidariedade, na responsabilidade e no cuidado assente na compaixão” (Francisco, 2015, p. 139).

Para além das questões do Ambiente em relação à Natureza, há que atender – como vimos e dissemos - ao Ambiente Humano. As Sociedades, os Territórios, as Nações e Países devem expressar uma solicitude que se manifeste, manifestam, – ou não – nos rostos das pessoas. O acolhimento começa no olhar, no modo como nos vemos uns aos outros. Quem praticar a maldade deve ser punido, muito mais se essa maldade for intencional. Mas, acima de tudo, há que resgatar a Esperança, na vida pessoal e comunitária. Também em relação à União Europeia que está a passar por fases muito conturbadas, é preciso dar atenção. Se cada um puxar para o seu lado, se cada país puxar para o seu lado, poderá ficar em risco o projeto comum da Europa, fundado em valores de Democracia, de Liberdade, de Paz e Desenvolvimento. Mas a solidariedade tem de ter conteúdo e expressão concreta.
[…].

Nota: Este texto é uma parte do Texto Integral lido no 1º Programa Leituras e Escritas do Mundo, da autoria do próprio, proferido na Rádio Atlântida, no dia  02 de abril deste ano de 2017, sobre o tema geral  (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus. O Programa encontra-se disponível, na íntegra, para audição, no Arquivo Digital (PODCAST) da Rádio Atlântida.

*Doutorado e Agregado em Educação e na Especialidade de Filosofia da Educação

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A casta superior

Através da imprensa soube-se há dias que 8 pessoas acumulam atualmente em suas mãos mais riqueza que a distribuída por 3,6 mil milhões de outros habitantes do planeta. À declaração universal dos direitos humanos deveria ser acrescentado um artigo que condenasse expressamente uma tal possibilidade de acumulação, não só por ser quase nula a probabilidade de alguém se poder apossar legitimamente de uma tão grande maquia (em divisas e/ou propriedade), mas também por se tratar invariavelmente de um atentado à dignidade de milhões de seres humanos que, por via dessa acumulação, se viram entretanto atirados sem apelo para as malhas da pobreza, da fome e da doença. Tal como muito bem perguntava Almeida Garrett há mais de 150 anos: “Quantos pobres serão necessários para criar um rico?”
Mas que tipo de gente é esta, mais aquela que, logo abaixo na “hierarquia”, a vai servindo para proporcionar-lhe, partilhando-o, o acesso mais ou menos legal, mas sempre imoral e ilegítimo, às suas imensas riquezas?
Nuns casos são anónimos, noutros são conhecidos mas sempre convenientemente acompanhados dos prudentes meios de segurança e de ocultação dos seus valores pessoais e patrimoniais. Boa parte são banqueiros ou gente ligada por propriedade e/ou administração a grandes grupos económico/financeiros. Consideram-se pertencentes a uma casta superior não sujeita às regras comuns, às obrigações de cidadania ou ao cumprimento das leis vigentes. Daí que em muitos casos, direta ou indiretamente, com maior ou menor envolvimento, seja fácil aparecerem associados a atividades à margem da lei, senão mesmo abertamente criminosas. Basta-nos referir Rodrigo Rato, condenado recentemente por apropriação indevida de património bancário, Dominique Strauss-Kahn, com processos enquanto ministro da economia e depois como promotor de festas libertinas raiando o proxenetismo, e Christine Lagarde, condenada por permitir um enorme desvio de fundos públicos enquanto ministra da economia, todos eles Diretores-Gerais do FMI (permanecendo a última no cargo, mesmo após a condenação) …
Em Portugal, também cá estão. Ricardo Espírito Santo, Oliveira e Costa, Duarte Lima, Dias Loureiro, Zeinal Bava, Henrique Granadeiro, são apenas alguns dos exemplos mais ventilados ultimamente, cujos nomes estão associados a práticas de natureza ilícita e criminosa. Mas, mesmo sem o nome associado a tais práticas, exemplo do espírito de casta superior ficou bem patente no caso de António Domingues, quando este pretendeu obrigar o poder político (felizmente sem êxito apesar das vacilações) a redigir uma lei à medida que lhe permitisse evitar a declaração pública dos seus rendimentos.
Em Portugal, como no mundo, esta casta só permanece viva e ativa pelo domínio que ela ou os seus agentes são capazes de exercer sobre o poder político, mas também porque o próprio poder político quando aliado ou mesmo infiltrado pelos seus agentes se deixa dominar, ainda que a Lei Fundamental da República expressamente o contradiga. Só foi possível à casta promover no país a sangria para off-shores de 10 mil milhões, sem controlo, entre 2011 e 2014, por negligência do secretário de um governo de partidos da direita. Mas além desses 10 mil milhões, desta vez declarado, saiu do país com o mesmo destino outro tanto no mesmo período, e depois mais 9 mil milhões só em 2015. Hoje sabemos bem quantos pobres, sofrimento e desinvestimento público custaram estas transferências. Sabemos que é divisada direita facilitar a vida aos poderosos e endinheirados e impor o rigor e a abstinência aos mais fracos. Sabemos que o PS, mesmo envergonhado, também por vezes o faz.
Mas mau grado o proclamado fim das ideologias, a verdade é que esta promiscuidade ilegítima e a privatização da economia, objetivadas pela “casta superior”, não têm qualquer acolhimento numa esquerda digna desse nome.

96 anos de história e interação com o povo

Passou durante esta semana, no dia 6, o 96º aniversário da fundação do Partido Comunista Português.
Desde aquela data até hoje, nos piores e nos melhores momentos, mas sempre com intervenção influente e muitas vezes determinante nas grandes e nas pequenas etapas da história moderna portuguesa, foram e são inegáveis os persistentes laços de ação e de luta política estabelecidos entre o PCP e o povo português. Concorde-se ou não com ela, falamos de intervenção política em defesa da causa pública, isto é, no sentido mais nobre do termo, e não da política resgatada e emporcalhada por aqueles que se aproveitam das regras democráticas para aceder aos cargos públicos e institucionais colocando-os ao serviço próprio ou de interesses alheios aos da sociedade no seu conjunto.
Foi um partido que, embora ilegalizado e violentamente perseguido pelo regime fascista, não só não se dissolveu como permaneceu ativo, enfrentou o regime e, nesse combate, foi-se reforçando na clandestinidade durante mais de quatro décadas. Com a sua ação persistente, abnegada e muitas vezes heróica, em aliança com muitos outros democratas e resistentes anti-fascistas, ao lado do povo contra a opressão e a miséria, ao lado dos trabalhadores contra a exploração e pelas 8 horas de trabalho, e ao lado da juventude contra a guerra colonial, contribuiu decisivamente para o sucesso do golpe militar dos heróicos capitães que derrubou a ditadura em 1974.
Foi um partido que, ao lado do povo e das forças armadas vitoriosas, contribuiu decisivamente para transformar o golpe militar de 25 de abril numa revolução que acabou com a guerra colonial e permitiu a independência das colónias portuguesas, restaurou a liberdade e a democracia em Portugal, pôs na prática e depois em letra de lei direitos, liberdades e garantias fundamentais, como as eleições e partidos livres, bem como os sindicatos e associações, múltiplos direitos laborais desde o elementar salário mínimo ao direito à contratação coletiva, o direito à saúde à educação e à segurança social, o direito à igualdade de género, a reforma agrária e o fim do latifúndio absentista, a autonomia regional e o poder local democrático, etc.
Foi um partido que contribuiu decisivamente até hoje, para resistir à contra-ofensiva neo-liberal, direitista e anti-patriótica que entretanto se começou a desenvolver logo após o primeiro ano da revolução, se agudizou com a entrada de Portugal na União Europeia, e ganhou particular alento com a adesão à moeda única (que começou a circular a partir de 2002),com vista a fazer reverter as conquistas revolucionárias do povo português, consagradas na Constituição da República.
Através de uma sábia política de alianças, na sequência da derrota eleitoral da coligação PSD/CDS em 2015, foi um partido decisivo para que, ao fim de quase 5 anos de governo e de 10 anos de um Presidente da República, ambos ultra-liberais de direita, fosse possível romper com o desenvolvimento final e mais agudo da referida contra-ofensiva que, para além do desastre nacional que estava a provocar e do sofrimento que estava a infligir a todo um povo, estava já também a atingir a essência do próprio regime democrático.
No futuro imediato, em linha com o que impõem com crescente nitidez o progresso e o desenvolvimento nacionais, será também um partido indispensável para que venha a ser posta em prática a cada vez mais incontornável renegociação da dívida pública portuguesa, para que venha a ser possível aos poderes públicos refrear os criminosos desmandos da banca, e para que o país esteja preparado para a eventualidade da saída do euro…

Consciência

O Papa Bento XVI afirma que “A unidade do homem tem um órgão: a consciência”(1). Os filósofos gregos já se tinham apercebido de como é difícil para o homem agir como pensa. Para se explicarem, faziam a comparação com um auriga, cocheiro que conduzia o carro grego puxado por dois cavalos. O auriga deveria conduzi-los com habilidade de forma a mantê-los paralelos e ao mesmo ritmo, de modo a não chocarem um contra o outro e a não se afastarem do eixo (o que poderia provocar acidentes). Também o homem deve saber conduzir a sua vida com harmonia, sabendo manter o equilíbrio entre o dever e o apetecível, entre o gosto pela aventura e a prudência, entre o intelecto e o físico... entre o corpo e o espírito. Onde ir buscar a chave da sabedoria esse prémio que é o equilíbrio, a unidade do homem? À consciência, responde Bento XVI, mas à consciência bem formada.
A palavra consciência tem, no início do séc. XXI, dois significados. O Papa alemão explica-nos que “para S. Paulo, a consciência é o órgão da transparência do único Deus em todos os homens, que são um só homem. Mas, atualmente, a consciência aparece como expressão do caráter absoluto do sujeito, acima do qual não poderia haver, no campo moral, nenhuma instância superior. O bem, como tal, não seria cognoscível. O Deus único não seria cognoscível. No que diz respeito à moral e à religião, a última instância seria o sujeito (...).”(2)
Como se vê, os dois conceitos opõem-se. No primeiro, a verdade e o bem podem ser intuídos pelo homem que percebe, nas outras pessoas, os seus mesmos interesses, inclinações, sofrimentos, alegrias... A Verdade não lhe é totalmente acessível, mas tem a esperança de poder aproximar-se dela se buscar essa Verdade, Deus. O próprio Deus se dá a conhecer a quem o busca sinceramente. No segundo conceito, apenas baseado na razão de cada sujeito, isso nem faz sentido, pois “que busca é essa que nunca pode chegar à meta?”(3) De facto, se tudo é relativo (segundo cada pessoa), a Verdade não existe; não se procura aquilo que se sabe não existir. O Papa continua: “Mas não será antes uma arrogância dizer que Deus não nos pode dar o presente da Verdade? Não será desprezar a Deus afirmar que nascemos cegos e que a Verdade não se coaduna connosco?... A verdadeira arrogância consiste em querer ocupar o posto de Deus e querer determinar quem somos, que fazemos, que queremos fazer de nós e do mundo.”(4)
Este Papa põe o dedo na “ferida intelectual” do homem pós moderno. Com medo de ter de aceitar Deus, ele perde a capacidade de raciocinar com coerência e... mente a si mesmo, abafando, assim, a voz da sua consciência e tornando-se cego para as realidades da vida humana. O homem pós moderno já não vê que o aborto e a eutanásia são assassinatos, embora em diferentes fases da vida humana; já não vê a injustiça do adultério; já não vê a desumanidade que representa o desinteresse pelos filhos; já não vê a alegria dos doentes que são visitados por familiares e amigos... O Papa Francisco tem visto tudo isto e anima-nos a abrir os olhos da nossa consciência.



1)“Joseph Ratzinger, Uma Biografia”, pg.168 ; Pablo Blanco, Quadrante
2)“Joseph Ratzinger, Uma Biografia”, pg. 169; Pablo Blanco, Quadrante
3)“Joseph Ratzinger, Uma Biografia”, pg. 228; Pablo Blanco, Quadrante
4)“Joseph Ratzinger, Uma Biografia”, pg. 228; Pablo Blanco, Quadrante

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