Mário Fortuna: “Ou há mais medidas ou vai haver mais desemprego e mais falências”

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Praticamente a terminar o Verão, os empresários fazem contas à vida e o balanço não é nada favorável. O líder dos patrões açorianos, Mário Fortuna, traça nesta entrevista o retrato da situação em que muitos empresários estão a viver, o cenário para o futuro nos próximos tempos e deixa uma série de recados aos políticos.

 

Praticamente a terminar o Verão, que balanço é que faz da actividade empresarial, especialmente no sector do turismo?

Este Verão foi de enorme sofrimento para o sector do turismo, na generalidade das actividades. 

Particularmente afectados foram os rent-a-car, os hotéis, as agências de viagens e a animação. São todas fortemente dependentes dos turistas externos que escassearam. 

Menos afectados, mas mesmo assim com valores muito fracos, foram as actividades de restauração. É o que na gíria se diz ser “um ano para esquecer”. 

Por meses, para muitas actividades, Maio e Junho foram de encerramento total, Julho abriu temeroso e Agosto deverá ficar-se por um terço ou menos do que era. 

O Verão foi pior do que o pior dos Invernos. E é nesta época que as empresas fazem o negócio que suporta o resto do ano.

Por ilhas, as que mais dependiam do mercado externo foram as que mais sofreram – S. Miguel e Terceira (mais de 90% das dormidas). As mais pequenas sempre recuperaram alguma coisa com a procura interna, mas ficaram muito aquém do ano anterior.

 

O que correu bem e o que correu menos bem?

Do que correu bem: O tempo esteve bom, a vontade de retoma dos empresários foi enorme e a esperança era muita. As ilhas pequenas animaram-se um pouco.

Do que correu mal: O medo continuou a condicionar as viagens; várias declarações de “habeas corpus” mancharam a imagem dos Açores; a mensagem para os potenciais visitantes foi ambígua e incompleta afastando muitos; a procura ficou muito aquém de valores animadores; os cenários de controlo e de testagem no aeroporto de Ponta Delgada foram calamitosos.

 

Ao nível dos apoios oficiais, houve correcções no decorrer destes últimos meses. Foi o que esperavam ou esperavam mais?

As correcções já esperávamos porque o nosso diagnóstico apontava para que fossem inevitavelmente necessárias. 

Ficaram foi muito aquém do que se pretendia. São demasiadas medidas, demasiado complexas e com intensidades que consideramos demasiado desadequadas das reais necessidades das empresas que se chegaram à frente para salvaguardar postos de trabalho e agora estão confrontadas com reaberturas quase compulsivas, mas sem clientes que as justifiquem.

 

Quando chegarmos ao final do ano e quando terminarem alguns dos apoios, nomeadamente ao nível do lay-off e das moratórias, o que é que vai acontecer?

Para alguns sectores ou vai haver mais medidas ou vai haver mais desemprego e muitas mais falências. Os indicadores já evidenciam que há menos empresas novas a serem constituídas e mais empresas a declarar insolvência. 

Os bancos deverão estar disponíveis para prorrogar, mais uma vez, as moratórias, mas esta não é solução de fundo. 

Carregar o endividamento quando os limites prudenciais já foram ultrapassados é como alimentar um abcesso que vai crescendo e minando o funcionamento do corpo.

As verbas para os Açores, decididas por Lisboa, se bem aplicadas, deveriam produzir um alívio.

 

Como é que é possível que a estatística oficial continue a dizer que baixou o desemprego nos meses da pandemia?

É uma questão de definição do que é um desempregado. Para se estar nesta categoria tem de se estar desempregado e a procurar emprego activamente nos 15 dias anteriores ao inquérito. 

Se as pessoas estiveram confinadas e não puderam procurar emprego estão, tecnicamente, excluídas do mercado de trabalho e não contam como desempregadas. 

Por esta razão, os activos do mercado de trabalho caíram em cerca de 7000 pessoas. Para além disso, de facto, o segundo trimestre apresenta menos 2400 pessoas empregadas quando comparado com igual período do ano anterior. Por esta razão a habitual taxa de desemprego aparece baixa. Mas há mesmo menos gente a trabalhar, claro!

 

Ao nível dos transportes, como interpreta as últimas medidas, nomeadamente a atribuição de milhões à Ryanair para continuar a operar em S. Miguel e Terceira?

O apoio que foi atribuído pela Turismo de Portugal é a continuidade do acordo inicial quando esta companhia iniciou a operação para a Terceira. 

Não foram criadas as condições de procura para que se dispensasse este apoio que é, invariavelmente, para a criação de mercado, trefa que esta empresa faz muito mais eficientemente do que os demais programas que as autoridades regionais têm implementado. 

O contrato programa para as ligações com Londres são mais uma iniciativa para a criação de mercado naquela origem. A Ryanair tem uma capacidade extraordinária de mobilizar passageiros para destinos e Londres é uma das suas bases principais. Faz sentido numa perspetiva de criação de mercado. Ter os Açores nas plataformas de informação e reservas da Ryanair vale muito. Poucas outras empresas poderiam oferecer um desempenho equivalente

 

E o papel da SATA, depois desta pandemia e das exigências da Comissão Europeia, qual será?

Sendo a posição final da Comissão uma incógnita, neste momento, importa saber qual deve ser a nossa posição sobre o assunto – queremos continuar a alimentar défices de exploração da ordem dos 50 milhões de euros por ano ou queremos uma empresa equilibrada e competitiva a servir-nos? 

Acho que a resposta é óbvia. 

A empresa tem de ser reestruturada para poder servir os Açores nas ligações internas e nas externas. 

Se o custo for demasiado elevado em face de outras alternativas a empresa deve ser reduzida ao que é sustentável. 

Penso que o que a Comissão Europeia vai exigir é a manifestação concreta desta sustentabilidade na empresa no seu todo e/ou nas suas partes componentes.

 

Estamos a poucos meses das eleições regionais. O que espera das propostas dos partidos na área empresarial e económica?

Temos um envelope grande para afectar a várias estratégias e actividades: 198 milhões para os danos do Lorenzo (verba que já nos tinha sido prometida pelo Governo da República); 835 milhões para mitigar o impacto da Covid-19; Cerca de 1359 milhões nos fundos da coesão; verbas adicionais do POSEI e; verbas adicionais de outros programas de aplicação directa.

Alguns partidos já manifestaram receptividade para a mudança de paradigmas que, de facto, possam mudar o nosso futuro num sentido de maior sustentabilidade. Outros mantêm-se apegados a ideias ultrapassadas que não produziram o desenvolvimento desejado no passado.

Esta é uma nova oportunidade que não podemos perder, outra vez. 

Os cidadãos terão a palavra sobre o futuro. 

 

Foi um dos principais dinamizadores da plataforma de cidadania que propôs alterações ao sistema eleitoral. Como vê a atitude do parlamento em suspender qualquer proposta legislativa no âmbito da reforma da autonomia, depois de três anos de CEVERA?

O progresso das sociedades depende muito da qualidade das suas instituições reflectido, em muito, no empenho dos cidadãos nos seus processos. 

O Parlamento dos Açores e todo o edifício de organização política, baseada exclusivamente em partidos, está a revelar-se uma instituição má, a julgar pelo alheamento que criam na maioria dos cidadãos. 

O desfecho dos trabalhos da CEVERA é a evidência completa de uma instituição doente e que serve mal a população. 

É um exemplo que vem do parlamento, mas haverá outros que se evidenciam na desvalorização desta instituição nos processos políticos. 

As disputas partidárias assumiram-se como um fim em si mesmas e não como processo para a melhoria da qualidade de vida económica, social e política da generalidade dos cidadãos ou mesmo para a melhoria da autonomia, nas suas várias valências.

O trabalho dessa Comissão acabou por alimentar apenas as clientelas que fingiram trabalhar para produzir alguma coisa para, no final, deixar tudo na mesma. 

 

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Ordem dos Psicólogos: “Escolas deverão estar atentas ao modo como os alunos regressam e criar bem-estar psicológico”

aluno escola

Hoje é o começo de um novo dia para milhares de crianças e jovens nos Açores, com o regresso às escolas numa situação muito diferente do normal. Ficam aqui uma série de conselhos e sugestões para um regresso seguro, do ponto de vista mental, através de uma entrevista com a Presidente da Delegação da Ordem dos Psicólogos nos Açores, Luz Melo.

 

Vamos entrar num período novo, que é a reabertura das escolas dentro desta nova situação de pandemia. A nível de saúde mental há precauções a tomar? Quais são os conselhos da Ordem dos Psicólogos?

Será um ano em que toda a comunidade educativa enfrentará  desafios excepcionais perante a ameaça de uma 2ª vaga e em sequência do último ano lectivo particularmente exigente a nível escolar. 

De referir que a escola viu-se obrigada a mudar rapidamente, com alterações profundas nos contextos educativos, a nível do processo ensino/aprendizagem e estabelecendo novas interacções entre os vários intervenientes: alunos, professores, pais/cuidadores, outros profissionais e Escola.

Face a esta nova realidade, no início deste ano lectivo torna-se particularmente importante verificar como se encontram os alunos ao ingressarem na escola, já que nem todos tiveram acesso ao mesmo nem estarão todos ao mesmo nível. Há assim que estar atento ao perfil dos alunos no seu (re)ingresso na escola. 

É possível que cheguem com maiores dificuldades de atenção e menos auto regulados do ponto de vista sócio-emocional. 

É também natural que possa haver algum retrocesso após um longo período sem aulas presenciais. 

Paralelamente, alunos com dificuldades de aprendizagem, com comprometimento a nível do desenvolvimento ou do comportamento exigirão respostas diferenciadas. 

Será um período desafiante para todos em particular para os alunos com necessidades educativas específicas. 

Num ano que será diferente de todos os anteriores, torna-se ainda relevante ter uma particular atenção aos períodos de transição, como os do pré-escolar para o 1º ciclo ou para o 2º ciclo. 

O confinamento impediu muitas acções habituais e promotoras de uma melhor adaptação aos novos contextos escolares, como o conhecimento de um novo espaço físico na transição para o 1º ciclo. 

A transição para o 2º ciclo, será outro momento particularmente desafiador já que a criança terá que adicionalmente se ajustar a um ambiente diferente, com múltiplas disciplinas e à presença de colegas com idades muito diferentes. 

Face a estes desafios adicionais é importante, numa primeira fase ser mais flexível, trabalhar em parceria, desenvolver respostas específicas para problemas concretos que possam surgir. 

No início de um lectivo pautado por alguma incerteza, surgem inúmeras questões. 

Como se estabiliza as crianças e jovens que poderão apresentar dificuldade em se reajustar à escola após um longo período de ausência física? 

Serão necessários planos de recuperação académica e a nível sócio emocional? 

Estarão os professores capazes de responder a estes desafios após um ano de esforço extra, em que tiveram de adaptar as suas sessões ao ensino à distância e conciliar em simultâneo a sua vida familiar?  

De forma a salvaguardar o bem-estar mental de todos os envolvidos e em particular dos alunos, há que conciliar o interesse superior da criança às orientações da identidade da saúde pública através de uma análise intersectorial, incluindo a educação, a saúde pública e as questões sócio-económicas bem como numa avaliação dos benefícios e riscos associados às especificidades de cada contexto. 

Isto significa que, para além do cumprimento dos objectivos académicos e curriculares, a escola deverá estar atenta ao modo como os alunos voltam à escola e estabelecer um sentido de segurança e de bem-estar psicológico, que poderá ser rápido ou não, em função do perfil do aluno.

É, assim, importante que as Escolas estejam preparadas para responder a um conjunto de necessidades de saúde mental, por exemplo através de equipas criadas para o efeito ou do gabinete de saúde escolar já existente. 

As escolas devem integrar nos currículos a promoção de competências sociais, emocionais e saúde psicológica, de promoção de literacia em saúde e disponibilizar momentos formativos aos professores e outros profissionais.

 

Qual o papel da Ordem dos Psicólogos neste retomar das aulas?

Atenta a esta realidade a Ordem dos Psicólogos preparou em conjunto com a UNICEF um dossier para a comunidade educativa com recomendações dirigidas aos pais /cuidadores, professores e directores sobre o regresso à escola em tempo de pandemia. 

Em resposta ao que os pais/educadores podem fazer para facilitar o regresso à escola das crianças e jovens, é fundamental que reconheçam e identifiquem receios e sentimentos de ansiedade em si próprios e nas crianças e jovens de quem cuidam, promovendo formas saudáveis de lidar com eles. 

Conversem com a criança/jovem sobre o que lhes preocupa mas também sobre o que mais desejam no seu regresso à escola, ajudando-os a anteciparem aspectos positivos que promovam a sua auto-confiança. 

Preparem as crianças e jovens para as mudanças nos processos e logísticas habituais da escola. 

Enfatizem o papel da criança e jovem em manter-se saudável a si e aos outros. Restabeleçam em casa às rotinas relacionadas com a escola. Sintam e transmitem confiança na escola e estejam preparados para lidar com alguma ansiedade de separação. 

No final do dia conversem com elas sobre como foi o seu dia e procurem reservar algum tempo extra para estar com a criança e jovem. 

Participem e cooperem activamente no processo educativo dos filhos e mantenham um canal de comunicação aberto com a escola. 

Contribuam para o equilíbrio entre as actividades escolares e as actividades familiares. Mostrem-se   disponíveis para ouvir a criança/jovem, tentando compreender as suas facilidades e dificuldades no processo educativo, as suas preocupações e medos. Apoiem a realização de tarefas escolares, sempre que necessário, procurando contribuir para a autonomia e auto-regulação da criança/jovem no seu processo educativo. Estejam atentos aos sinais de alerta e comportamentos de risco e recorram ao apoio especializado do Psicólogo escolar na gestão do stresse e da ansiedade ou de outras dificuldades emocionais e comportamentais, sempre que sentirem necessário. 

 

E o papel das escolas?

A nível da promoção da saúde mental a escola tem um papel incontornável enquanto garante da saúde psicológica e do bem-estar de todos os seus intervenientes. As escolas devem reforçar a implementação de programas, projectos e/ou estratégias que visem aumentar os factores de protecção da Saúde Psicológica e da inclusão de todos os alunos. 

Integrar, intencionalmente, nos currículos, a promoção de competências sociais, emocionais e de Saúde Psicológica. 

Possuir procedimentos claros de avaliação de risco para os problemas de Saúde Psicológica, necessidades educativas específicas ou insucesso escolar, e de monitorização e intervenção precoce junto dos alunos. 

Reforçar as estruturas e recursos que dão resposta aos problemas educativos, de Saúde Psicológica e de inclusão mais frequentes (por exemplo, problemas de aprendizagem, absentismo e abandono escolar; dificuldades emocionais, relacionais, motivacionais e de ajustamento). 

 Seria, também, importante proporcionarem oportunidades, formais e informais, curriculares e extracurriculares, de promoção da Literacia em Saúde, nomeadamente Saúde Psicológica. 

Disponibilizar momentos formativos aos professores e outros profissionais para lidarem com as necessidades dos alunos, tanto de recuperação das aprendizagens como do seu Bem-estar físico, mental e social. A formação dos professores deveria contribuir para melhorar a capacidade em responder às necessidades académicas e sócio-emocionais dos alunos. 

Por último entre as várias medidas recomendadas é muito importante reconhecer que também os professores e os outros profissionais podem estar a vivenciar momentos de stresse e o auto-cuidado, para além de uma responsabilidade individual, deverá fazer parte e constituir uma prioridade na cultura da escola.

 

Num ano particularmente desafiador como o que hoje começa, a escola enquanto “equipa multidisciplinar” poderá constituir um recurso essencial à manutenção da saúde mental de todos os que integram a sua comunidade educativa. Bom início de ano escolar!

 

 

 

Açores com a mais alta taxa de suicídio jovem do país

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O Grupo de Internos de Medicina Geral e Familiar da Unidade de Saúde de ilha de São Miguel pretende despertar a comunidade açoriana para a discussão aberta sobre a depressão e o suicídio através da campanha com o mote “Se estás à procura de um sinal para viver, é este!”, que será oficialmente lançada hoje, Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. 

O alerta é da “International de Covid-19 Suicide Prevention Research Collaboration” que reporta para o possível aumento das taxas de suicídio, à medida que a pandemia evolui, bem como para os seus efeitos a longo prazo nos grupos mais vulneráveis. Nesse contexto, defendem as autoridades de saúde competentes, torna-se premente adoptar medidas concretas no âmbito da prevenção do suicídio.

Em declarações ao Diário dos Açores, Sara Ponte, a Vice-presidente da Direcção da ARTAC - Associação Regional para a Promoção e Desenvolvimento Sustentável do Turismo, Ambiente, Cultura e Saúde, explica é que “importante não esquecermos o período que estamos todos a viver e o impacto que a pandemia tem na saúde mental de todos nós”, referindo-se, por exemplo, ao isolamento social e às incertezas sócio-económicas” resultantes do desemprego, do lay-off, do teletrabalho e da telescola.

Neste momento, adverte Sara Ponte, o próprio período que se avizinha de regresso às aulas físicas e as incertezas que daí resultam, “como o temer ficar infectado e infectar os entes mais próximos, são pressões sociais determinantes que causam sofrimento psicológico e emocional”. Neste sentido, adianta, “infelizmente este sofrimento, muitas vezes, é desvalorizado pelo próprio, pela família e pela comunidade e é nesta desvalorização que reside o estigma das perturbações mentais”, frisa, dando conta que é sabido “que é muitas vezes este estigma, associado às perturbações mentais, que impede que a pessoa procure ajuda, o que impossibilita que quem está perto de alguém que está em sofrimento psico-emocional que valorize e que saiba auxiliar e orientar esta pessoa para pedir ajuda”.

A campanha que arranca hoje é inspirada na iniciativa “Setembro Amarelo” e pretende combater o estigma associado às perturbações mentais, um problema de saúde prevalente na Região Autónoma dos Açores. 

Conforme indicou Sara Ponte, “o suicídio é, sem dúvida um problema de saúde pública ao nível mundial, sendo que Portugal e a Região Autónoma dos Açores não ficam atrás nesta problemática”. “Os Açores apresentam taxas globais de suicídio superiores às nacionais, a rondar os 12,5% por cada 100 mil habitantes/ano, enquanto a média nacional situa-se entre os 9,5% e os 10% por cada 100 mil habitantes/ano. Para além disso, os Açores são a Região do país com as taxas mais elevadas de suicídio nas faixas etárias mais jovens entre os 15 e os 29 anos de idade”, revelou a Vice-presidente da ARTAC.

Em termos mundiais, a Organização Mundial de Saúde, afirma que o suicídio mata mais de 800 mil pessoas em todo o mundo todos os anos. A cada 40 segundos há uma morte por suicídio que está entre as 20 principais causas de morte em todo o mundo e mata mais que o cancro da mama e a malária, por exemplo.

Entre as faixas etárias mais jovens, o suicídio corresponde à segunda principal causa de morte.

Por outro lado, Sara Ponte adiantou que esta campanha também visa lançar um olhar sobre quem sofre de uma perda por suicídio, alertando que é importante recordar “que existe uma média de 10 pessoas que são severamente afectadas por esta perda, nomeadamente familiares e amigos. Sabe-se que o luto por suicídio está envolto num sofrimento emocional muito grande, com sentimentos de culpabilização, de grande frustração e, muitas vezes, este sofrimento é vivido no silêncio no seio da comunidade ou entre familiares e há que quebrar com este medo e com o tabu de se falar sobre o suicídio, sobre o sofrimento emocional e sobre aquilo que as pessoas estão a pensar”, adverte.

Sara Ponte explica que “esta campanha pretende precisamente romper com este estigma e informar as pessoas no sentido de as colocar a reflectir acerca destas problemáticas e também com o objectivo de uma mudança de atitude da população”, sendo que esta “campanha procura capacitar as pessoas para saberem identificar os diferentes factores de risco, os chamados sinais de alerta, que percebem o suicídio e que identificam quem está em risco, capacitando também as pessoas para saberem auxiliar perante uma pessoa que está em risco de suicídio”. 

Para além disso, esta iniciativa vai ainda divulgar contactos de apoio emocional (como a Linha SOS Voz Amiga) e o número europeu de emergência para situações que exigem uma actuação imediata.

Esta campanha foi alvo de uma avaliação conjunta pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (Delegação Açores), Serviço Regional de Protecção Civil e Bombeiros dos Açores, Médicos especialistas de Medicina Geral e Familiar e Psicólogos da Unidade de Saúde da Ilha de São Miguel, sendo que a produção contou com o apoio da Associação ARTAC, Ordem dos Médicos, EGA e Câmaras Municipais de Ponta Delgada e Ribeira Grande.

 

Por Olivéria Santos

Região garante mais 1.618 milhões de euros de fundos comunitários entre 2021 e 2027

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O Presidente do Governo dos Açores anunciou ontem estarem concluídas as negociações com o Governo da República para os próximos fundos comunitários. A Região irá receber mais 1.618 milhões de euros entre 2021 e 2027 do que no período anterior, num total de 2.763 milhões, aos quais vão acrescer ainda os fundos destinados à pesca e à agricultura. 

“Apesar deste contexto mais difícil e mais exigente, posso hoje anunciar que concluímos já a negociação com o Governo da República de definição dos próximos fundos comunitários da Política de Coesão (FEDER, FSE e Fundo de Coesão) e dos novos fundos, no âmbito do Plano Europeu de Recuperação (IRR e REACT-EU)”, avançou ontem Vasco Cordeiro, em conferência de imprensa, no Palácio de Santana.

“Conseguimos assegurar para os Açores quase a duplicação dos fundos comunitários, face ao actual quadro comunitário de apoio, no âmbito da Política de Coesão Europeia e do Plano de Recuperação Europeu”, revelou. Segundo avançou, os Açores garantiram um aumento de 92% dos fundos comunitários neste âmbito, o que corresponde a mais 1.145 milhões de euros do que no Quadro Comunitário de Apoio anterior.

Nas dotações da Coesão (FEDER, FSE e Fundo Coesão), o financiamento para os Açores cresce em 9% (+111 milhões de euros).

Será ainda reforçado em 117,5 milhões de euros o actual PO Açores 2020, “disponibilizado no âmbito do Fundo de Recuperação Europeu através do novo instrumento financeiro REACT-EU, que permitirá aumentar as dotações FEDER e FSE, entre 2021 e 2023, nesse valor, e incrementar significativamente o investimento previsto para este período”, explicou Vasco Cordeiro.

No que toca ao Plano de Recuperação Europeu, “ Açores asseguraram uma dotação global de 1.035,6 milhões de euros, sendo 720,1 milhões de euros através do Instrumento Recuperação e Resiliência (IRR), que será executado entre 2021 e 2026, 117,5 milhões através do REACT-EU, a executar até 2023, e 198 milhões de euros para financiamento dos investimentos recuperação na sequência do furação Lorenzo”.

O Instrumento Recuperação e Resiliência é um novo fundo europeu que visa “financiar a implementação de reformas estruturais, através de investimentos estratégicos que assegurem o reforço da resiliência da Região, tendo sido definidas sete áreas de intervenção que constituem as prioridades das reformas:  a qualificação e formação dos Açorianos; o apoio às empresas na sua transformação digital, resiliência financeira e ‘missing links’;  o maior e melhor acesso aos cuidados de saúde; habitação; redes de apoio social; clima, energia e mobilidade sustentável e modernização da Administração Pública”.

 No Plano de Recuperação Europeu, os Açores “conseguiram mais do que duplicar as verbas a que teriam direito caso se aplicassem os critérios de distribuição destes fundos pelos países (distribuição ‘per capita’), tendo assegurado 6% do total do fundo React-EU e 5% do total do IRR destinado ao país”, avançou ainda Vasco Cordeiro.

“Em termos globais, e não estando ainda definidos os fundos comunitários referentes à Agricultura e Pescas, que decorre num processo sectorial distinto, os Açores já conseguiram assegurar, no total de fundos europeus, um aumento dos 1.618 milhões de euros de que beneficiamos entre 2014 e 2020, para 2.763 milhões de euros no período 2021/2027, ao qual irá acrescer os reforços que venham ocorrer nos fundos destinados às Pescas e Agricultura”, frisou o governante.

 O valor poderá ascender para os 3.257 milhões de euros “se tivermos em conta que a estes fundos comunitários ainda acresce o POSEI, que, nos últimos sete anos, foi de 493 milhões de euros”. Um montante, disse Vasco Cordeiro, “que supera todas as expectativas e previsões e até supera as reivindicações mais exigentes”. 

“Comparando todos os fundos comunitários que estiveram disponíveis para Região no período 2014-2020 com aqueles que vigorarão no período 2021-2027, - assumindo aqui, por precaução, a manutenção dos valores dos fundos afectos às Pescas e à Agricultura cuja negociação decorre paralelamente, - passamos de cerca de 2.112 milhões de euros para 3.257 milhões”, acrescentou Vasco Cordeiro, que fala numa “vitória” para os Açores.

“Com estes resultados que hoje apresentamos, os Açores alcançaram mais uma vitória, e estão agora mais e melhor preparados para vencer os desafios que se colocam ao nosso desenvolvimento, à recuperação social e económica dos efeitos da pandemia e, em conjunto com todos os Açorianos, continuaremos a trabalhar, para sermos uma Região mais resiliente e mais capaz de enfrentar com sucesso o futuro”, afirmou.

 

Aumento do consumo de plástico devido à Covid-19 preocupa associação ambiental

EPI

O uso de plásticos não reutilizáveis aumentou durante a pandemia mundial de Covid-19. São materiais que estão presentes, por exemplo, nos equipamentos de protecção individual, como máscaras e luvas, e que são essenciais para combater a propagação do novo coronavírus.

Uma situação que preocupa a associação ambiental Amigos do Calhau. “Nós olhamos para esta questão com muita preocupação”, afirma ao Diário dos Açores, o Presidente, José Pedro Medeiros.

“Durante o ano 2019 e de 2020 já se via uma redução, a nível mundial, da utilização do plástico, fruto das campanhas que associações andam a fazer e também dos governos, já consciencializados para esta situação. Mas depois surge-nos esta pandemia que vem trazer um problema muito, muito grave”, afirma.

Numa fase inicial, recorda, “toda a gente achou que a pandemia seria, de certa forma, boa para o meio ambiente e que o planeta até agradeceu. Houve menos aviões, barcos e carros a circular, as pessoas ficaram mais tempo em casa e houve menos emissões de CO2”. 

Mas surge, depois, o outro lado da moeda. “Viu-se que o plástico seria o grande ‘amigo’ na defesa contra o coronavírus. As pessoas começaram a usar as máscaras, as luvas, os fatos de protecção pessoal, tudo em plástico ou materiais derivados de plástico. E isto veio trazer-nos uma preocupação enorme”, considera. 

A situação é preocupante, mas José Pedro Medeiros admite não saber qual a solução viável para travar este uso do plástico, numa altura em que saúde pública é a palavra de ordem. 

“É difícil pensar em soluções neste momento, pois é certo que estamos a viver tempos anormais”, refere. Mas há pequenos gestos que poderiam contribuir para a redução do uso deste material e dá um exemplo.

“Na altura de confinamento, muitas pessoas recorriam aos serviços de ‘take-away’ dos restaurantes e poder-se-ia ter feito uma campanha de sensibilização para que as pessoas levassem de casa as suas marmitas ou outro recipiente, em vez de receber as refeições nos recipientes de plástico. Isto poderia ter sido aplicado facilmente aqui nos Açores”, salienta o ambientalista.

 

Quatro gramas que levam 

400 anos a degradarem-se

 

Sobre as máscaras descartáveis, José Pedro Medeiros alerta que “são quatro gramas que podem levar 400 anos a degradarem-se no ambiente”. Apela, por isso, ao uso das máscaras sociais, que são laváveis e reutilizáveis. “Não é uma solução efectiva, mas poderia contribuir de alguma forma”, acrescenta. 

O ambientalista lamenta ainda que o plástico, “neste panorama que estamos a viver, tenha sido considerado quase o herói do combate ao vírus, com as luvas, as viseiras, as divisórias das lojas, dos táxis… tudo feito em acrílico. São todos materiais derivados do petróleo”. 

A esperança é que, mais tarde, se recorra à reciclagem: “Espero que um dia muitos destes materiais sejam, não reutilizados, mas reciclados. Podem ser postos em quarentena durante o tempo necessário e depois reciclados”, defende.

José Pedro Medeiros admite, porém, que esta não será uma medida fácil de ser implementada. “Vivemos tempos complicados, não só ao nível da saúde, mas também a nível monetário, com empresas a fechas e o próprio governo com dificuldades para manter a economia a funcionar”, frisa. 

Mesmo assim, defende que se devia analisar esta hipótese. “Já estava a ser feito um grande esforço ao nível da redução do uso do plástico… Não nos deixemos, agora, absorver por este domínio do plástico novamente, como forma de nos protegermos de tudo e de todos”, alerta.

Questionado sobre se estará o Executivo açoriano a descurar este tema, o ambientalista afasta esta ideia. “Compreendo, neste momento, que o Governo Regional não tenha mãos a medir com esta crise de saúde pública. Mesmo os governos mais poderosos, dos maiores países do mundo, como os Estados Unidos, o Reino Unido ou a Índia, estão a ver-se ‘a braços’ com situações que não sabem como hão-de resolver”, sublinha, admitindo que “a questão da reciclagem do plástico fica agora um pouco na retaguarda das decisões”. 

Mas, no meio de toda a situação, “é preciso bom senso e olhar para o planeta que tentamos a toda a força recuperar. Está a ser difícil, mas não podemos deixar que a pandemia venha desfazer tudo o que foi feito até agora”.

O ambientalista lamenta que estejamos a assistir a um “retrocesso muito grande”, quando já se conseguiam alcançar números na redução do plástico, a nível mundial, “muito interessantes”. E recorda que, em causa não está apenas a vida do ser humano, mas também a dos animais, especialmente os marinhos quando grande parte da poluição causada pelo plástico acaba nos oceanos.  

“Com este aumento do uso do plástico, vai haver também um aumento das mortes de animais marinhos. Somos uma associação ambientalista que defende a orla costeira e o espaço marinho e, segundo as estatísticas que temos tido acesso, são já cerca de 100 mil animais marinhos que já faleceram devido a este aumento”, alerta o responsável.