Festival Gastronómico ‘10 Fest – 10 dias, 10 chefs’ regressa a São Miguel a 20 de Junho

chef loureiroA Secretária Regional da Energia, Ambiente e Turismo afirmou ontem que o ‘10 Fest – 10 dias, 10 chefs’, tem tido “um papel indiscutível” no roteiro de experiências gastronómicas do destino Açores, onde é possível “experimentar menus com uma qualidade ímpar ao nível dos sabores, dos lugares e das emoções, exactamente aquilo que pretendemos que seja o turismo dos Açores, e pelo qual já somos também reconhecidos”.

“Esta postura, de fazer do arquipélago um lugar capaz de olhar para os seus recursos - quer humanos, quer gastronómicos -, potenciá-los numa relação única e dar-lhes o seu real valor, continuará, por isso, a ser um caminho que queremos percorrer”, salientou Marta Guerreiro, acrescentando que a gastronomia constitui “um produto por excelência, catalisadora da economia local e regional e atraindo diversos segmentos de mercado”.

“São, de facto, 10 dias com 10 chefs que se cruzam com os colaboradores e formandos da escola, contribuindo, assim, para um pensamento conjunto sobre a cozinha açoriana e as potencialidades da sua actualização”, sublinhou Marta Guerreiro, que falava, em Ponta Delgada, na apresentação do evento.

Segundo a titular da pasta do Turismo, desde 2012 que a Escola de Formação Turística e Hoteleira (EFTH) “colocou o nome dos Açores mais longe por via de um festival gastronómico, reinterpretou produtos locais, conferindo-lhes um novo valor de mercado, e permitiu o contacto dos mais conceituados chefs por todo o mundo com formandos, que retiram desta experiência mais-valias para um futuro profissional relacionado com a cozinha”.

“De 20 a 29 de Junho, o mundo vem até à nossa mesa, e levamos a nossa mesa ao mundo, com os mais conceituados chefs, onde as experiências são vividas e partilhadas, tendo como ponto de partida os nossos elementos gastronómicos diferenciadores, com provas e demonstrações na área da pastelaria, cocktails e vinhos, que aguardamos sempre com elevada expectativa”, frisou Marta Guerreiro.

Nesse sentido, a Secretária Regional manifestou a convicção de que esta será “mais uma edição para nos sentarmos à mesa e viajarmos por via dos mais variados sabores”, destacando o evento, onde “a surpresa é o factor chave do paladar”, fazendo com que seja “um dos mais reconhecidos festivais gastronómicos do país, para além de um muito aguardado acontecimento no calendário anual de eventos dos Açores”.

 

Estrelas Michelin em Ponta Delgada

 

O festival gastronómico junta os ‘chefs’ durante dez dias, em Ponta Delgada, culminando em dez jantares de degustação de no mínimo seis pratos, “acompanhados por uma experiência vínica única”, explicou Graça Teixeira, directora da EFHT.

A oitava edição do festival arranca com António Loureiro, que ganhou uma estrela Michelin pelo restaurante A Cozinha, em Guimarães, recebendo também Vasco Coelho Santos, ‘chef’ premiado; Gonçalo Costa, ‘chef’ executivo dos restaurantes Tágide, Wine Bar e Saraiva’s; o luso-descendente Anthony Gonçalves, do restaurante Kanopi, no hotel Ritz-Carlton, em Nova Iorque; e António Galapito, do restaurante O Prado.

Pelo certame passam também Leandro Carreira, que passou por vários restaurantes na Europa e abriu em 2017 o Londrino; Fernando Cardoso, distinguido como ‘chef’ Cozinheiro do Ano em 2018; Francesco Dilli, da equipa de chefes do Grupo Ferreira, em Montreal; e Óscar Gonçalves, ‘chef’ proprietário do Restaurante G Pousada, em Bragança, com uma estrela Michelin.

Há ainda espaço para um dia dedicado aos ‘chefs’ açorianos, com uma equipa liderada pelo Pedro Oliveira, Nuno Santos e Henrique Lopes.

O festival encerra com uma festa em que vão ser dados a conhecer os ‘cocktails’ “pensados e trabalhados pelos ‘chefs’, durante o ano lectivo, com os formandos de mesa/bar” da Escola de Formação Turística e Hoteleira.

O festival acontece de 20 a 29 de Junho, no restaurante Anfiteatro, em Ponta Delgada, e os bilhetes podem ser adquiridos a partir de amanhã na plataforma RIAC.

36 bandeiras azuis para os Açores

praias com bandeiraNa Região Autónoma dos Açores vão ser hasteadas 39 bandeiras azuis neste Verão de 2019, mais três que no ano anterior.

 Salgueiros, na ilha Terceira, Almoxarife, na ilha do Faial, e Vinha da Areia, em São Miguel, são os novos três locais que irão receber bandeira azul.

À semelhança do ano passado, todas as praias, marinas e piscinas naturais galardoadas, voltam a receber a bandeira, sendo que a primeira a ser hasteada este ano será na praia da Praia da Vitória, ilha Terceira.

Ao lado publicamos a lista de todos os recintos açorianos que irão receber a bandeira azul.

 

Nos 45 anos do 25 de Abril (2): O primeiro “1º de Maio” em Ponta Delgada

1 de maio - josé andradeA primeira comemoração do “1º de Maio” da democracia portuguesa, em 1974, foi um acontecimento marcante em Lisboa como em todo o país, incluindo os Açores e, em especial, a cidade de Ponta Delgada.

Na capital micaelense, a comemoração popular estava devidamente autorizada em comunicado do quartel general do Comando Territorial dos Açores: 

“Foi autorizada uma manifestação em Ponta Delgada em comemoração do 1º de Maio, Dia do Trabalhador (de acordo com um Decreto Lei da Junta de Salvação Nacional de 27 de abril) a realizar com os seguintes condicionamentos: Local de concentração inicial: Campo de S. Francisco. Itinerário: Campo de S. Francisco, Avenida do Infante, Largo da Matriz, Rua António José de Almeida, Rua Machado dos Santos, Rua Marquês da Praia, Rua Dr. Mont’Alverne de Sequeira e Campo de S. Francisco. Local de concentração final: Campo de S. Francisco. Hora de início da manifestação: 14 horas. Hora de fim da manifestação: 16 horas.” (Correio dos Açores, 1 de maio de 1974)

 

1 de maio - jose andrade1Manifestação com duas mil pessoas 

 

No dia seguinte, o vespertino Diário dos Açores avançava uma primeira nota de reportagem da manifestação local enquadrada na comemoração nacional, sob o título “O País celebrou o novo feriado com profundo sentido do seu significado e são regozijo decorrendo todas as manifestações com acentuado civismo”:

“Em uníssimo com o sentir de todo o País, Ponta Delgada comemorou o dia de ontem, pela primeira vez Feriado Nacional, conforme promulgado pela Junta de Salvação Nacional. (…) A nossa terra, de forma honrosa e ordeira, alinhou, pois, na grande parada da gente trabalhadora de Portugal.” (Diário dos Açores, 2 de maio de 1974)

Esta manifestação de Ponta Delgada merecera honras de reportagem oficial em comunicado do Governador Militar dos Açores emitido ao final do dia 1 de maio:

“Realizou-se hoje, como estava previsto, em Ponta Delgada, uma manifestação popular comemorativa do 1º de Maio (Dia do Trabalhador), no decorrer da qual foram repetidamente vitoriadas as Forças Armadas e a Junta de Salvação Nacional. A manifestação juntou cerca de 2 000 pessoas, que demonstraram entusiasticamente a sua adesão aos princípios proclamados pelo Movimento das Forças Armadas, e decorreu na maior ordem e civismo. Também na Ribeira Grande, na manhã de hoje, se efetuou uma pequena manifestação, que se desenrolou com todo o civismo.” (Açores, 3 de maio de 1974)

 

“O povo unido jamais será vencido!”

 

A reportagem jornalística da histórica manifestação popular do 1º de Maio em Ponta Delgada ganha pormenor e entusiasmo nas edições de 3 de maio dos matutinos micaelenses Açores e Correio dos Açores.

Com o título de capa “A manifestação do 1º de Maio em Ponta Delgada – O povo unido jamais será vencido”, o jornal Açores relata o ambiente vivido no Campo de S. Francisco antes e depois da manifestação percorrer as principais artérias do centro histórico da cidade:

“A Comissão Democrática provisória de Ponta Delgada quis levar a efeito uma manifestação de apoio à de Lisboa, com o propósito de homenagear o operário português, no dia mundialmente consagrado ao trabalhador. (…) Um cortejo de táxis e muitos carros particulares deu início à manifestação que percorreu as ruas principais. Precediam uma multidão ordeira, que empunhava cartazes expressivos e ramos de azáleas. (…) Antes de deixar o Campo de S. Francisco e no coreto onde fora instalado um serviço de som, falou o aspirante Ramos: “Pela primeira vez, desde há 50 anos, temos oportunidade de, publicamente, sem medos nem peias, proclamarmos as nossas liberdades. O momento é de alegria, mas deve ser igualmente de serenidade.”

“(…) Novamente concentrados na Praça 5 de Outubro, (…) no uso da palavra seguiu-se o Eng. Silva Melo, membro da Comissão Democrática Provisória de Ponta Delgada: “(…) Ao quinto dia da nossa liberdade, aqui estamos, em verdadeiro espírito democrático, mostrando a todos os descrentes do nosso movimento, que somos capazes, que não precisamos de polícias repressivas nem de tutelas impostas, para sabermos ser cidadãos, para sabermos ser portugueses”.

“(…) Foi pedido um minuto de silêncio em memória da “última vítima da PIDE”, pois chegara a esta terra o estudante João Guilherme Arruda (…). Numa manifestação de agradecimento às Forças Armadas, a multidão voltou-se para o Forte de S. Brás, Quartel-General do Comando Territorial Independente dos Açores, e cantou “A Portuguesa”. (Açores, 3 de maio de 1974)

 

“Viva a Liberdade!”

 

Por sua vez, o Correio dos Açores complementa e confirma o relato jornalístico do ambiente popular da manifestação política, como um agradecimento às forças armadas e uma homenagem às classes trabalhadoras:

“Logo ao início da tarde da última 4ª feira, a Praça 5 de Outubro registava invulgar concurso de pessoas de todas as idades e categorias sociais que ali afluíram para observar – e a maioria delas para participar – na projetada manifestação de apoio e agradecimento às Forças Armadas que, simultaneamente, por força do decreto da Junta de Salvação Nacional que autorizou a comemoração do 1º de Maio como “Dia do Trabalho”, foi também jornada de exaltação das classes trabalhadoras. (…) Milhares e milhares de manifestantes, uns empenhando cartazes com dísticos de “Viva a Liberdade”, de “Vivam as Forças Armadas”, “Viva Portugal Livre” e outros de igual significado preenchiam as ruas do itinerário do cortejo, em cujos passeios muitas outras pessoas assistiam ao desfile, acenando e aplaudindo os manifestantes.” (Correio dos Açores, 3 de maio de 1974)

 

Por: José Andrade (Baseado no seu livro 1974 | DEMOCRACIA… O 25 de Abril dos Açores, Volume I da Trilogia “Anos Decisivos, editado em 2014 por Letras Lavadas)

Preço da gasolina sobe hoje 3,2 cêntimos

combustiveisO preço máximo da gasolina de 95 octanas vai subir 3,2 cêntimos por litro nos Açores, a partir das 00:00 de hoje, anunciou o Governo açoriano.

De acordo com uma nota do executivo, a actualização dos combustíveis na Região Autónoma dos Açores abrange ainda uma subida de 0,5 cêntimos por quilo no preço máximo do fuelóleo industrial, às 00:00 desta Quarta-feira.

Assim, a gasolina de 95 octanas passa a custar 1,416 euros por litro nos Açores, enquanto o fuelóleo industrial passa para 0,535 euros por quilo.

O Governo dos Açores justifica os novos preços com “as recentes alterações das cotações de referência dos produtos petrolíferos registadas nos mercados internacionais”.

 

A Revolução dos Cravos na imprensa açoriana

José Andrade artigo 1

Vinte e cinco de abril de 1974 era uma normal quinta-feira nos três distritos autónomos do arquipélago dos Açores.

De manhã, em Ponta Delgada, o Correio dos Açores insurgia-se contra o esquecimento das ilhas adjacentes e o jornal Açores relatava a ditadura da metrópole; em Angra do Heroísmo, o Diário Insular informava sobre o governo de Marcelo Caetano e, na Horta, O Telégrafo sonhava com um porto livre de impostos.

Mas, de tarde, já o Diário dos Açores anunciava um “Movimento Militar no Continente”, A União duvidava de um “Golpe Estado em Lisboa?” e o Correio da Horta noticiava “uma subversão cujas principais características são ainda desconhecidas”.

Chegava assim a Revolução dos Cravos à imprensa diária açoriana e a democracia portuguesa à futura Região Autónoma dos Açores.

Os primeiros dias são de ocupação militar das delegações distritais da Direção Geral de Segurança, da Ação Popular Nacional, da Legião Portuguesa, da Mocidade Portuguesa, mas também de destituição dos governadores civis de Ponta Delgada, Angra e Horta.

Os dias seguintes são de organização distrital das novas expressões políticas nacionais, como o Movimento Democrático, o Partido Popular Democrático, o Partido Socialista Português.

Entre as manifestações populares do 1 de maio e do 5 de outubro, a Base das Lajes recebe a cimeira luso-americana dos presidentes Spínola/Nixon, acompanhada pelo ministro Sá Carneiro, e as três capitais de distrito acolhem os comícios socialistas de Mário Soares e Salgado Zenha.

No verão, são empossados os novos governadores de Ponta Delgada (Borges Coutinho), Angra do Heroísmo (Oldemiro Figueiredo) e Horta (Sá Vaz). No outono, Mota Amaral avança com as “Bases do Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores”. No inverno, o MAPA assume-se como Movimento para a Autodeterminação do Povo Açoreano.

Os Açores viviam assim a primavera da democracia…

 

O Diário que trouxe

a revolução a S. Miguel

 

Foram os vespertinos das três cidades açorianas – Diário dos Açores, A União e Correio da Horta – que gravaram nas suas edições do próprio dia o limiar da nova era, com base nas primeiras informações das agências nacionais e das rádios regionais, embora ainda num breve registo de timidez e prudência.

Em Ponta Delgada, o Diário dos Açores imprimia no centro superior da capa da sua edição de 25 de abril de 1974 a informação difundida pelo Rádio Clube de Angra, sob o título “Movimento Militar no Continente”:

“Segundo notícias provenientes de diversas origens, podemos informar que se estabeleceu, às 4 horas de hoje, no continente, um movimento de militares que se intitula “Movimento das Forças Armadas”. Sabe-se que o quartel-general em Lisboa foi cercado pelas tropas e há movimento de militares no Terreiro do Paço e noutras zonas da capital. O Rádio Clube Português foi tomado pelas forças deste movimento, tendo difundido apelos para que a população se mantenha calma. Entretanto, reina calma em todo o território do continente.”

 

Movimento das Forças Armadas

 

Na manhã micaelense de 26 de abril, o jornal Açores já abria a sua capa com a reprodução integral – sem tratamento, desenvolvimento ou comentário – da “Proclamação do Movimento das Forças Armadas” que o Emissor Regional dos Açores da Emissora Nacional difundira insistentemente na véspera:

“O “Movimento das Forças Armadas”, que acaba de cumprir com êxito a mais importante das missões cívicas dos últimos anos da nossa História, proclama à Nação a sua intenção de levar a cabo, até à sua completa realização, um programa de salvação do País e de restituição ao povo português das liberdades cívicas de que vem sendo privado.

“Para o efeito, entrega o Governo a uma Junta de Salvação Nacional a quem exige o compromisso, de acordo com linhas gerais do programa do “Movimento das Forças Armadas” que através dos órgãos informativos será dado a conhecer à Nação, de, no mais curto prazo consentido pela necessidade de manutenção das nossas estruturas, promover eleições gerais de uma Assembleia Nacional Constituinte, cujos poderes por sua representatividade dê liberdade na eleição ao País de escolher livremente a sua forma de vida social e política.”

 

A ocupação da sede local da DGS

 

O primeiro domingo da democracia portuguesa traz à capa dos jornais micaelenses a primeira ocorrência que revolucionou a pacatez quotidiana da vida local, sob a coordenação militar de Ernesto Melo Antunes. Era a manifestação popular que emoldurou a dissolução militar dos serviços da Direção Geral de Segurança na cidade de Ponta Delgada durante a manhã de 27 de abril, como destacou o jornal Açores do dia seguinte:

“Na manhã de ontem, a cidade de Ponta Delgada assistiu a algo que já não se verificava há longos anos nestas paragens. Com efeito, elementos da população, ao aperceberem-se de que as forças do Exército se dirigiam para o edifício onde estavam instalados os serviços da Direção Geral de Segurança, a fim de procederem à recolha de arquivos e ao desalojamento dos agentes ali colocados, concentraram-se na Praça de Gonçalo Velho, soltando vivas à liberdade e aplaudindo as Forças Armadas Portuguesas. (…) A multidão que se reuniu na Praça de Gonçalo Velho era constituída, na sua grande maioria, por operários e por jovens. (…) Cerca das 19 horas, o chefe de brigada da DGS, Gentil Garcia Coelho e esposa, saíram das instalações na Praça Gonçalo Velho para o B.I.I. 18, onde ficaram sob custódia.”

 

 

A Comissão Democrática

de Ponta Delgada

 

É neste ambiente revolucionário que “um grupo de democratas” se reúne e se organiza como “Comissão Democrática Provisória do Distrito de Ponta Delgada”. Da reunião fundacional realizada logo ao terceiro dia do 25 de abril resulta uma comissão constituída por Álvaro Soares de Melo, António Manuel da Silva Melo, Eduardo Pontes, Humberto Pereira, Jacinto da Câmara Soares de Albergaria, Júlio Diogo Soromenho Quintino e Manuel Barbosa, que faz publicar no Correio dos Açores o seu primeiro comunicado:

“Em reunião efetuada no dia 28 de abril, um grupo de democratas deste distrito elegeu uma Comissão provisória, que se propõe apoiar os objetivos definidos no programa do Movimento das Forças Armadas, como ponto de partida para a instauração de um autêntico regime democrático em Portugal.

“Esta Comissão propõe-se também: 1 – Promover a consciencialização das populações deste Distrito com vista a uma participação política de que até agora têm estado afastadas; 2 – Promover por todos os meios ao seu alcance a difusão das ideias políticas que permitam futuras opções face às realidades da vida portuguesa; 3 – Dinamizar a formação de comissões a nível de comunidades urbanas e rurais, com vista a uma escolha consciente dos seus quadros de base;

4 – Fomentar a criação de grupos de estudo e documentação que permitam uma análise global da problemática económica e sociopolítica do distrito.”

O entusiasmo era geral para consciencializar e mobilizar as populações na construção de uma nova era política.

 

Sangue açoriano derramado

em Lisboa

 

Mas nem tudo foram rosas na Revolução dos Cravos.

A imprensa micaelense de 1 de maio revela e releva a notícia de sangue açoriano derramado a 25 de abril. “Um estudante micaelense morto em frente à sede da DGS em Lisboa” era o título surpreendente que chocava a cidade de Ponta Delgada e, em especial, a freguesia de Santo António na costa norte do concelho, que foi berço e seria morgue de João Guilherme Rego Arruda:

“Um dos acontecimentos mais tristes do fim da tarde da última quinta-feira em Lisboa verificou-se no decurso da manifestação de cerca de seiscentos populares em frente à sede da Direção Geral da Segurança, à Rua António Maria Cardoso, em que forças daquele extinto organismo, com várias rajadas de metralhadora, ocasionaram a morte de cinco populares e ferimentos em várias dezenas de outros. De entre os mortos conta-se um micaelense: João Guilherme Rego Arruda, de 20 anos, estudante, natural de Santo António-além-Capelas, filho dos srs. Eduardo Arruda e D. Jorgina da Conceição Oliveira. O João Guilherme, que terminou o seu curso liceal no Seminário Episcopal de Angra do Heroísmo, era aluno da Faculdade de Letras de Lisboa, onde frequentava o 2º ano do curso de Filosofia.” (Correio dos Açores, 1 de maio de 1974)

O jovem micaelense assassinado pela polícia política do regime deposto seria mais tarde lembrado na sua residência universitária de Lisboa:

“Num comunicado das comissões diretivas representantes dos estudantes das residências da Universidade Clássica de Lisboa, é dado o apoio ao Movimento das Forças Armadas e dado conhecimento do assassínio dum seu colega pela PIDE-DGS, na noite de 25 de Abril passado, ao qual prestam a sua homenagem, entendendo dar o seu nome à antiga Residência de Egas Moniz, onde morava, que passará a chamar-se Residência Universitária de João Arruda.” (Diário dos Açores, 7 de maio de 1974)

Com a morte do jovem micaelense João Guilherme Rego Arruda nascia a democracia portuguesa e, com ela, a autonomia açoriana…

 

*Por José Andrade (Baseado no seu livro 1974 | DEMOCRACIA… O 25 de Abril dos Açores, Volume I da Trilogia “Anos Decisivos”, editado em 2014 por Letras Lavadas)