Somos os piores do país nos ensinos básico e secundário

alunos

Os Açores são a região do país com a maior taxa de retenção e desistência (vulgo chumbo e abandono escolar) nos três ciclos do ensino básico.

A conclusão foi revelado ontem no estudo sobre o Estado da Educação 2016, da responsabilidade do Conselho Nacional de Educação, que reúne vários peritos e publicam todos os anos o referido relatório.

A taxa de retenção e desistência nos três ciclos dos Açores são de 8,5%, 9,6% e 14,9%, sendo que o Norte e Centro são as regiões com menor taxa, na ordem dos 2 a 4%.

Quanto à taxa de conclusão do ensino básico regular, os Açores têm a taxa mais baixa (85,9%), estando a taxa nacional nos 91%. 

No que diz respeito ao género, mantém-se a tendência de melhores resultados nas mulheres em todas as unidades territoriais estudadas.

Essa diferença oscila entre 2,4 pp no Alentejo e 5,5pp nos Açores.

Também no ensino secundário os Açores estão na frente na taxa de retenção e desistência, com uma taxa de 23,4%, com Norte (15%) e Centro (16,1%) a apresentarem as melhores taxas. 

 

Professores mais velhos, aulas pouco práticas e abandono precoce

 

Professores cada vez mais velhos e aulas pouco práticas numa escola ainda dominada pela “cultura da retenção” e com um aumento de casos de abandono precoce caracterizaram o referido Estado da Educação em 2016.

O Conselho Nacional de Educação (CNE) faz um retrato socioeconómico dos alunos e do seu desempenho académico, assim como da rede de escolas, do universo de professores e directores e do financiamento atribuído a esta área, que abrange desde as crianças que entram para o pré-escolar até aos adultos que decidem voltar à escola.

Os alunos portugueses continuam a ser dos que mais chumbam na Europa, o que leva a presidente do CNE, Maria Emilia Brederode Santos, a criticar a “cultura da retenção” que ainda domina a escola portuguesa.

 

Pior quando crianças vêm de meios desfavorecidos

 

Apesar de a taxa de retenção e desistência ter voltado a diminuir em 2016, há ainda muitas crianças a chumbar logo nos primeiros anos de escolaridade: 8,9% dos alunos ficam retidos no 2.º ano e 17% chumbam até ao 6.º ano.

É entre as crianças de meios mais desfavorecidos e com pais com menos formação académica que se encontra a grande maioria dos alunos que vai ficando para trás, lembra a presidente do CNE, chamando a atenção para o facto de o chumbo contribuir “para estigmatizar alunos e potenciar a acumulação de retenções”.

Por isso, o CNE defende que é preciso intervir “ao primeiro sinal de dificuldade” dos alunos, mas também que é preciso repensar os métodos de ensino ainda utilizados pelos professores, uma vez que em Portugal a grande maioria das aulas continua a ser expositiva.

 

Método expositivo mais aconselhado

 

Maria Emilia Brederode Santos acredita que as aulas em que o professor se limita a falar sobre a matéria e os alunos a ouvir podem ter impacto na elevada taxa de insucesso escolar e que Portugal é um dos países onde os professores mais utilizam o método expositivo (apenas ultrapassado pelos irlandeses).

As aulas expositivas são o método seguido por todos os docentes e não apenas pelos mais velhos: esta opção “não se correlaciona com a idade dos professores, mas sim com práticas enraizadas nos diferentes países”, sublinha o relatório.

O número de alunos que abandonou a escola antes do tempo aumentou no ano passado, contrariando a tendência de diminuição que se vinha a verificar nos últimos anos, segundo o relatório Estado da Educação.

No ano passado, a taxa de abandono precoce de educação e formação atingiu os 14%, ficando a quatro pontos percentuais da meta europeia definida para 2020. 

 

Jovens que abandonam vão trabalhar

 

Mais de metade dos jovens que abandonaram a escola em 2016 estava a trabalhar, refere o relatório.

A capacidade de lidar com a indisciplina está directamente relacionada com a idade dos professores: com a idade vão ficando menos pacientes e, em especial no 3.º ciclo e no secundário, são os docentes com mais de 50 anos que reportam mais casos de indisciplina.

Actualmente, os professores apresentam em média 23 anos de serviço, “sinalizando estabilidade, mas também uma tendência para o envelhecimento do corpo docente”.

O relatório sublinha ainda a redução de alunos no ensino básico, em especial no 1.º ciclo, uma tendência que se deverá manter pelo menos até 2020. Até lá, estima-se que todos os anos haja uma redução de cerca de seis mil novos estudantes a entrar para o 1.º ciclo.

No total, entre 2007 e 2016, as escolas públicas perderam 126.596 alunos enquanto o ensino privado ganhou 15.602 estudantes. 

Maria Emília Brederode Santos defende também que as escolas devem apostar mais em áreas como o desporto e a participação cívica e diminuir a carga nas chamadas disciplinas nucleares. 

Esta responsável sublinha que registar o número de reprovações de pouco ou nada serve se não forem tomadas medidas.

 

“Acho que é possível erradicar a pobreza na região, mas não será tão cedo...”

Fernando Diogo1

Um dos maiores conhecedores do fenómeno da pobreza nos Açores é o Prof. Doutor Fernando Diogo. Doutorado em Sociologia e Professor Auxiliar da Universidade dos Açores, é Director do Centro de Investigação CICS.UAç e coordenador do Mestrado em Políticas Sociais e Desenvolvimento Regional.

Foi fundador da Cooperativa de economia solidária Káiros, em 1995, e exerce funções de vogal do conselho directivo da Fundação Gaspar Fructuoso.

É, actualmente, dirigente da secção de Pobreza, Exclusão Social e Políticas Sociais da Associação Portuguesa de Sociologia e membro do grupo de trabalho da Rede Europeia Anti Pobreza (EAPN) sobre a pobreza infantil.

 

Tem sido autor de estudos e publicações na intercepção das áreas da pobreza, do trabalho e do emprego feminino, em especial sobre os Açores, bem como sobre a juventude e a sua relação com o mundo do trabalho. Neste momento coordena os projectos Açores: retratos e tendências sociais; e A pobreza em Portugal, uma análise sociológica. Faz parte da equipa do projecto: A pobreza Infantil em Portugal. Fernando Diogo concedeu a seguinte entrevista ao “Diário dos Açores”.

 

Muito se tem falado, nos últimos tempos, de pobreza. A pobreza é uma condição natural da humanidade? Uma fatalidade?

A pobreza está longe de ser quer uma condição natural da humanidade quer uma fatalidade. 

De facto, à escala da história humana a pobreza é um fenómeno bastante recente. 

Até há cerca de 9 a 10 mil anos atrás, no paleolítico, não existiam propriamente pessoas pobres. 

A pobreza, com muitas outras coisas, é filha do neolítico, da sedentarização (viver todo o ano no mesmo lugar) e da agricultura. 

Só a partir do momento em que se domesticam plantas e animais é que se produzem as condições materiais de existência que proporcionam a pobreza. 

Os nossos antepassados caçadores-recolectores não eram pobres, tinham as suas necessidades materiais resolvidas e não precisavam de trabalhar muitas horas por dia para o fazer. 

Também não estou a dizer que no paleolítico é que era bom, por exemplo, a taxa de mortalidade infantil era terrível, o infanticídio era uma prática corrente e a morte violenta na caça era uma constante. 

Também não existiam reservas de alimentos dignas desse nome o que fazia com que quando a comida escasseava na natureza a fome e a morte por fome eram certezas. 

De qualquer maneira costuma-se dizer que o paleolítico foi a primeira sociedade da abundância, onde não existia pobreza e que a invenção da agricultura foi uma bênção mista (permitiu a civilização mas também trouxe piores condições de saúde aos indivíduos, pobreza ou guerra).

Hoje estamos em condições de erradicar a pobreza, o que produzimos é suficiente. 

A questão é a existência de uma distribuição muito desigual da riqueza. 

No entanto, não podemos ignorar que o sistema que nos dá a desigualdade de distribuição da riqueza (o capitalismo político-económico) é o mesmo que nos trouxe a riqueza que temos. 

Uma solução primária do tipo comunista já foi invalidada pela história. 

Acabar com a pobreza hoje está ao nosso alcance mas não é fácil por causa de inúmeros factores, desde logo os interesses dos que têm muito (e que têm peso político) mas também as injustiças que se podem causar (em sentido diferente das que hoje existem) e o cuidado que é preciso ter para não se destruir as forças produtivas que vão construindo e mantendo a nossa prosperidade.

  

Como analisa o fenómeno nos Açores e a sua evolução nestes últimos anos?

 O que se passa nos Açores nos últimos anos não é diferente do que se passa no conjunto do país e na europa. 

A pobreza tem aumentado e tem ganhado novas formas. 

Aliás, na sua Agenda 2020 a União Europeia tinha previsto um objectivo de redução da pobreza, mas o que aconteceu foi precisamente o contrário em praticamente todos os países da europa. 

A crise político económica (especialmente grave no sul da Europa e em particular em Portugal) teve aqui um papel muito claro. Mas a crise foi europeia( e ocidental), o resto do mundo foi crescendo economicamente e foi vendo a pobreza diminuir de forma muito acentuada. 

O contraste é entre a Europa (e o mundo ocidental) por um lado e o resto do mundo pelo outro.

Precisamos, contudo, de ter aqui um cuidado adicional, é que os dados sobre a pobreza nos Açores só são publicados de cinco em cinco anos. 

Os últimos saíram este ano e referem-se ao ano de 2014… nos últimos anos, a julgar pelos dados nacionais disponíveis para 2015 e 2016, a pobreza deve ter diminuído qualquer coisa graças à recuperação económica. 

Mas não há dados objectivos para a região. 

Felizmente que o INE vai dar ao seu inquérito nacional sobre rendimentos (o ICOR) significância estatística por regiões Nuts II. 

Traduzindo, isto significa que a partir de 2018 passamos a ter dados anuais sobre a pobreza nos Açores (publicados no ano seguinte, 2019).

De qualquer forma aposto que a pobreza diminuiu nos Açores nos dois últimos anos, tal como para o conjunto do país, o que não sabemos é os números dessa possível diminuição.

 

Depois de tantas medidas para o combate à pobreza e exclusão social, é normal que os indicadores nos digam que o fenómeno continua a aumentar?

 O fenómeno desceu até 2008, aumentou depois fruto da crise económica. 

A evolução da pobreza é condicionada pelos ciclos económicos. 

Os indivíduos mais vulneráveis tendem a entrar na pobreza com muita facilidade quando perdem os empregos em situação de crise. 

Nos Açores os mais vulneráveis tendem a ter empregos na construção civil, na agricultura, no turismo… com a grave crise da construção civil (talvez se possa dizer que tivemos aqui uma bolha imobiliária), reduziu-se o número de empresas e o número de trabalhadores. 

Só este factor já explica boa parte do aumento da pobreza. 

De qualquer forma é preciso ter em conta que os Açores são, mesmo no contexto português, especialmente vulneráveis à pobreza: por um lado, a população tem escolaridades muito baixas, dificilmente encaixáveis em actividades seguras e bem pagas e, por outro lado, a economia açoriana é forte nos tais sectores de atividade que tendem a gerar empregos de pior qualidade (pior pagos e mais precários).

Uma nota de grande importância, os dados para o conjunto do país mostram claramente que as medidas de combate à pobreza reduzem-na em sensivelmente metade. 

Quer dizer, se não existissem determinadas transferências monetárias do estado para as populações mais vulneráveis o número de pobres seria o dobro do que é. 

Reduzir a pobreza em metade não me parece um pequeno feito, claro que o ideal será reduzir a pobreza a zero.

 

 O Rendimento Social de Inserção, por exemplo, é uma boa medida? Como se explica que o número de beneficiários tenha crescido tanto nos Açores, sendo a região com a percentagem mais elevada do país?

O RSI parece-me uma boa medida. 

Devo, aliás, dizer que estive ligado à última fase de concepção desta medida e aos primeiros anos da sua implementação, em jeito de declaração de interesses.

Agora, não se pode esperar do RSI milagres. 

Esta medida, como mostram claramente os estudos que tenho feito, só é dirigida aos mais pobres de entre os pobres. Não basta ser pobre para ter acesso ao RSI.

Depois, é uma medida que está dirigida em primeiro lugar ao atenuar das dificuldades dos mais pobres, como a fome, o pagamento da renda de casa, a compra de móveis, de fraldas e de artigos para crianças… nem todos os pobres são iguais, existe uma coisa chamada intensidade da pobreza: quanto mais afastado se estiver do valor do limiar de pobreza menos dinheiro se tem e mais difícil é a vida. 

O que o RSI faz é não deixar cair os pobres abaixo de um determinado limiar de sobrevivência. Vai impedindo a fome e o desespero mas não é saída nem solução.

De resto, não se pode esperar que uma medida da segurança social resolva os problemas estruturais da sociedade, porque não vai. 

Não é através do RSI que, por magia, os adultos ficam com a formação para terem bons empregos. Nem é o RSI que vai criar empregos bem pagos e seguros na economia, nem vai criar as empresas que os sustentem.

Com o RSI vai-se conseguindo levar as crianças à escola, controlar a vacinação, ter consultas para crianças e adultos, enquadrar mulheres em programas de formação, casais em programas de melhoria das capacidades como pais e muitas outras coisas que são importantes mas que não resolvem a questão de fundo. 

O RSI minora o impacto da pobreza mais severa mas não tira as pessoas da pobreza, salvo algumas excepções. 

Claro que sem RSI a vida de milhares de açorianos seria muito mais difícil e, não tenho dúvidas em afirmá-lo, teria um nível de qualidade incompatível com uma região europeia e com uma democracia. 

Mesmo assim já não é fácil… Portanto o RSI é necessário no combate à pobreza mas está longe de ser suficiente.

O número de beneficiários do RSI nos Açores tem flutuado ao longo do tempo mas tem-se mantido uniformemente alto desde que a medida entrou em vigor em 1997. 

Tenho reflectido muito sobre porque é que isso acontece. São várias as razões que encontro. 

Aqui ficam duas: uma tem a ver com a proximidade entre os serviços de acção social e as populações. 

O estado é mais próximo nos Açores, deve haver pouca gente que precisa do RSI que não o tenha, em contraste com o continente onde a distância entre os técnicos e a população é, em muitos casos, muito grande. 

Outra razão prende-se com o mercado de trabalho regional, muita gente recebe o RSI como complemento salarial, é por isso que a prestação média é a mais pequena das sete regiões do país (Nuts II). 

Como já disse, a economia dos Açores é forte em sectores de actividade que pagam mal e que estão associados a formas extremas de precariedade no trabalho: agricultura, pescas e agora o turismo. 

Muitos beneficiários obtêm do seu trabalho rendimentos baixos porque têm actividades irregulares e mal pagas, o RSI vai complementando o que ganham e ajudando a evitar as piores consequências da pobreza.

Termino esta ideia ainda com uma terceira razão: as famílias beneficiárias do RSI dos Açores são as maiores do país. 

Como o RSI é calculado em função do tamanho da família (capitação), quanto maiores as famílias mais probabilidades de se ter direito à medida. 

Nos últimos anos tenho-me vindo a aperceber da grande importância que este factor tem na explicação do elevado número de beneficiários na região. 

Apesar das famílias açorianas terem vindo a perder dimensão ao longo dos anos, mesmo entre os beneficiários do RSI, o tamanho médio das famílias beneficiárias é ainda francamente maior do que as famílias comparáveis no continente.

 

O Governo Regional anunciou que a região vai candidatar-se a um programa comunitário de combate à pobreza, no valor de mais de 5 milhões de euros, para apoios em cabazes alimentares às famílias açorianas. É uma boa medida?

 Não é uma boa medida e duvido muito que no governo se ache que é uma boa medida, sinceramente. 

É, no entanto, o aproveitamento de um apoio financeiro que foi disponibilizado pela União e, com certeza, será útil para acudir a casos de emergência e de destituição mais graves.

 O valor também parece muito mas se virmos isto na perspectiva de toda uma região e dos vários anos no qual (certamente) se dividirá, já não é assim tanto dinheiro.

 

 Do seu estudo e observação sobre os comportamentos sociais nas diversas ilhas, como encara o futuro relativamente a este fenómeno? Haverá sempre pobreza na região ou é possível erradicá-la?

 Acho que é possível erradicar a pobreza na região mas também acho duas coisas, não será tão cedo e isso está em boa parte fora do controlo dos órgãos da autonomia. 

Concretizando, para se erradicar a pobreza é preciso mexer no modelo de produção económica, e de distribuição da riqueza. 

Isso é uma coisa que só poderá ser feito à escala global. 

Neste momento, o que está a acontecer é o contrário: verifica-se o reforço do actual modelo neoliberal, com Trump, e o crescimento das desigualdades nas sociedades desenvolvidas. 

Os factores que produzem e reproduzem a pobreza estão a agravar-se.

O que há de novo é que agora há uma consciência crescente que a solução para a pobreza é política e não económica. Isso é muito importante porque mostra que há alternativas exequíveis para reduzir estes problemas no curto prazo, haja vontade política, e com consequências económicas muito positivas: a investigação na economia tem vindo a mostrar que quando se reduz a pobreza e a desigualdade de distribuição de rendimento se dá um maior crescimento económico, algo que beneficia toda a sociedade. 

Obviamente que mexer com a organização política da sociedade e com o reinado da ideologia neoliberal não está ao virar da esquina. 

Sabemos já que o neoliberalismo é uma ideologia totalmente errada, mas continua a ser dominante entre as instituições e os principais decisores políticos à escala global. 

Tenho alguma esperança porque mesmo nas grandes instituições internacionais o discurso está já a mudar. 

Veja-se o caso da OCDE (muita gente pode não saber o que é mas é uma instituição muito influente à escala global), o discurso dos seus responsáveis deixou de ser a flexibilização do mercado de trabalho (que aumenta a pobreza) e passou a ser o de segurança no emprego (algo que a diminui).

 

 Considera que temos uma rede eficaz no apoio social?

 Temos uma rede de apoio social muito eficaz se por isso se entende os serviços que são prestados aos cidadãos mais vulneráveis pelo estado e pelas organizações não governamentais. 

Não tenho dúvidas que não é perfeita e que precisa de ser melhorada, mas se compararmos com o que havia no passado e com o que se passa no continente penso que podemos estar moderadamente satisfeitos. 

Só não digo muito satisfeitos por dois motivos, primeiro porque há sempre alguém que tem um problema grave que não está coberto ou que foi mal respondido e segundo porque os problemas estão sempre a mudar e a aparecerem novos a que é preciso responder.

 

Era aconselhável que se fizesse nos Açores um estudo aprofundado sobre este fenómeno?

Sim, parece-me claramente que são necessários uma bateria de estudos sobre estas questões. 

Um só estudo será pouco. E explico porquê: estamos a falar de um problema com uma complexidade brutal: a pobreza está associada à falta de rendimento mas tem efeitos a nível da saúde, da educação, do emprego, da habitação e também ao nível de públicos muito diversificados: das crianças, dos jovens que estão em casa sem estudarem ou trabalharem, dos idosos, dos que trabalham e são pobres, dos beneficiários do RSI, dos deficientes… não faltam públicos e temáticas complicadas na pobreza. 

Além disso, a sociedade está a mudar rapidamente e estão a emergir novas questões associadas aos indivíduos em situação de pobreza. 

Por exemplo, a crise económica que atravessamos aumentou o número de pobreza e trouxe à pobreza pessoas que não estavam habituadas a estar nessa situação (é uma percepção pessoal, não um estudo).

Claro que é preciso começar por algum lado e eu aconselharia que se começasse pela relação dos activos com o mercado de trabalho dado que é aqui que se joga boa parte da possível erradicação da pobreza.

 

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“Clientes estão a retrair-se e o mau tempo não ajuda”

Pessoas na rua PDLO comércio tradicional de Ponta Delgada tem “expectativas muito baixas”, neste momento, relativamente às compras de Natal, mas espera que “mais próximo do dia 24 as coisas se alterem”.

António Hermínio Botelho, responsável pela Mesa do Comércio da Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada sublinha ao “Diário dos Açores” que se tem sentido, no comércio tradicional, uma retracção por parte dos clientes, “o que terá ainda a ver com a crise”.

A agravar, nestes dias, a fraca procura pelo comércio tradicional, está também o mau tempo.

“Este tempo chuvoso de vários dias seguidos retira qualquer motivação aos clientes para estacionar na cidade e ir à procura dos artigos”, explica António Hermínio Botelho, que mantém esperanças nos próximos dias, à maneira que se aproxima o dia de Natal.

 

Estudo diz que açorianos preferem comércio tradicional

 

Um estudo nacional revelado ontem indica que quase metade dos portugueses pretendem gastar o mesmo que o ano passado nas suas compras de Natal.

 O estudo foi realizado pela More Results, que revela que é no centro do país que os consumidores gastam mais, com 44,4% das pessoas desta região a prever gastos acima dos 1000 euros nas compras de Natal.

O estudo ‘As tendências de compras de Natal dos portugueses’ indica que 49,5% dos portugueses inquiridos pretende gastar em 2017 o mesmo valor gasto nas prendas de Natal em 2016, e 38,8% diz, no entanto, que pretende diminuir os seus gastos face ao ano anterior.

De acordo com o estudo, “na sua maioria, os gastos dos portugueses irão até aos 400 euros. E é no intervalo de consumo entre os 100 euros e os 200 euros que se situa a maior fatia, com 36,3% do total da população inquirida em todo o território nacional. Segue-se 27% a afirmar fazer, em média, os seus gastos em compras de Natal até um máximo de 100 euros. Por sua vez, 26,1% diz pretender gastar entre 200 e 400 euros.” A More Results revela também que 7,5% da população portuguesa prevê gastar entre 400 euros e 600 euros e que apenas 0,8% da população inquirida terá um orçamento de 1000 euros, sendo que a maioria dos inquiridos que pretende gastar este valor são da região centro (44,4%). Importa referir, no entanto, que 52% dos jovens entre os 18 e os 24 anos pretendem gastar até 100 euros, com 11,3% a indicar que este será um valor superior a 2016. O estudo revela também que no que diz respeito a compras de Natal, os portugueses preferem comprar em centros comerciais, seguindo-se o comércio tradicional e de rua e os outlets.  A nível regional, no Norte, no Centro, em Lisboa e Vale do Tejo e na Madeira os consumidores optam pelos centros comerciais, contudo, no Algarve e nos Açores a preferência vai para o comércio tradicional e para as lojas de rua.

António Hermínio diz ao nosso jornal que desconhece este estudo e ressalva que não é isto que se tem verificado, pelo menos nos últimos dias, no comércio tradicional.

“Ainda agora vimos no Black Friday o Parque Atlântico cheio de clientes e as lojas do comércio tradicional no centro da cidade com poucos clientes. Estes estudos por vezes acertam apenas nas intenções das pessoas, mas depois na prática optam por outros caminhos”, afirma o responsável da Câmara do Comércio ao “Diário dos Açores”.

 

30 lojas abertas nas Montras

 

O Dia das Montras, que ocorre amanhã, é um dia especial para o comércio tradicional e António Hermínio Botelho revela que, este ano, 30 lojas vão estar abertas ao público, a maioria a partir da tarde.

“Vamos realizar o tradicional concurso das montras em Ponta Delgada e Vila do Porto e colaboraremos também com a Ribeira Grande e Lagoa, este ano com uma novidade: as pessoas poderão tirar fotos às montras, publicá-las na página do Facebook da Câmara do Comércio e depois as pessoas votam naquela que mais gostarem”, revela ao nosso jornal o responsável da Câmara do Comercio.

Quanto às montras em concurso, neste momento estão inscritas 44, o que corresponde a mais duas do que no ano passado, esperando-se que, até ao final do prazo, muitas mais possam aderir.

António Hermínio Botelho sublinha, sobretudo, a disponibilidade e adesão de cada vez mais comerciantes abrirem as suas lojas no Dia das Montras, dando assim mais uma oportunidade aos inúmeros clientes que se deslocam neste dia a Ponta Delgada.

Proveitos da hotelaria tradicional já ultrapassaram os 800 milhões de euros

cama hotelOs proveitos totais da hotelaria tradicional nos últimos 16 anos, os únicos em que se conhecem estatísticas, já atingiram  843.782.202 euros.

Por outro lado, a hotelaria tradicional cresceu em proveitos totais, nos últimos dez anos, mais de 20 milhões de euros.

De acordo com os números consultados pelo nosso jornal, em 2007 os proveitos totais da hotelaria açoriana registavam 54.125.538 euros e até Setembro deste ano já vão nos 73.670.845 euros, uma diferença de quase 20 milhões, mas que irá aumentar até ao fecho deste ano.

A restauração subiu de 15.182.987 euros para 16.906.229 euros, uma diferença de quase 2 milhões de euros, enquanto os aposentos renderam quase 17 milhões de euros, de 37.404.038 euros para 54.167.358 euros.

Os custos com pessoal registaram o menor aumento, cerca de meio milhão, passando de 15.182.987 euros para 16.906.229 euros.

S. Miguel é a ilha com o maior aumento de proveitos totais na última década, passando de 37.843.461 euros para 52.725.147 euros, uma diferença de quase 15 milhões de euros.

Na restauração há uma diferença positiva de mais de 1,3 milhões de euros, nos aposentos de mais de 12 milhões e nos custos com pessoal a diferença não chega a 1 milhão de euros. 

 

Cartilha da Sustentabilidade assumida por 41 entidades

 

A Secretária Regional da Energia, Ambiente e Turismo afirmou que a assinatura de 41 entidades, públicas e privadas, na Cartilha de Sustentabilidade, é a prova de um “compromisso” que é de todos, numa estratégia conjunta entre o Executivo açoriano e os agentes de vários sectores de actividade.

 “Este é o início de um caminho conjunto, que mostra que o envolvimento de todos é necessário, para que os resultados sejam concretos e multissectoriais”, frisou Marta Guerreiro, que falava na sessão de encerramento da Conferência Internacional ‘Açores 2017: No Rumo do Turismo Sustentável’, após a assinatura da Cartilha de Sustentabilidade.

 A titular da pasta do Turismo frisou que “esta conferência representa compromissos e desafios para o futuro”, nomeadamente o “rigor das práticas de cada entidade, e um reconhecimento, interno e externo, de que somos uma Região com notoriedade e políticas de ação”.

 Marta Guerreiro destacou ainda “o processo de Certificação do Destino como um compromisso público do Governo dos Açores, que se pretende alcançar em 2019”.

 “Comprometemo-nos, por isso, a iniciar este processo de certificação, desde logo, dando resposta à necessidade de uma entidade gestora do destino, que liderará a gestão dos padrões do destino e terá um papel preponderante junto de todas as entidades, públicas e privadas, para o alcance dos seus compromissos”, salientou.

 Segundo a Secretária Regional, esta entidade “funcionará também, por exemplo, como estímulo à criação de mais produtos e experiências sustentáveis, permitindo que o visitante possa facilmente encontrar uma maior diferenciação no Destino Açores”.

 Ainda sobre o processo de certificação, Marta Guerreiro mostrou que já existe trabalho iniciado, acrescentando que será mantido “o foco no seguimento das linhas traçadas através do relatório de levantamento e diagnóstico, que foi apresentado na conferência, e que fez uma fotografia do estado atual da Região, em termos de critérios de sustentabilidade”.

 “Sabemos que não estamos a começar do zero, mas também sabemos que há um longo caminho a percorrer, muito exigente, mas potenciador do progresso de uma Região com preocupações evidentes, no que diz respeito às questões sustentáveis”, acrescentou.

 A Secretária Regional reafirmou a total disponibilidade e empenho do Governo dos Açores na estreita colaboração com todas as entidades públicas e privadas, em prol de um desenvolvimento mais sustentável do destino turístico.

 “Tudo isto só é possível se continuarmos a fomentar o aprofundamento do trabalho com todos os intervenientes do sector, numa interação regular, para que os resultados sejam mais promissores”, afirmou.

 Esta conferência internacional, promovida pelo Governo dos Açores, reuniu cerca de 300 participantes transversais a várias áreas de atividade, permitindo o debate e a partilha de conhecimento sobre o posicionamento da Região em matérias de sustentabilidade, tanto através de colaboração interna com os actores locais, como pelo contributo de especialistas nacionais e internacionais.

 “Foram dois dias entusiasmantes e inspiradores”, destacou a Secretária Regional, salientando que o evento foi “uma oportunidade única de projetar os Açores para a cena internacional da sustentabilidade”, ao mesmo tempo que contribuiu para reforçar “o reconhecimento interno da Região como destino sustentável”.

 

Um espaço museológico ao vivo transformado em turismo rural

quinta do marteloDesde ontem que está a decorrer em S. Miguel um importante encontro sobre o turismo sustentável nas nossas ilhas, terminando hoje com intervenções de vários operadores e empresários, para além da apresentação de propostas concretas para uma cartilha a subscrever por todos os operadores do sector. O turismo de natureza é uma das fortes apostas do nosso destino, como comprova um estudo internacional de que damos conta na página ao lado. E um dos melhores exemplos deste tipo de turismo é a Quinta do Martelo, na ilha Terceira, premiado várias vezes, como conta o nosso colaborador Luís Bento Silva.

 

A economia açoriana foi marcada, ao longo dos séculos, por ciclos produtivos baseados, essencialmente, na agricultura: o do pastel, o do trigo, o da laranja, o da “vaca” e, o mais recente, que interage com a produção agropecuária e com o ambiente, que é o do turismo.

É no coração de uma propriedade que atravessou vários desses ciclos, sempre com autossustentabilidade para os seus proprietários, e que foi fundamental na produção para exportação de um desses ciclos – o da laranja –, que nasceu o primeiro projeto de turismo rural e de natureza dos Açores, já lá vão 28 anos.

 Classificada de utilidade turística pelo Governo Regional dos Açores, a Quinta do Martelo é uma propriedade rural situada a 5 quilómetros da cidade Património Mundial, Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, arquipélago dos Açores.

Podemos aqui observar e experimentar toda a evolução da cultura gastronómica e civilizacional dos Açores ao longo dos séculos.

 

Um autêntico museu de artes e ofícios

 

A aposta neste empreendimento de alojamento rural e de restauração típica sempre se pautou pelo escrupuloso respeito pela autenticidade das vivências ancestrais, pelo enquadramento ambiental e por proporcionar uma experiência única de contatos com essas realidades já muito difíceis de encontrar. 

  A partir de exaustivas recolhas e de vestígios encontrados e estudados, existem na Quinta os melhores conjuntos de estruturas, como oficinas de artes e ofícios tradicionais em vias de extinção, reconstituição de casas desde o princípio do povoamento e zonas da Quinta recuperadas e adaptadas a agricultura biológica, bem como preservação de espécies autóctones de animais domésticos para uso da Quinta, nas suas várias vertentes.

É voz comum que na Quinta do Martelo se come o melhor da culinária da ilha Terceira. 

Isso até poderia ser atestado pela atribuição do 1º lugar nos Concursos “Gastronomia – Património Nacional” e “ Gastronomia - Património Cultural”, galardões de nível nacional, conquistados pelo seu restaurante, entre dezenas de outros prémios, tanto na vertente gastronómica como pela autenticidade da instalação em si mesma, como, por exemplo, o galardão “Green Key”, atribuído a esta unidade em todos os onze anos que existe em Portugal.

 

Hóspedes reagem com mensagens agradáveis

 

A par desses prémios, é reconfortante para o seu proprietário, Gilberto Vieira, receber feedback dos hóspedes e comensais que, na esmagadora maioria, manifestam agradável surpresa pela experiência aqui vivida, não só pessoalmente mas nas diversas plataformas ligadas ao setor turístico.

Olhando mais em detalhe para a relação e contributo que este empreendimento dá no que respeita ao turismo sustentável, algo que foi preocupação desde o início da atividade, destacamos alguns aspetos.

Desde logo, o conceito - o compromisso de que Gilberto Vieira nunca abdicou de ser fiel à tradição rural açoriana, e terceirense, em particular. 

Isso manifesta-se desde a organização dos espaços, aos materiais e tipologias de construção, mobiliário, artefactos de uso doméstico ou de trabalho, culinária e de cultivo biológico em pomares, hortas, courelas e pequenos jardins.

 

Casas à moda antiga

 

No caso das habitações, elas reproduzem o evoluir das técnicas de construção e formatos das casas terceirenses, desde a época do povoamento, utilizando materiais endógenos até onde é possível, o mesmo se aplicando aos móveis e instrumentos utilitários do lar ou do trabalho rural.

A par disso, a Quinta do Martelo conta com um conjunto de oficinas de artes e ofícios tradicionais que não são apenas um espaço museológico que reúne um vasto espólio muito interessante de peças utilizadas em cada profissão do mundo rural, mas estão, também, em boa parte, aptas a funcionar, com a colaboração dos poucos artífices que ainda há na ilha, quer em demonstrações educativas, quer produzindo peças que ainda são úteis para uso na quinta. 

 

Produções agrícolas utilizadas na Venda do Ti Manel

 

O parque é composto por oficinas de ferreiro, latoeiro, oleiro, cesteiro, marceneiro, carpinteiro, tecedeira, caiador/Pintor, serrador/lenhador, sapateiro, tanoeiro, barbeiro, cabouqueiro, canteiro, calceteiro e ainda um alambique.

Quanto às produções agrícolas, que são utilizadas na confecção de muitos pratos no restaurante do empreendimento – a venda do Ti Manel da Quinta -, são usadas as técnicas ancestrais, quer na forma e épocas do cultivo, quer no enriquecimento dos solos, que é feito à base de estrume animal e outras compostagens vegetais.

Noutra vertente, procura-se sensibilizar os  hóspedes para o consumo responsável de água, possuindo sistemas próprios de captação e armazenamento de água da chuva, através de calhas e cisternas decalcados de antigos saberes, utilizam-se lâmpadas de baixo consumo e tem instalado um pequeno ecoponto, a uma distância acessível a todos.

Em última análise, o respeito intransigente pela herança vivencial dos nossos antepassados e a perfeita integração no mundo rural circundante de hoje, fazem da Quinta do Martelo um local único, onde se é bem recebido.

 

Por Luís Bento Silva, Angra do Heroísmo