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Mais idosos e menos gente

1.É sintomático que, nos últimos dias tenham sido divulgadas notícias sobre questões demográficas, nomeadamente o envelhecimento da população e a esperança média de vida, e que isso coincida com a aprovação de novas leis da imigração. Os dois temas são complementares.
Sem a entrada de fluxos migratórios entre 2024 e 2100 e de acordo com o cenário central de projecção do INE, Portugal perderá população. Dos atuais 10,7 milhões, passará para 8,3 milhões de pessoas; o número de jovens diminuirá de 1,4 M para cerca de 1,0 milhão; o número de idosos passará de 2,6 para 3,1 milhões; o índice de envelhecimento em Portugal aumentará, gradualmente, até 2060, ano em que tenderá a estabilizar; a população em idade ativa (dos 15 aos 64 anos) diminuirá de 6,8 para 4,2 milhões de pessoas; o índice de dependência de idosos passará de 39 para 73 idosos, por cada 100 pessoas em idade ativa.
“Ainda que, em todos os cenários analisados pelo INE, o envelhecimento demográfico venha a ocorrer em todas as regiões, poderá ser mais acentuado na Região Autónoma dos Açores, na região Norte e na Região Autónoma da Madeira.”- diz o estudo –pois “no cenário central, o índice de envelhecimento na Região Autónoma dos Açores, que em 2024 se situava em 128 idosos por cada 100 jovens, aumentará para 405 idosos por cada 100 jovens em 2100.”
O estudo analisa o arquipélago no seu todo. No entanto, como é sabido, há diferenças significativas na pirâmide etária da população. Nos concelhos da Ribeira Grande e da Lagoa, há uma predominância de população jovem o que beneficia o todo regional como região menos envelhecida do país no ano transato. Todavia é notório o índice de envelhecimento noutros concelhos das impropriamente chamadas “ilhas de pequenas”.
Isso reflete-se na esperança média de vida global que nos Açores atinge o pior índice nacional: 78,33 anos, ao contrário da região Norte que se situa nos 82,13 anos.
Descendo ao pormenor, os dados revelados pelo INE demonstram que no continente a média de vida de uma mulher é de 83,96 anos, enquanto nos Açores o período de vida baixa para os 81,5 anos. Entre os homens, no continente a média situa-se nos 78,73 anos e nos Açores fica-se pelos 74,86 anos.
Os dados dão muito que pensar. Sobretudo para quem tem a responsabilidade de perspetivar e programar o futuro deste território insular, onde as diferenças, são certamente maiores e já se fazem sentir no declínio demográfico e na desertificação.
É antiga e judiciosa a máxima de que o crescimento económico e o desenvolvimento fazem-se com gente e com ativos profissionalmente capacitados e empenhados na construção da sociedade. É igualmente sabido que há factores importantes que geram a repulsa ou a integração em espaços geográficos a que estamos ligados pela identidade, por motivos família e de bem-estar.
Perante estes cenários, o que se espera das instituições é que assumam as suas responsabilidades e se empenhem na busca de soluções concretas para fazer face às eventuais lacunas que todos conhecem nos domínios da saúde, da habitação, do emprego, da proteção e integração da terceira idade no tecido social das pequenas e grandes comunidades.

  1. No domínio da saúde, um dos que mais afeta a esperança média de vida, o executivo anunciou recentemente a constituição de uma Comissão para analisar o plano funcional de reestruturação do HDES, como se daí adviesse melhoria imediata para os cuidados de saúde. Todavia, até agora, não houve resposta à sugestão feita e aceite em tempos pelo Presidente do Governo para se criar um Centro hospitalar Faial-Pico e assim facilitar a vida dos picoenses que diariamente têm de atravessar o canal para uma simples consulta ou um exame.
    Neste tempo de campanha, era imperioso que os candidatos aos órgãos de poder local se pronunciassem igualmente sobre o PLANO REGIONAL PARA A INCLUSÃO SOCIAL E A CIDADANIA (PRISC) 2025-2028. Ainda não o vi discutido nas cinco vertentes estratégicas: rendimento, educação e formação, trabalho, habitação e saúde, embora ele vise “Diminuir a pobreza monetária em 40% na Região Autónoma dos Açores de 2025 a 2028, com uma redução anual de 10%.”
    Desconheço até se o documento, sujeito a debate público, já foi implementado. Dado o espaço temporal que o limita e as graves situações socioeconómicas que ele se propõe resolver, impunha-se que os candidatos se pronunciassem publicamente sobre como participar na sua implementação para se atingir os objetivos preconizados.
  2. Os recentes debates televisivos são indicadores de que não há propostas inovadoras nos programas eleitorais. São mais do mesmo: alcatroar uns caminhos aqui, mais uma piscina ali, um bairro habitacional além, e pouco mais que o orçamento é curto, tal como as ideias.
    Que novas respostas dão os futuros autarcas das Juntas de freguesia e das Câmara aos jovens que entram no mercado do trabalho com mais competências? Que solução defendem para debelar a solidão dos idosos, encorajá-los para uma velhice ativa e para melhorar a prestação dos cuidados de saúde? Que futuro pretendem construir os autarcas em concelhos desertificados, envelhecidos, imobilizados, isolados de uma sociedade que os exclui sistematicamente e os impede de poder gerir em segurança e facilmente as suas poupanças?
    Os temas que preocupam o cidadão destas ilhas, quase cinquenta anos após a instalação do regime autonómico, vão muito além da realização de obras públicas.
    Tal como revelou um recente inquérito à população da UE, as questões da saúde e da educação estão no topo das preocupações, pelo que não dar resposta satisfatória a esses problemas afasta os cidadãos da participação cívica e do sistema democráticos.
    Há cada vez mais necessidade de refletir sobre o nosso futuro, devido aos constrangimentos demográficos que se anunciam e de encontrar novas respostas e novos rumos para um mundo em permanente instabilidade e mudança de paradigma.

José Gabriel Ávila *

*Jornalista c.p.239 A
http://escritemdia.blogspot.com

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