Independentes de quê?

Com um voto expresso e público de fidelidade, vontade de servir e amor a Ponta Delgada Álvaro Dâmaso, ex-dirigente regional do PSD, anunciou a sua candidatura à Câmara Municipal desta cidade como…”independente”!
Pouco tempo depois, e após o PSD ter apresentado a recandidatura de José Bolieiro à mesma autarquia, Dâmaso dá o dito por não dito e, pela boca do responsável regional daquele partido, anuncia a sua desistência.
É legítimo pensar que, ao anunciar a sua candidatura como independente, Dâmaso visaria provavelmente antecipar-se a uma candidatura partidária do PSD e conseguir com isso arrastar até, além do apoio do PSD, o apoio de outros partidos e cidadãos de áreas políticas diferentes do PSD, ao jeito do que fez Rui Moreira no Porto, ou Décio Pereira na Calheta, em S. Jorge. Porém, após a sua desistência, resta muito pouca legitimidade para pensar na real “independência” da (ex-) candidatura de Dâmaso…
Todo este imbróglio à volta das candidaturas ao maior município dos Açores levanta uma questão pertinente, a das candidaturas municipais ditas independentes. Olhamos para Oeiras, no continente, e vemos Isaltino Morais a pretender regressar como “independente” em 2017 (e defrontar o seu afilhado “independente” Paulo Vistas), tal como já aconteceu com o “independente” Valentim Loureiro em Gondomar, ambos ligados à área do PSD mas dela afastados por conexões processuais com a justiça. Olhamos para o “independente” Narciso Miranda, em Matosinhos, e vemos um homem do PS, partido de onde foi excluído. Olhamos para Avelino Torres, de Marco de Canaveses, e vemos um “independente” hoje e um homem do CDS amanhã, ou vice-versa. Olhamos para o “independente” Marco Almeida, em Sintra, e vemos um homem do PSD, que o PSD não quis apoiar em 2013, etc. etc.
Enfim, sem falar das muitas listas não partidárias concorrentes às freguesias (como na minha, em Santa Clara) que, por estarem confrontadas com problemas muito concretos, refletem em geral uma união de vontades que vai para além dos partidos (e não contra eles), na maioria dos casos as listas de “independentes” nos municípios aparecem ou porque os seus cabeças não foram os escolhidos pelo seu partido, ou porque, sendo afetos a este ou àquele partido, estão a contas com a justiça, ou porque se têm em boa conta de si e calcularam erradamente que o partido a que estão ligados poderia servir de trampolim útil para a concretização das suas ambições políticas pessoais…
Tudo isto resulta afinal da confusão, propositada ou não, entre as chamadas listas de “independentes” e as (legais) listas de cidadãos eleitores. Estas últimas, embora não dependentes de um partido ou coligação, podem incluir no seu seio candidatos de diferentes partidos ou sem partido nenhum. Os verdadeiros independentes, esses não têm listas próprias, de acordo aliás com o sentido da palavra “independente”, e, tal como é habitual, tanto podemos encontrá-los nas listas de cidadãos eleitores como nas listas partidárias.
Insistir em colocar a etiqueta dos “independentes” nas listas municipais de cidadãos eleitores decorre não poucas vezes da intenção de as opor, como fonte de virtudes (que a realidade muitas vezes desmente), às listas apresentadas pelos “corruptos” partidos políticos, o que levado ao absurdo desembocaria provavelmente na condenação da própria existência dos partidos. Mas onde é que já vimos este filme?
Ainda pensando nas apregoadas virtudes das ditas listas de “independentes” e a propósito das eleições para o parlamento açoriano, aqui fica à reflexão da Comissão Eventual para a Reforma da Autonomia…

Leituras e Escritas do Mundo (III) - (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus

Somos seres de falta, de falha e de imperfeição por isso se nos impõe a exigência, a autoexigência, o respeito mútuo. É tempo de levantar a bandeira dos valores maiores. Quanto estamos longe destes caminhos! Quanta falta nos fazem esses caminhos. Haveria mais e melhor Justiça, mais e melhor Educação, mais e melhor Cultura, mais e melhor tudo. A Lógica de Cristo foi outra, de facto, como nos ensina o Papa Francisco e os seus antecessores, - João Paulo II e Bento XVI -, como nos ensinam os Santos e Sábios. E como dar a volta a isto, a este mundo, sem outra lógica? Deixamos de nos reconhecer como irmãos. Então, o que podemos esperar de Deus? “Estamos sós e sem culpas”? ou será que estamos sós e com culpas? Não há nenhum cientismo que nos valha, não há nenhum cientismo que possa substituir o dever da Moral - em todos os setores - e da sua vivência. Aliás, o cientismo é, já, a degenerescência da verdadeira Ciência.
Caros ouvintes talvez seja tempo para ouvirmos outra Canção (música e letra) dos Il Divo, Aleluia.
Repugna-me a ganância, o luxo, a hipocrisia e a mediocridade. Também me repugna a caridadezinha de má consciência que nada tem a ver com a Lição da Caridade de uma Mulher tão frágil, mas com tanta força, que foi Santa Madre Teresa de Calcutá. O tempo que vem aí é um tempo de discernimento crítico. Reafirmo, vigorosamente, que a Pobreza e os sem abrigo não podem ser um negócio para quem quer que seja. Não estamos a parar para recriar a Sociedade, não à luz de modelos materialistas e economicistas, de sinais contrários, mas à luz do Humanismo Cristão, do Humanismo Humano, que não recusa, até, um genuíno humanismo laico, desde que a Pessoa seja princípio e fim em si mesma, como defende o Grande Filósofo Kant (1724 - 1804). Quem ouviu e seguiu o Grande Papa, Filósofo e Teólogo, São João Paulo II quando denunciou o “capitalismo selvagem”? É que do lado do capitalismo parece que as algibeiras estavam cheias, daí a crítica que lhe faziam em matéria de costumes. Uma visão redutora e, até, mesquinha, face a uma Figura de semelhante grandeza. Lembro-me das suas exéquias, da presença, impressionante, de líderes políticos e religiosos de todo o mundo, que se renderam, que tiveram de se render, na sua insignificância política - desde logo de países poderosos - face à Sabedoria e Visão de um Espírito Superior, de um Papa que sempre se opôs à intervenção militar no Iraque, como atrás afirmámos. O que estamos a aprender? Estamos a aprender? Queremos aprender? A História ensina-nos tanto e (quase) nada aprendemos com ela. Temos dito. O que é muito diferente da saudável reflexão que Nietzsche faz no livro Utilidade e Inconvenientes da História para a vida. 
E, todavia, somos e queremos ser, nestas Terras, os Açores, Irmãos do Divino Espírito Santo, que está sempre por se cumprir, em interioridade, para além da exterioridade, que pode ser um caminho, mas nunca O Caminho. É preciso mergulhar nessa imensa Interioridade - nos Açores Profundos, na sua Gente, de Alma Grande -  e nela encontrar uma Mesa de tantos Nós, vivos e mortos, que ficaram, em Espírito de Vida, também pelas vidas que viveram. Parece-me, às vezes, que os vivos estão cada vez mais mortos e os mortos estão cada vez mais vivos. Também nesse sentido que se restaure o Feriado do Dia de Todos os Santos. Mas recordar é pouco, evocar é mais, é mais fundo.
É preciso que a Literatura se faça Pão e Luz, se faça Educação e a Educação se possa nutrir de Letras que alimentam, para dar ser ao ser. É preciso cumprir as Bem-Aventuranças, pelas quais daremos conta no Juízo Final. E será a linha divisória ao que neste mundo já pode significar orientar a nossa vida, pessoal e coletiva, pela Categoria do Ser ou do Ter. O Ser é o Verdadeiro Ter que se partilha e compartilha, que se doa. Não o ter da moeda que cai da mão de quem não lhe faz falta. Há tantas formas de fome, há tantas formas de sede. Primeiro a física, cuidar do corpo, mas, igualmente, a fome e a sede espirituais, que ajudam a crescer, em estima. A metafísica que nos ensina que não somos apenas nem principalmente matéria - que degenera em materialismo - mas Espírito, que é fonte de abundância, de fartura, para dar e receber. Metafísica, de carne o osso, que nos faz olhar ao espelho, ver luz e sentir a dignidade de ser gente, ter trabalho, ter emprego, respeitar e ser respeitado.
A dignidade humana tem de ter um conteúdo concreto, caso contrário, é uma falácia perigosa na boca de sofistas, daqueles que fazem dos famintos e dos pobres objeto de investigação ou motivos de políticas sociais. Não. “O outro totalmente outro”, na expressão de Levinas, que me interroga, que nos interroga, que nos interpela, a fundo, a todos, recusando uma suposta solidariedade feita com o dinheiro que é de todos. Todos e cada um têm – e tem - de ser protagonistas das suas vidas, embora haja momentos em que seja necessário não apenas dar a cana mas também o peixe. Estamos tão longe do que significa, na sua raiz cristã, a palavra solidariedade e caridade. Mas cada um tem de descobrir o projeto que é, o projeto de ser que o habita, nas suas potencialidades e aptidões. As políticas públicas - seja onde for - têm de criar condições para que o outro seja quem é, quem deseja ser, quem quer ser como pessoa, em pessoa.  Ninguém pode ser expropriado do seu próprio ser. O Papa Francisco tem dado Lições ao Mundo, a partir de Roma, da Europa, - a partir de si mesmo - denunciando a situação dos excluídos, dos sem-abrigo, dos migrantes, dos refugiados. E todos nós somos, também, tudo isso potencialmente. E o Papa Francisco, de modo tão humano e intenso, faz-nos questionar e colocar no lugar do outro, - mesmo quando entra numa prisão -, para nos fazer sentir essas realidades, essas chagas que grassam no Mundo.
Também o Secretário Geral da ONU, Engº António Guterres, denuncia o grave desrespeito pelos Direitos Humanos, em todo o Mundo. Que Mundo é esse? Ainda há pessoas? Ainda há Instituições lideradas por pessoas de elevada estatura humana e categoria para os cargos que exercem? Aonde estão?
E estas perguntas, convergem para uma questão maior: Onde está Deus, no nosso Pensamento e no Horizonte das nossas vidas pessoais e coletivas?
Eis que irrompe o Silêncio.
Tempo para ouvirmos a Canção (letra e música, The Sound of Silence).
Tempo, agora, para referirmos alguns livros, alguns no seguimento de muitos dos aspetos que afirmámos: Os Fundamentos Espirituais da Europa, de Joseph Ratzinger; Um Ensaio sobre a Constituição da Europa, de Jürgen Habermas;  Não Nos Esqueçamos de Deus. Liberdade de Fé, Cultura e Política, de Angelo Scola; Europa. Os seus Fundamentos. Hoje e Amanhã, de Joseph Ratzinger; O Diálogo Indispensável. Paz entre as Religiões, de Raimon Panikkar; A Ideia de Europa, de George Steiner, com Prefácio de José Manuel Durão Barroso.
De seguida, propomos uma outra Canção. Desta vez Para os Braços da Minha Mãe, de Pedro Abrunhosa, com Camané, também. (audição da Canção).
Já quase no final deste Programa – Leituras e Escritas do Mundo – sobre o Tema (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus, temos muito gosto em ler um Soneto de Antero de Quental, que se intitula “Na Mão de Deus”.
Caros ouvintes, praticamente no final deste nosso primeiro Programa – Leituras e Escritas do Mundo – temos muito gosto em partilhar convosco, em ouvirmos, em conjunto, Ilhas de Bruma. Este nosso Arquipélago dos Açores, - os Açores. Miguel Torga afirma: “O universal é o particular menos os muros”. Estamos no Centro do Mundo. Os Açores são Mundo, são mundos, no conjunto e no Horizonte do Mundo. Ilhas de Bruma, que falam ao fundo dos Açores, ao fundo de cada um de nós, nas funduras e nas alturas, nesse nosso modo muito peculiar de ser que esta canção, esta bela canção, tão profundamente expressa, também numa dimensão metafísica e humana.
(Audição, Letra e Música, de Ilhas de Bruma).
Um bom dia para todos. Foi com muito prazer que convosco partilhámos Leituras e Escritas do Mundo.
O Mundo na Rádio, para Pensar com os cinco sentidos.         


Nota: Este texto é uma parte do Texto Integral lido no 1º Programa Leituras e Escritas do Mundo, da autoria do próprio, proferido na Rádio Atlântida, no dia 02 de abril deste ano de 2017, sobre o tema geral  (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus. O Programa encontra-se disponível, na íntegra, para audição, no Arquivo Digital (PODCAST) da Rádio Atlântida.


*Doutorado e Agregado em Educação e na Especialidade de Filosofia da Educação

Leituras e Escritas do Mundo (I) - (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus

O Mundo que aí está é inóspito, onde é muito desagradável morar e habitar. Um mundo de violência, de muitas formas de violência, de terrorismo, de muitas formas de terrorismo. Mas não chegámos aqui por acaso, há causas, há razões. Todos e cada um são responsáveis. Uma Sociedade, uma Instituição, qualquer organismo humano, é, ou não é, o que as pessoas que aí habitam ou trabalham são ou não são. Já os gregos, na época clássica, o viram e disseram com nitidez.
Como intervir neste nosso Mundo, tão violento, agressivo, cheios de incertezas, mudanças permanentes, imprevisibilidade onde parece que os valores maiores desapareceram e desapareceu o sentido do Sagrado, que se deve ou pode conciliar com a “laicidade sadia”, na expressão de Bento XVI, num livro da sua autoria intitulado “Aprender a acreditar”.
E hoje há uma fratura entre fé e razão e há várias formas de descrença. Em que é que as pessoas acreditam, em que acreditamos? E será que acreditam? Há uma grave crise de confiança e de credibilidade que atinge o plano económico, financeiro e moral. As pessoas já não são de confiar nem de fiar. Antigamente dava-se fiado porque as pessoas acreditavam umas nas outras e a Palavra tinha valor. Eis a maior crise de todas, a crise da Palavra e na palavra. Não basta argumentar, é preciso fazê-lo com e em valores. E mais do que argumentar, é preciso comunicar e mais do que comunicar é preciso falar. Sobre estes temas poderíamos citar vários autores. Cito o Professor Doutor José Enes, que tanto escreveu sobre a Palavra, o ato de expressar, o Pensamento e a Linguagem. No livro à Porta do Ser (1969) – livro atualíssimo, cheio de futuro - afirma José Enes: “O pensamento conduz à fala como quem conduz o ânimo humano à própria casa. […]. O pensamento, por conseguinte, é essencialmente falante. Sendo assim, segue-se, também, da mesma essência manifestativa da fala, que o pensamento, falando a fala, fala-se a si mesmo. […]” (Enes, 1969, 28 – 29).
Onde está na Sociedade e no Mundo a coragem de pensar?, a coragem do pensamento, da verdade de o manifestar? Traindo o pensamento e a sua manifestação verdadeira o ser humano trai-se a si mesmo e vai criando uma Sociedade de mentiras e de enganos. O Mundo – nas suas várias dimensões e manifestações – não pode avançar com paralíticos do pensamento, nem, em termos metafóricos, com dislexia de pensamento, de fala e de escrita, sublinho, em termos metafóricos. Por isso diz o provérbio: “a boca fugiu-lhe para a verdade”. Essa é a sina e o fado do homem, do ser humano, comprometer-se, em verdade, no que diz e faz. Por isso são muito importantes os discursos. E, todavia, em certos universos político-partidários as pessoas desconfiam deles, pura e simplesmente não acreditam neles. Há muito para regenerar, em valores, nos discursos humanos. Tudo é texto e contexto. É preciso fazer leituras críticas, reflexivas e interpretativas do Mundo, para que ele avance, para mais e melhor.  
Saber falar – e todos sabem, se forem verdadeiros – é da maior responsabilidade e, ao contrário, com que ligeireza ouvimos falar todos os dias, com que facilidade as pessoas mentem, sem se aperceberem que ficam prisioneiras do que dizem e capturadas nas suas redes e armadilhas. Todos os dias há mais desinformação, ocultação e produção de declarações falsas e mensagens tóxicas, que envenenam a relação entre as pessoas e entre os responsáveis – sempre transitórios – das nações e povos. E saber como João Paulo II sempre chamou a atenção para os direitos dos povos – de cada povo -, ao mesmo tempo, que, antes, exortava, sempre, para os direitos humanos, para os direitos da pessoa humana. Como falou da Europa, da queda do Muro de Berlim, do desmoronamento do comunismo, do que se passava em todo o Mundo, como se opôs, até ao fim, à intervenção militar no Iraque. Faleceu em 2005. Todos se curvaram perante a Figura de João Paulo II. Todos se curvaram perante a sua morte.  
Estamos em 2017.  
O que aprendemos com a História? Nada ou quase nada. E, no entanto, é à História que vamos buscar a Memória e a Luz para avançar e fazer futuro. Mas que leituras e escritas estamos a fazer do Mundo? Do nosso Mundo, desde o mais pessoal e próximo ao mais longínquo, em termos físicos. E tudo fica perto pelos meios de comunicação social e outros meios de informação, já à mistura com o falseamento da informação, em mentiras que se escondem em noções como “pós-verdade” e “factos alternativos”.  
É esse o nosso Mundo. Mas o diagnóstico e a leitura sobre o que acontece, sobre o que há, não nos impede, bem pelo contrário, de pensar e realizar outros Mundos, outros Mundos a Haver, como sonhava, com grande sentido histórico e de realidade, o Filósofo Agostinho da Silva.
E um dos graves problemas que o Mundo enfrenta é o do Ambiente, mesmo que negado pelo economicismo e politicismo mais primário e acéfalo.
Precisamos do Ambiente da Natureza e do Ambiente Humano. Precisamos de um Mundo mais Ecológico, mais Respirável.
E Deus, na Sua Bondade, no Ato Criador, Original, viu que tudo era bom. Tudo o que saiu do Seu Verbo Criador e se fez Realidade, Mundo Físico, - natural e sobrenatural - era Bom. A Criação Original de Deus é um Poema Singular e Irrepetível.  Mas onde o homem põe as mãos estraga ou tende a estragar tudo. Foi assim, em tempos primordiais, desde os Primórdios. Foi assim, é assim, no Curso da História, que se faz no Espaço e no Tempo. Nos Génesis e desde o Génesis está tudo. É preciso fazer essas leituras. Tantas e plurais. “Deus viu que isto era bom” (Génesis, 1, 11 – 12).

Na Carta Encíclica Laudato Si, Sobre o Cuidado da Casa Comum, o Papa fala para o Mundo, para crentes e não crentes.
Afirma o Papa Francisco: “A atitude basilar de se autotranscender, rompendo com a consciência isolada e a autorreferencialidade, é a raiz que possibilita todo o cuidado dos outros e do meio ambiente; “ (Francisco, 2015, p. 138). Quem não gosta de fruir de um bom ambiente natural e humano para viver? As migrações são também essa busca e os refugiados estão em êxodo, à procura da Terra Prometida, em Busca de Deus. Todos andamos - cada um à sua maneira - à Procura de Deus, da Paz, da nossa Harmonia de Ser, do Direito a ter Direitos.  
Quem educar o seu coração para a paz, rejeita a guerra e a violência como agressões e destruição. É preciso “renunciar” e abrirmo-nos ao “mistério” e à “compaixão”, talvez dos valores humanos mais profundos e mais universais. É preciso uma Educação profunda, que tenha conteúdo, sentido e seja portadora de valores.
Afirma o Papa Francisco:

“A educação ambiental deveria predispor-nos para dar este salto para o Mistério, do qual uma ética ecológica recebe o seu sentido mais profundo. Além disso, há educadores capazes de ordenar os itinerários pedagógicos de uma ética ecológica, de modo que ajudem efetivamente a crescer na solidariedade, na responsabilidade e no cuidado assente na compaixão” (Francisco, 2015, p. 139).

Para além das questões do Ambiente em relação à Natureza, há que atender – como vimos e dissemos - ao Ambiente Humano. As Sociedades, os Territórios, as Nações e Países devem expressar uma solicitude que se manifeste, manifestam, – ou não – nos rostos das pessoas. O acolhimento começa no olhar, no modo como nos vemos uns aos outros. Quem praticar a maldade deve ser punido, muito mais se essa maldade for intencional. Mas, acima de tudo, há que resgatar a Esperança, na vida pessoal e comunitária. Também em relação à União Europeia que está a passar por fases muito conturbadas, é preciso dar atenção. Se cada um puxar para o seu lado, se cada país puxar para o seu lado, poderá ficar em risco o projeto comum da Europa, fundado em valores de Democracia, de Liberdade, de Paz e Desenvolvimento. Mas a solidariedade tem de ter conteúdo e expressão concreta.
[…].

Nota: Este texto é uma parte do Texto Integral lido no 1º Programa Leituras e Escritas do Mundo, da autoria do próprio, proferido na Rádio Atlântida, no dia  02 de abril deste ano de 2017, sobre o tema geral  (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus. O Programa encontra-se disponível, na íntegra, para audição, no Arquivo Digital (PODCAST) da Rádio Atlântida.

*Doutorado e Agregado em Educação e na Especialidade de Filosofia da Educação

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Leituras e Escritas do Mundo (II) - (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus

O Papa Francisco tem dado Lições ao Mundo e aos líderes políticos. Ele, sim, tem feito as leituras corretas das escritas, umas boas outras más, deste Mundo em que vivemos e que vivemos. Interpelando a Europa, o Papa Francisco formula várias questões. E nesta linha são tão oportunas e certeiras as questões formuladas pelo Papa Francisco:
“Que te sucedeu, Europa humanista, paladina dos direitos humanos, da democracia e da liberdade? Que te sucedeu, Europa terra de poetas, filósofos, artistas, músicos, escritores? Que te sucedeu, Europa mãe de povos e nações, mãe de grandes homens e mulheres que souberam defender e dar a vida pela dignidade dos seus irmãos?” [itálico nosso] (Papa Francisco, no seu Discurso de Agradecimento, proferido na Sessão em que lhe foi entregue o Prémio “Carlos Magno, na Sala Régia, 6 de maio de 2016”).
O Papa continua a sua reflexão, da qual extraímos, apenas, alguns excertos, de um Discurso que muito nos ajuda a pensar humanamente a Europa e o Mundo. De seguida, citamos aspetos do pensamento do Sumo Pontífice, que, por si, nos faz meditar profundamente, com sentido retrospetivo e prospetivo, em Horizontes de Futuro.
“(…)
 “A criatividade, o engenho, a capacidade de se levantar e sair dos seus limites pertencem à alma da Europa. No século passado, ela deu testemunho à humanidade de que era possível um novo começo: depois de anos de trágicos confrontos, culminados na guerra mais terrível de que se tem memória, surgiu – com a graça de Deus – uma novidade sem precedentes na história. As cinzas dos escombros não puderam extinguir a esperança e a busca do outro que ardiam no coração dos Pais fundadores do projeto europeu. Estes lançaram os alicerces dum baluarte de paz, dum edifício construído por Estados que se uniram, não por imposição, mas por livre escolha do bem comum, renunciando para sempre a guerrear-se. Finalmente, depois de tantas divisões, a Europa reencontrou-se a si mesma e começou a edificar a sua casa.
(…)
Continua o Papa Francisco:
“O escritor Elie Wiesel, sobrevivente dos campos nazistas de extermínio, dizia que hoje é de importância capital realizar uma «transfusão de memória». É preciso «fazer memória», distanciar-se um pouco do presente para ouvir a voz dos nossos antepassados. A memória permitir-nos-á não só de evitar cometer os mesmos erros do passado (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 108), mas dar-nos-á acesso também às conquistas que ajudaram os nossos povos a ultrapassar com êxito as encruzilhadas históricas que iam encontrando. A transfusão de memória liberta-nos da tendência atual, muitas vezes mais fascinante, de forjar à pressa, sobre areias movediças, resultados imediatos que poderiam produzir «ganhos políticos fáceis, rápidos e efémeros, mas que não constroem a plenitude humana» (ibid., 224).
Por isso, - continua o Papa – “será útil evocar os Pais fundadores da Europa. Eles souberam procurar estradas alternativas, inovadoras num contexto marcado pelas feridas de guerra. Tiveram a audácia não só de sonhar a ideia de Europa, mas ousaram transformar radicalmente os modelos que provocavam apenas violência e destruição. Ousaram procurar soluções multilaterais para os problemas que pouco a pouco se iam tornando comuns.”
(…)
Referimos, para terminar, as seguintes afirmações do Papa Francisco:
Esta transfusão de memória permite inspirar-nos no passado para enfrentar corajosamente o complexo quadro multipolar dos nossos dias, aceitando com determinação o desafio de «atualizar» a ideia de Europa; uma Europa capaz de dar à luz um novo humanismo baseado sobre três capacidades: a capacidade de integrar, a capacidade de dialogar e a capacidade de gerar.
(…)
As raízes dos nossos povos, as raízes da Europa foram-se consolidando no decurso da sua história, aprendendo a integrar em sínteses sempre novas as culturas mais diversas e sem aparente ligação entre elas. A identidade europeia é, e sempre foi, um dever para com todos. Sonho uma Europa da qual não se possa dizer que o seu compromisso em prol dos direitos humanos constituiu a sua última utopia.”
Papa Francisco, no seu Discurso de Agradecimento, proferido na Sessão em que lhe foi entregue o Prémio “Carlos Magno, na Sala Régia, 6 de maio de 2016”).
Talvez fosse tempo – caros ouvintes – de ouvirmos uma canção tão bonita, intemporal, “We are the World” – “Nós somos o Mundo”. E a Europa é Mundo e mundos no Contexto do Mundo. (momento musical, letra e música).
Desafiamos a nossa reflexão na História e em relação à História.
E com a história o que se aprende? Em parte já o dissemos: Nada, rigorosamente nada, quando nos falta memória e capacidade de aprender com os erros, nossos e alheios. Mas os contextos mudam, transformam-se. O que podemos, então, fazer, se os protagonistas mudam, cometendo os mesmos erros? Sendo protagonistas de nós próprios, uns “ilustres desconhecidos” para o humano mas uns ilustres conhecidos para Deus e para o Universo, para o Mundo. Deus sempre nos chama pelo nosso próprio nome. Para onde quer que vamos estamos condenados a estar com Deus, nas alturas e nos abismos, nos montes e nos vales. Somos o nosso nome imemorial, que Deus docemente chamou. Vivemos, talvez sem disso termos uma consciência nítida, a “Nostalgia de Deus”.
No Livro Segundo Isaías, podemos ler, em signo de “Missão”: “Ouvi-me, habitantes das ilhas, prestai atenção, povos de longe. Quando ainda estava no ventre materno, o SENHOR chamou-me quando ainda estava no seio da minha mãe, pronunciou o meu nome” (Is, 49, 1).
Num tempo de Solidão, de tantas formas de Solidão, fazemos a pior das solidões, expulsamos o Deus Humano que há em nós. Tiradas as vísceras, o que fica, em humanidade de ser? Quem nos chama? Quem chama pelo nosso nome? De quem esperamos? Em que depositamos confiança? Estamos num humanismo de lama, de alienação, sem um toque divino ou um toque humano.
Precisamos do humanismo cristão numa civilização que faz da laicidade - necessária - um pretexto para um laicismo inóspito que legitima, indiretamente, fundamentalismos muito perigosos. Veja-se o que se passa na Europa e no Mundo. O ceticismo corrói, a crença acrítica expõe-nos aos lobos e inimigos. E hoje esse exame radical - que vai à raiz - é condição para resgatar. Só o Olhar Generoso de Deus nos pode salvar e regenerar. Também a essa Luz podemos ler o Livro do Papa Francisco: O Nome de Deus é Misericórdia.
Quem pensava, em primeiras impressões, apressadas, que o Papa Francisco vinha para facilidades e facilitismos, enganou-se redondamente. Este Papa tem dado vários murros no estômago da Humanidade e das Instituições, sem deixar de confrontar a própria Igreja católica consigo própria, no seu lado humano, com severos avisos e críticas, em tom de generosidade e de autocrítica.
Quem tem legitimidade de atirar a primeira pedra? Mas quem pode exercer a sua atividade profissional - ou o seu múnus - se não souber decifrar o sentido do seu Magistério e Ministério, seja ele qual for? O que importa não são os doutores da lei mas a Mensagem Salvífica, o Espírito, deixarmo-nos surpreender pela realidade da Vida, ajuizando de modo ponderado, sem precipitações, sem acenar com a maldade do institucionalismo. O legalismo e regulamentalismo é próprio dos medíocres e do poder despótico, por mais aparentemente democrático e legítimo que possa parecer. O que importa é o espírito da lei, o que importa é a lei do coração, do perdão e da misericórdia.
[…].

Nota: Este texto é uma parte do Texto Integral lido no 1º Programa Leituras e Escritas do Mundo, da autoria do próprio, proferido na Rádio Atlântida, no dia  02 de abril deste ano de 2017, sobre o tema geral  (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus. O Programa encontra-se disponível, na íntegra, para audição, no Arquivo Digital (PODCAST) da Rádio Atlântida.


*Doutorado e Agregado em Educação e na Especialidade de Filosofia da Educação 



96 anos de história e interação com o povo

Passou durante esta semana, no dia 6, o 96º aniversário da fundação do Partido Comunista Português.
Desde aquela data até hoje, nos piores e nos melhores momentos, mas sempre com intervenção influente e muitas vezes determinante nas grandes e nas pequenas etapas da história moderna portuguesa, foram e são inegáveis os persistentes laços de ação e de luta política estabelecidos entre o PCP e o povo português. Concorde-se ou não com ela, falamos de intervenção política em defesa da causa pública, isto é, no sentido mais nobre do termo, e não da política resgatada e emporcalhada por aqueles que se aproveitam das regras democráticas para aceder aos cargos públicos e institucionais colocando-os ao serviço próprio ou de interesses alheios aos da sociedade no seu conjunto.
Foi um partido que, embora ilegalizado e violentamente perseguido pelo regime fascista, não só não se dissolveu como permaneceu ativo, enfrentou o regime e, nesse combate, foi-se reforçando na clandestinidade durante mais de quatro décadas. Com a sua ação persistente, abnegada e muitas vezes heróica, em aliança com muitos outros democratas e resistentes anti-fascistas, ao lado do povo contra a opressão e a miséria, ao lado dos trabalhadores contra a exploração e pelas 8 horas de trabalho, e ao lado da juventude contra a guerra colonial, contribuiu decisivamente para o sucesso do golpe militar dos heróicos capitães que derrubou a ditadura em 1974.
Foi um partido que, ao lado do povo e das forças armadas vitoriosas, contribuiu decisivamente para transformar o golpe militar de 25 de abril numa revolução que acabou com a guerra colonial e permitiu a independência das colónias portuguesas, restaurou a liberdade e a democracia em Portugal, pôs na prática e depois em letra de lei direitos, liberdades e garantias fundamentais, como as eleições e partidos livres, bem como os sindicatos e associações, múltiplos direitos laborais desde o elementar salário mínimo ao direito à contratação coletiva, o direito à saúde à educação e à segurança social, o direito à igualdade de género, a reforma agrária e o fim do latifúndio absentista, a autonomia regional e o poder local democrático, etc.
Foi um partido que contribuiu decisivamente até hoje, para resistir à contra-ofensiva neo-liberal, direitista e anti-patriótica que entretanto se começou a desenvolver logo após o primeiro ano da revolução, se agudizou com a entrada de Portugal na União Europeia, e ganhou particular alento com a adesão à moeda única (que começou a circular a partir de 2002),com vista a fazer reverter as conquistas revolucionárias do povo português, consagradas na Constituição da República.
Através de uma sábia política de alianças, na sequência da derrota eleitoral da coligação PSD/CDS em 2015, foi um partido decisivo para que, ao fim de quase 5 anos de governo e de 10 anos de um Presidente da República, ambos ultra-liberais de direita, fosse possível romper com o desenvolvimento final e mais agudo da referida contra-ofensiva que, para além do desastre nacional que estava a provocar e do sofrimento que estava a infligir a todo um povo, estava já também a atingir a essência do próprio regime democrático.
No futuro imediato, em linha com o que impõem com crescente nitidez o progresso e o desenvolvimento nacionais, será também um partido indispensável para que venha a ser posta em prática a cada vez mais incontornável renegociação da dívida pública portuguesa, para que venha a ser possível aos poderes públicos refrear os criminosos desmandos da banca, e para que o país esteja preparado para a eventualidade da saída do euro…

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