Governo pede aumento do valor dos avales autorizados de 135 para 220 milhões de euros

notasO Governo Regional apresentou  ontem na Assembleia Legislativa uma proposta que visa aumentar em 85 milhões de euros o montante de avales que pode autorizar. O total passa de 135 milhões de euros para 220 milhões.
A proposta considera “a recente melhoria do rating da Região Autónoma dos Açores e a perspetiva de um novo upgrade; a evolução positiva dos mercados financeiros internacionais, o que tem de forma progressiva vindo a reduzir significativamente os custos de financiamento da Região;  o interesse das empresas públicas regionais em usufruírem deste enquadramento para realizarem operações de reestruturação dos seus financiamentos, de forma a beneficiarem das atuais condições de financiamento dos mercados financeiros; que a conjugação destas realidades permitirá uma significativa redução dos encargos financeiros das empresas do setor público empresarial regional e uma poupança neste setor”.
O aumento é pedido para  “a concessão de garantias de forma a potenciar o aproveitamento deste novo enquadramento dos mercados financeiros face à Região e consequente possibilidade de redução significativa dos custos financeiros das empresas do setor público empresarial regional”.
Mantêm-se no artigo 15º do Orçamento Regional as alíneas 2 e 3. O ponto 2 refere que “acresce ao valor dos avales “o montante de 50 milhões de euros que se destina a um contrato de financiamento do Banco Europeu de Investimento à EDA — Empresa de Eletricidade dos Açores, S.A., operação da qual a Região Autónoma dos Açores será co-garante com o Governo da República”; e o 3 diz que “o aval da Região Autónoma dos Açores poderá ser concedido para garantir operações de refinanciamento desde que não impliquem um aumento do endividamento líquido, com observância do limite fixado no número anterior”.

Governo Regional quer “classificar o espaço e a memória” da fábrica da Baleia dos Poços

fabrica baleia poçosA Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores aprovou por unanimidade a Proposta de Decreto Legislativo Regional n.º 27/X, que consistiu na alteração ao Decreto Legislativo Regional n.º 13/98/A, de 4 de agosto, que define e caracteriza o património baleeiro regional e estabelece medidas e apoios destinados à respetiva inventariação, recuperação, preservação e utilização (esses apoios são estabelecidos pelo Decreto Regulamentar Regional n.° 24/2000/A, de 7 de setembro).
Mas quando o deputado José Andrade (PSD) criticou o Governo Regional por ter deixado cair a Fábrica da Baleia dos Poços. Na resposta, o Secretário Regional da Educação, Ciência e Cultura afirmou que “como o bem não tinha sido classificado foi todo destruído”, mas apontou o dedo também à Câmara Municipal de Ponta Delgada,
“O Governo Regional nada fez, mas a Câmara de Ponta Delgada também não. E o facto é que as iniciativas de classificação não são um exclusivo do Governo. A CMPD podia ter classificado o imóvel como património de interesse municipal, e não o fez; e poderia ter proposto a sua classificação como património regional, e também não o fez”.
E concluiu que, embora reconhecendo que o GR nada fez, disse que “não é adequado culpar-se os governos por tudo, quando as câmaras também têm responsabilidades”.
Em Março, quando foi ouvido pela Comissão Permanente dos Assuntos Culturais, Fagundes Duarte, garantiu que “o Governo Regional pretende iniciar um processo de classificação para esta infraestrutura e entendeu continuar a ser possível recuperar o património baleeiro e criar uma rede de fábricas à baleia”.
Parte do seu espólio foi doado ao Museu dos Baleeiros, em São Roque do Pico e algum doado para New Bedford. O Secretário referiu que “a intenção do Governo Regional é classificar o espaço e a memória daquela fábrica”.
Segundo afirmou, “em 1997 a direção regional da cultura visitou esta fábrica e projetou a criação de um roteiro na área da baleação, a iniciar na Fábrica da baleia de São Vicente Ferreira e a terminar na Fábrica da baleia na zona do Boqueirão, em Santa Cruz das Flores. A ideia principal era criar uma rede no âmbito da investigação científica que permitiria, por exemplo, a investigação do mar na área dos cetáceos, e onde esta fábrica representaria o pólo industrial da área, equipado com a sua tecnologia alemã única, constituída por máquinas raras e autênticas”.

Segundo o preâmbulo da proposta de alteração ontem aprovada, a recuperação do património baleeiro móvel – botes e lanchas de reboque –, levada a cabo nos Açores nos últimos anos, “deve ser considerada como um dos mais emblemáticos projetos de  reabilitação patrimonial, ao serviço das comunidades, realizado nos últimos anos em Portugal e merece ser entendida como um exercício de lucidez política, de celebração da nossa dimensão atlântica e de reconhecimento cultural da importância do mar e dos barcos na nossa vivência insular”.
Refere que a atividade baleeira, praticada artesanalmente nos Açores ao longo de mais de um século, “deixou marcas bem vincadas no imaginário coletivo de muitas localidades açorianas. A baleação transformou-se numa atividade-memória, celebrada e explicada nos museus, e o cachalote renasceu como objeto de culto e consumo visual, emblema da identidade dos Açores. Tendo em conta que o património baleeiro, designadamente o que é constituído pelas embarcações baleeiras — botes e lanchas de reboque — e respetivas palamentas, corria o risco de se perder, foram, a partir de 1998, adotadas políticas conducentes à sua recuperação, revitalização e reutilização para fins culturais, desportivos, lúdicos, turísticos e de educação ambiental. Estas medidas – associadas a um esforço e motivação crescentes das populações locais, organizadas à volta de clubes navais, autarquias, coletividades e associações de cidadãos – tornaram possível a recuperação de um vasto património na Região. A carpintaria naval e o artesanato local foram reanimados; recuperaram-se e aprofundaram-se os saberes tradicionais associados às artes de marear; estimulou-se o gosto e o culto pelo mar, pelas atividades náuticas e pela cultura da baleação, mediante a identificação das comunidades com as suas memórias; intensificou-se o relacionamento entre os museus e as escolas. Ao mesmo tempo que se reabilitava a memória de uma cultura singular – resistente e de tradição – promovia-se, através de uma nova inventiva, a vivificação desse património, colocando-o ao serviço da educação ambiental e da promoção e desenvolvimento económico, cultural, desportivo e turístico dos Açores”.

Um número significativo destas embarcações pertencem à Região e encontram-se cedidas a entidades que as utilizam numa perspetiva desportiva. O Governo, que apresentou a proposta, afirma que “assegurada a salvaguarda deste património, interessa agora rentabilizar a sua utilização no campo desportivo e turístico, melhorar as condições da sua proteção e conservação e incentivar a formação na arte de velejar em botes baleeiros.
As alterações, que incidem sobre os artigos 5.º, 6.º, 9.º, 10.º, 12.º e 16.º do Decreto Legislativo Regional n.º 13/98/A, de 4 de agosto, “clarificam o enquadramento da vertente desportiva, permitindo expressamente que as embarcações cedidas pela Região possam ser utilizadas em atividades marítimo-turísticas, apoiando a aquisição ou construção de imóveis para recolha de botes baleeiros e a aprendizagem na arte de velejar específica, enquanto garante para a continuidade, divulgação e fruição desta atividade”.
São comparticipáveis “a aquisição ou construção de imóveis para a proteção das embarcações baleeiras; a realização de estudos sobre a história, antropologia e arqueologia industrial da baleação açoriana e salvaguarda do respetivo património documental, e o espólio material ligado à atividade baleeira; o fomento de atividades educacionais, formativas, desportivas, de turismo e lazer relacionadas com o património baleeiro; e o apoio à aquisição de equipamentos de segurança à navegação exigidos por lei”.
Os bens classificados como património baleeiro e como tal incluídos no cadastro respectivo “podem também ser classificados como património cultural da Região”.
As regatas realizadas com botes baleeiros passam a ser alvo da concessão de apoio, que, de entre outras, pode revestir a forma de comparticipação financeira. E os concessionários das embarcações podem utilizar embarcações classificadas como património baleeiro para utilização turística.

A decisão da discórdia!

resplendorA Irmandade do Santo Cristo reafirmou ontem a sua oposição à participação do Resplendor da imagem Santo Cristo numa exposição em Lisboa, mesmo apesar da Diocese ter garantido que estavam reunidas as condições para a presença da jóia na mostra.
Num texto assinado pela totalidade dos membros da Comissão dos Bens Culturais da Igreja (o padre Duarte Melo, que também é director do Museu Carlos Machado, Ana Maria Raposo Fernandes, Igor França, Isabel Albergaria, João Paulo Constância, José de Almeida Mello, Rute Gregório e Susana Goulart Costa), a comissão garante que “o tratamento documental da peça, estudo, descrição e inventário, já foi realizado pelo Professor Rui Galopim de Carvalho, como especialista em gemologia”. E garante ainda que haverá “a contratação de seguro contra todos os riscos, no valor da avaliação do bem (mantido em sigilo por questões de segurança), válido para o transporte e para todo o tempo de permanência; a celebração de um contrato de empréstimo contendo as cláusulas relativas aos vários requisitos exigidos; o acompanhamento do processo e do resplendor, por técnico especializado, com experiência em transporte de bens culturais e por um representante da Diocese”.  Em relação às condições de exposição, “foi acautelada uma vitrina de alta segurança, com sistema de alarme próprio, e condições ambientais mantidas dentro dos limites definidos, bem como assegurado um sistema de vigilância vídeo, permanente, com gravação e acesso remoto, para além de vigilância presencial, por pessoal especializado”. E refere que “como contrapartidas da cedência temporária da peça, será realizada a sua avaliação técnica e o seu estudo científico, por especialistas da área, e executada uma limpeza por técnicos credenciados do Laboratório José de Figueiredo, uma medida urgente e imprescindível à conservação deste bem patrimonial”.
A comissão considera que “estão reunidas todas as condições para a sua participação na exposição temporária” (intitulada “Esplendor e Glória”, a realizar no do Museu Nacional de Arte Antiga entre Julho e Dezembro) e baseia o seu interesse na “divulgação do Culto”, na divulgação “dos Açores e o seu património” e que se trata de “uma distinção e uma oportunidade, num contexto em que se reconhece a importância actual do turismo cultural e religioso e as novas formas de peregrinação”.

Qual é o erro da comissão? Talvez esteja no facto de conceber esta peça como sendo de “elevadíssimo valor afectivo e patrimonial”, deixando de fora uma dimensão que estranhamente ignora: o peso da sua religiosidade.
Só assim se consegue entender o episódio inédito que aconteceu no momento da entrada da imagem no final da procissão de Domingo! Aparentemente o padre Pedro Maria teria dito qualquer coisa ao Bispo D. António sobre o assunto, numa troca de palavras não de todo pacífica. A certo ponto, e na presença de inúmeras autoridades civis, o Bispo terá mesmo mandado o padre calar, ao que este terá respondido que não estava sozinho nesta demanda. E perguntou alto “estou sozinho?”, ao que,  em coro, os irmãos responderam “não, não está”. De arrepiar!

Ontem mesmo, uma nota da Mesa da Irmandade reafirma a oposição à participação do Resplendor na exposição. “Sendo o Tesouro do Senhor Santo Cristo dos Milagres, a que pertence a magnífica obra de joalharia que é o Resplendor, composto por milhares e milhares de doações valiosas do Povo Devoto com a intenção de que as mesmas ficassem sempre junto da Veneranda Imagem, no Convento da Esperança, não se deve, sob que pretexto for, usurpar, em parte ou no todo, essas intenções de Fé, cujo valor afetivo, emocional e sentimental é, absolutamente, incalculável”.
A Mesa da Irmandade refere ainda que está “contra a realização, fora do Convento da Esperança, de trabalhos de avaliação técnica, de estudo científico e de limpeza negociados como contrapartida da cedência temporária da peça”, considerando que “a conservação daquele bem patrimonial” deve ser feito “no local”. 

Mas no que parece ser um extremar de posição, a Comissão dos Bens Culturais da Diocese de Angra fez publicar ontem no site da agência de notícias da Igreja Católica em Portugal (agencia.ecclesia.pt) um texto com o título “Património: Resplendor do Senhor Santo Cristo vai integrar exposição em Lisboa”, garantindo que “o resplendor da imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, dos Açores, vai integrar a exposição ‘Esplendor e Glória’, no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, entre julho e dezembro deste ano”. 

Mas o povo, normalmente passivo nestas questões, desta vez parece ter tomado partido. E uma petição intitulada “Resplendor do Senhor Santo Cristo dos Milagres – Não pode abandonar o Santuário” (no site peticaopublica.com), dirigida a D. António de Sousa Braga, conseguiu no espaço de 24 horas atingir mais de 700 assinaturas – o que é raro. Se a petição se destinasse a ser apresentada na Assembleia Legislativa, já teria conseguido as assinaturas necessárias a ser votada no parlamento. E o seu número continua a aumentar.
O texto da petição é bastante curto: “Pedimos a sua reverência o Sr. Bispo António de Sousa Braga, que reconsidere a sua iniciativa de enviar o Resplendor do Senhor Santo Cristo dos Milagres para que o mesmo seja exposto em Lisboa. Em primeiro lugar, porque o referido Resplendor pertence à Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, e dela não deve ser dissociado nem separado. Por outro lado, porque existe um efectivo e significativo risco de furto associado a uma deslocação destas, que é tão publicitada e uma perda destas seria a todos os níveis irreparável. Por último, porque não podemos esquecer que este Resplendor, tal como os mantos e o ceptro são o resultado do trabalho de muitas pessoas ao longo de muitos anos, mas sobretudo das oferendas de muitos crentes, que merecem que esta tão importante peça seja guardada e preservada com o maior dos cuidados e respeito”. O 1º subscritor dá pelo nome de Pedro Teixeira.

No Facebook o tema tem sido amplamente discutido. Mas é provável que o assunto também já tenha chegado aos corredores do poder. Embora sem qualquer confirmação oficial, surgem rumores de pressões para o Governo Regional accionar a Direcção Regional da Cultura, e que poderá surgir uma providência cautelar para evitar a saída do resplendor.   Se o caso se extremar até esse ponto, estão em causa questões sobre a tutela do bem, que a comissão repetidamente refere como sendo “um bem patrimonial dos Açores”, e noutro trecho mesmo como “peça emblemática do Património dos Açores” (sic). E também sobre se é um bem da Igreja diocesana ou do Santuário, e até, no extremo,  a quem pertence o próprio Santuário. Por outras palavras, no limite, se a Igreja quisesse vender o resplendor, podia ou não fazê-lo? 
A olhar de fora, muitas pessoas ligadas à Igreja e à sociedade civil, olham para esta disputa com bastante preocupação: “oxalá que isto não acabe muito mal”, dizem. Mas o facto é que as posições estão cada vez mais extremadas...

 

Opinião e debate no Facebook aqui

Data marcada para o envio do Resplendor para Lisboa é o dia 4 de Junho, diz o autor da Petição

Senhor-Santo-Cristo-dos-MilagresA pessoa que lançou a petição “Resplendor do Senhor Santo Cristo dos Milagres - Não pode abandonar o santuário”, que neste momento tem cerca de 2 mil assinaturas, irá manter o seu anonimato, mas assume que a data aprazada para envio da peça para Lisboa é o dia 4 de Junho, ou seja, amanhã.
A informação está contida na resposta a uma mensagem que o Diário dos Açores enviou ao criador do post, que figura como “Pedro Teixeira”. Em resposta a uma das perguntas colocadas, refere que “no próprio dia da criação desta petição, foi enviado o link à Diocese de Angra, pelo que os responsáveis da mesma e fundamentalmente o Sr. Bispo terão tido acesso à sua evolução. Mesmo assim, de forma periódica, fiz questão de enviar para os mesmos destinatários actualizações do número de subscritores, algo que pretendo fazer até ao dia 04/06/2014, pelos vistos o dia aprazado para o envio da peça para o Continente”.
Diz que “a minha intenção ao criar a petição foi simplesmente dar um contributo para que de uma forma minimamente organizada se desse voz às inúmeras pessoas que vinham, informalmente, manifestando a sua indignação pelo envio inusitado do Resplendor do S. S. Cristo dos Milagres para, aparentemente, participar numa exposição no museu de Arte Antiga de Lisboa, sem que até então tivessem encontrado uma forma de fazer chegar a sua voz ao Sr. Bispo de Angra”.
À laia de balanço, diz que “a petição, apesar de alguns comentários que poderão ter excedido o âmbito da mesma e poderão mesmo ter sido algo injustos ou inoportunos para com o Sr. Bispo de Angra, considero que cumpriu o objectivo a que se destinava, ou seja, deixar bem claro ao Sr. Bispo e a quem mais possa interessar, que existe um importante conjunto de cidadãos, crentes e não crentes, que defendem que o Resplendor pertence ao Santuário e à imagem venerada”.
Regista ainda que “nenhum movimento contrário àquele que é defendido nesta petição surgiu, o que me apraz registar. De facto, a única voz que publicamente se manifestou contra este movimento e a favor da ideia do envio da peça terá sido o Sr. Padre Duarte Melo, que parece estar, neste caso, a pregar no deserto”. E conclui que “não tenho como objectivo obter qualquer tipo de protagonismo, pelo que opto por manter recato e portanto espero que compreenda que não lhe prestarei mais declarações do que estas que aqui lhe deixo escritas”.

A Petição

A petição online que está a decorrer desde 27 de Maio é uma das mais bem sucedidas petições açorianas, atingindo 700 assinaturas nas primeiras 24 horas, ultrapassando as 1.000 assinaturas em 48 horas e quase 2 mil no espaço de 5 dias.
No sábado foi lançada em simultâneo em papel. Aquando do cordão humano no Campo de São Francisco apareceram as primeiras folhas impressas, sendo recolhidas no local muitas dezenas de assinaturas de pessoas que ainda não tinham assinado a versão online. Desde então que na porta do Santuário (Avenida Roberto Ivens) estão a ser recolhidas assinaturas e, o que será ainda mais significativo, estarão em breve a recolher as folhas repletas de assinaturas das muitas pessoas envolvidas que têm cópias da petição (todos os que pretendem participar nesta angariação poderão simplesmente imprimi-la). Não é exagero projectar que esta petição poderá ultrapassar as 10.000 assinaturas num espaço de tempo muito curto.

O Cordão Humano

A Diocesa de Angra noticia no seu site o cordão humano da seguinte forma:
Realizou-se no último sábado, em Ponta Delgada, um cordão humano que juntou os elementos da Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres e algumas centenas de devotos do culto, que silenciosamente se manifestaram contra a saída do Resplendor do Senhor Santo Cristo, autorizada pela Diocese de Angra, alegando que se trata de “um património intocável”.
Segundo noticiou a Diocese de Angra, a presença da jóia na exposição “Esplendor e Glória”, entre Julho e Dezembro, no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, foi permitida pela diocese açoriana, que garante que estão reunidas as condições para a presença do Resplendor nesta exposição que será constituída por mais quatro peças de joalharia portuguesa do período barroco entre 1756 e 1780- a Custódia da Sé Patriarcal de Lisboa, a Custódia do paço da Bemposta, a Venere das Cinco ordens de D. João V e o Resplendor do Senhor dos Passos da Graça.
Contudo, a Irmandade do Senhor Santo Cristo e centenas de fiéis opõem-se à decisão, estando inclusive a circular uma petição ‘on line’, dirigida ao bispo de Angra, D. António de Sousa Braga.
Junto ao Santuário da Esperança, em Ponta Delgada, onde está a imagem do Santo Cristo e onde decorrem anualmente as celebrações religiosas, foi organizado no sábado um cordão humano para que o Resplendor não abandone a ilha de São Miguel.
“Não concordo que saiam daqui as jóias que pertencem ao Senhor Santo Cristo”, afirmou aos jornalistas Cidália Brandão, quando se preparava para integrar o cordão humano.
Cidália Brandão vincou que as jóias do Senhor Santo Cristo “foram oferecidas pelo povo açoriano” em “representação de muitas lágrimas, muitos sacrifícios e orações e muita penitência dos açorianos”, relatou o Portal da Diocese.
Também o Padre Pedro Maria, coadjutor da Igreja Matriz de São Sebastião, em Ponta Delgada,  manifestou a sua “total oposição” à “saída de uma peça que não é de uma pessoa, é de um povo”.
“Isto é uma peça que está ao culto. Isto é uma peça que é nossa. É uma peça que foi feita com aquilo que é nosso”, sublinhou, frisando que a joia acaba por transmitir “a vida de muitas pessoas”.
O provedor da Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres, Carlos Faria e Maia, explicou que se trata de “uma manifestação silenciosa sem guerrilhas”.
“Só vamos orar. É só uma manifestação de descontentamento pela eventual saída do Resplendor do Santo Cristo que é um peso da nossa fé incalculável e que não tem sentido nenhum sair daqui”, sustentou.
O provedor sublinhou que a Irmandade “não está em guerra” com o bispo, mas “mantém a sua posição” contra a saída do Resplendor, alegando que não estão reunidas as “condições de segurança” para a ida da peça para Lisboa.
Como contrapartidas da cedência temporária da peça, a Comissão Diocesana dos Bens Culturais da Igreja anunciou, no inicio desta semana em comunicado,  que “será realizada a sua avaliação técnica” e um “estudo científico por especialistas da área” e “executada uma limpeza por técnicos credenciados do Laboratório José de Figueiredo”, medida “urgente e imprescindível à conservação” da jóia.

O Atlântida era “um elefante branco” e “demasiado grande para os Açores””...

atlantida-navioO consumo elevado de combustível do ferry Atlântida foi ontem invocado pelo engenheiro naval António Martins Iglésias como um dos motivos possíveis que levaram o armador açoriano Atlânticoline a desistir do navio.
De acordo com o jornal Público, o mesmo especialista manifestou estranheza aos deputados da comissão parlamentar de inquérito aos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC) por, no contrato com os estaleiros, o não cumprimento da velocidade fosse condição para a cessação da relação contratual.
“Era queimado gasóleo, não nafta, e o consumo seria de 26 toneladas por dia”. Foram estes os cálculos de Martins Iglésias, engenheiro naval que trabalhou nos ENVC de 1988 até Abril de 2011. O técnico desempenhou diversas responsabilidades nos estaleiros de Viana, de chefe de provas de mar ao teste de equipamentos, e acompanhou a construção do C-258, o nome de código nos ENVC do Atlântida. “Era um navio demasiado grande para os Açores, pelo número de passageiros e viaturas que transportava”, relatou.
“Era um projecto megalómano, o espaço das garagens era de luxo, a zona de máquinas era também muito espaçosa, só poderia transportar a totalidade da sua capacidade em épocas excepcionais”, garantiu. Depois de apelidar o navio de “elefante branco”, não deixou de frisar que o segundo ferry encomendado pela Atlânticoline a Viana, o Anticiclone, “era já mais pequeno”.
Em contrapartida, o Atlântida, ponderou o engenheiro naval, “foi pensado à grande porque havia um pedido de subsídio”. Era uma comparticipação comunitária de 80% do valor do barco, ao abrigo do Programa Operacional dos Açores para a Convergência, 2007/2013. “Queimava só gasóleo, não nafta, o consumo seria de 26 toneladas por dia”, acentuou. Este facto, aliado à dimensão do barco e ao peso adicional colocado como lastro, levou Martins Iglésias a considerar de duvidosa a sua rentabilidade no tráfego interilhas. Aliás, o engenheiro naval admitiu a utilidade do navio, com algumas adaptações, para operações de lazer turístico no arquipélago açoriano. “Aquela obra de arte, um navio bem esgalhado, podia ser rentabilizado”, assegurou. Manifestou, ainda, surpresa por o não cumprimento da velocidade ter sido, segundo o contrato, razão para o armador não receber o ferry. Na análise ao projecto, o antigo quadro dos ENVC apontou o prazo de construção como um óbice. O contrato referia 565 dias e este prazo teve consequências. “O prazo condicionou a procura de material que nem sempre estava disponível no mercado”, precisou. Foi o que aconteceu com os propulsores, cuja potência era inferior à contemplada no projecto.
“O projectista (os russos da Petrobalt) ainda estava a trabalhar numa solução e os estaleiros iam mais à frente, fez-se e desfez-se, pôs-se e repôs-se, as coisas não eram pensadas como deviam ser”, assegurou. Esta constatação, garantiu o engenheiro aos deputados, era partilhada pelo primeiro fiscal que a Atlânticoline enviou aos estaleiros para acompanhar a construção.
“O engenheiro Nuno Lima (fiscal do armador açoriano) terá dito para pararem para pensar”, revelou Martins Iglésias. O técnico manifestou, ainda, dúvidas sobre a capacidade técnica do projectista Petrobalt. Mas, do mesmo modo, admitiu que após a saída de técnicos, os Estaleiros Navais de Viana do Castelo tinham a falta de um gabinete de projecto.