A cidade rejuvenesceu com a reabertura do histórico CAFÉ CENTRAL

Se tentar ainda reavivar no meu espirito o que era o centro histórico de Ponta Delgada que conheci há mais de 80 anos, lembro-me de existirem ainda (mas poucos), alguns estabelecimentos daquela época – precisamente no mesmo local onde foram inaugurados – que continuam a relembrar o que foi a continuidade duma vida social e comercial mais que centenária  que muito contribuiu para valorizar e animar o progresso citadino. Por isso, cada um desses emblemáticos edifícios constituem, ainda hoje, um elemento histórico e até etnográfico que muito nos honra e que não é vulgar noutras partes, mesmo tendo em conta a natural  alteração que o progresso, num  curto espaço de tempo, foi capaz de alterar a sua configuração.

Daí que muito se  tem escrito, aqui e noutras partes, sobre a necessidade de acautelar a manutenção desse valor patrimonial; mas não há dúvida que, como actividade particular que é, só terá essa expressão de continuidade se houver alguém com deliberado “espírito de perseverança” que seja capaz de o conseguir. 

Enquanto estive na Comissão Municipal de Toponímia cheguei a recolher alguns dados históricos sobre as nossas antigas e actuais firmas comerciais, no intuito de que um dia talvez pudesse transmitir às gerações vindouras um pouco da sua história e do seu consequente valor económico… mas como o destino às vezes nos trás contratempos que estamos longe de os saber enfrentar, o “estudo” aguarda uma nova oportunidade.

Talvez para despertar desse estado de alma, tentei agora trazê-lo ao de cima por via dum recente acontecimento que Ponta Delgada acaba de viver, com a “reabertura” há dias, do histórico CAFÉ CENTRAL, sempre  situado em pleno coração da cidade, mas agora sob a nova gerência das organizações do “ GRUPO  ANJOS”, o que felizmente permitiu que a cidade retomasse aquele ar cosmopolita e de encontro fraterno a que nos habituáramos. 

Inaugurado em Outubro de 1934 pelo prestigiado e saudoso comerciante José Matias Tavares, possuidor da experiência e do saber adquiridos nos anos em que exerceu a gerência do Café Royal, soube ao longo de muitos anos impulsionar com inexcedível rigor e competência um inovador serviço de cafetaria que Ponta Delgada já então há muito reclamava, seguindo uma outra iniciativa  a nível da restauração.

 Ao mesmo tempo foi criando os primeiros “ self-services” para casamentos e outras festas particulares, num poder de modernidade só comparável ao que já existia em Lisboa e noutras grandes cidades, inclusive o Funchal.

Na continuidade desse arrojado serviço de cafetaria e de restauração, construiu, anos depois, o modelar Salão “A Barcarola”, no andar superior ao Café, onde acolhia, com elevado requinte, jantares de aniversário e ainda outros convívios para assinalar acontecimentos de relevo da vida comercial e social da cidade.

Segundo se pode deduzir das “Escavações” do investigador José Torres, o Café Central já renasceu, com este mesmo nome, das ruinas dum outro destruído, nos finais do século XIX, por um incêndio, por sinal situado no mesmo local e onde diziam os mais antigos, ser lugar de encontro, por vezes “ruidoso” da marinha de guerra americana que demandava o nosso porto durante a 1ª guerra mundial…

José Matias Tavares devia ser um homem de grande sensibilidade artística, pois desde sempre o “seu” café obedeceu a características de construção muito ligadas à arquitectura local e nacional, a começar pelo primeiro arquitecto que o concebeu, Jorge Segurado e às históricas pinturas que guarneciam as suas paredes interiores, da autoria de Domingos Rebelo.

Por outra informação que consegui colher, talvez nos finais dos anos 40, o Café Central sofreu novas alterações na sua arquitectura interior, então da autoria do grande Mestre Raul Lino, o que só por si poderia ter sido sinalizado como um “monumento regional”… 

Seguiu-se a construção de “ A Barcarola”, então sob direcção do arquitecto D. Luís de Melo.

A todo este empreendedorismo, ainda se destaca a criação dum bem organizado serviço de bilhares, que era no meu tempo do Liceu (já lá vão quase 75 anos), um dos mais frequentados lugares de lazer dos alunos do Liceu, nas horas vagas - mas com horários  rígidos, para abrir e fechar - sempre sem direito a qualquer contestação…

Outra grande iniciativa que a cidade ficou a dever ao Café Central foi a produção e venda de gelados, que creio o sr. Matias chegou a ir pessoalmente aprender a arte de os confeccionar aos Estados Unidos, guardando onde só ele sabia a forma de os conceber…

Ainda rapaz, recordo as tardes de domingo no Campo de S. Francisco, onde um grupo de rapazes, vestidos a rigor vendiam esses afamados gelados ( e não eram nada baratos para o tempo…) num pregão constante que fazia as delícias de uns e deixava crescer “águas na boca” a muitos outros:

- Gelados do Café Central!

Ice creem… Ice creem…

O Café Central e o “ canto” do Clube Micaelense foram lugares de eleição da academia do Liceu. Era o que pode chamar-se o “ponto de mira” onde rapazes e raparigas trocavam entre si um dos primeiros e sempre fugidios olhares amorosos; e onde também se firmaram namores que chegaram ao casamento …

O Café Central, como os demais que existiam na cidade, era um lugar de agradável convívio, mas este, pelo seu porte e tradição de serviço, acolhia mais uma sociedade muito eitista, de modo que não era fácil estacionar ali por muito tempo…

Nisso o senhor Matias era um bom “guardião” . Falava pouco, mas agia rapidamente…, de modo que nós dispersávamos pelo passeio que confrontava com a Casa dos Irmãos Cavaco e, por vezes, junto à montra da Papelaria do senhor Travassos, mas aí só se não havia estrangeiros a circular na baixa… pois como ele dizia “era o dia do seu negócio!”.

Bons tempos!

Que o “Grupo Anjos” seja feliz nesta sua nova aposta comercial, de modo a que o CAFÉ CENTRAL desenvolva o continuado espírito de inovação e de confraternização que já fazia falta à cidade, de modo a servir os de cá e quem nos visita num serviço que aproxime sempre e cada vez melhor os seus clientes.

Ponta Delgada, merece-o!

Respingos - Pico

O Pico. A Ilha onde nasci, vivi os primeiros anos e, depois, os anos mais que Deus me tem dado. Mas nunca deixei de viver no Pico, quer estivesse ausente por dias, semanas, meses ou anos. É uma ilha que está sempre presente no meu espírito, no melhor do meu ser. 

Mesmo ausente da terra, os seus projectos, os seus problemas, as suas iniciativas, o seu progresso vivem comigo.  Recordo os meus anos de juventude, cujos estudos me afastaram meses seguidos da terra… Como era enleante subir aquele magnífico monte que defende a cidade e ver ao longe o pico do Pico. Que nostalgia… que saudades da terra. Que desejos tinha de atravessar o mar imenso que nos separava e vir somente, por um instante que fosse, pisar as “pedras negras “ do Pico. 

Ainda agora é a soberba montanha que, ao amanhecer, vigio da minha janela, para que me indique o estado do tempo que vamos ter. E lá no alto, no cimo do pico do Pico vejo a direcção das nuvens… os reflexos do Sol nascente… as nuvens encapeladas… tudo indicativo do tempo que vamos ter...  E o poente do Astro Rei?!... 

Deixem-me que escreva, hoje, prosa solta, talvez sem nexo, somente para exaltar a beleza maravilhosa deste Pico que um dia remoto, que a História não registou, emergiu das salsas ondas para ficar no meio deste Atlântico. 

O marinheiro e o agricultor, de madrugada, quando saíam do leito e espreitavam o tempo para um novo dia de trabalho, era pelo rodar das nuvens ao redor da montanha, que sabiam o tempo que os esperava: Lã crameada, chuva grada; raivas no poente, coze massa e mete gente; raivas no nascente, toca os bois e anda sempre. E tantos mais que a sabedoria popular criou e utilizou durante tantas décadas...

Mas o Pico é mais do que o barómetro natural que os naturais sabem observar e “ler”.

É, igualmente, inspiração poética para muitos que deixaram, ao redor dos tempos, poemas maravilhosos que, ainda hoje, são o encanto de quantos nele se inspiram.

Recordo Manuel de Arriaga (não discuto, por agora, a naturalidade, e podia fazê-lo…) amante do seu Pico, como tantos outros e lembro somente o saudoso Doutor José Enes, (1) com o excelente poema ao Pico, que outro saudoso picoense, o maestro Emílio Porto, inspiradamente musicou. 

Fico-me pelos poentes outonais que os pintores estrangeiros e vários são os que por aqui têm passado, aproveitam para deixar impressões em suas telas artísticas.

Nunca subi à maravilhosa montanha. Um dia, por acaso, em que tive a ventura de viajar num avião da SATA, ao aproximar-se do Pico, uma hospedeira de bordo anuncia que o Comandante ia mostrar aos passageiros um espectáculo inédito: O pico do Pico. E fê-lo de maneira distinta fazendo o avião circular sobre o “eirado” e dando a volva ao Pico. Naturalmente, nós os passageiros que viajávamos da Terceira para o Faial, ficámos maravilhados com o espectáculo que não mais se me foi dado apreciar. Ao longe, a Terceira, e depois: a Graciosa, São Jorge, o Faial e o Pico… a nossos pés. Noutra ocasião, e foi só, Minha Mulher, de saudosa memória, e eu, viajávamos quase madrugada ainda, de São Miguel para o Pico. Ao aproximar-se o avião (SATA) da Ponta da Ferraria, quando se preparava para deixar S. Miguel e sobrevoar o Atlântico, Minha Mulher chama-me a atenção para o que via no horizonte, a Oeste: O Pico do Pico, um triângulo bem definido sobre o Oceano. Uma maravilha que desapareceu quando a aeronave fez rumo à Terceira. Depois só vim a descobrir entre nuvens o meu Pico, quando me aproximava da minha ilha. Fenómenos maravilhosos!

Fenómenos que não se repetem…

 

Lajes do Pico - Capital da Cultura da Baleia 

 

Os açorianos ainda não sabem cantar o Hino dos Açores!...

A presença entre nós do Senhor Presidente da República veio uma vez demonstrar que passados 36 anos sobre a data em que foi aprovado na Assembleia Regional, o Hino dos Açores, ainda muito poucos são os açorianos que o sabem entoar (por vezes mesmo com a ajuda duma «cabulazinha»), apesar das nossas bandas de músicas presentes nas cerimónias oficiais por uma questão de protocolo e de sentido cívico e, por que não dizê-lo, mesmo patriótico, o tocarem conjuntamente com o Hino Nacional.

Tive a oportunidade de observar melhor este lapso numa cerimónia em que, por feliz coincidência, estive perto do Professor Marcelo Rebelo de Sousa e não deixei de sentir que cantado o Hino Nacional, conjuntamente com os sons duma banda de música, foi perceptível que deixou transparecer um certo e natural desconforto pela mudez dos presentes.

Mas muito mais desagradável foi que na sua triunfal visita pelas nossas ilhas, aconteceu o mesmo, (basta recordar as imagens da Televisão), logo no momento da chegada ao Corvo, a não ser quando um ou outro conjunto coral participava numa cerimónia, dava o «tom» e cada um ia relembrando aqui e ali as estrofes do Hino que Natália Correia, num momento de feliz concepção poética compôs para ser adaptado à música do primeiro Hino composto em 1894 pelo maestro Artur Lima, para a Banda «Progresso do Norte» de Rabo de Peixe.

A letra desse 1º Hino era da autoria do professor António Tavares Torres, um autodidacta de raro merecimento que prestou relevantes serviços à freguesia de Rabo de Peixe, sua terra natal, à administração municipal da Ribeira Grande e ao Ensino:

 

 O clamor açoriano,

 Em sã justiça fundado,

 Pede essa ampla liberdade

 Que se deve a um povo honrado.

Aliás é bom recordar que quem muito contribuiu para pôr os portugueses do continente a cantar o Hino Nacional, sobretudo no início dos grandes desafios de futebol internacional, inclusivé os jogadores, foi um brasileiro, o grande treinador Scolari, aliás num gesto de cidadania que ainda hoje não foi esquecido e, felizmente, que se repete agora em idênticas ocorrências... 

Há semanas li um comentário muito apropriado a esse respeito, fazendo a comparação com o que se passava com os estrangeiros, sobretudo os americanos que até cantam o seu hino com a mão direita sobre o coração, numa motivação de amor pela pátria de origem ou que lhes deu acolhimento, como é o caso dos portugueses.

 

No meu tempo de escola, já lá vão cerca de 78 anos (!) e mesmo muito antes, as aulas começavam pelo Hino Nacional… mas creio que após o 25 de Abril este gesto ou foi abolido ou esquecido… Não tenho conhecimento de ter recebido uma ordem de serviço para esse «calar», mas o certo é que com este simbólico gesto não só glorificava a Pátria, como ainda ajudava a educar os alunos pelos seus mais representativos valores.

 

Desde o primeiro Governo Regional, da Presidência do Doutor João Bosco da Mota Amaral que a Secretaria Regional da Educação tem feito uma ampla divulgação do Hino dos Açores pelas escolas, naturalmente para que os alunos o aprendam na oportunidade que melhor os professores entenderem e até o possam passar aos seus familiares, numa atitude de interajuda.

Seja como for, as coisas passam-se como se nada tivessem sido aconselhadas; mas fala-se de autonomia, de direitos e de deveres; contudo há atitudes e gestos complementares que têm de ser «aprendidos»: o Hino é um deles!

Aliás gosto sempre de recordar que em 27 de Junho de 1984 o orfeão do Colégio de S. Francisco Xavier regido pela professora D. Eduarda Cunha Atayde creio que na altura composto por 70 elementos entre os 8 e os 12 anos, cantaram pela primeira vez o Hino dos Açores, repetindo o feito num memorável espectáculo que a Biblioteca Juvenil de Ponta Delgada organizou em 16 de Dezembro de 1986, para celebrar os «10 Anos de Autonomia Regional».

Lembro-me de ter sido preciso adaptar umas «fusas» ou «semi-colcheias» a um ou outra entoação para que a letra assentasse bem na música!

Foi um êxito, pela sua mestria e também porque a partir dali muitas outras escolas se motivassem a fazer o mesmo; e, de facto, tive a alegria de verificar que seguiram aquele emotivo exemplo, pois nas festas escolares que se depois organizaram, o Hino dos Açores era cantado no início ou no fim do espectáculo, conforme era a organização do programa.

Desconheço como se passam hoje as coisas, mas creio que a sentimentalidade açoriana ali bem expressa, merecia perfilar-se no mesmo pé de igualdade do Hino Nacional, isto é, entoado por todos em uníssono!

É um trabalho que não deve ser desenvolvido só nas nossas escolas, mas também nas nossas associações cívicas, culturais até particulares, mesmo utilizando, de vez em quando, «uma cábula» para relembrar, pois o resto virá por acréscimo…

Vem aí de novo o Senhor Presidente da República, desta vez para visitar as ilhas e S. Miguel e de Santa Maria: um bom momento para pôr todos – micaelenses e marienses - a cantar o nosso Hino, como símbolo do «valor açoriano, pela paz à terra unida… até à vitória merecida»!

 

E, por que não?

É preciso é começar…

A Lista Negra da Autonomia: «As Datas da Autonomia»

1. O website da Assembleia Legislativa dos Açores contém um espaço dedicado às Datas da Autonomia. Uma das maiores responsabilidades do Parlamento, tendo em conta que os Deputados representam a Região, é a unidade regional – porque é realmente no parlamento e nas suas ações e omissões que se respira a ideia de unidade do povo açoriano. Já apontamos, noutro ensaio, que o Parlamento perspetiva a Região como tendo sido uma colónia de Portugal, ideia evidentemente errónea porque não corresponde à realidade, e prejudicial à unidade regional porque rejeita a ideia total da história dos Açores no seu contexto de portugalidade, como o foi desde sempre e como ficou consagrado desde logo na primeira Constituição Portuguesa. Agora surge esta Lista que também reduz a história açoriana e é mais um ato que prejudica a unidade regional, e a história da autonomia.

Eis a lista que consta ali:

31-03-1892, Projeto que defendia uma nova administração para os distritos dos Açores.

19-02-1893, Criação da Comissão Autonómica em Ponta Delgada.

05-03-1893, 1º nº do jornal “Autonomia dos Açores-Livre Administração dos Açores.

03-02-1894, foi interpretado pela 1ª vez em público o Hino da Autonomia.

02-03-1895, Promulgação do Decreto de 2 de março de 1895.

Novembro de 1897, Primeira Bandeira Autonómica.

01-05-1920, fundado em Ponta Delgada o jornal Correio dos Açores.

17-10-1921. Projeto de lei para a Autonomia Administrativa dos Distritos Açorianos.

16-02-1928, Decreto 15035, que aumenta as competências das Juntas Gerais.

31-12-1940, Estatuto dos Distritos Autónomos das Ilhas Adjacentes.

25-04-1974, Revolução de 25 de abril de 1974.

25 e 26 de junho de 1975, Proposta para a Junta Governativa dos Açores

22-08-1975, Criação da Junta Regional dos Açores

07-12-1975, Anteprojeto do Estatuto Político Administrativo dos Açores.

02-04-1976, Decretada a Constituição da República Portuguesa.

30-04-1976, Decretado o Estatuto Político Administrativo Provisório dos Açores.

27-07-1976, Primeiras eleições para a Assembleia Regional dos Açores.

20 e 21-07-1976, Sessão Preliminar da Assembleia Regional dos Açores.

04-09-1976, Abertura Solene da Assembleia Regional dos Açores.

08-08-1976, Tomada de Posse do 1º Governo Regional dos Açores.

10-04-1979, Aprovação dos Símbolos Heráldicos da Região.

26-06-1980, Aprovado Estatuto Político Administrativo Definitivo dos Açores.

04-09-1986, Sessão Solene Comemorativa dos 10 anos de Autonomia.

04-09-2001, Sessão Solene Comemorativa dos 25 anos de Autonomia.

14-05-2003, Monumento comemorativo dos 25 anos de Autonomia Legislativa.

24-07-2004, Revisão Constitucional de 2004.

 

2. Sendo uma lista oficial do Parlamento açoriano, temos de concluir, desde logo, tratar-se duma lista política e não científica. Em todo o caso, parecer-nos-ia que, sendo o Parlamento a casa de representação da Autonomia e dos açorianos, ela deveria basear-se numa lista com sustentação técnica, ou pelo menos com algum rigor de verdade e com algum rigor histórico. Mas não, é realmente uma lista política, mas paupérrima, porque errónea, e embusteira, porque constrói uma ideia equivocada do povo das ilhas.

Esta Lista daria para escrever um longo ensaio, incluindo a análise do conteúdo dos documentos que estão na base dos títulos ali inscritos. Vamos apontar, aqui, duas elementares anotações sobre duas básicas, mas importantes, matérias.

Esta Lista vem na linha condutora daqueles que defendem, injusta e erradamente, que a autonomia e o interesse pela política açoriana, tenha nascido na proposta de Aristides Moreira. E este importante homem da História Açoriana merece que lhe honremos a memória com a verdade. Em primeiro lugar, porque já o Pe. António Cordeiro, em 1717, tinha já proposto, na História Insulana, uma ideia de governo para as ilhas; e isso é quanto baste, porque outros importantes acontecimentos políticos da unidade regional aconteceram inclusivamente na era de quinhentos, e mais. E, em segundo lugar, o designado 1º movimento autonómico não defendeu o governo das ilhas; o que ele defendia era a manutenção do sistema dos distritos que tinha sido criado em 1832 e mantido até 1892; isto é, o 1º movimento autonómico queria manter o sistema das juntas distritais porque não pretendia – propositadamente – um sistema de unidade regional. Ou seja, colocar nesta Lista, que tenha sido esse documento aquele que deu início à Autonomia dos Açores – só pode constituir-se uma elementar brincadeira política: 1º, porque não foi realmente o primeiro, 2º porque, a unidade das ilhas, isto é a Autonomia Açoriana, teve início no povoamento das ilhas, tendo sido desfeito esse enlace apenas em 1832 com a ideia da divisão do território português em distritos, tendo sido retomada a ideia de unidade regional apenas em 1975, não obstante ideias desta natureza durante todo o processo autonómico dos governos distritais.

Esta Lista refere a Constituição de 1976 e a sua revisão de 2004. A referência ao texto de 1976 está certa porque foi aí que se criou o modelo de Autonomia hodierna. Mas referir a revisão de 2004 sem referir as de 1982, 1989 e 1997 – é coisa impensável. Estas três últimas revisões constituem um património valiosíssimo para as autonomias portuguesas, e tão ou mais importantes que a de 2004: a de 1982, porque foi aqui que o modelo se cristalizou com a expurgação do Conselho da Revolução e a criação do Tribunal Constitucional, e a estabilização do poder legislativo regional através do decreto legislativo regional (já não decreto regional, que até se confundia com o “decreto regional” do Ministro da República), e a importantíssima matéria da normalização da força dos atos normativos. A de 1989, porque ficou consagrada a designação de Assembleia Legislativa Regional, e já não Assembleia Regional. A de 1997, porque a dissolução do Parlamento pelo Presidente da República passou a exigir «atos graves contrários à Constituição» e previa expressamente as matérias de interesse regional. Porquanto a de 2004 limitou-se a complicar o processo legislativo, substituindo a expressão “interesse específico” por “âmbito regional”, que é um conceito mais sujeito ao devaneio interpretativo (como se tem visto nos últimos anos),  e fazendo descer da Constituição para o Estatuto as matérias legislativas regionais (um enorme tiro no pé, e apenas para dar aso a um Estatuto que se tornou grande na quantidade e pequeno na qualidade; a Madeira nunca fez a sua alteração e, no entanto, continua a legislar o mesmo ou melhor que os Açores), e substituindo a expressão “Ministro da República” para a de Representante da República”, mas que no fundo é igual porque os poderes são iguais, mudou apenas o vestuário designativo.

A informação debitada pelo Parlamento Açoriano – é errónea, quer na vertente histórica, quer na dos documentos legais, e dá uma ideia parcial da muito antiga e riquíssima História Política dos Açores que vem do povoamento, muito anterior a 1892.

Aquele dia que um Santo passou nos Açores!

Faz agora 26 anos que, em 11 de Maio de 1991, se passou em Ponta Delgada um sonho de grande intensidade emocional, como nunca tinha acontecido, com a Visita Pastoral de São João Paulo II à nossa Diocese. 

Foi «como se a história da salvação passasse por momentos entre nós», gravando no nosso coração a imagem daquele Papa Peregrino que durante o seu longo e edificante pontificado viajou pelo mundo levando uma mensagem de salvação e de ternura que Ele tão bem sabia transmitir, arrebatando o povo micaelense e promovendo momentos de alta tensão que parecia que o Céu e a Terra se fundiam sobre o solo açoriano!

Vivi esse dia algum tempo antes - por via duma cuidada preparação religioso/pedagógica que «sonhamos» e pudesse ser desenvolvida nas nossas escolas do 1º ciclo, juntando no mesmo sentimento de fiel e de aliança ao Papa que hoje é Santo, uma comovente unidade de pensamento e de acção, com os alunos, com os professores e ainda os seus familiares, através dum projecto a que simbolicamente então resolvemos chamar de «ENCONTRO COM UM AMIGO», mas que imediatamente se transformou num momento cheio de ternura como nunca se havia repetido entre nós, sobretudo quando o coração do Papa se juntou a cada um de nós!

Foi como se nesta terra amanhecesse um novo dia, através da transformação que esse ternurento encontro chegou ao alcance de todos - aos presentes no Campo de S. Francisco, e aos que em casa o viram através da Televisão ou o ouviram pela Rádio – podendo assim presenciar não só a presença de S. João Paulo II, como participar na cerimónia da Proclamação da Palavra e ainda naquele comovente olhar frente a frente com a Imagem do Senhor Santo Cristo.

E, por isso, no seu regresso ao Vaticano, pode afirmar: «não posso recordar todos os pormenores, mas gravou-se profundamente no meu coração o encontro com o ECCE HOMO, em Ponta Delgada».

Contou-me o meu saudoso amigo António Costa Santos, que, de acordo com o protocolo e após ter cumprimentado as principais autoridades ali presentes o Papa dirigiu-se aos membros da Irmandade; e, primeiramente, para o seu Provedor. Contudo, no momento em que o ia cumprimentar, São João Paulo II fixou, como num relance místico, o rosto que inspira a Imagem do Senhor Santo Cristo, ali presente no seu andor; e que decerto, reparando naquele olhar diferente e misericordioso que a Veneranda Imagem revela, passou adiante de todos para apressadamente se dirigir e só se centrar, de joelhos, numa atitude de prolongada e orante veneração, esquecendo-se de si mesmo e dos que aguardavam se iniciasse a Celebração da Palavra, a ponto do Bispo D. Aurélio, lhe ter segredado (contra a vontade de alguns dos membros do episcopado presentes), que era chegado o momento de terminar aquele Encontro tão pessoal, que afinal só traduzia uma grande intensidade de pessoal.

Aliás, a esse propósito, como então escreveu o cónego António Rego «foi tudo como se tivesse rebentado um vulcão», pois o nosso povo como talhado em basalto cinzento, soube escutar e viver o apelo de interioridade que a Igreja e as escolas souberam transmitir; e a lava correu como lágrimas de emoção que a todos tocou e inspirou naquele momento em que parecia que a terra micaelense e o Céu se tocaram de maneira tão resplandecente!

Tive a honra de estar junto desse Santo, (a quem hoje tantas vezes recorro), por via da bondade de outro grande Amigo, Monsenhor José Ribeiro Martins, que quis demonstrar o seu reconhecimento pelo trabalho de preparação que realizámos nas escolas.

No lugar que me tinha sido reservado, João Paulo II chegou a tocar-me… mas o « fiel» guarda costas não deixou que lhe beijasse a mão!

Soube mais tarde que a nossa Diocese, por via das escolas de S. Miguel e de Santa Maria, foram as únicas que «romperam» as barreiras da laicidade (hoje muito desvanecidas com a eleição do nosso actual Presidente da República) … e conseguiram realizar um trabalho tão intencional.

Aliás, nessa altura, a Autonomia vincou o seu lugar ao  creditar a realização desse trabalho pedagógico e de elevado sentido e Fé e de religiosidade; por isso, neste testemunho que hoje quis reservar para esta colaboração, não quero deixar de lembrar «a carta branca» que o então Presidente Mota Amaral me quis conceder.

Creio que foi um serviço que muito deve ter contribuído para cada vez mais unir os açorianos, pois com esse «ENCONTRO COM UM AMIGO», na carta de agradecimento que mais tarde recebi do assessor do Papa, Monsenhor Sandri, este afirmava que « Sua Santidade confiara-lhe a honrosa incumbência de nos agradecer o testemunho de estima e de corajoso espirito cristão demonstrados, como sinal de vitória , esperança e força dos corações».

Relembro esse dia memorável com enorme emoção e sei que muito do que se passou se ficou a dever ao espirito de serviço dos meus mais próximos colaboradores. 

Apesar dos anos que passaram, saúdo com muita amizade e louvor os professores e os alunos, pois que nos seus locais de trabalho, souberam entender este acontecimento como uma vivência, muito para além duma normal «ordem de serviço», mas com verdadeiro e esclarecido espírito de educadores e de educandos, alguns independentes das suas convicções religiosas.

 

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