O Barão Vermelho: Lenda ou Enigma *

No meio do verdadeiro inferno que se vivia por toda a parte, em plena grande guerra, Manfred von Richthofen era muito metódico e preparava sempre cuidadosamente cada ação no seu avião, segundo planos programados. O seu método de combate era muito exigente, com base na “Dieta de Boelcke”, seu mestre, com regras importantes tanto para o esquadrão voador como para o sucesso pessoal.
Se bem que, seguro de si, o Barão Vermelho nunca teve para com os inimigos, prisioneiros ou não, qualquer sinal de rancor pessoal, ou via a guerra como algo que lhe retirasse os hábitos da sua sólida educação ou desse falta de dignidade e lealdade para com os adversários.
Essa guerra ainda viu cumprir-se com dignidade o código de honra e admiração mútua dos combatentes, mais no ar que em terra.
Richthofen foi uma lenda e um mito, admirado até pelos seus inimigos. Por um lado, era um forte incentivo para os alemães e por outro os aliados viam nele a coragem personificada. Uma vez, aprisionaram vários desses aviadores aliados abatidos nos seus pequenos caças. Um inglês, muito intrigado, referiu aos seus captores o rumor de haver uma jovem aviadora no meio dos alemães. Era um boato que corria e até lhe chamavam a nova “Joana d’Arc dos prussianos. O aviador mostrava grande interesse em saber quem era a jovem que usava o seu aparelho pintado de vermelho. A opinião corrente é que tinha de ser uma mulher. Ninguém aceitava que fosse um homem pois parecia que só uma rapariga teria a ideia de ter um avião assim. Richthofen ouviu tudo, calado e extremamente divertido. Disse-lhe então que a tal jovem estava ali na sua frente, pois era ele. O aviador não queria acreditar tal era o espanto por ver pessoalmente o Barão Vermelho, em vez uma extravagante jovem alemã.
Também o conheciam por Diabo Vermelho, “O Cavaleiro Teutônico da Era Moderna” e ainda “Nobre Inimigo de Coragem e Destreza” pois tinha várias designações.
Nada como um herói para exaltar a fantasia e elevar o moral das tropas. Ainda obteve as mais altas condecorações na Alemanha, antes de ser atingido pelos inimigos.
O seu avião, Fokker, nome do construtor, era vermelho para atrair os inimigos e para os desafiar. Assim o declarou:
“ Um belo dia, eu tive a ideia de pintar meu avião de vermelho vivo. O resultado foi que absolutamente todos passaram a conhecer meu pássaro vermelho. Por sua vez, meus oponentes também não estavam completamente desavisados.”
Também lutou em conjunto com os companheiros no chamado “circo infernal” de que foi o comandante em missões diversas. Em abril de 1917 causaram um verdadeiro terror aos aliados com as suas manobras arrojadas.
 Da França e ao Reino Unido sem esquecer  italianos,  russos,  australianos,  portugueses, todos sabiam da existência do lendário  aviador.
Cerca de um ano antes da sua morte, Manfred foi ferido com muita gravidade. Conseguiu aterrar numa perigosíssima manobra em terreno belga. Mas os ferimentos foram muito graves. Ele  contou que, de repente, se apercebeu que estava a ser atacado por trás e adivinhou o perigo, logo a seguir, sentiu uma forte impressão por trás da orelha esquerda, ficou paralisado, inconsciente e cego por momentos, porém, mesmo assim, conseguira recuperar o controlo e pousar de emergência.
Depois foi submetido a múltiplas cirurgias no crânio para remover lascas de ossos na área atingida, o que era muito doloroso e obrigou a operações muito delicadas.
Contra as ordens do médico, teimou em voar antes de acabar o tempo de convalescença. Pode dizer-se porém que, apesar de continuar a luta, nunca mais foi o mesmo.
Além disso, era bastante inteligente para perceber que a guerra do lado alemão já estava perdida apesar de todos os esforços do general Ludendorff numa ofensiva desesperada. O povo estava na maior miséria e sem possibilidades de abastecimentos. Estado consciente da situação, isso também o tornava mais sombrio, cada vez mais inquieto, taciturno, sem aquele seu sentido de humor habitual.
Os ferimentos deixaram sequelas. Passou a ter horríveis dores de cabeça e, todas as vezes que voava, tinha náuseas ao voltar a terra. Segundo se diz, parece que isso lhe afetou o temperamento pois passou a ter crises de distúrbios de humor. Mas ainda conseguiu em convalescença, escrever um livro, a sua autobiografia, “Der rote Kampfflieger”, que foi traduzida e publicada na Grã-Bretanha com o título “A Batalha do voador vermelho” sobre os seus combates. A edição esgotou-se várias vezes em pouco tempo. Fez também diversas viagens para elevar o moral dos alemães enquanto se restabelecia para retornar ao combate.
Embora tivesse passado de caçador das florestas paternas para a de seres humanos, o seu sangue frio e dignidade eram firmes.
A aviação, para quem gostava tanto da caça e de liberdade, ao transformar-se em arma que consegue abater um alvo, similar a si mesmo, no caso de nem ser só humano nem máquina, atinge uma situação que deixa de parecer ação de guerra e muito mais um verdadeiro desafio levado ao seu máximo limite. Abater ou ser abatido. Vencer ou ser vencido. Nunca sem perder o respeito pelo inimigo. Homenageava os aviadores abatidos ou desejava as melhoras quando escapavamm à morte. Chegou a enviar uma caixa de charutos a um oficial que estava no hospital e ele derrubara.
O vestuário adequado para pilotar um avião quase só de fogo e aço, era bem complexo e com todo o rigor, da cabeça aos pés. Também o ruido no ar devia ser terrível e ensurdecedor. Assim, a realidade ficava para trás, face ao contexto em que se travavam os combates. Até que ponto tal ação se coloca entre o desporto e a guerra?
Segundo o que descrevia, sentia-se como que um pássaro, leve, tal qual um albatroz, mas sem asas de penas, com uma liberdade de movimentos extraordinária que nada tinha de parecido com um grande avião, que só serve para transportar toneladas de um lado para o outro, mas sem a liberdade que o caça dava. O Barão Vermelho, com o seu avião, da cor do sangue e da morte, era um desafio vivo que levou a guerra ao seu último limite.
Sem tocar as mãos na terra, nem sentir o cheiro fétido das trincheiras, do horror dos mortos e moribundos, nem o jogo sujo e desesperado de milhares de homens na lama, comandados por chefes invisíveis, que não vêm nem sentem sofrimento, o Barão vermelho a sulcar de morte os céus foi um caso único em toda a história da aviação.
Dizia Richthofen que em breve o avião seria algo comum para o transporte e ninguém mais prestaria atenção ao passar no céu das cidades. Mas esse não era o avião que ele sonhava mas sim um pássaro de liberdade, tal como temos agora os ultraleves e essas máquinas só de desporto. Esse é que era para ele o verdadeiro avião!
O general francês Foch comandante das tropas francesas, ao observar um avião, mesmo no inicio da guerra, exclamou: “Os aviões são brinquedos interessantes, mas sem nenhum valor militar”. Comentários, quem se atreve? O futuro é sempre um enigma.
A lealdade e a igualdade de oportunidades aumentavam o desafio, que ele imaginava ser a antítese da guerra no solo, sem os horrores das trincheiras, dos gases, sem o derramar de sangue, a dor e corpos de cavalos e homens despedaçados dos campos de batalha. Uma corrida nos céus, na maior solidão, juntando a máquina e o homem numa só peça para viver ou morrer juntos. Esta foi uma guerra que teve duas formasde combate  No céu e na terra, completamente distintas.
 Por superstição, os aviadores não gostavam de serem fotografados antes de voar. Por azar ou acaso, a última fotografia de Manfred foi tirada enquanto brincava com o seu cão, Moritz, antes do seu último voo.
Já tinha derrubado 80 aviões, quando foi ferido pelas costas, a 21 de abril de 1918, por um piloto cuja identidade não é segura. Depois, os soldados australianos dispararam do solo e o Barão Vermelho tombava para sempre em Sailly-le-Sac em França. Ia fazer apenas 26 anos e a guerra estava no fim!
Os aliados, resolveram honra-lo no enterro com todas as honras militares, mesmo sendo um inimigo alemão, pois o seu exemplo e coragem assim mereciam. No seu caso, há quem afirme que “a morte não é uma imperfeição mas um triunfo.”
O seu nome, não pode ser recordado pela crueldade, nem pela violência, por ter elevado a guerra ao combate leal e inteligente, divulgando o seu método a todos e sendo talvez o último cavaleiro dos céus, aquele que as Valquírias nos seus corcéis alados levaram para Valhala, para habitar a Eternidade só digna dos grandes heróis.

* Conclusão

 

Lúcia Simas

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