Açores registam o 5º dia sem novos casos positivos de Covid-19

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Pelo quinto dia consecutivo, os Açores não registaram qualquer novo caso positivo de Covid-19. Das 208 análises realizadas nos dois laboratórios de referência da Região nas últimas 24 horas, a Autoridade de Saúde Regional deu conta que não revelaram casos positivos da infecção. Até ao momento, já foram detectados na Região um total de 138 casos, verificando-se 34 recuperados (20 de São Miguel, 8 da Terceira, 1 do Pico e 5 de São Jorge), 10 óbitos, todos em São Miguel, e 94 casos positivos activos para infecção pelo novo coronavírus SARS-CoV-2, que causa a doença Covid-19, sendo 70 em São Miguel, três na ilha Terceira, cinco na Graciosa, dois em São Jorge, nove no Pico e cinco no Faial.

Às 16h00 de ontem, existiam 756 pessoas a aguardar colheita ou resultado de análises laboratoriais e 1963 vigilâncias activas.

Ao nível dos internamentos, Tiago Lopes revelou que se encontram 35 utentes internados, 19 no Hospital do Divino Espírito Santo em Ponta Delgada, 4 no Hospital de Santo Espírito, na ilha Terceira, com um utente em cuidados intensivos, 1 no Hospital da Horta, ilha do Faial e 11 no Centro de Saúde do Nordeste. Em contexto domiciliário encontram-se 59 pessoas.

 

Alguns testes com falsos positivos

 

À semelhança do sucedido com os dois ex-reclusos que saíram do Estabelecimento Prisional de Angra do Heroísmo, que num primeiro teste acusaram positivo, mas em novos testes deram negativo para a infecção, também a criança de um ano poderá ser um caso de falso positivo. Uma dedução que surge depois da Autoridade de Saúde ter feito análises aos contactos próximos destes três utentes e todos terem dado negativo para Covid-19.

Falando, em Angra do Heroísmo, na habitual conferência de imprensa onde faz o ponto de situação diário sobre a evolução do surto de Covid-19 na Região, Tiago Lopes esclareceu que a questão dos falsos positivos surge do mesmo modo que surgem casos de falsos negativos e que fica a dever-se ao facto, de na Região, se estar a testar cada vez mais pessoas. Como disse, tendo em conta os resultados negativos aos contactos próximos tanto dos dois ex-reclusos como da bebé, “apontamos para essa possibilidade de falsos positivos a par dos falsos negativos que já tínhamos detectado na Região, o que abona a favor das unidades laboratoriais da Região pelo facto de continuarem a testar e não ficarmos satisfeitos apenas com o primeiro resultado que temos”.

Tiago Lopes avançou ainda, a propósito, que a salvaguarda da Região, seja em casos de falsos positivos ou falsos negativos, passa por a Entidade Regional de Saúde estar “sempre a actuar no interesse do zelo da saúde pública”, dando como exemplo o sucedido no lar do idosos do Nordeste em que após a primeira fase de testes, em que muitos se revelaram negativos, procedeu-se a novas recolhas de amostras biológicas e revelaram novos casos positivos. “O mesmo se faz quando ocorre um falso positivo e depois dá negativo. Por zelo e excesso de cautela da nossa parte, iremos manter também para estes casos a mesma vigilância”, sendo que estas pessoas também “irão fazer o seu período de 14 dias, ter três dias sem sintomatologia, nomeadamente febre ou sinais de infecção respiratória, e depois a realização de novos testes, em que deverá ter um primeiro teste negativo e passadas 24 horas outro teste negativo. Aí sim, é comunicada a cura e a recuperação destes casos”, explica.

Uma situação que, de acordo com Tiago Lopes, também foi comunicada ao Instituto Ricardo Jorge, em Lisboa, e que está a ser acompanhada por este laboratório. “Se por um lado é preocupante para nós porque nos aparecem situações que suscita alguma dúvida por via do não conhecimento em rigor do novo coronavírus, por outro lado é benéfico porque nos ajuda em articulação com o Instituto Ricardo Jorge a melhor conhecer e a produzir conhecimento sobre o coronavírus”.

 

Alívio das restrições em análise

 

Apesar do número de casos se ter mantido nos últimos dias 15 dias, Tiago Lopes admite que o possível alívio das restrições impostas pelo Estado de Emergência é “algo que tem sido acompanhado nos últimos dias”, contudo o Director Regional da Saúde adverte que há “ainda um longo caminho a percorrer e não nos podemos iludir com a situação favorável que estamos a viver, porque de um momento para o outro pode existir algum foco que, até à data, não tenha sido detectado”. Neste sentido, Tiago Lopes ressalva que “não podemos baixar a guarda”, sendo que “todas as medidas que podem ser levantadas estão a ser devidamente analisadas diariamente e quando for o momento oportuno serão comunicadas”, assegura.

 

 Por: Olivéria Santos

Bebé de 1 ano de idade entre os sete novos casos de covid-19 registados em São Miguel

Hospital interior

Uma criança de um ano de idade está entre os sete novos casos de covid-19 diagnosticados na ilha de São Miguel, anunciou ontem a Autoridade de Saúde Regional.

A bebé infectada com o novo coronavírus “foi admitida no hospital e internada” e, no âmbito do facto de todas as admissões no Hospital do Divino Espírito Santo estarem a ser testadas à covid-19, a criança foi “também foi testada e teve resultado positivo”, explicou o responsável, sendo ainda desconhecida a origem do seu contágio.

Durante o dia de ontem os contactos próximos da criança foram identificados e alguns já obtiveram resultado negativo. “Um dos elementos do agregado familiar já fez o teste e teve resultado negativo”, revelou Tiago Lopes, adiantando que os restantes contactos próximos também serão testados.  

Outro dos novos casos é uma profissional de saúde do HDES, que foi testada no âmbito do rastreio que está a ser realizado naquela unidade hospitalar e cuja origem do seu contágio é também ainda desconhecida. Para a Autoridade de Saúde, estes dois casos registados no HDES não estarão relacionados com a cadeia de transmissão secundária que se desenvolveu no interior do hospital.

“São casos isolados que não terão ligação directa com a cadeia de transmissão identificada no hospital”, afirmou Tiago Lopes, adiantando que, em ambos os casos, a situação ainda está a ser “aprofundada”.

“A profissional de saúde já tinha exercido em outros locais do hospital, permaneceu um período no seu domicílio e regressou ao trabalho recentemente. Por via deste regresso também fez o teste” que deu positivo, mas “nada aponta para que tenha ligação com a cadeia do HDES”, explicou.

Perante estes novos casos isolados, o responsável rejeita novamente o cenário de transmissão comunitária na ilha de São Miguel. “As cadeias de transmissão estão identificadas. A maior delas, que chegou ao concelho do Nordeste, estará confinada. Mas temos que dar uma margem de duas semanas, ou mais algum tempo, para vermos se não há desenvolvimento de novos casos relacionados com estas cadeias”, afirmou Tiago Lopes.

 

Mais um óbito e cinco 

novos casos no lar do Nordeste

 

Os Açores registaram também mais um óbito, subindo para 8 o número de pessoas infectadas com o novo coronavírus que já morreram na região. Trata-se de mais uma utente do lar da Santa Casa da Misericórdia do Nordeste, de 84 anos, que estava internada no HDES, sendo a quinta morte registada na instituição desde o início do contágio no lar.

Segundo os números ontem avançados, dos sete novos casos positivos na ilha de São Miguel, todos do sexo feminino, além da criança e da profissional de saúde incluem-se ainda cinco idosas do lar do Nordeste, com idades até aos 93 anos, elevando para 43 os infectados relacionados com a instituição.

 

Sem-abrigo poderá 

ter sido infectado no hospital 

 

Sobre o caso do sem-abrigo que foi alvo de contágio em São Miguel, o responsável adiantou que, de entre cerca de 200 contactos próximos identificados, ainda falta apurar resultados, “para podermos assegurar que se trata de caso isolado”. Há a possibilidade de ter sido contagiado nas urgências do hospital.

“Existe registo de várias idas deste cidadão ao serviço de urgência que coincidem com o período de permanência neste serviço de um dos casos positivos”, revelou Tiago Lopes, acrescentando que “poderá ter havido contágio” nesta altura.

Sobre a questão dos reclusos Tiago Lopes avançou que, no Estabelecimento Prisional de Angra do Heroísmo, todos já foram testados. No âmbito da pandemia do covid-19, já foram libertados nos Açores 22 reclusos do EP de Angra, da cadeia de apoio da Horta saíram três reclusos e do EP de Ponta Delgada saíram 55 reclusos. Trinta destes ex-reclusos já foram testados e 25 encontravam-se ontem a aguardar colheitas.

Aos jornalistas, o responsável adiantou que está a ser planeado um eventual regresso à normalidade, à semelhança do que tem vindo a ser discutido no continente. “Isto tem que ser devidamente planeado e ponderado, acompanhando a evolução do surto, mas estamos a trabalhar para ver que medidas poderão ser levantadas, diminuídas, não esquecendo que, no caso da ilha de São Miguel, poderão ser até acentuadas”, sublinhou.

 

111 casos activos nos Açores

 

Segundo o ponto de situação feito ontem pelo director regional, os casos positivos activos para infecção pelo novo coronavírus na região, sendo 84 em São Miguel, 5 na ilha Terceira, 9 no Pico, 5 na Graciosa, 3 em São Jorge, 9 no Pico e 5 no Faial. Existiam 1045 pessoas a aguardar colheitas ou resultados e 2203 pessoas em vigilância activa. Dos casos activos, 41 estão internados, mais cinco em relação ao dia anterior. Vinte e três estão no hospital de Ponta Delgada, com dois nos cuidados intensivos com “mau prognóstico”, afirmou Tiago Lopes. No hospital da Terceira estão internados quatro casos positivos, com dois igualmente em unidades de cuidados intensivos. Um destes casos foi “extubado da ventilação mecânica a que estava sujeito”. Na Horta, continuam internados dois utentes com covid-19 e no Centro de Saúde do Nordeste estão internados 12 infectados, na enfermaria criada especialmente para tratar doentes com o novo coronavírus. Os restantes estão em contexto domiciliário, registando-se ainda quatro novos casos recuperados na ilha de São Miguel, elevando assim para 19 o total de recuperados no arquipélago.

Entre profissionais de saúde, existem 20 com resultado positivo para covid-19, dois já estão recuperados e 24 encontravam-se ontem a aguardar resultados. 

 

81% das empresas açorianas mantêm-se em funcionamento

Ponta Delgada vista aereaO SREA (Serviço Regional de Estatística dos Açores) acaba de divulgar a primeira informação sobre o inquérito excepcional às empresas no âmbito da pandemia Covid-19, realizado nos Açores.

Os resultados da 1ª semana de inquirição (6 a 10 de Abril de 2020), indicam que 81% das empresas açorianas que responderam ao inquérito mantêm-se em produção ou funcionamento, mesmo que parcialmente. 

 

19% encerradas

 

Cerca de 19% das empresas encontravam-se temporariamente encerradas, enquanto nenhuma tinha encerrado definitivamente.

A nível nacional, as percentagens são 82% e 16%, respectivamente.

 

Redução de volume de negócios em 70% das empresas

 

Das empresas, com sede na Região Autónoma dos Açores, que responderam ao inquérito 70% referiram que sofreram uma redução no Volume de Negócios, tendo 14% respondido que verificaram um aumento e 16% afirmado que o actual estado de Pandemia não teve qualquer impacto no volume de negócios.

A nível nacional, 80% declararam redução enquanto 15% afirmaram ausência de impacto.

 

Ausência de encomendas/clientes

 

Quanto aos motivos com “muito impacto” na redução do volume de negócios, 64% das empresas respondentes referiram a ausência de encomendas/clientes, 24% indicaram problemas na cadeia de fornecimento e apenas 6% restrições do estado de emergência.

 

Redução de pessoal em 59% das empresas

 

Das empresas que responderam, 39% afirmaram que a pandemia COVID-19 não teve qualquer impacto no número de pessoas ao serviço (NPS), 59% responderam que ocorreu uma redução e 2% um aumento.

A nível nacional 61% assinalaram uma redução e 38% referiram não ter havido impacto.

 

Primeiro Inquérito Rápido  Excepcional

 

O SREA explica que as autoridades estatísticas nacionais (Instituto Nacional de Estatística e Banco de Portugal), tendo em conta a actual situação de pandemia COVID-19, tiveram a iniciativa de realizar um Inquérito Rápido e Excecional às Empresas (COVID-IREE), dirigido a uma amostra de empresas de todo o país, no qual foram incluídas 81 com sede na Região Autónoma dos Açores. 

O SREA, como autoridade estatística regional, e delegação do INE para as estatísticas de âmbito nacional, coordenou a recolha de informação na Região.

Nos Açores, a taxa de resposta global na referida semana foi de 65,4%, representando 80,4% do pessoal ao serviço (NPS) e 68,5% do volume de negócios (VVN) das empresas da amostra.

Estas percentagens foram superiores às verificadas no conjunto do país (54% na taxa de resposta global, representando 54% do NPS e 65% do VVN da amostra).

Note-se que o inquérito na sua génese teve como objetivo apurar dados para o país, não estando desenhado para apuramentos ao nível de Região, sendo os resultados apresentados referentes apenas às respostas obtidas, sem qualquer extrapolação.

“Se não houver apoios antecipados, muitos produtores irão à falência”

jorge rita 1Atendendo às consequências provocadas pela pandemia do covid-19, a Federação Agrícola dos Açores anunciou ontem que enviou uma carta aos deputados europeus portugueses, assinada pelo seu Presidente, Jorge Rita, onde alerta para “a necessidade de serem tomadas medidas a favor dos Agricultores, nomeadamente a antecipação das ajudas e a adopção de medidas de mercado”.

Nesta carta, o dirigente agrícola apela ao apoio dos deputados europeus às organizações de produtores para que a Comissão Europeia “desencadeie os mecanismos necessários capazes de promover o sector agrícola através da antecipação dos pagamentos das ajudas aos agricultores até 15 de Agosto, em 85% para os pagamentos directos e 90% para o desenvolvimento rural, e na adopção de medidas de mercado”.

Refira-se que tem sido usual, nos últimos anos, a União Europeia antecipar as ajudas aos agricultores até 16 de Outubro em 70% para os pagamentos directos, e de 85% no desenvolvimento rural, “pelo que além de se reivindicar uma antecipação em cerca de 2 meses, apela-se igualmente, ao aumento das percentagens usualmente aplicadas”.

“No âmbito das medidas de mercados, são necessárias acções que permitam salvaguardar as perturbações previsíveis na área do leite, carne, sector do vinho e hortoflorifrutícola”, lê-se na carta assinada por Jorge Rita.

E acrescenta: “Essa reivindicação é mais do que justa e necessária, e a sua não satisfação traduzir-se-á na falência de muitos produtores, colocando em causa a sustentabilidade económica, social e territorial das zonas rurais, nomeadamente, das regiões ultraperiféricas”.

“Não hesitaremos em dar ao Estado o mesmo tratamento de abandono a que nos vetou”

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À semelhança da maioria das empresas e instituições açorianas, também a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada está a ver-se a braços com muitas despesas e quebra de rendimentos o que poderá colocar em causa a estabilidade financeira da corporação de Ponta Delgada que também serve o concelho de Lagoa. Numa entrevista ao Diário dos Açores, João Paulo Medeiros explica quais têm sido as maiores dificuldades nestes tempos de pandemia, adiantando que o avultado investimento privado que foi necessário fazer em materiais de protecção individual e outros, poderá colocar em causa o cabal cumprimento dos compromissos com pessoal, fornecedores e Estado. Ainda assim, o Presidente dos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada não baixa a guarda e vê nestes obstáculos, “um dos maiores desafios dos últimos tempos e se calhar de quase toda a nossa existência de 140 anos”.

 

Diário dos Açores - De que forma está a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada a viver este surto de coronavírus na Região?

João Paulo Medeiros - A nossa Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada sempre teve, pela sua vocação, um papel fulcral e responsabilidades acrescidas na vida comunitária das populações que servimos, concretamente das cidades de Lagoa e de Ponta Delgada, esta função está indelevelmente reforçada neste actual cenário de Pandemia. O nosso Corpo de Bombeiros actua na primeiríssima linha da frente, neste caso de combate, permita-me utilizar esta linguagem, porque, de facto, estamos numa guerra, em que o inimigo não tem rosto, mas nem por isso deixa de ser um dos maiores desafios dos últimos tempos e se calhar de quase toda a nossa existência de 140 anos. Mas nunca fugimos às nossas responsabilidades e os nossos Bombeiros, que são dos melhores do País, estão preparados e demonstram uma eficácia e um espírito combativo impares na nossa sociedade e isso temos de relevar e enaltecer.

 

Quais têm sido as maiores dificuldades?

JPM - Neste momento as nossas maiores dificuldades são as de continuar a ser uma Associação Humanitária que se rege por valores de compromisso, de honestidade, de transparência, de rigor e de cumprimento das suas obrigações, em primeiro lugar para com os seus Bombeiros, através do pagamento pontual e atempado dos seus ordenados; em segundo lugar para com os nossos fornecedores, pois são nossos parceiros e estão connosco nesta luta e, portanto, merecem o nosso respeito e o cumprimento pontual dos nossos deveres de pagamento atempado dos compromissos assumidos. Em terceiro lugar, o cumprimento das obrigações fiscais para com o Estado. Neste momento, apenas este terceiro elo de ligação está em causa. Entre pagar impostos e pagar vencimentos, a decisão está há muito ponderada e tomada! Não hesitaremos em dar ao Estado o mesmo tratamento de abandono a que nos vetou, por não incluir nas medidas de apoio financeiro à manutenção dos postos de trabalho e da actividade económica as Associações de Bombeiros e como tal, se a tal viermos a ser obrigados, tendo em conta que houve uma falta de solidariedade e de atenção para com a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada, teremos o mesmo procedimento, de abandono do Estado, através do não cumprimento das nossas obrigações fiscais.

 

Caso seja necessário accionar o seguro, os trabalhadores podem ficar tranquilos? O seguro cobre o risco que envolve trabalhar durante esta pandemia?

JPM - Infelizmente, as seguradoras não incluem nas apólices normais de acidentes de trabalho ou de acidentes pessoais, a cobertura pela pandemia do covid-19, no que aos Bombeiros diz respeito. Já fizemos chegar a quem de direito o nosso descontentamento e repúdio por esta situação que, entretanto, ficou ultrapassada através de uma solução temporária, que foi possível encontrar através do Serviço Regional de Protecção Civil e Bombeiros dos Açores, da Secretaria Regional da Saúde e da Federação de Bombeiros dos Açores, com a subscrição de um novo seguro de acidentes de trabalho, pelo prazo de 90 dias, para que os nossos Bombeiros pudessem estar a coberto desta situação, por parte do seguro. Na minha opinião estritamente pessoal, isso não faz sentido e resulta de um aproveitamento financeiro das Seguradoras. Mas o principal é que se tenha chegado a uma solução alternativa, ainda que tenha tido, no nosso caso, um custo financeiro adicional de cerca de 2.500 euros e que será comparticipado pelo SRPCBA. A seu tempo, a história, a nossa história colectiva, julgará quem esteve bem em todo este cenário e aqui, claramente, as seguradoras, tal como alguns fornecedores de materiais de protecção individual estão muito mal na foto, com um significativo aproveitamento financeiro da fragilidade destes sectores de actividade, em que estão em risco vidas humanas e a segurança das pessoas e isso não é compatível com jogadas financeiras de aproveitamento económico-financeiro. 

 

Como estão ao nível de equipamentos de protecção individual?

JPM - É preciso ter em consideração que os equipamentos de protecção individual são compostos por vários elementos e que todos eles são utilizados uma única vez em cada saída para transporte de um doente suspeito de Covid-19. Estamos a falar de equipamentos que custam largas dezenas de euros, portanto o investimento é enorme. Neste momento, fruto de um reforço dos meios que nos foram atribuídos pelo Serviço Regional de Protecção Civil e em grande parte pelo investimento próprio que fizemos (reforço o conceito de investimento, porque é da vida e da protecção dos nossos bombeiros que estamos a falar), estamos numa situação equilibrada para um curtíssimo prazo, uma vez que não se consegue prever o tempo que irá durar esta pandemia, estamos ainda a aguardar alguns equipamentos, que ainda não chegaram.

 

As doações que têm recebido de algumas empresas privadas são suficientes ou há falta de mais material?

JPM - As doações são bem-vindas e são fulcrais para o reforço dos nossos meios, mas as quantidades entregues são ínfimas, comparadas com as reais necessidades do dia-a-dia. Posso dar, por exemplo, o caso das viseiras que foram doadas (cerca de 30), mas tivemos de encomendar mais 70 que ainda não chegaram. Os fatos de isolamento são caríssimos e são vitais para a protecção dos nossos homens, óculos de protecção, máscaras (de vários tipos, consoante a necessidade), luvas (de vários tipos), protecção de botas, desinfectantes, enfim, utilizamos diariamente muito, mas mesmo muito equipamento, que se não fosse o investimento da própria Associação, estaríamos quase sem poder acorrer às solicitações. Permita-me também aqui realçar que todos estes produtos e materiais estão sujeitos a uma taxa de IVA de 18%, o que pessoalmente considero absolutamente inacreditável.

 

Sem estas doações como estaria a corporação ao nível de equipamentos de protecção?

JPM - Estas doações são bem-vindas e apelamos a que, na medida do possível, possam continuar e ser reforçadas, até por outros intervenientes que possuam essa mesma capacidade e disponibilidade, pois estamos a ver que as nossas necessidades futuras vão crescer e não temos recursos financeiros próprios para fazer face a este investimento colossal que já foi e que continua, de forma permanente, a ser feito. É preciso ver que não é só de equipamentos que estamos a falar, há toda uma dinâmica e vida própria do quartel que teve de ser redefinida, e que trouxe necessariamente custos financeiros. Posso dar um exemplo relacionado com as dezenas de conjuntos de lençóis, colchas e cobertores que tivemos de adquirir, para reforçar a limpeza e higienização das camaratas e dos quartos de isolamento do quartel, em consequência de termos muito mais bombeiros, homens e mulheres, em permanente disponibilidade, mas também a aquisição de uma máquina de lavar roupa que custou quase mil euros. Há todo um processo de higienização e desinfestação das viaturas, das ambulâncias, dos equipamentos, do quartel, enfim, de toda esta estrutura e isso não se faz sem um investimento financeiro para o qual as associações de bombeiros e a nossa em particular não estavam preparadas e que só veio agravar a nossa situação, vindo de um ponto de equilíbrio para um avanço galopante para um precipício sem paralelo na nossa história. 

 

Com sete bombeiros actualmente em quarentena, de que forma isso prejudica a actuação dos bombeiros no terreno?

JPM - Claro que há sempre um sentimento de insegurança, de incerteza e de receio à volta de todo este processo. Posso dizer que já vi por diversas vezes os procedimentos de saída dos nossos bombeiros para transporte de doentes suspeitos de Covid 19 e no regresso, todos os procedimentos de retirada dos equipamentos, da própria desinfecção individual, é algo que corta a alma. Depois há todo um processo exaustivo de desinfecção da viatura de transporte e de outros equipamentos, que é muito cansativo e que os leva à exaustão física e psicológica. Mas os nossos bombeiros são umas máquinas, são muito corajosos. Tenho falado com alguns e não deixa de ser doloroso ouvir que foram a casa, ver a esposa ou o filho ou a filha, e que o fizeram pela janela, pelo vidro, porque não querem colocar em risco aqueles que lhes são mais preciosos. É complicado, mas de uma forma unânime todos dizem que esta é a vida que escolheram, aquilo que fazem e que querem continuar a fazer, mesmo que no limite, tenham de dar a sua vida… Vida por Vida, é o lema da Corporação!

Acredito porém que todos juntos faremos do amanhã um futuro fantástico, porque todos faremos parte dele, e isso é o mais importante, porque representa a vitória desta batalha sobre o medo, sobre o incerto.

 

Sendo o Corpo de Bombeiros composto por cerca de 80 bombeiros efectivos, caso aumente o número de bombeiros em quarentena pode correr-se o risco de falta de pessoal para acorrer às necessidades do dia-a-dia?

JPM - O Sr. Comandante e os seus elementos do comando conhecem os seus homens (homens e mulheres) como ninguém. O quartel e a sua dinâmica organizacional teve de ser alterada desde o início de Abril, com a alteração do horário de trabalho e a divisão da Corporação em 4 turnos, sendo que dois a dois, trabalham 15 dias e descansam, em quarentena, os restantes 15 dias. Em Março tivemos reuniões de trabalho, Direcção e Comando, para preparação e implementação do Plano de Contingência para esta pandemia do Covid-19 e esta foi uma das medidas preventivas adoptadas. A par disso, tivemos que ser sensíveis a outras questões, na articulação de horários no caso de bombeiros com filhos menores ou quando ambos os cônjuges trabalham na corporação ou até mesmo com alguns elementos com algumas patologias crónicas de maior cuidado e sensibilidade. Tentamos sempre fazer o melhor por estes nossos soldados da paz, sendo certo que nenhum sistema é perfeito e há sempre a possibilidade de ajuste ou melhoria de procedimentos; Por isso e tendo por base a enorme capacidade de liderança do Comandante e dos seus adjuntos e da capacidade de trabalho e de entrega dos nossos bombeiros, estamos em crer que tem tudo para correr bem, salvo algum cenário de agravamento não previsto.

 

Como estão organizados os vossos serviços. Há equipas exclusivas só para os casos de Covid-19?

JPM - Houve o reforço de uma ambulância e das respectivas equipas de TAS (Tripulantes de Ambulância de Socorro), conforme orientações do Serviço Regional de Protecção Civil e Bombeiros dos Açores, mas não se pode dizer que só avança para o terreno uma equipa específica, até porque as ocorrências têm vindo a aumentar e, neste momento, estamos a disponibilizar mais meios do que o que está estipulado e previsto. É preciso ter em consideração que servimos as cidades de Ponta Delgada e Lagoa, com cerca de 85 mil habitantes, 35 mil fogos, que representam 65% da população da Ilha de São Miguel e mais de 35% da Região Autónoma dos Açores.

 

Em relação a casos não Covid, os pedidos de ajuda aos bombeiros continuam? Houve algum decréscimo? Como é gerida esta situação relativamente às outras doenças e que os bombeiros costumam apoiar seja no transporte para tratamento de doentes oncológicos ou idas às urgências pelos mais variados motivos? 

JPM - Praticamente todos os transportes de doentes não urgentes foram suspensos, houve uma diminuição de cerca de 95% dos serviços efectuados. Aliás, esta foi mesmo uma orientação que fez todo o sentido, até porque grande parte da população alvo destes tratamentos pertencem a grupos de elevado risco (população mais idosa, entre outros critérios) e portanto eles próprios sentiam receio de continuar com esses tratamentos, por exemplo de fisioterapia e outros, de forma regular. A maior parte das clínicas encerrou ou suspendeu estas actividades. Apenas as urgentes como consultas e/ou tratamento de hemodiálise e outras de foro oncológico – quimioterapia ou radioterapia, têm continuidade. Claro que esta situação tem também o reverso da medalha que é o de criar um garrote financeiro à Associação, que depende em muito destes transportes para obtenção de receita. Tem-se notado uma diminuição também nos transportes urgentes, mais numa fase inicial, sendo que actualmente, com a instalação de um sentimento de maior controlo da pandemia, estamos a fazer cerca de 25 a 30 transportes de urgência por dia.

 

Qual o sentimento que se vive actualmente na sua corporação de bombeiros?

JPM - É sobretudo um sentimento de família; de união e de partilha entre todos. Vivemos à dias a Páscoa e foi com este espírito que a Direcção quis homenagear estes homens e mulheres que tantos sacrifícios têm feito, com a oferta de um bolo de massa sovada a cada um deles. Foi uma novidade, muito bem acolhida e motivo de grande alegria para nós. A par disso temos tentado melhorar e favorecer as condições de vivência diária no Quartel e para isso tem contribuído também este espírito de solidariedade de algumas empresas e particulares que têm feito alguns donativos de algumas refeições, de alguns géneros, entre outros e que também contribuem para melhorar este espírito de entrega à comunidade, ao vermos que, de certa forma, a comunidade também está atenta e retribui esse esforço individual e colectivo dos nossos bombeiros. Essa é a melhor recompensa que eles podem ter e por isso faço um apelo a que ajudem os nossos Bombeiros. Não posso deixar de realçar o enorme contributo que o MacDonalds de Ponta Delgada tem feito com a oferta de uma refeição a cada bombeiro que lá se dirija, fardado. Isso está a ser feito há várias semanas e como tal não podemos de realçar este contributo, que se junta a tantos outros que nos têm chegado! Bem haja a todos!

 

Por: Olivéria Santos