Chegam alarmes da periferia

“Os processos de envelhecimento e despovoamento parecem  tornar-se irreversíveis e não vejo que inquietem deputados, governo, municípios e outras entidades do saber e da cultura. Instalados nas cidades, onde se vive melhor e o Estado Social dá melhores respostas, devemos estar atentos aos sinais de alarme que chegam da periferia, prejudicada pelo afastamento e por um crónico abandono.”

 

A divulgação do estudo do INE sobre o poder de compra nos 308 concelhos portugueses vem demonstrar à evidência que, quanto mais populosos são os concelhos, as cidades e as regiões do país, maior é o poder de compra dos seus habitantes.

O estudo merece, certamente, uma análise cuidada nas universidades, nos gabinetes governamentais e de quem promove o investimento público e privado, pois nele se revelam dados relevantes sobre o índice de dinamismo das populações. 

Se é certo que empresários e investidores apostarão mais nos municípios e centros urbanos onde há maior concentração populacional, maior poder de compra e mão-de-obra tecnicamente preparada, as universidades farão análises mais científicas, escalpelizando os porquês da concentração urbana e do despovoamento do interior e, no caso açoriano, a debandada dos jovens de concelhos e ilhas mais ultraperiféricas; apresentarão as vantagens de certos investimentos para a criação de emprego e riqueza, e as desvantagens do envelhecimento de ilhas e concelhos, do abandono de terrenos agrícolas e florestais e das dificuldades em fazer chegar aos recantos mais distantes os serviços do Estado a que qualquer cidadão tem direito. 

Este é o dilema constante da Região, porque tem a ver com a igualdade de oportunidades dos cidadãos, consagrada na Constituição. 

É positivo saber que o indicador per capita do poder de compra no concelho de Ponta Delgada rondava, em 2015, os 105,50 igualando-se a Braga e Portalegre. Mas é negativo constatar a diferença abismal entre aquela posição e os concelhos de Lisboa (214), e do Porto (161), valores muito distantes entre si. 

Esta penalização que gera fenómenos migratórios perigosos para os Açores no seu todo, e para cada ilha em particular, atinge também a ilha de São Miguel. 

Há um enorme fosso entre o poder de compra dos habitantes do concelho de Ponta Delgada (105,50)(1) e os do Nordeste (62,69), de Vila Franca do Campo (62,99), Povoação (65,89) e da Ribeira Grande (69,53). 

A situação é alarmante porque estes são também os quatro concelhos com as mais baixas percentagens de poder de compra dos Açores. Pior que os florentinos (79,82), corvinos (74,25), graciosenses (72,07), picoenses (79,79) e jorgenses (77,54). 

Uma das razões pode estar na reduzida população daquelas ilhas e na existência de profissionais qualificados nas áreas do ensino e da saúde, com salários acima da média da função pública. 

O problema, porém, deverá agravar-se, se nãda fôr feito. 

Atendendo ao evidente decréscimo da natalidade, à migração de muitos jovens, à diminuição do emprego, ao despovoamento, e ao envelhecimento da população, tudo se irá alterar, se nada for feito para suster e contrariar o plano inclinado em que se encontram vários concelhos insulares.

A antiga concentração da população nas três ex-capitais de distrito é um erro histórico do nosso processo de desenvolvimento, o qual continua a gerar graves dificuldades às zonas mais periféricas.

Descentralizar e relocalizar serviços da administração pública - a maior empregadora regional -, conceder incentivos fiscais e captar investimentos, é a única solução para combater a situação económica e social, que implica também a revisão do Estatuto político-administrativo e a reforma da administração pública. Não se pretende o aumento de funcionários públicos, mas respostas de proximidade e atempadas, com técnicos ligados às áreas económicas e sobretudo à saúde, para melhorar a produção, os rendimentos e o poder de compra e o bem-estar dos cidadãos.

Os processos de envelhecimento e despovoamento parecem  tornar-se irreversíveis e não vejo que inquietem deputados, governo, municípios e outras entidades do saber e da cultura.

Instalados nas cidades, onde se vive melhor e o Estado Social dá melhores respostas, devemos estar atentos aos sinais de alarme que chegam da periferia, prejudicada pelo afastamento e por um crónico abandono.

Porque estou certo que não é esta a Região e o Arquipélago que terão futuro, importa que todos, unidos, encetemos uma nova via do desenvolvimento.

A cidade rejuvenesceu com a reabertura do histórico CAFÉ CENTRAL

Se tentar ainda reavivar no meu espirito o que era o centro histórico de Ponta Delgada que conheci há mais de 80 anos, lembro-me de existirem ainda (mas poucos), alguns estabelecimentos daquela época – precisamente no mesmo local onde foram inaugurados – que continuam a relembrar o que foi a continuidade duma vida social e comercial mais que centenária  que muito contribuiu para valorizar e animar o progresso citadino. Por isso, cada um desses emblemáticos edifícios constituem, ainda hoje, um elemento histórico e até etnográfico que muito nos honra e que não é vulgar noutras partes, mesmo tendo em conta a natural  alteração que o progresso, num  curto espaço de tempo, foi capaz de alterar a sua configuração.

Daí que muito se  tem escrito, aqui e noutras partes, sobre a necessidade de acautelar a manutenção desse valor patrimonial; mas não há dúvida que, como actividade particular que é, só terá essa expressão de continuidade se houver alguém com deliberado “espírito de perseverança” que seja capaz de o conseguir. 

Enquanto estive na Comissão Municipal de Toponímia cheguei a recolher alguns dados históricos sobre as nossas antigas e actuais firmas comerciais, no intuito de que um dia talvez pudesse transmitir às gerações vindouras um pouco da sua história e do seu consequente valor económico… mas como o destino às vezes nos trás contratempos que estamos longe de os saber enfrentar, o “estudo” aguarda uma nova oportunidade.

Talvez para despertar desse estado de alma, tentei agora trazê-lo ao de cima por via dum recente acontecimento que Ponta Delgada acaba de viver, com a “reabertura” há dias, do histórico CAFÉ CENTRAL, sempre  situado em pleno coração da cidade, mas agora sob a nova gerência das organizações do “ GRUPO  ANJOS”, o que felizmente permitiu que a cidade retomasse aquele ar cosmopolita e de encontro fraterno a que nos habituáramos. 

Inaugurado em Outubro de 1934 pelo prestigiado e saudoso comerciante José Matias Tavares, possuidor da experiência e do saber adquiridos nos anos em que exerceu a gerência do Café Royal, soube ao longo de muitos anos impulsionar com inexcedível rigor e competência um inovador serviço de cafetaria que Ponta Delgada já então há muito reclamava, seguindo uma outra iniciativa  a nível da restauração.

 Ao mesmo tempo foi criando os primeiros “ self-services” para casamentos e outras festas particulares, num poder de modernidade só comparável ao que já existia em Lisboa e noutras grandes cidades, inclusive o Funchal.

Na continuidade desse arrojado serviço de cafetaria e de restauração, construiu, anos depois, o modelar Salão “A Barcarola”, no andar superior ao Café, onde acolhia, com elevado requinte, jantares de aniversário e ainda outros convívios para assinalar acontecimentos de relevo da vida comercial e social da cidade.

Segundo se pode deduzir das “Escavações” do investigador José Torres, o Café Central já renasceu, com este mesmo nome, das ruinas dum outro destruído, nos finais do século XIX, por um incêndio, por sinal situado no mesmo local e onde diziam os mais antigos, ser lugar de encontro, por vezes “ruidoso” da marinha de guerra americana que demandava o nosso porto durante a 1ª guerra mundial…

José Matias Tavares devia ser um homem de grande sensibilidade artística, pois desde sempre o “seu” café obedeceu a características de construção muito ligadas à arquitectura local e nacional, a começar pelo primeiro arquitecto que o concebeu, Jorge Segurado e às históricas pinturas que guarneciam as suas paredes interiores, da autoria de Domingos Rebelo.

Por outra informação que consegui colher, talvez nos finais dos anos 40, o Café Central sofreu novas alterações na sua arquitectura interior, então da autoria do grande Mestre Raul Lino, o que só por si poderia ter sido sinalizado como um “monumento regional”… 

Seguiu-se a construção de “ A Barcarola”, então sob direcção do arquitecto D. Luís de Melo.

A todo este empreendedorismo, ainda se destaca a criação dum bem organizado serviço de bilhares, que era no meu tempo do Liceu (já lá vão quase 75 anos), um dos mais frequentados lugares de lazer dos alunos do Liceu, nas horas vagas - mas com horários  rígidos, para abrir e fechar - sempre sem direito a qualquer contestação…

Outra grande iniciativa que a cidade ficou a dever ao Café Central foi a produção e venda de gelados, que creio o sr. Matias chegou a ir pessoalmente aprender a arte de os confeccionar aos Estados Unidos, guardando onde só ele sabia a forma de os conceber…

Ainda rapaz, recordo as tardes de domingo no Campo de S. Francisco, onde um grupo de rapazes, vestidos a rigor vendiam esses afamados gelados ( e não eram nada baratos para o tempo…) num pregão constante que fazia as delícias de uns e deixava crescer “águas na boca” a muitos outros:

- Gelados do Café Central!

Ice creem… Ice creem…

O Café Central e o “ canto” do Clube Micaelense foram lugares de eleição da academia do Liceu. Era o que pode chamar-se o “ponto de mira” onde rapazes e raparigas trocavam entre si um dos primeiros e sempre fugidios olhares amorosos; e onde também se firmaram namores que chegaram ao casamento …

O Café Central, como os demais que existiam na cidade, era um lugar de agradável convívio, mas este, pelo seu porte e tradição de serviço, acolhia mais uma sociedade muito eitista, de modo que não era fácil estacionar ali por muito tempo…

Nisso o senhor Matias era um bom “guardião” . Falava pouco, mas agia rapidamente…, de modo que nós dispersávamos pelo passeio que confrontava com a Casa dos Irmãos Cavaco e, por vezes, junto à montra da Papelaria do senhor Travassos, mas aí só se não havia estrangeiros a circular na baixa… pois como ele dizia “era o dia do seu negócio!”.

Bons tempos!

Que o “Grupo Anjos” seja feliz nesta sua nova aposta comercial, de modo a que o CAFÉ CENTRAL desenvolva o continuado espírito de inovação e de confraternização que já fazia falta à cidade, de modo a servir os de cá e quem nos visita num serviço que aproxime sempre e cada vez melhor os seus clientes.

Ponta Delgada, merece-o!

Os açorianos ainda não sabem cantar o Hino dos Açores!...

A presença entre nós do Senhor Presidente da República veio uma vez demonstrar que passados 36 anos sobre a data em que foi aprovado na Assembleia Regional, o Hino dos Açores, ainda muito poucos são os açorianos que o sabem entoar (por vezes mesmo com a ajuda duma «cabulazinha»), apesar das nossas bandas de músicas presentes nas cerimónias oficiais por uma questão de protocolo e de sentido cívico e, por que não dizê-lo, mesmo patriótico, o tocarem conjuntamente com o Hino Nacional.

Tive a oportunidade de observar melhor este lapso numa cerimónia em que, por feliz coincidência, estive perto do Professor Marcelo Rebelo de Sousa e não deixei de sentir que cantado o Hino Nacional, conjuntamente com os sons duma banda de música, foi perceptível que deixou transparecer um certo e natural desconforto pela mudez dos presentes.

Mas muito mais desagradável foi que na sua triunfal visita pelas nossas ilhas, aconteceu o mesmo, (basta recordar as imagens da Televisão), logo no momento da chegada ao Corvo, a não ser quando um ou outro conjunto coral participava numa cerimónia, dava o «tom» e cada um ia relembrando aqui e ali as estrofes do Hino que Natália Correia, num momento de feliz concepção poética compôs para ser adaptado à música do primeiro Hino composto em 1894 pelo maestro Artur Lima, para a Banda «Progresso do Norte» de Rabo de Peixe.

A letra desse 1º Hino era da autoria do professor António Tavares Torres, um autodidacta de raro merecimento que prestou relevantes serviços à freguesia de Rabo de Peixe, sua terra natal, à administração municipal da Ribeira Grande e ao Ensino:

 

 O clamor açoriano,

 Em sã justiça fundado,

 Pede essa ampla liberdade

 Que se deve a um povo honrado.

Aliás é bom recordar que quem muito contribuiu para pôr os portugueses do continente a cantar o Hino Nacional, sobretudo no início dos grandes desafios de futebol internacional, inclusivé os jogadores, foi um brasileiro, o grande treinador Scolari, aliás num gesto de cidadania que ainda hoje não foi esquecido e, felizmente, que se repete agora em idênticas ocorrências... 

Há semanas li um comentário muito apropriado a esse respeito, fazendo a comparação com o que se passava com os estrangeiros, sobretudo os americanos que até cantam o seu hino com a mão direita sobre o coração, numa motivação de amor pela pátria de origem ou que lhes deu acolhimento, como é o caso dos portugueses.

 

No meu tempo de escola, já lá vão cerca de 78 anos (!) e mesmo muito antes, as aulas começavam pelo Hino Nacional… mas creio que após o 25 de Abril este gesto ou foi abolido ou esquecido… Não tenho conhecimento de ter recebido uma ordem de serviço para esse «calar», mas o certo é que com este simbólico gesto não só glorificava a Pátria, como ainda ajudava a educar os alunos pelos seus mais representativos valores.

 

Desde o primeiro Governo Regional, da Presidência do Doutor João Bosco da Mota Amaral que a Secretaria Regional da Educação tem feito uma ampla divulgação do Hino dos Açores pelas escolas, naturalmente para que os alunos o aprendam na oportunidade que melhor os professores entenderem e até o possam passar aos seus familiares, numa atitude de interajuda.

Seja como for, as coisas passam-se como se nada tivessem sido aconselhadas; mas fala-se de autonomia, de direitos e de deveres; contudo há atitudes e gestos complementares que têm de ser «aprendidos»: o Hino é um deles!

Aliás gosto sempre de recordar que em 27 de Junho de 1984 o orfeão do Colégio de S. Francisco Xavier regido pela professora D. Eduarda Cunha Atayde creio que na altura composto por 70 elementos entre os 8 e os 12 anos, cantaram pela primeira vez o Hino dos Açores, repetindo o feito num memorável espectáculo que a Biblioteca Juvenil de Ponta Delgada organizou em 16 de Dezembro de 1986, para celebrar os «10 Anos de Autonomia Regional».

Lembro-me de ter sido preciso adaptar umas «fusas» ou «semi-colcheias» a um ou outra entoação para que a letra assentasse bem na música!

Foi um êxito, pela sua mestria e também porque a partir dali muitas outras escolas se motivassem a fazer o mesmo; e, de facto, tive a alegria de verificar que seguiram aquele emotivo exemplo, pois nas festas escolares que se depois organizaram, o Hino dos Açores era cantado no início ou no fim do espectáculo, conforme era a organização do programa.

Desconheço como se passam hoje as coisas, mas creio que a sentimentalidade açoriana ali bem expressa, merecia perfilar-se no mesmo pé de igualdade do Hino Nacional, isto é, entoado por todos em uníssono!

É um trabalho que não deve ser desenvolvido só nas nossas escolas, mas também nas nossas associações cívicas, culturais até particulares, mesmo utilizando, de vez em quando, «uma cábula» para relembrar, pois o resto virá por acréscimo…

Vem aí de novo o Senhor Presidente da República, desta vez para visitar as ilhas e S. Miguel e de Santa Maria: um bom momento para pôr todos – micaelenses e marienses - a cantar o nosso Hino, como símbolo do «valor açoriano, pela paz à terra unida… até à vitória merecida»!

 

E, por que não?

É preciso é começar…

A Lista Negra da Autonomia: «As Datas da Autonomia»

1. O website da Assembleia Legislativa dos Açores contém um espaço dedicado às Datas da Autonomia. Uma das maiores responsabilidades do Parlamento, tendo em conta que os Deputados representam a Região, é a unidade regional – porque é realmente no parlamento e nas suas ações e omissões que se respira a ideia de unidade do povo açoriano. Já apontamos, noutro ensaio, que o Parlamento perspetiva a Região como tendo sido uma colónia de Portugal, ideia evidentemente errónea porque não corresponde à realidade, e prejudicial à unidade regional porque rejeita a ideia total da história dos Açores no seu contexto de portugalidade, como o foi desde sempre e como ficou consagrado desde logo na primeira Constituição Portuguesa. Agora surge esta Lista que também reduz a história açoriana e é mais um ato que prejudica a unidade regional, e a história da autonomia.

Eis a lista que consta ali:

31-03-1892, Projeto que defendia uma nova administração para os distritos dos Açores.

19-02-1893, Criação da Comissão Autonómica em Ponta Delgada.

05-03-1893, 1º nº do jornal “Autonomia dos Açores-Livre Administração dos Açores.

03-02-1894, foi interpretado pela 1ª vez em público o Hino da Autonomia.

02-03-1895, Promulgação do Decreto de 2 de março de 1895.

Novembro de 1897, Primeira Bandeira Autonómica.

01-05-1920, fundado em Ponta Delgada o jornal Correio dos Açores.

17-10-1921. Projeto de lei para a Autonomia Administrativa dos Distritos Açorianos.

16-02-1928, Decreto 15035, que aumenta as competências das Juntas Gerais.

31-12-1940, Estatuto dos Distritos Autónomos das Ilhas Adjacentes.

25-04-1974, Revolução de 25 de abril de 1974.

25 e 26 de junho de 1975, Proposta para a Junta Governativa dos Açores

22-08-1975, Criação da Junta Regional dos Açores

07-12-1975, Anteprojeto do Estatuto Político Administrativo dos Açores.

02-04-1976, Decretada a Constituição da República Portuguesa.

30-04-1976, Decretado o Estatuto Político Administrativo Provisório dos Açores.

27-07-1976, Primeiras eleições para a Assembleia Regional dos Açores.

20 e 21-07-1976, Sessão Preliminar da Assembleia Regional dos Açores.

04-09-1976, Abertura Solene da Assembleia Regional dos Açores.

08-08-1976, Tomada de Posse do 1º Governo Regional dos Açores.

10-04-1979, Aprovação dos Símbolos Heráldicos da Região.

26-06-1980, Aprovado Estatuto Político Administrativo Definitivo dos Açores.

04-09-1986, Sessão Solene Comemorativa dos 10 anos de Autonomia.

04-09-2001, Sessão Solene Comemorativa dos 25 anos de Autonomia.

14-05-2003, Monumento comemorativo dos 25 anos de Autonomia Legislativa.

24-07-2004, Revisão Constitucional de 2004.

 

2. Sendo uma lista oficial do Parlamento açoriano, temos de concluir, desde logo, tratar-se duma lista política e não científica. Em todo o caso, parecer-nos-ia que, sendo o Parlamento a casa de representação da Autonomia e dos açorianos, ela deveria basear-se numa lista com sustentação técnica, ou pelo menos com algum rigor de verdade e com algum rigor histórico. Mas não, é realmente uma lista política, mas paupérrima, porque errónea, e embusteira, porque constrói uma ideia equivocada do povo das ilhas.

Esta Lista daria para escrever um longo ensaio, incluindo a análise do conteúdo dos documentos que estão na base dos títulos ali inscritos. Vamos apontar, aqui, duas elementares anotações sobre duas básicas, mas importantes, matérias.

Esta Lista vem na linha condutora daqueles que defendem, injusta e erradamente, que a autonomia e o interesse pela política açoriana, tenha nascido na proposta de Aristides Moreira. E este importante homem da História Açoriana merece que lhe honremos a memória com a verdade. Em primeiro lugar, porque já o Pe. António Cordeiro, em 1717, tinha já proposto, na História Insulana, uma ideia de governo para as ilhas; e isso é quanto baste, porque outros importantes acontecimentos políticos da unidade regional aconteceram inclusivamente na era de quinhentos, e mais. E, em segundo lugar, o designado 1º movimento autonómico não defendeu o governo das ilhas; o que ele defendia era a manutenção do sistema dos distritos que tinha sido criado em 1832 e mantido até 1892; isto é, o 1º movimento autonómico queria manter o sistema das juntas distritais porque não pretendia – propositadamente – um sistema de unidade regional. Ou seja, colocar nesta Lista, que tenha sido esse documento aquele que deu início à Autonomia dos Açores – só pode constituir-se uma elementar brincadeira política: 1º, porque não foi realmente o primeiro, 2º porque, a unidade das ilhas, isto é a Autonomia Açoriana, teve início no povoamento das ilhas, tendo sido desfeito esse enlace apenas em 1832 com a ideia da divisão do território português em distritos, tendo sido retomada a ideia de unidade regional apenas em 1975, não obstante ideias desta natureza durante todo o processo autonómico dos governos distritais.

Esta Lista refere a Constituição de 1976 e a sua revisão de 2004. A referência ao texto de 1976 está certa porque foi aí que se criou o modelo de Autonomia hodierna. Mas referir a revisão de 2004 sem referir as de 1982, 1989 e 1997 – é coisa impensável. Estas três últimas revisões constituem um património valiosíssimo para as autonomias portuguesas, e tão ou mais importantes que a de 2004: a de 1982, porque foi aqui que o modelo se cristalizou com a expurgação do Conselho da Revolução e a criação do Tribunal Constitucional, e a estabilização do poder legislativo regional através do decreto legislativo regional (já não decreto regional, que até se confundia com o “decreto regional” do Ministro da República), e a importantíssima matéria da normalização da força dos atos normativos. A de 1989, porque ficou consagrada a designação de Assembleia Legislativa Regional, e já não Assembleia Regional. A de 1997, porque a dissolução do Parlamento pelo Presidente da República passou a exigir «atos graves contrários à Constituição» e previa expressamente as matérias de interesse regional. Porquanto a de 2004 limitou-se a complicar o processo legislativo, substituindo a expressão “interesse específico” por “âmbito regional”, que é um conceito mais sujeito ao devaneio interpretativo (como se tem visto nos últimos anos),  e fazendo descer da Constituição para o Estatuto as matérias legislativas regionais (um enorme tiro no pé, e apenas para dar aso a um Estatuto que se tornou grande na quantidade e pequeno na qualidade; a Madeira nunca fez a sua alteração e, no entanto, continua a legislar o mesmo ou melhor que os Açores), e substituindo a expressão “Ministro da República” para a de Representante da República”, mas que no fundo é igual porque os poderes são iguais, mudou apenas o vestuário designativo.

A informação debitada pelo Parlamento Açoriano – é errónea, quer na vertente histórica, quer na dos documentos legais, e dá uma ideia parcial da muito antiga e riquíssima História Política dos Açores que vem do povoamento, muito anterior a 1892.

Aquele dia que um Santo passou nos Açores!

Faz agora 26 anos que, em 11 de Maio de 1991, se passou em Ponta Delgada um sonho de grande intensidade emocional, como nunca tinha acontecido, com a Visita Pastoral de São João Paulo II à nossa Diocese. 

Foi «como se a história da salvação passasse por momentos entre nós», gravando no nosso coração a imagem daquele Papa Peregrino que durante o seu longo e edificante pontificado viajou pelo mundo levando uma mensagem de salvação e de ternura que Ele tão bem sabia transmitir, arrebatando o povo micaelense e promovendo momentos de alta tensão que parecia que o Céu e a Terra se fundiam sobre o solo açoriano!

Vivi esse dia algum tempo antes - por via duma cuidada preparação religioso/pedagógica que «sonhamos» e pudesse ser desenvolvida nas nossas escolas do 1º ciclo, juntando no mesmo sentimento de fiel e de aliança ao Papa que hoje é Santo, uma comovente unidade de pensamento e de acção, com os alunos, com os professores e ainda os seus familiares, através dum projecto a que simbolicamente então resolvemos chamar de «ENCONTRO COM UM AMIGO», mas que imediatamente se transformou num momento cheio de ternura como nunca se havia repetido entre nós, sobretudo quando o coração do Papa se juntou a cada um de nós!

Foi como se nesta terra amanhecesse um novo dia, através da transformação que esse ternurento encontro chegou ao alcance de todos - aos presentes no Campo de S. Francisco, e aos que em casa o viram através da Televisão ou o ouviram pela Rádio – podendo assim presenciar não só a presença de S. João Paulo II, como participar na cerimónia da Proclamação da Palavra e ainda naquele comovente olhar frente a frente com a Imagem do Senhor Santo Cristo.

E, por isso, no seu regresso ao Vaticano, pode afirmar: «não posso recordar todos os pormenores, mas gravou-se profundamente no meu coração o encontro com o ECCE HOMO, em Ponta Delgada».

Contou-me o meu saudoso amigo António Costa Santos, que, de acordo com o protocolo e após ter cumprimentado as principais autoridades ali presentes o Papa dirigiu-se aos membros da Irmandade; e, primeiramente, para o seu Provedor. Contudo, no momento em que o ia cumprimentar, São João Paulo II fixou, como num relance místico, o rosto que inspira a Imagem do Senhor Santo Cristo, ali presente no seu andor; e que decerto, reparando naquele olhar diferente e misericordioso que a Veneranda Imagem revela, passou adiante de todos para apressadamente se dirigir e só se centrar, de joelhos, numa atitude de prolongada e orante veneração, esquecendo-se de si mesmo e dos que aguardavam se iniciasse a Celebração da Palavra, a ponto do Bispo D. Aurélio, lhe ter segredado (contra a vontade de alguns dos membros do episcopado presentes), que era chegado o momento de terminar aquele Encontro tão pessoal, que afinal só traduzia uma grande intensidade de pessoal.

Aliás, a esse propósito, como então escreveu o cónego António Rego «foi tudo como se tivesse rebentado um vulcão», pois o nosso povo como talhado em basalto cinzento, soube escutar e viver o apelo de interioridade que a Igreja e as escolas souberam transmitir; e a lava correu como lágrimas de emoção que a todos tocou e inspirou naquele momento em que parecia que a terra micaelense e o Céu se tocaram de maneira tão resplandecente!

Tive a honra de estar junto desse Santo, (a quem hoje tantas vezes recorro), por via da bondade de outro grande Amigo, Monsenhor José Ribeiro Martins, que quis demonstrar o seu reconhecimento pelo trabalho de preparação que realizámos nas escolas.

No lugar que me tinha sido reservado, João Paulo II chegou a tocar-me… mas o « fiel» guarda costas não deixou que lhe beijasse a mão!

Soube mais tarde que a nossa Diocese, por via das escolas de S. Miguel e de Santa Maria, foram as únicas que «romperam» as barreiras da laicidade (hoje muito desvanecidas com a eleição do nosso actual Presidente da República) … e conseguiram realizar um trabalho tão intencional.

Aliás, nessa altura, a Autonomia vincou o seu lugar ao  creditar a realização desse trabalho pedagógico e de elevado sentido e Fé e de religiosidade; por isso, neste testemunho que hoje quis reservar para esta colaboração, não quero deixar de lembrar «a carta branca» que o então Presidente Mota Amaral me quis conceder.

Creio que foi um serviço que muito deve ter contribuído para cada vez mais unir os açorianos, pois com esse «ENCONTRO COM UM AMIGO», na carta de agradecimento que mais tarde recebi do assessor do Papa, Monsenhor Sandri, este afirmava que « Sua Santidade confiara-lhe a honrosa incumbência de nos agradecer o testemunho de estima e de corajoso espirito cristão demonstrados, como sinal de vitória , esperança e força dos corações».

Relembro esse dia memorável com enorme emoção e sei que muito do que se passou se ficou a dever ao espirito de serviço dos meus mais próximos colaboradores. 

Apesar dos anos que passaram, saúdo com muita amizade e louvor os professores e os alunos, pois que nos seus locais de trabalho, souberam entender este acontecimento como uma vivência, muito para além duma normal «ordem de serviço», mas com verdadeiro e esclarecido espírito de educadores e de educandos, alguns independentes das suas convicções religiosas.

 

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