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Vai ser feito estudo sobre a demografia

pessoas em Ponta Delgada1O Conselho Económico e Social dos Açores (CESA) formalizou um Convite à Fundação Gaspar Frutuoso para realizar os estudos sobre a “Caracterização da Dinâmica Demográfica recente dos Açores e Estratégia para a Recuperação Populacional, por Ilha”, e a “Evolução das Qualificações da População Ativa nos Açores”, desafio que foi aceite, anunciou ontem Gualter Furtado, Presidente do CESA.

Os resultados destes estudos terão de estar concluídos por forma a serem apresentados e discutidos no Plenário do Conselho Económico e Social dos Açores de 26 de Junho de 2020. 

“O envolvimento da Fundação Gaspar Frutuoso e da Universidade dos Açores foi uma opção estratégica do CESA já que a missão da Universidade dos Açores desde a sua fundação foi a de contribuir para o Desenvolvimento Económico, Social e Cultural dos Açores e os estudos que estão em causa são estruturais e fundamentais para o futuro das 9 ilhas dos Açores e para a sustentabilidade da Região Autónoma dos Açores como um todo”, afirma Gualter Furtado.

Os estudos serão desenvolvidos, através da Fundação Gaspar Frutuoso, por uma equipa conjunta dos Centros de Economia Aplicada do Atlântico - Açores (CEEAplA-A) e Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS.NOVA.UAc), ambos da Universidade dos Açores, composta pela Prof.ª Gilberta Rocha (Profª Catedrática aposentada e membro do (CICS.NOVA.UAc), Prof. Dr. José António Cabral Vieira (Prof. Associado com agregação e membro do CEEAplA), Prof. Tomás Dentinho (Prof. Auxiliar com agregação e membro do CEEAplA), Prof. Sandro Serpa (Prof. Auxiliar e membro CICS.NOVA.UAc) e, ainda, três recursos humanos a contratar.

 

Governo da República cedeu no financiamento à Universidade dos Açores

Universidade - alunosO Presidente do Governo dos Açores disse ontem que garantiu  um acordo entre o Ministério do Ensino Superior e a Universidade dos Açores, que consagra o apoio à academia açoriana para fazer face, especificamente, à sua condição tripolar, que resulta da existência de campus em Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta.

“Tenho uma grande satisfação em poder tornar público que foi possível, não apenas nesta reunião, mas também fruto do trabalho desenvolvido nestes dias entre todas as partes, alcançar este acordo” que vai vigorar entre os anos 2020 e 2023, afirmou Vasco Cordeiro, após a reunião que manteve com o Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, e com o Reitor da Universidade dos Açores, João Luís Gaspar.

Segundo Vasco Cordeiro, no que se refere aos custos financeiros, mas também de contexto, que resultam da tripolaridade, este acordo contempla, da parte do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, o reforço do financiamento da Universidade dos Açores em cerca de 1,2 milhões de euros por ano, num total de 4,8 milhões de euros.

Este compromisso de financiamento prevê, como contrapartida, um conjunto de acções da Universidade no sentido de assumir a sua condição insular e tripolar como um “activo do seu desenvolvimento e um activo da sua afirmação no plano nacional e externo”, adiantou o Presidente do Governo.

Segundo disse, o acesso da Universidade aos fundos comunitários nos programas nacionais foi outro dos pontos que esteve em cima da mesa, ficando acordado o compromisso político de colocar esta questão no âmbito da negociação do próximo quadro comunitário, de maneira a conseguir que este aspecto fique resolvido.

“Estamos a terminar um quadro comunitário de apoio que foi negociado em 2013. Nessa negociação em 2013 não foi contemplado, no Acordo de Parceria então celebrado entre Portugal e Comissão Europeia, a possibilidade de a Universidade dos Açores poder aceder a fundos comunitários inseridos em programas nacionais. É um facto que, objectivamente, não se consegue, a 10 meses do final deste quadro comunitário, alterar isso”, referiu.

Após a reunião que decorreu em Ponta Delgada, Vasco Cordeiro adiantou ainda que foi também possível o entendimento entre as partes na questão relacionada com a remuneração complementar, matéria que tem um tratamento específico neste acordo, para além do que já resulta do Orçamento de Estado.

“Essa questão da remuneração complementar não advém da vontade e de uma decisão da Universidade. Tem a ver com uma obrigação que deriva do Orçamento de Estado e vai ser tida em atenção esse aspeto no cálculo de financiamento da própria Universidade, isolando este aspeto do cálculo final de transferências”, referiu Vasco Cordeiro.

“Foi, assim, possível construir soluções e obter resultados. É disso também que se fala quando se fala de uma Autonomia de resultados. O ser capaz de, face a uma situação em que haveria entendimentos diferentes, criar as condições para que, em benefício da Universidade e da nossa Região, se consiga uma solução que permita seguir caminho a partir daqui”, destacou Vasco Cordeiro.

O Presidente do Governo aproveitou ainda para agradecer ao ministro Manuel Heitor e ao reitor João Luís Gaspar pela sua disponibilidade para o “trabalho que desenvolveram e pelo acordo a que chegaram e que será formalizado nos próximos tempos”.

“Este acordo não substitui, nem é alternativa, ao Contrato de Legislatura que todas as universidades celebram com o Ministério do Ensino Superior”, disse ainda Vasco Cordeiro, realçando que os termos de referência do programa agora acordado “tratam de forma específica aquilo que é específico da Universidade dos Açores”.

“Os jornais tinham um papel informativo, pedagógico e cultural muito importante”

AASusana Serpa Silva - historiadora

Susana Serpa Silva, historiadora

 

“Mais fechada, mais atávica e mais isolada”. Seria assim a sociedade açoriana no século XIX, se não existissem jornais, segundo diz a docente universitária Susana Serpa Silva. A imprensa teve um “importantíssimo papel” no século XIX, enquanto fonte de informação, quando não havia outro meio de comunicação.

“Quer queiramos quer não, os jornais traziam muita informação e conhecimento sobre o que se passava cá dentro e lá fora e tinham um papel informativo, pedagógico e cultural muito importante”, frisa a historiadora açoriana, que conta com vários trabalhos de investigação dedicados à imprensa nos Açores. 

Em entrevista ao Diário dos Açores, Susana Serpa Silva destaca o século XIX como o “grande século da imprensa”, apontando o Liberalismo como o verdadeiro “impulsionador” dos jornais em Portugal e nos Açores. 

“No caso concreto dos Açores, foi precisamente no período das lutas liberais, com a vinda da regência liberal para a ilha Terceira, que se introduziu a primeira máquina tipográfica, que serviu para publicar as primeiras crónicas, a Crónica da Terceira, a Crónica dos Açores, a Crónica Constitucional de Angra, todas da primeira metade da década de 30 do século XIX”, explica. 

Segundo recorda, as crónicas “tinham por finalidade publicar documentação oficial, legislação produzida pelo ministério liberal que ficou na ilha Terceira e que depois motivou a campanha dos Açores e, finalmente, a Guerra Civil, de 1832-34, entre D. Pedro e D. Miguel”. 

A partir desta altura, a imprensa nos Açores começou a ganhar força, sobretudo nas principais cidades do arquipélago, Angra, Ponta Delgada e Horta, e foram surgindo alguns títulos e jornais numa imprensa “que foi fundamental, porque não só informava como dava voz às preocupações e aos interesses dos açorianos”, frisa a historiadora.

Já na segunda metade do século XIX, houve um crescimento “exponencial” do número de jornais por todas as ilhas, com excepção do Corvo. Apesar de existirem muitas publicações, grande parte da população não sabia ler, pelo que eram as pessoas da classe média-alta que tinham acesso à informação. 

“É muito interessante esta quantidade de jornais se pensarmos que estamos a falar de ilhas, isoladas, periféricas e onde a maior parte da população era analfabeta”, aponta a docente universitária. 

“A sociedade era marcada por uma forte atavismo, por uma forte rusticidade, a maior parte das pessoas vivia uma vida muito ligada ao mundo rural e, por isso os jornais estavam muito ligados a um grupo social de figuras influentes do ponto de vista político, social e económico, a que se foram juntando elementos de uma emergente classe média, de um certo funcionalismo público, que demonstrava interesses numa cidadania activa e de defesa das ilhas e das ambições  pessoais”, explica.

“Tudo isto impulsionou um grande número de jornais. Desde 1830 e até finais da primeira República, registamos o surgimento de aproximadamente 600 jornais nos Açores, o que é verdadeiramente notável”, destaca a historiadora.

É perante esta realidade social que surge o Diário dos Açores, em 1870, já configurando as origens do jornalismo moderno. “Ou seja, numa época em que a publicidade se torna uma realidade na imprensa. E isto foi fundamental, porque a publicidade era uma fonte de receita para os jornais, quando as assinaturas eram manifestamente insuficientes para a sobrevivência do jornal”, salienta a docente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade dos Açores. 

Susana Serpa Silva recorda que eram “inúmeras” as dificuldades com que se debatiam os jornais, daí que muitos tenham tido uma vigência muito curta. “Duravam um ou dois anos e depois acabavam por desaparecer por falta de recursos. A sobrevivência era uma luta constante”.

De acordo com a historiadora, “durante a primeira República há muitos jornais que desaparecem, porque acrescem as dificuldades devido à I Guerra Mundial. Escasseia o papel, faltam as tintas... Os recursos eram mesmo mínimos, daí que a publicidade tenha sido de facto um recurso importantíssimo”. 

É então numa altura de “um certo apaziguamento do aparecimento da publicidade” que surge o Diário dos Açores. E surge como jornal diário: um “aspecto interessante, porque a maioria dos jornais era semanal”. 

“O Diário vem com outro espírito e nasce precisamente com o espírito informativo. Em finais do século XIX, o Diário tinha já muitos correspondentes de fora e contactos com agências noticiosas, precisamente para informar de uma forma ampla e alargada todos os seus leitores”, relata a investigadora. 

Ao longo do século XX, relata, o Diário “manteve sempre este perfil, acrescido naturalmente dos artigos de opinião e de todo o debate de questões e interesses locais”. 

“Faz parte da imprensa regional, mas de uma imprensa generalista e que conseguiu, de facto, uma notável longevidade. Está de parabéns porque é de facto uma empresa extraordinária, por ter conseguido, em pequenas ilhas, sobreviver, lutando contra inúmeras dificuldades”, destaca Susana Serpa Silva.

A título de curiosidade, a historiadora conta como o Diário dos Açores tinha a preocupação de informar e cultivar os açorianos sobre o que se passava no mundo: “Há muito pouco tempo, aquando da celebração da chegada dos norte-americanos à Lua, tive a oportunidade de fazer um trabalho com uma outra colega, e o Diário foi uma das nossas fontes privilegiadas, porque é extraordinária a forma como o jornal cobriu todos estes acontecimentos e a chegada à Lua, fazendo mesmo manchete, com uma cobertura mesmo intensa, ilustrada, com inúmeras imagens. Isto mostra de facto toda esta preocupação em informar e cultivar os açorianos”.

Ao longo do século XIX e parte do século XX, face ao importante papel que tinha enquanto “fonte de informação e de divulgação nas ilhas”, assistiu-se ao surgimento de uma “grande diversidade de tipologias de jornais”.

“Havia os jornais generalistas, mas também havia os jornais de filiação política, jornais que eram órgãos de determinadas associações e sociedades, como é o exemplo do Agricultor Micaelense, que era um órgão da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense. A República Federal foi o órgão do Centro Republicano Federal de Ponta Delgada. Havia jornais académicos, humorísticos, de natureza religiosa, literários... Havia portanto uma grande diversidade e eles é que eram a nossa fonte de informação. Não havia outro meio de comunicação”, explica a investigadora.

Era uma quantidade e diversidade de jornais “impressionante” nos Açores, quando apenas 22 mil habitantes eram alfabetizados, numa realidade de 120 mil habitantes.

“É uma percentagem muito pequena da população. Isto ainda torna mais significativo e notável esta abundante imprensa que traduz, de facto, um espírito empreendedor, de cidadania e de luta por determinadas causas e ideias”, destaca a historiadora, salientando o empenhamento de quem fazia os jornais, “que podemos considerar privilegiados a vários níveis da nossa sociedade, mas que não se limitaram aos seus negócios e interesses pessoais. Tiveram um papel muito activo a nível de cidadania, a nível cultural, social.”

Susana Serpa Silva recorda ainda a “vida cultural intensa” da sociedade açoriana, que vinha retratada no jornal. “É interessante ver que ao longo de toda segunda metade do século XIX, apesar das características do nosso arquipélago e das nossas ilhas, acabámos por ter uma vida cultural muito intensa, sobretudo nas cidades”. 

“Além de uma vida cultural própria dos nossos costumes, inerente às nossas tradições, havia os espectáculos teatrais, os concertos, toda uma panóplia de iniciativas, de formação de sociedades culturais e recreativas, que mostra bem o dinamismo da sociedade, que também beneficiava das viagens transatlânticas, dos navios que faziam escala aqui nas nossas ilhas, no porto de Ponta Delgada, e que por vezes traziam a bordo figuras do mundo da cultura, do canto, das artes, e que acabavam por colaborar com as nossas entidades oficiais, com as nossas elites sociais, dando espectáculos, promovendo concertos, espectáculos de canto lírico, o que era muito enriquecedor”. 

Segundo conta, as pessoas “de um certo nível social estariam sempre ávidas deste tipo de acontecimentos e, no meio disto tudo está a imprensa que também incentivava e divulgava estes espectáculos”.

 

“Uma fonte riquíssima 

para a construção histórica”

 

A imprensa debatia nas suas páginas as grandes preocupações sociais. “Teve de facto um papel crucial ao dar voz às ilhas, muitas vezes nas suas reivindicações que eram esquecidas e que eram postas na ordem do dia”. Temas como “questões em torno da emigração, da emigração clandestina, questões políticas, questões em torno das infraestruturas ou falta delas, questões económicas…”, indica a historiadora.

Tudo isto faz com que a imprensa seja hoje uma fonte para o estudo da História: “É uma fonte importantíssima e riquíssima de investigação, porque nas páginas de um jornal estão plasmadas as grandes preocupações e temas da época. Ao folhearmos um jornal, não só  recolhemos imensa informação, como percebemos o que era a sociedade naquele período. A imprensa espelha o mundo que a rodeia”, sublinha Susana Serpa Silva.

“Hoje, numa era da globalização, vai muito mais além do círculo que a rodeia, mas no século XIX e durante boa parte do século XX, não há dúvida que a imprensa espelhou o que era a sociedade açoriana da época e no caso do Diário dos Açores, espelhava a sociedade de São Miguel. Com os necessários cuidados e com a necessária metodologia, de rigor e de análise que os historiadores devem ter sempre em conta, a imprensa também é uma fonte riquíssima para a construção histórica”, realça.

 

O que se lia no Diário 

do século XIX 

 

E o que se lia exactamente no Diário dos Açores há 150 anos? “Encontrava-se aquele tipo de notícia de cariz social que hoje encontramos nas revistas cor-de-rosa e não numa imprensa de jornalismo dito sério, que se preocupa sobretudo com a informação dos seus leitores”, começa por responder Susana Serpa Silva.

“Via-se muitas vezes anedotas, que vinham desanuviar a leitura, eram muito habituais as curiosidades sobre casos exóticos que tinham ocorrido em paragens longínquas, na China, na Rússia... E havia também aquelas notícias de beneficência, com os nomes das pessoas que tinham doado dinheiro para uma determinada instituição ou festividade. Noticiava-se ainda quem tinha ido de viagem, quem se tinha casado. Era este tipo de crónica social que hoje em dia encontramos nas revistas ditas cor-de-rosa, aparecia na imprensa do século XIX”, relata a investigadora. 

A par disto, surgiam também os editoriais “de grande seriedade e rigor jornalístico, informativo, e também muitos artigos de questões prementes”. Emigração, falta de abastecimento de cereais, problemas políticos, eram alguns destes assuntos.

 

Os leitores 

 

Apesar de a maioria das pessoas que liam os jornais serem de classes sociais mais elevadas, as informações chegavam também aos meios mais rurais, afastados dos centros urbanos.

“Muitas vezes, nas vilas ou fora dos centros urbanos de maior dimensão, as pessoas reuniam-se e havia alguém que lia o jornal para aqueles que não eram letrados, mas que tinham interesse em saber o que é que se passava”. E assim chegavam as notícias a uma população que “era esmagadoramente analfabeta”, conta a docente universitária.

 

Jornais tinham mais prestígio

 

Em declarações ao nosso jornal, Susana Serpa Silva salienta que na altura em que surge o Diário dos Açores, a imprensa tinha mais prestígio, pois não tinham que lutar com outras formas de concorrência que existem nos nossos dias. 

“De facto, naquela altura os jornais tinham um grande prestígio entre os grupos sociais mais influentes. Daí que muitas associações e sociedades tivessem o seu próprio jornal, o seu órgão noticioso informativo, e até às vezes doutrinário”, explicita, dando o exemplo do uso dado pelos republicanos à imprensa. 

“No caso  dos republicanos a imprensa era fundamental, porque quando começa a surgir toda uma geração de republicanos fundadores e doutrinadores, sabiam que havia um grande desconhecimento no país - que fora sempre monárquico - sobre o que era a república. Por isso socorreram-se muito dos comícios e da imprensa para doutrinar”, relata a historiadora.

Este papel político dos jornais justificava o “grande empenhamento dos seus proprietários, dos seus directores para garantir ao máximo a sua sobrevivência, para garantir as assinaturas, para garantir a sua circulação”. 

 

O problema da subsistência 

dos jornais

 

Já no século XIX, considerado o “grande século da imprensa”, os jornais lidavam com graves problemas para manter a sua circulação, tal como ainda acontece nos dias de hoje.

“Ao longo, dos tempos, sempre foi uma luta garantir a subsistência, a sobrevivência dos jornais, lutar com a falta de meios. Muitas vezes os jornais tinham uma vida errante. Andavam de instalação em instalação, mudavam constantemente as suas tipografias e a sua redacção para outros edifícios, por problemas com senhorias, com rendas... Portanto as dificuldades foram uma constante”, explica a investigadora.

Susana Serpa Silva diz mesmo que a imprensa vivia “da carolice dos seus mentores”.  “Como diz Rui Ramos, havia no século XIX e início do século XX um verdadeiro apostolado jornalístico. As pessoas viviam o jornalismo como uma missão e isso realmente fazia com que fosse uma actividade de luta constante, de entrega e de muita criatividade, para realmente fazer sobreviver um jornal”, refere.

A historiadora aponta estes “mentores” como  “dignos de muita admiração”. “Os nossos pioneiros, os nossos fundadores de jornal, como o Manuel Augusto Tavares de Resende, são pessoas dignas da nossa admiração e cuja memória deve ser sempre perpetuada, como um exemplo de luta, de resistência, de cidadania, de empreendedorismo, e de luta pela informação, pelo direito à informação, e que se justifica tanto nestas ilhas isoladas”, destaca.

E vai ainda mais longe: “Se não fossem os jornais, em épocas mais recuadas o que é que restaria? Pouco mais. Uma ou outra revista que apareceram na altura, mas cuja circulação era muito limitada”.

“Sem jornais, a sociedade seria ainda mais fechada, mais atávica e mais isolada, porque quer queiramos quer não, os jornais traziam muita informação e conhecimento sobre o que se passava cá dentro e lá fora. Tinham um papel informativo, pedagógico e cultural muito importante”, conclui a historiadora.

“Precisamos da leitura de jornais para conhecermos o mundo à nossa volta”

Ana Gil

Docente de jornalismo e cultura portuguesa na Universidade dos Açores, Ana Cristina Gil, a presidente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Uaç acredita que “os Açores têm muito para dar para o futuro, mas já têm uma memória em termos do jornalismo e do trabalho jornalístico que é admirável”. A propósito dos 150 anos do Diário dos Açores, Ana Cristina Gil deu a sua visão quanto ao mundo actual da Comunicação Social.

 

Diário dos Açores – Numa altura em que vivemos cada vez mais numa aldeia global, com as tecnologias a entrarem em praticamente todas as casas e onde prolifera informação das mais variadas plataformas, como olha para os meios de comunicação mais tradicionais e para a sua posição actual neste mundo globalizante?

Ana Cristina Gil – O posicionamento do jornalismo tradicional deve continuar a ser um posicionamento de muito valor para a sociedade e é bom que a sociedade o reconheça enquanto tal, o que parece-me, tende a não estar a acontecer e é algo por que também pugno que é o reconhecimento dos jornalistas e do seu trabalho.

No caso particular do Diário dos Açores, é um jornal com uma perspectiva regional. O jornalismo regional é muito importante para a informação de proximidade. Se pensarmos em acontecimentos que nos interessam, que se passam nos Açores e que nos implicam directamente, sabemos que este tipo de acontecimentos não pode passar em órgãos de comunicação social nacionais ou internacionais. É de todo o interesse que tenhamos sempre um jornalismo regional, de saúde, com rigor, com seriedade, com certificação das fontes e isso é fundamental. É esse valor que as pessoas devem reconhecer porque, de facto, hoje estamos inundados de informação a toda a hora, no imediato, e em todas as plataformas. Mas, de facto, o grande problema de hoje é certificar a informação, não é tê-la, mas sim certificá-la. Saber se ela é verdadeira ou não. E como queremos saber se é verdadeira ou não, onde é que recorremos? Precisamente ao jornalismo tradicional; aos nomes de referência. No caso dos Açores, vemos, por exemplo, quando há um sismo ou um acontecimento trágico começamos logo a ver nas redes sociais a informação do cidadão comum, mas precisamos sempre da certificação e mesmo nas redes sociais vamos ao Diário dos Açores, ou a outros jornais locais porque sabemos que é aí que está a informação rigorosa, certa e objectiva.

 

Não acredita que a imprensa digital irá dar lugar à imprensa escrita?

ACG – Isso é mais difícil de prever. Contudo já vimos falando nisso há mais vinte anos. Creio que se, de facto, a imprensa digital vier substituir a de papel não será num futuro muito breve. Ainda há gerações muito ligadas ao suporte em papel. Mas entendo que mais importante do que isso está o valor do jornalismo e do jornalista, independentemente do suporte, sendo igualmente muito importante fazer com que as novas gerações percebam essa referência e a necessidade de terem essa referência e de lerem jornais, porque precisamos da leitura de jornais para conhecermos o mundo à nossa volta. Muito daquilo que sabemos é através da comunicação social. Claro, sem esquecer o outro lado, que é o espírito crítico do leitor e saber filtrar aquilo que pode ser enviesado ou manipulado mas isso já entra no campo de literacia para os media que, às vezes, também falta na nossa sociedade.

 

Está directamente ligada às gerações mais novas de jornalistas. Diria que nos dias de hoje os jovens jornalistas são muito diferentes dos de antigamente?

ACG – O que penso que é comum a todas as gerações, seja hoje, seja no passado, é a vontade de comunicar e de perceber como se comunica. É claro que quem aprende hoje a fazer jornalismo, aprende uma série de estratégias e métodos diferentes de antigamente. Até no âmbito da tecnologia existem novas aprendizagens. Hoje pede-se a um jornalista que faça tudo, como seja fazer peças para todas as plataformas, tirar fotos, etc. Antigamente tínhamos um jornalista que executava um trabalho mais seccionado. Hoje pede-se uma muito maior versatilidade aos jornalistas, mas a base ética e profissional continuam a ser as mesmas.

 

O que procuram os jovens que querem esta área na Universidade dos Açores?

ACG – Actualmente temos o Curso de Relações Públicas e Comunicação que, de certo modo, passou a ocupar o lugar do curso de Comunicação Social e Cultura. É claro que nem todos os estudantes que vão para este curso querem o mesmo, mas muitos deles vêm precisamente porque não há o curso de Jornalismo ou Comunicação Social, mas há esta vertente da comunicação nas Relações Públicas. Às vezes os alunos ainda não sabem bem para o que vêm, mas sabem que têm essa apetência para comunicar e depois, ao longo do curso, vão percebendo qual a área que querem efectivamente seguir. No fundo, o que estes alunos têm todos em comum é o fascínio pela comunicação.

 

Acredita na hipótese de um dia deixar de existir jornalistas?

ACG – Não! Precisamos sempre da fonte da informação rigorosa e dos profissionais que procuram essa mesma informação e o contraditório. No fundo, que nos dão aquilo que não temos tempo de procurar e nem o sabemos fazer. Também se dizia que a televisão ia matar a rádio, que o jornal ia matar o livro, agora fala-se que o digital vai matar o papel, mas não acredito que o papel do jornalista possa ser substituído. Acredito que, num futuro remoto, que o jornalismo talvez se vá transformar. Contudo, temos vindo a assistir a tantas transformações; basta pensarmos na internet, aquilo que nos chega por esta via parecia que ia substituir o jornalismo tradicional e no entanto temos o jornal Diário dos Açores a completar 150 anos.

Actualmente já há muitos jornais de referência que optaram apenas pelo digital, no entanto espero que os jornais em papel não desapareçam. 

Importa contudo estar atento às novas gerações que têm uma nova rotina de leitura. Estes jovens querem uma leitura rápida e digital. Neste aspecto entendo que os Órgãos de Comunicação Social têm é que fazer a ponte para chegarem a todos e estarem em todas as plataformas. Servindo quem ainda gosta do papel, onde se incluem também muitos jovens, mas também já garantindo os futuros leitores.

 

Quando fala de jornalismo e de jornais aos seus alunos que referências lhes aponta?

ACG – Sobretudo os fundadores e directores dos jornais são sempre referências que não podem ser esquecidas. Para além disso, importa referir que temos nos Açores muitos bons jornalistas, sejam os actuais como muitos que já se reformaram e que agora dão outros contributos através, por exemplo, da publicação de livros. Os Açores têm muito para dar para o futuro, mas já têm uma memória em termos do jornalismo e do trabalho jornalístico que é admirável. Algo que é sempre de louvar e de passar às novas gerações. 

Em dia de aniversário desejo ao Diário dos Açores e a toda a equipa muitos parabéns. Gostava de deixar uma mensagem de esperança, de alegria, entusiasmo e resiliência. Que mantenha o bom trabalho e que continuem a servir como fazem muito bem todos os açorianos.

 

150 anos de uma Imprensa condicionada a uma Imprensa livre mas ameaçada

Américo Natalino ViveirosComeço por citar o III Presidente dos Estados Unidos Thomas Jefferson quando em dois dos seus múltiplos pensamentos deixados sobre a liberdade e a imprensa escreveu: “A base dos nossos governos sendo a opinião do povo, o primeiro objectivo deve ser mantê-la exacta; fosse deixado a mim decidir se deveriam ter um governo sem jornais ou jornais sem um governo, não hesitaria um momento em preferir este último”.

Os jornais provaram e provam ainda, que podem sobreviver num regime totalitário, condicionando a sua sobrevivência aos ditames dos mandantes, mas uma democracia não sobrevive sem uma imprensa livre e sem liberdade de expressão por ela vinculada.

Thomas Jefferson em 1787 dizia que a “Nossa liberdade depende da liberdade de imprensa, e ela não pode ser limitada sem ser perdida.” Isto é, quando os poderes da sociedade são tentados a limitar a liberdade de imprensa é a sua própria liberdade e legitimidade que fica em causa.

O Jornal Diário dos Açores que é o jornal Diário em papel mais antigo da Região e de Portugal, depois do Diário de Notícias ter abandonado a sua edição diária impressa, nasceu a 5 de Fevereiro de 1870 em plena Monarquia constitucional. A 1 de Fevereiro de 1908 noticia o regicídio de D. Carlos I, que visitou os Açores, e relata a 5 de Outubro de 1910, o fim da Monarquia e a proclamação da República. 

Seguiu-se a I República com Teófilo Braga e Manuel de Arriaga e depois a II República que durou até à Revolução do 25 de Abril de 1974. O Diário dos Açores atravessou períodos distintos e cruciais da vida política e social, e por isso é uma memória viva de século e meio da nossa história, como país e como Região. 

A imprensa atravessou o período da censura e resistiu. Tornou-se livre depois do 25 de Abril e sobreviveu. Está ameaçada pelas transformações profundas que a globalização propiciou, e nos hábitos que alterou, gerando uma cultura imediatista que destrói o pensamento e a reflexão levando ao improviso, ao populismo, ao individualismo e à falsidade sobre factos e pessoas. Contribui ainda para tal ameaça, o incomode que o poder democrático sente perante a liberdade de informação e de escrutínio que é requerido hoje à imprensa por ser um pulmão indispensável da Democracia. Acresce ainda o alheamento da sociedade quanto ao papel da imprensa livre e dos custos que ela comporta para que a liberdade não seja sufocada e se torne respeitada.

Durante século e meio, o Diário dos Açores acolheu nas suas páginas a opinião de ilustres colaboradores ligados às artes e letras e à economia, socialmente influentes e que pensavam e pensam o futuro. Além de todos os Jornalistas e dos seus sucessivos Directores, o Diário dos Açores impôs-se pela seriedade e pela qualidade do jornalismo que pratica. 

Não é possível alinhar os nomes de tantos colaboradores que contribuíram para o prestígio do Jornal, e correríamos até o risco de deixar injustamente alguém de fora. Não podemos porém deixar de prestar uma justa homenagem ao fundador do Diário dos Açores Manuel Augusto Tavares de Resendes, ao sobrinho Manuel Resende Carreiro que lhe sucedeu e foi Director durante 47 anos, e aos dois filhos, Manuel e Carlos Carreiro, que deram continuidade ao projecto editorial.  

A todos os Directores, aos jornalistas, e ao pessoal técnico e administrativo que fizeram e fazem parte deste secular Jornal Diário dos Açores, aqui fica o nosso obrigado e reconhecimento a todos, por terem contribuído para que o Diário dos Açores se mantenha vivo, vigoroso, incomodo, independente, plural na opinião e rigoroso na informação, procurando que a razão tempere a emoção para que a liberdade de imprensa continue a ser um pilar da Democracia.