A mudança

YV1G5698Tudo se mexe, até mesmo uma árvore, que parece estática, vai ela, deitando ramos para se mostrar, anunciar que é bela, frondosa, está florida – dará um espanto de laranjas.
Uma trepadeira segue-lhe a senda, pela calada, vai longe na ânsia de galgar muros, tem aquela paixão de ser mais alta do que as flores rasteiras – exibe-se em lindas glicínias.
Tudo quer o consolo benfazejo da luz, deixar-se beijar pela aragem purificada de outeiros e canadas das ilhas, cobrir-se de glória, ver o sol nascer, ou deleitar-se com o sol-posto.
Mas não pára por aí o ensejo de mudar de ares, de se achar empoleirado num miradouro, abarcar o todo que alcança, num abraço de ventura, avistar um barco, noite alta à pesca, um paquete colossal, quase disforme nas suas linhas das dos seus pares do passado, nada elegante como os de outras eras – o Funchal, essa glória da Insulana.
E ninguém se contenta com o sossego de estar parado, para refletir – qual quê – aspira-se por mudança de ares, coisas que, se preciso for, se hão-de mudar de um lugar para o outro.
Naquele recuado tempo de furar os magotes de almas desejosas de ver, bem de perto, o milagreiro Santo Cristo, ia-me chegando, “és pequenino, passa para a frente”, recebia esses mimos de gente bondosa.
Fiquei ali ao portão a ver no que aquilo daria, e fui, num lento mudar de pés, aproximando-me, “para ali”, ordenou um grandalhão, bigode farto, boa pança, avermelhado, e calhou-me a sorte de me ver já perto do grupo de homens, com papéis, pontos para cantar.
Um cavalheiro, a rigor, bateu num portão de madeira, “para quê?”, pensei. Bastava rodar a maçaneta, ou, se fechado, meter a chave.
Um fulano sentado ao órgão, bigode curto, o cabelo untado de brilhantina, olhava atento o portão – mais tarde meu professor de Canto Coral.
Nisto, abriu-se, e o organista, empolgado, começou a pedalar com forte entusiasmo.
Pensava que o andor dourado com aquele Cristo resignado nele sentado, iria agora avançar, mas não.
Cantaram um cântico, que me pareceu em latim e para ali estiveram um bocado. Só depois de concluído, é que o cortejo de muitos padres e um, vestido de vermelho, avançou.     
Francamente, esperava ouvir o belo Hino do Senhor, eu que já o arranhava ao piano.
Não entendia bem a razão da grande festa, e olhei com um ar de quê para uma bendita criatura, que me alisava a cabeleira áurea, “o povo, há muitos anos, temeu a ira de Deus com muitos terramotos e pediu perdão das suas culpas, saindo em procissão”,
Já agora, poderia saber – isto em ‘49 – o que quisesse, “e o que foi que cantaram?”. Porventura admirada com a minha curiosidade, “tu ainda és muito pequeno… foi o Te Deum”.  
A banda, na rua, tocava já o Hino, e estiquei-me para ela, “a música desse Ta Deum é diferente do nosso”, ela esboçou um sorriso com o meu estropiado Ta Deum, beijou-me, “e aquele senhor padre de vermelho, quem é?”. Via nela a bondade de mãe extremosa, “é o senhor bispo, querido”, e escapou-se-me um “ah…”.
Estava ali por minha conta e risco, e ela, protegendo-me daquelas gentes apressadas, aos empurrões, “diz-me uma coisa, meu querido, estás aqui sozinho?”
Tinha-me perdido da minha mãe, mas sabia o caminho de casa, “eu nunca vi esta festa”, respondi-lhe a coisa mais importante do que o caminho para a Vila Nova.
Saí para a rua, com um beijo de grande ternura de uma mãe, tão querida como a minha, “tem cuidado, meu querido”.
O que mais me entusiasmava era ouvir as bandas, para acertar uns pormenores – a introdução, a melodia e, principalmente, os acordes finais do lindo Hino do Senhor.

2012-05- 11

P. S. – Vai um sentido repique para o Dr. António Oliveira Rodrigues – o Tonecas dos bancos do nosso Liceu.

Sob a protecção do Senhor Santo Cristo !

YV1G6104Estamos de novo a celebrar uma das festas que mais tocam ao coração dos micaelense; e, porque não dizê-lo, da grande maioria dos açorianos, incluindo aqueles que, imbuídos por um apertado sentimento de saudade, que só  a ausência é capaz de justificar, estão espalhados pelo mundo - nomeadamente na América, no Canadá, nas Bermudas e no Brasil, - mas  que sempre acalentam aquele desejo de mística devoção e de profundo agradecimento para com a Veneranda Imagem do Senhor Santo Cristo e de  tudo  que rodeia o seu  secular culto.

Apesar dos tempos que correm, continuo a apostar que ninguém -  mesmo os que se dizem afastados daquela religiosidade popular que, com muita humildade e arreigada devoção, sempre lhes transmitiram os seus antepassados - possam ficar indiferentes, a esta  «Semana»  que está a decorrer e a todo o simbolismo que a mesma  encerra, não apenas por aquilo que se vai passar, nos arraias do Campo de S. Francisco, mas porque ainda são capazes de guardar,  bem no íntimo dos seus  corações, aqueles  sinais mais profundos que irradiam da Veneranda Imagem do Senhor da Esperança, pois  não há  casa  nem  família que não tenha um dia volvido o seu olhar, na fixação extraordinariamente bela e profunda que Ela  transmite, numa atitude de louvor ou de agradecimento pelo que lhes aconteceu na vida.
É por isso que, todos os anos, o «milagre» do Amor e da Concórdia se  repetem  ! ...
E, é sempre tão profunda e tão intima essa ligação que nunca, através dos tempos, faltaram literatos, fotógrafos  e  mesmo consagrados artistas plásticos que não  utilizassem,  como tema de muitos dos seus trabalhos, os mais belos pormenores que vão descobrindo Àquele «amoroso rosto», que tanto lhes toca  o  coração, quando sobretudo o fixam no seu andor adornado de lindas flores; ou então, em alguns passos  da  grande procissão de domingo que  percorre as ruas da nossa cidade.

É como que parafrasear o Poeta:
Meu Senhor Santo Cristo ! Quanto ardor
Em tal invocação que o peito aquece!
Meu Senhor Santo Cristo ! Quanta dor

Que se abranda ou se esvai, por esta prece !eu Senhor Santo Cristo ! Quanto alvor,
Bem no íntimo, com Fé, nos amanhece!
Meu Senhor Santo Cristo! Quanto amor
Palpita neste grito que enternece!
     
Felizmente nos últimos anos têm aparecido numerosas publicações, que cada vez mais vão aproximando e clarificando os devotos do secular culto, como que «desmistificando» aquilo que de mais «enquistado» envolvia outrora a vida conventual e os valores intrínsecos, dum  culto, que  partiu do século XVI,  foi fruto da devoção inabalável da Venerável Madre Teresa da Anunciada; o que talvez tenha contribuído para que cada vez mais os açorianos e quantos nos visitam de outras partes do mundo, também se impregnem dessa esperançosa proximidade com o «Seu Senhor», que parecia ser só micaelense,  mas  que  uma renovada  Fé tem iluminado e conduzido  a novos e  a promissores caminhos, muito para além dos Açores.
É que durante anos e anos, apenas podia «espreitar-se» a Imagem do Senhor Santo Cristo através das grades do coro baixo às sextas feiras, durante a habitual missa da manhã, que ali celebrava Monsenhor José Gomes, participada por devotos vindos de toda a ilha de S. Miguel.
Depois o coro fechava – se, até à próxima semana; e, por vezes, aos domingos, voltava a abrir-se…
Assim, durante toda a semana, a qualquer hora do dia ou da noite ( naquele tempo tudo ali era calmo e respeitoso), as romarias sucediam-se só até junto da porta principal, onde de joelhos, cada um batia três pancadas, como que a dizer:
   -  Senhor, o teu servo está aqui, num desabafo de  súplica ou  de agradecimento !
Hoje, felizmente que tudo é diferente; e, todos os dias, a Veneranda Imagem pode ser vista por quantos acorrem à Igreja da Esperança; e, ao fim da tarde, mesmo na sua  Capela, « inter- muros», dentro do Convento,  para um momento de oração mais profunda e comunicativa – um  quadro  que é sempre belo estar, no mais  profundo silêncio!
No seguimento desse proximidade, ainda no passado sábado o historiador / investigador, José de Almeida Mello – com fotografias inéditas de José António Rodrigues - lançava a sua 20º produção literária com a publicação do  livro ««Segredos do Convento –Nossa Senhora da Esperança», um conjunto histórico / fotográfico que, no dizer do zeloso Reitor, Monsenhor Agostinho Tavares, «nos esquadrinha tudo o que Santuário reserva como património e constitui o espólio do seu centenário Convento, através dum conteúdo literário  que  não é um beco sem saída, mas caminho seguro e profundo dos valores humanos e cristãos».
 Decerto que, mais este oportuno trabalho, muito virá a contribuir para cada vez mais aproximar os milhares de  devotos  do  Senhor Santo Cristo;  agora  não «escondido» atrás das naturais e então obrigatórias grades do  Convento, (que começou por ser de clausura Clarissa), mas para que esse culto possa  despertar sempre e cada vez mais  a nossa atenção, a nossa disponibilidade, o nosso acolhimento, sobretudo nas camadas mais jovens, de modo a que todos juntos « lhe abramos o nosso coração»!
É felizmente, por tudo isto, que cada ano que passa repete-se um novo  «milagre», ao redescobrirem que o Culto ao Senhor Santo Cristo é um dos mais impressionantes testemunhos, não só da vida e da  alma micaelenses, mas de toda a Igreja Diocesana, numa interpelação que se deseja manter e propagar quanto a uma vivência  permanente e apelativa aos  valores da Fé, da Caridade  e do  Amor ao próximo.
É como disse o Beato João Paulo II quando, há 11 anos, fixou, olhos nos olhos, a Imagem do Senhor Santo Cristo: « O amor e a adoração ao nosso Redentor, sob o perfil do Ecce -  Homo, foi-se arreigando cada vez mais na nossa vida – já lá vão mais de cinco séculos e meio de convivência vossa com o Senhor Santo Cristo, que encontra no meio de nós uma Casa hospitaleira, à semelhança da Casa de Lázaro e de suas irmãs Maria e Marta».
Assim, neste novo momento de festa de honra e de louvor, para com o «Príncipe dos Açores», que o nosso sentimento de esperança seja este: ILUMINAI, SENHOR, OS NOSSOS CAMINHOS !

A Paixão de Cristo que nos une!

DSCF0214A Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres elegeu como mensagem de reflexão para as festividades deste ano, a expressão simbólica: A PAIXÃO DE CRISTO QUE NOS UNE!
Na verdade, a contemplação da Veneranda Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres - o Ecce Homo - transporta-nos sempre, para os mistérios dolorosos da Paixão e da Morte de Jesus Cristo que sinalizam um elevado exemplo de humildade e de amor ao próximo.
Pretende a Irmandade, com esta iniciativa, considerar a partilha e a solidariedade que o sofrimento infringido a Jesus representa, nos seus penosos momentos, como valores que devem sustentar, na vivência da Fé de cada um, o comportamento, nos dias difíceis que se atravessam, dos devotos e peregrinos do Senhor Santo Cristo dos Milagres.
E, quando, em procissão gloriosa, a Veneranda Imagem percorrer, outra vez, as ruas da cidade de Ponta Delgada, cumprindo-se a secular tradição, revelar-se-ão, então, novos sinais de esperança e de reconhecimento da bondade divina que saciarão o coração de todos na sua entrega à acção de graças.
As grandiosas festas em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres tiveram início no dia 10 e terminam no dia 17 de Maio, e serão presididas pelo Núncio Apostólico em Portugal, D. Rino Passsigato.
Hoje e amanhã são os dias maiores das festividades com a mudança da veneranda Imagem do Senhor Santo Cristo, com a vigília nas Igrejas de Nossa Senhora da Esperança e da Conceição (vulgo São José), com a solene Concelebração Eucarística, no Campo de São Francisco, e com a Procissão em honra do Senhor, pretendendo a Irmandade, neste caso, manter a formação de segundas filas para as opas e para os figurantes com trajes alusivos.
Nos arraiais da festa estão previstos os habituais concertos, destacando-se a participação, para além de bandas filarmónicas locais, da Banda Militar dos Açores e da Orquestra Ligeira de Ponta Delgada.

14 Filarmónicas
na procissão
do Senhor Santo
Cristo dos Milagres

São 14 as filarmónicas da ilha de São Miguel que vão incorporar-se, este ano, na grandiosa Procissão em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres, que se realiza, em Ponta Delgada, amanhã.
A Mesa da Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres efetuou, no final do passado mês de março, o habitual sorteio para o preenchimento dos respetivos troços no cortejo processional tendo, então, sido confirmada a participação das seguintes filarmónicas:
- Filarmónica Lira do Norte (Rabo de Peixe)
- Banda Sagrado Coração de Jesus (Faial da Terra)
- Banda Lira Nossa Senhora da Saúde (Arrifes)
- Filarmónica Fraternidade Rural (Água de Pau)
- Banda de Nossa Senhora das Vitórias (Santa Bárbara)
- Filarmónica Lira das Sete Cidades (Sete Cidades)
- Filarmónica Estrela d’Alva (Lagoa)
- Sociedade Filarmónica Minerva (Ginetes)
- Filarmónica Aliança dos Prazeres (Pico da Pedra)
- Filarmónica Eco Edificante (Nordeste)
- Filarmónica Imaculada Conceição (Fazenda)
- Filarmónica Lira de Nossa Senhora da Estrela (Candelária)
- Filarmónica Estrela do Oriente (Algarvia)
- Filarmónica São Salvador do Mundo (Ribeirinha).
O programa das festividades deste ano abriu no dia 10 de Maio com o Concerto de Abertura, por grupos vocais e instrumentais do Conservatório Regional de Ponta Delgada, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, sede da Paróquia de São José.
Ontem, a execução do Hino do Senhor Santo Cristo, por ocasião da inauguração da iluminação decorativa da fachada do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres e do Campo de São Francisco esteve a cargo da Filarmónica Aliança dos Prazeres (Pico da Pedra), tendo-se seguido o desfile da Charanga dos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada.
Hoje, a Procissão da Mudança será acompanhada pela Filarmónica Fraternidade Rural (Água de Pau), estando em programa, a atuação da Orquestra de Violas da Terra e um concerto pela Banda Sociedade Filarmónica Minerva (Ginetes).
Amanhã, Domingo do Senhor, o concerto no arraial do Campo de São Francisco será executado pela Banda Lira das Sete Cidades (Sete Cidades).
Na segunda-feira, feriado municipal, o programa apresenta Cantigas ao Desafio pelos cantadores da Associação dos Cantadores dos Açores e o concerto da Orquestra Ligeira de Ponta Delgada.
A 17 de Maio, último dia das festas, está confirmada a atuação do grupo Bora Lá Tocar, ficando o concerto de encerramento a cargo da Banda da Zona Militar dos Açores.
Fonte: Guia da Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres

Santo Cristo Milagroso

DSCF3787O povo açoriano está, nestas dias que antecedem a festa de Pentecostes, voltado para ao Santuário da Esperança, na ilha de São Miguel.
Está a decorrer o novenário preparatório para as grandiosas solenidades em honra de Santo Cristo dos Milagres que, naquela ilha se vem, ininterruptamente, celebrando desde o século XVI, quando o Papa Paulo III ofereceu a duas religiosas micaelenses, a santa imagem, segundo relata o Pe. José Clemente.
A grande devota de Santo Cristo foi a Venerável Teresa da Anunciada que, segundo o seu biógrafo, tinha colóquios íntimos com o Seu Rei e Senhor.
Não se conseguiu ainda que a Igreja Romana elevasse às honras dos Altares a Venerável Religiosa. Todavia, Ponta Delgada já prestou condigna homenagem à Venerável Madre Teresa da Anunciada, colocando a sua estátua junto do convento onde ela passou os últimos anos de vida.
Bem merecia que algo mais se promovesse em ordem à finalização do processo de Beatificação
E isso em nada desmerece ou diminui o culto ao Senhor Santo Cristo, presente no convento da Esperança e, igualmente, em diversas igrejas das ilhas açorianas e até na Diáspora.
A ilha do Pico, além do culto normal a Jesus Cristo, - e ele é bem patente na veneração das Imagens do Bom Jesus de São Mateus, Calheta e Criação Velha, na paróquia da Silveira é o Senhor Santo Cristo, como nas do Senhor Jesus Crucificado de Santa Cruz das Ribeiras ou do Senhor Jesus das Preces, venerada na Matriz das Lajes - tem um culto especial à segunda Pessoa da Santíssima Trindade, em todas as igrejas paroquiais.
A Ilha do Faial festeja, oficialmente, em cumprimento de um voto muito antigo, o Santo Cristo da Praia do Almoxarife. São Jorge presta culto ao Santo Cristo da Caldeira. A Terceira venera na capela da Natividade de Angra, o Santo Cristo da Terceira.
Por toda a parte é o povo em prece ante as Imagens Venerandas, quer em corpo inteiro, quer em busto, ou no Senhor Crucificado, muito embora algumas imagens mereçam mais atenção dos fiéis, como é o caso do Santo Cristo do convento da Esperança, ou do Bom Jesus da paróquia de S. Mateus do Pico, ambos os templos declarados santuários pelo Prelado da Diocese.
Mas maior e mais vincado é o culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres de Ponta Delgada que ali atrai durante o novenário e festa, milhares de devotos, muitos idos das ilhas açorianas e numerosos vindos das terras da Diáspora, onde se encontram milhares de açorianos imigrados.
Quem um dia tomou parte nas festas e, principalmente, na Procissão, não ficou indiferente ante a fé dos devotos e dos sacrifícios que centenas deles fazem no cumprimento de promessas feitas em horas de angústias e dores.
A festa de Santo Cristo mantém o secular programa. A procissão segue, anualmente, o mesmo percurso de há séculos e não haja quem pretenda modificar o itinerário porque os micaelenses não consentem. E ainda bem que é assim. É um acto litúrgico e a liturgia não anda ao sabor dos modernismos mas mantém os seus princípios de culto a Deus e aos Seus Santos. E o Santo Cristo é, na realidade, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade: Um só Deus em três Pessoas iguais e distintas ensina o antigo catecismo. E o Concílio de Trento já declarara: “O Pai aquilo mesmo que o Filho, o Filho aquilo mesmo que o Pai, o Pai e o Filho, aquilo mesmo que o Espírito Santo, ou seja um único Deus por natureza”.
Não vim dar uma lição de catequese. Não me compete. Venho lembrar a festa da Segunda Pessoa da SS. Trindade – o Filho, que veio ao mundo, encarnou e se fez homem e sofreu e morreu pelos outros homens seus irmãos. E é uma passagem da Sua Vida – Cristo apresentado no Pretório de Pilatos à turba enraivecida, que hoje veneramos na sua bela e expressiva Imagem do Ecce Homo. Imagem milagrosa. Imagem que recorda aos homens um dos momentos mais angustiosos de Cristo ao sofrer a Paixão e Morte na Cruz. E são todos esses passos da Paixão que o povo crente recorda com fé, recolhimento e gratidão, implorando a seu jeito os favores de que necessita, quer materiais quer espirituais.
É por isso que milhares e milhares de devotos caminham descalços ou de joelhos sobre as calçadas, onde deixam algum dos seu sangue de mistura com dores físicas, a expiar as dores morais porque passaram em momentos de aflição e dor.
Não se pode assistir a estes actos de verdadeira penitência sem uma reflexão íntima de pena e angústia a compartilhar sofrimento com os irmãos que sofrem.  
Como Mons. Pereira da Silva terminava as suas palestras no Rádio Clube de Angra, a assinalar o lº centenário da festa do Bom Jesus, de São Mateus do Pico, em Agosto de 1962, assim finalizo este modesto escrito: Senhor Jesus, não olheis para a minha indignidade e faze-me um dos teus romeiros. Mete-me numa página do teu livro e dá-me um lugar no teu céu.

Vila das Lajes,
Maio de 2012.