Três empresas públicas têm mais de 60 milhões de euros de dívida bancária

eurosSinaga, Lotaçor e a fábrica de conservas Santa Catarina, empresas públicas da região, têm uma dívida bancária que ultrapassa os 60 milhões de euros.

É uma dívida que comprova a falta de pagamentos e atrasos na intervenção por parte do Governo Regional dos Açores, obrigando estas empresas a recorrerem à banca, com todos os inconvenientes que esta operação implica, nomeadamente o pagamento de juros, que atingem alguns milhões.

“É um autêntico desperdício de dinheiros, que iremos pagar mais tarde através do orçamento da região”, salienta uma fonte de uma das empresas, que nos revelou que alguns trabalhadores já manifestaram, “até por escrito”, a sua discordância perante esta política de “empurrar para a frente os problemas financeiros destas empresas, que se agravam de mês para mês”.

E acrescenta: “As empresas públicas estão sistematicamente sujeitas a fazerem aquilo que lhes mandam sem que haja o pagamento devido. São os chamados mandatos não financiados. Esperemos que a descentralização que está a ser preparada com novas competências para as autarquias não resulte em efeito semelhante”.

O facto do governo não intervir financeiramente nestas empresas é encarado por alguns trabalhadores como um “caso estranho”, mas, segundo um economista, “é revelador de que o governo não terá disponibilidade financeira para tal; foi por isso que recorreu às SCUT e ao atraso de pagamentos, em cascata, às empresas privadas, entrando-se numa espiral muito preocupante, porquanto se o Governo Regional não paga às suas próprias empresas, estas também não pagam aos fornecedores, recorrendo os privados à banca, que depois atingem valores enormes de endividamento que os leva à falência”.

É o caso dos hospitais, com dívidas enormes e capitais próprios negativos, da SATA, também com um nível de endividamento preocupante, da Sinaga, que continua a viver mais dos subsídios do que do negócio que faz, ou da Lotaçor, que regista um grande valor de crédito ou da Santa Catarina, que já acumulou mais de 18 milhões de euros de resultados transitados negativos. 

Analisando as contas do ano passado destas empresas, destacam-se as dívidas bancárias da Sinaga, no valor de mais de 20 milhões de euros, com subsídios de mais de 650 mil euros e com um valor de vendas de apenas 423 mil euros.

A Lotaçor regista um valor de mais de 1,3 milhões de euros em vendas, mas recorreu à banca no valor de mais de 32 milhões de euros.

Tudo isso, juntando aos 8 milhões de dívida bancária da Santa Catarina, soma quase 62 milhões de euros, para além dos resultados transitados negativos de mais de 61 milhões de euros. “À semelhança do que vai acontecer na SATA, em que já se anuncia um tímido aumento de capital da Air Açores, ou o governo intervém também nessas empresas, ou correm o risco de um dia verem a banca fechar o financiamento, com receio de falirem”, alerta a mesma fonte. 

Jovem açordescendente aceite numa das mais prestigiadas universidades do mundo

Cláudia Cabral e o pai Nuno CabralConfessa-se uma apaixonada pela ciência e pela física e vai agora concretizar o seu sonho: Cláudia Cabral, descendente de pais açorianos, vai frequentar uma das melhores universidades do mundo, o Massachusetts Institute of Tecnology (MIT), em Boston.

Em entrevista ao Diário dos Açores, a jovem de 18 anos, nascida no Canadá e a viver há sete anos na Florida, Estados Unidos da América, conta que o gosto pela área científica foi algo que nasceu consigo.

“Esta paixão é algo que nasce connosco. Estudar é algo que eu adoro e, mesmo que passe horas e horas acordada até tarde a estudar, por vezes com muito stress, sei que isto é o que eu quero fazer na vida e que irei chegar a algum lado”, salienta, acrescentamos, “quando gostamos do que fazemos, o arranjar tempo torna-se fácil”.

Reconhecendo as raízes humildes da sua família, a futura estudante universitária refere que isto lhe deu ainda mais força para chegar onde chegou: “a minha mãe adorava a escola. Ela tinha boas notas, mas infelizmente saiu da escola muito cedo, porque teve que trabalhar no negócio da família. Já o meu pai, também ele era bom aluno, mas começou a trabalhar muito cedo. Mudou-se de São Miguel para o Canadá onde trabalhou no duro, depois casou-se com a minha mãe e construíram a nossa família”, conta. 

“Os meus pais quiseram que eu e as minhas irmãs tivéssemos a oportunidade de ter uma boa educação e deram-me liberdade para estudar o que eu queria. Tentei dar o meu melhor e encontrei a minha paixão”, frisa, ao nosso jornal.

 Cláudia Cabral regressou à Florida na passada semana, depois de três semanas de férias em família em São Miguel, mais propriamente na freguesia de Água de Pau, a terra natal do seu pai. É a primeira da família a ir para a universidade e diz-se honrada por ser portuguesa.  

“Nasci no Canadá e vivi lá durante onze anos e depois mudei-me para a Florida, onde estive nos últimos 7 anos. Não sinto grande ligação com esses lugares. Apesar de não ter nascido em Portugal, quando me perguntam de onde sou digo que sou de Portugal. É o que eu sinto”, garante a jovem.

Cláudia confessa-se apaixonada por São Miguel. “Quando estou em São Miguel, sinto-me em casa. Não sou vista como a boa estudante que está rodeada de livros, mas como a filha mais velha que toma conta das irmãs mais novas”, acrescenta. “Penso que a ilha tem a sua magia. Há poucos dias fomos às Furnas, vimos as caldeiras, a Poça da D. Beija, fomos fazer uma caminhada na natureza… São experiências que não conseguimos ter em qualquer outro lugar. É mesmo mágico aqui”, considera ainda.

O pai de Cláudia, por sua vez, não esconde o orgulho que sente pela filha mais velha. “Ela sempre teve uma determinação de querer ser e querer fazer. (…) Há muitos pais que têm que obrigar os filhos a estudar, mas eu nunca tive essa preocupação. Sempre lhe disse que para ela poder ter e ser o que quiser, tem que sentir a chama dentro de si e ir à luta pelos seus objectivos. Foi algo que nós, enquanto pais, tentámos incutir-lhe ao longo da vida. Temos muita sorte”, afirmou Nuno Cabral.

Nuno Cabral emigrou para o Canadá aos 19 anos de idade, onde acabou por ficar. Casou, entretanto, com uma filha de açorianos e tiveram quatro filhas. “Em 2011, com a queda da economia e a recessão mundial, o mercado imobiliário americano sofreu muito e vi nisso uma oportunidade fazer investimentos e me mudar para a Florida”. Uma decisão da qual não se arrepende, tendo em conta as oportunidades que esta mudança de país veio proporcionar para a educação das filhas. 

“[A Cláudia] estudou no Suncoast Highschool, na Florida, que está no 61º lugar do ranking das escolas secundárias nos EUA, isto em mais de 27 500 escolas. Aquela escola criou-lhe bases profundas para projectá-la no MIT”, conta o pai, frisando, no entanto, a importância que tem São Miguel para si: “Vivemos na Florida, mas o meu coração está sempre aqui, em São Miguel, em Portugal. O meu pai já tem 84 anos e os meus familiares estão todos cá. As minhas filhas adoram São Miguel, o povo e a cultura de cá”, garante.

Cláudia Cabral frequentou, no ano passado, um estágio de verão num instituto de neurociência - o Max Planck Florida Institute for Neuroscience - e, durante seis semanas, trabalhou com investigadores que estudam a actividade do cérebro. Entre 450 candidatos, Cláudia foi um dos seis que conseguiram o estágio.  “Foi um grande desafio”, admite a jovem. Uma experiência que lhe ajudou a abrir as portas do MIT.

No ensino secundário, Cláudia estudou as áreas de Matemática, Ciência e Engenharia. “A escola secundária que frequentei tem programas específicos em áreas diferentes e eu escolhi estudar Matemática, Ciência e Engenharia. Primeiro, queria ser médica, mas apercebi-me que adoro ciência e física e cheguei à conclusão que gostaria mais de seguir a área da Engenharia. É por isso que o MIT destacou-se entre as minhas opções”, sublinha a jovem estudante.

Quanto às expectativas para a sua transição para a universidade, Cláudia revela que são as melhores. “Vou viver e estudar com pessoas que têm os mesmos interesses que eu e isso deixa-me entusiasmada. Penso que terei muitas boas oportunidades de aprendizagem lá”, salienta.

“No primeiro ano no MIT, temos liberdade para explorar o que queremos estudar, por isso vou aproveitar para avaliar o que vou fazer. Mas o que eu estou a pensar é seguir a área de Ciência e Planeamento Urbano, combinado com Informática, com vista a contribuir para o bem-estar social, económico, ambiental, político dos países pouco desenvolvidos, como na América do Sul, África ou Ásia…”, acrescenta ainda.

Além do gosto pela ciência e tecnologia, desde cedo tem mostrado sensibilidade com questões sociais, promovendo actividades de angariações de fundos para ajudar vítimas de violência doméstica, crianças que vivem em lares e refugiados. “Eu sou tão sortuda por ter o que tenho e sinto que é um dever poder dar. Aprendi isso com os meus pais”, assinala.

Questionada sobre onde sonha estar dentro de 10 anos, Cláudia não hesita na resposta: “penso que estarei a defender causas pelo mundo. Penso que tenho muito a fazer e a dizer.  Vejo-me a viajar pelo mundo e a ajudar pessoas. Venho de uma família humilde, sou a primeira na minha família a chegar tão longe nos estudos e quero mostrar que todos podem conseguir o mesmo. Sou muito agradecida pelo que tenho e tenho de retribuir,” concluiu a jovem.

 

Economia dos Açores está de novo em queda e sem perspectivas de empregos nos sectores tradicionais

indicador activA actividade económica dos Açores apresenta uma tendência decrescente, iniciada em meados de 2016, se prolongou por 2017 e, embora de forma menos acentuada, ainda se verifica no primeiro semestre de 2018, sem que a dinâmica do turismo e dos serviços seja capaz de compensar.

O indicador da actividade económica elaborado pelo Serviço Regional de Estatística dos Açores, agora distribuído, ilustra esse fenómeno que é comprovado, também, pelos indicadores do seu boletim trimestral.

Este fenómeno – que nasce já depois da superação de alguns efeitos da crise - começou a verificar-se em finais de 2016, com descidas na produção de leite e da captura de peixe e prosseguiu depois em 2017 com uma quebra no abate de bovinos e suínos e na redução nas exportações de carne, peixe fresco e conservas.

 

Turismo sem valor acrescentado

 

Como já se previa, o aumento da actividade turística trouxe um refrescamento em vários sectores e fez movimentar dinheiro, mas não trouxe um correspondente aumento de riqueza, dado que o turismo tem um valor acrescentado bruto reduzido em quase todas as áreas e os funcionários têm salários baixos na maioria das actividades relacionadas com o sector. 

Acresce que este ano, os números do turismo têm-se revelado menos animadores.

Do ponto de vista prático esta diminuição ou estagnação da economia e consequentemente do PIB tem algumas vantagens porque mantém a Região dentro dos parâmetros para não perder os apoios comunitários (PIB inferior a 75% da média da EU), designadamente os apoios comunitários.

 

Constrangimentos da economia

 

Mas, o facto, é que olhando para o quadro geral, a economia açoriana passa por alguns constrangimentos. 

A agricultura e a construção civil estão limitadas, a agropecuária, em consequência das restrições  impostas pelas fábricas, pelos elevados custos dos factores de produção e pela manutenção do preço do leite ao produtor; a construção porque continua com poucos trabalhos e sem grandes folgas de ganhos. Logo não apresentam condições para criar novos postos de trabalho nos próximos anos.

A nível nacional prevê-se um crescimento da construção, no corrente ano de cerca de 4 %, por via da reabilitação urbana e da valorização das habitações, em parte para transformação em unidades de turismo local. Esse fenómeno não parece ter grande expressão nos Açores.

O turismo, apesar de já não apresentar o crescimento que se registou no início, ainda tem algum espaço de crescimento, mas os funcionários que saem da agropecuária e da construção civil, de um modo geral, não têm lugar no turismo a não ser com um longo período de formação.

 

Faltam empregos

 

Portanto, o crescimento do emprego terá de surgir em novos sectores ou em alteração de conceitos nos actuais sectores, aproveitando outras áreas da agricultura e da indústria que possam ser rentáveis na exportação ou na utilização na restauração e no consumo local. 

É um trabalho, que na opinião de muitos, já devia ter tido um impulso mais vigoroso, mas o discurso oficial e a aposta dos lavradores ainda continua a ser no sentido de utilizar animais de grande produção, que aliás se promove nos concursos em feiras agrícolas e os lavradores continuam a aumentar a produção para compensar as quebras no preço do leite

Se o crescimento da economia não é por si só um problema, de resto acontece também a nível nacional (o Banco de Portugal prevê para o corrente ano a nível nacional um crescimento da economia de 2,3%). 

Já a criação de emprego será um problema mais difícil de ultrapassar, uma vez que não parece haver saída nos sectores tradicionais.

Só mesmo com apostas em novas áreas.

 

Texto e gráfico de Rafael Cota/para Diário dos Açores

 

SATA Air Açores está a ‘sustentar’ a SATA Internacional

sata 321 neoUma análise mais pormenorizada ao Relatório e Contas do Grupo SATA do ano passado permite concluir que a actividade da SATA Internacional, agora Azores Airlines, tem muito sustento com base em financiamento da Air Açores, que faz a operação entre as ilhas.

Os dois quadros que aqui publicamos resumem toda a operação financeira de ambas as empresas.

contas sata 1Comecemos pela Air Açores, que tem 712 trabalhadores, entre os 1.361 de todo o Grupo.

A primeira conclusão que salta à vista é um empréstimo que a Air Açores concedeu à Internacional, no valor de 26,7 milhões de euros, levantando uma questão preocupante: a empresa não considerou (pelo menos não está mencionado) potenciais imparidades derivadas da impossibilidade de pagamento da Internacional, que é o mais provável.

Consequência: os resultados e os capitais próprios da Air Açores terão de reconhecer, mais dia menos dia, estas perdas, seguramente certas.

Outra questão saliente nas contas da Air Açores é o facto do Governo Regional manter uma dívida a esta empresa de 21 milhões de euros, pelas obrigações de serviço público, mas adiantou 14,3 milhões.

Tudo isso, conjuntamente com a restante actividade, agrava o passivo da Air Açores em mais 14,2 milhões de euros, com mais dívida bancária (mais 6,7 milhões de euros) e mais dívidas a fornecedores (mais 2,7 milhões de euros).

Dir-se-à que, para além do jogo de cintura entre Governo por um lado e empresas públicas por outro, sobra para os bancos e fornecedores.

Os capitais próprios são negativos em 38,2 milhões de euros, pelo que o anunciado aumento de capital, esta semana, pelo governo, de 27 milhões de euros, não dá para cobrir tudo e voltar ao zero.

Os resultados negativos acumulados da Air Açores já estão nos 59,8 milhões de euros, consequência dos prejuízos sucessivos, mostrando que já nem dá para esconder o jogo entre governo por um lado e empresas por outro, pois o fenómeno repete-se noutras áreas.

contas sata 2Passemos agora à Internacional, com 630 trabalhadores, cujas contas são ainda mais deterioradas face ao ano anterior.

Desde logo ressalta que o Governo Regional e a ATA (Associação de Turismo dos Açores) mantêm uma dívida por serviços já realizados mas não pagos.

A SATA Internacional financiou-se em 2017 com mais dívida bancária (1,5 milhões de euros), mais fornecedores (6,9 milhões de euros) e o tal empréstimo da Air Açores, no valor de quase 27 milhões e euros.

Resultado: o passivo aumenta 35,7 milhões de euros, mantendo-se o mesmo jogo de cintura e sobrando para bancos e fornecedores.

Os capitais próprios da Internacional são negativos em 62,4 milhões de euros e os resultados negativos acumulados já estão nos 116,2 milhões de euros.

Conclusão final: a Internacional está em desequilíbrio muito grave e um bom gestor diria que é irrecuperável, mas se juntarmos as duas então é de benzer e ter fé em Deus...

Nada de surpreendente para quem vai seguindo, há vários anos, a actividade da transportadora, com destaque para o Tribunal de Contas, que bem chamou a atenção para o estado de “falência técnica” de todo o Grupo SATA.

Para citar um especialista em aviação, o que de melhor tem a transportadora regional é o activo humano, “com excelentes profissionais, bons conhecedores do sector da aviação, muitos altamente especializados nas suas áreas”... mas nunca são chamados à gestão da empresa!

 

Por: Osvaldo Cabral

“É cada vez mais aconselhável que a Região se submeta a um resgate”

 

Mario Fortuna - novaMário Fortuna, Presidente da Câmara do Comércio de Ponta Delgada 

 

A Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada realizou, em 2015, um seminário sobre a importância das privatizações. A parceria entre a CCIA, UGT-Açores e Federação Agrícola dos Açores, também tem apelado para que haja mais economia privada e menos pública. Como analisa, neste quadro, a situação do Sector Público Empresarial Regional (SPER) quando começam a ser conhecidos os dados finais do desempenho de 2017?

O que se começa a conhecer do SPER, com a SATA à cabeça, mas não sozinha neste processo, é que as empresas públicas têm vindo a seguir um percurso de prejuízos sistemáticos para responder a solicitações do governo (o representante do acionista único – a Região) sem que este compense as empresas por estas incumbências. 

Isto acontece com a SINAGA quando entra no capital da Melo Abreu ou mantém uma actividade comercialmente morta, com a SATA quando faz voos que não são comercialmente rentáveis, com a LOTAÇOR quando financia a Santa Catarina, com a Santa Catarina quando financia outras empresas de pesca, com os hospitais que não recebem o suficiente para cumprir com a sua missão. 

Em casos em que acaba por cumprir fá-lo pagando com atrasos inaceitáveis, como acontece, designadamente, com a SATA Air Açores com os pagamentos do contrato de obrigações de serviço público. 

Os tropeções nesta área acontecem em actividades que são iminentemente públicas, como é o caso da saúde mas acontecem também em áreas iminentemente comerciais, como é o caso dos transportes aéreos, dos transportes marítimos, da produção de açúcar, da pesca e da indústria de transformação de pescado.

Já há muito que tínhamos a percepção de que este modelo não iria resultar bem porque não tem mecanismos de controlo para além da vontade dos políticos. 

O resultado é que se queima valor em vez de se gerar valor. Este processo atrasa o desenvolvimento económico. 

Por esta razão a Parceria propôs uma política diferente para o desenvolvimento dos Açores, que passa por acabar exactamente com esta abordagem que tem sido ruinosa no curto prazo, mas trás também custos imensuráveis para o futuro da Região. 

Estamos a ficar relativamente mais pobres em vez de relativamente mais ricos.

 

A SATA é um foco permanente da atenção de todos os analistas e cidadãos preocupados, pela importância que tem nos Açores e, por ser, de facto, incontornável nas ligações inter-ilhas. Como analisa a situação específica desta empresa?

A SATA é uma empresa altamente exposta porque lida com muitos milhares de pessoas todos os dias – funcionários e clientes. 

Por esta razão o que faz mal aparece logo nos jornais ou nas redes sociais. É uma circunstância peculiar mas é assim mesmo com todas as companhias aéreas.

A verdade é que esta empresa tem tido um desempenho muito mau. E isto perante a inacção do governo ou, se calhar, especula-se, por causa da sua intervenção. Certo é que, como está, não está bem. 

Teremos em breve um novo conselho de administração em quem se colocam muitas expectativas.

É nosso entendimento que a SATA devia ser organizada de outra forma para separar claramente as suas diferentes funções e manter os negócios bem claros. 

Neste momento, a SATA faz transporte aéreo inter-ilhas; gere aeródromos; faz handling; e faz ligações com o exterior. A estas funções estão associadas empresas diferentes, excepto no handling. 

A cada empresa deveria corresponder uma administração ou uma gerência separada e a prestar contas. Só assim se clarifica o que por ali vai acontecendo.

 

Como chega a SATA à situação actual? Há alternativa à SATA?

A SATA chega a esta situação porque foi mal gerida e mal orientada pelo accionista. 

Foram muitas decisões erradas acumuladas na SATA internacional em políticas de rotas e de equipamentos. Pretendeu-se fazer política com a empresa em vez de o fazer com o orçamento público e o resultado foi o que se vê na SATA Internacional. 

Na SATA Air Açores, como o domínio é fechado, tudo depende do contrato de prestação de serviços que é estabelecido com o Governo que, na verdade, impõe e não negoceia e, mesmo assim, tem pago sempre tarde porque lhe convém.

 Recordemos que ainda não há muito tempo o governo aumentou o capital da empresa com os resultados da privatização da EDA para, logo de seguida, reduzir o capital em valor igual ao aumento e para depois ter de repor o capital, o que fez em prestações ridículas. Agora anuncia mais um aumento.

Não tem havido um total sentido de responsabilidade nas indicações dadas à empresa, porque há uma enorme falta de percepção das consequências da ingerência de objectivos políticos irracionais no funcionamento das empresas. 

A política para este sector e em particular para o transporte aéreo falhou. Não é preciso dizer mais do que isso. 

O problema é a factura passada, presente e futura que este erro acarreta.

 

O desequilíbrio económico e financeiro parece que será um padrão da generalidade das empresas públicas, excepção feita ao Grupo EDA. Como se sai desta situação?

O desequilíbrio económico e financeiro é, de facto, gigantesco e já determina atrasos de pagamentos a muitas empresas do sector privado com consequências muito nefastas para toda a economia.

A saída desta situação passa por duas políticas: uma de equilíbrio económico, que determina que só se faça aquilo que está financiado, ou pelo orçamento público, para cumprir objectivos sociais, ou pela via comercial com a geração de valor adequado para suportar os custos.

A vertente económica é uma questão de acção corrente. Basta dar orientações às empresas para que assim seja e para que tomem as medidas necessárias para o efeito.

A vertente financeira exigirá que o governo reequilibre todo o sector público empresarial, definitivamente e com determinação. Se as deficiências de capital acumulado persistirem as empresas não poderão continuar a desenvolver, com normalidade, as suas funções. 

É preciso sanear financeiramente as empresas ou com a internalização no orçamento público ou com aumentos de capital.

 O que está anunciado para a SATA Air Açores é um princípio mas é insuficiente de todo. Nem dá para cobrir os capitais negativos à data de dezembro de 2016. Há outras situações a reclamar correcção.

É preciso resgatar as situações que se pretende continuem a operar e não é entregando património que se faz isto. É reduzindo dívidas com entrada de dinheiro.

Parece-nos cada vez mais aconselhável que a Região se submeta a um resgate para regularizar todos os desequilíbrios que foram gerados através das empresas públicas. 

Para isto é preciso fazer o levantamento adequado de todo o endividamento excessivo que por aí anda e acertar as contas. 

Se for possível ao governo, de forma autónoma, depois de obtida a devida autorização da Assembleia da República, contratar o crédito necessário, sem agravar os custos de financiamento, tanto melhor. 

Caso contrário deve pedir-se o devido apoio do Tesouro nacional.

Manter uma situação de desequilíbrio como existe agora não é bom para os Açores. 

 

Na apresentação do “RETRATO dos AÇORES” da PORDATA, foram evidenciados índices de pobreza elevadíssimos, abandono escolar elevadíssimo, baixíssimo nível de escolaridade, baixo rendimento per capita e um rol de outros indicadores pouco alinhados com a imagem que por vezes se faz passar dos Açores. Mais recentemente, os Açores ficaram muito mal colocados em indicadores de sustentabilidade, competitividade e coesão. O endividamento público tem vindo a subir sistematicamente e agora vamos sabendo, a pouco e pouco, que o sector público empresarial está grosseiramente desequilibrado. Que leitura faz desta situação?

Os maus indicadores de desempenho que têm sido identificados são o resultado das políticas que têm vindo a ser seguidas. É preciso mudá-las. É preciso traçar novas rotas para o nosso futuro porque as que estão traçadas não nos levam a bom porto. 

Já o dissemos: este modelo de intervenção do Governo está esgotado e nunca produzirá nada de verdadeiramente bom. As pessoas iludem-se e no desespero do momento aceitam a intervenção do subsídio sem pensarem que este mesmo subsídio as pode estar a condenar à dependência. Não é um processo fácil sair deste paradigma mas é tão necessário como é o equilíbrio das empresas que se pretende prestem um bom serviço a todos nós. Há valores que têm de ser recuperados para que possamos ter um futuro mais promissor.

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