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Será desta?

“Perante esta situação da necessidade de reunir as partes em negociação,
parece-me que o assunto urgente e definitivo a tratar vai ser a decisão assumida
pelos trabalhadores. Que mais poderá ser? O governo regional já lhes deu tudo, para ter alguém que compre a empresa pública.”

Como era de esperar, hoje estamos no mesmo ponto no que respeita à decisão acerca da privatização da Azores Airlines. Digamos que se fosse um jogo de crianças – há jogos para estes que parecem, em minha opinião, jogados mais seriamente – voltávamos à casa zero e reiniciávamos o jogo. Claro que sem prejuízo, mesmo de imagem, para os intervenientes.
Só que nesta situação cada dia que passa sobre as prováveis datas de encerramento e decisão da privatização acarreta uma imagem demasiadamente pesada para quem criou este grupo de trabalho, pela escolha dos seus componentes e decidiu com conhecimento de causa marcar a data de finalização dos trabalhos com a apresentação dos resultados e possível indicação do vencedor.
Mas o consórcio concorrente à privatização da Azores Airlines, após inúmeros meses de negociações, decide solicitar ao governo regional mais uns dias para poder (re)negociar o assunto, de modo a tomar uma decisão. Presumo que a aceitação desta alteração tenha sido do presidente do governo regional e não das duas tutelas da empresa pública, dada a importância do assunto em causa.
Foi sem dúvida a “reuniãozita” com José Bolieiro que permitiu satisfazer o pedido do presidente da comissão de avaliação e para a marcação para o passado dia 7, tendo como objetivo juntar as partes interessadas na decisão final, como noticiado. Por incrível que se pudesse imaginar a reunião foi novamente adiada para dia 13, denotando – quanto a mim – que existe alguma dificuldade de entendimento entre os intervenientes.
Dada a importância do assunto em causa, a justificação de falta de oportunidade para o agendamento de um reunião parece-me uma desculpa um tanto ou quanto esfarrapada, como se costuma dizer.
Seria interessante, para não dizer obrigatório, que José Bolieiro presidente do governo regional providenciasse uma entrevista ou um ponto da situação com a comunicação social de modo aos açorianos, que são quem sustenta as empresas públicas com os seus impostos (o dinheiro não é do governo regional), conhecerem o que se passou para que se marcasse mais duas prováveis reuniões. Digo “prováveis” porque se a primeira reunião foi adiada, nada garante que a segunda não venha a ter o mesmo resultado.
Perante esta situação da necessidade de reunir as partes em negociação, parece-me que o assunto urgente e definitivo a tratar vai ser a decisão assumida pelos trabalhadores. Que mais poderá ser? O governo regional já lhes deu tudo, para ter alguém que compre a empresa pública. Está como uma pobre noiva, que na incerteza, espera expetante que o noivo não se arrependa no altar e considerando o dote, diga “sim”.
Sejamos objetivos! Não fora o consórcio em contato com os trabalhadores da Azores Airlines ter solicitado aos mesmos baixar o valor da massa salarial anual por eles usufruída e quase de certeza a decisão de adquirir a empresa pública pelo consórcio já estaria tomada e tudo correria lindamente. E aí está o busílis da questão.
O solicitado aos trabalhadores da companhia aérea, que recusaram, e segundo os responsáveis negociais deram origem a um “conflito” criando um anticorpos para quem, tendo a hipótese de adquirir uma empresa sem dividas, quer igualmente a enorme benesse de uma massa salarial menor.
De um modo simples: aquilo que a Newtour/MSAviation beneficia na aquisição da empresa passa a ser da responsabilidade de todos os residentes na Região – que nada têm a ver com a má (ou terá sido péssima?) gestão dos conselhos de administração da empresa e/ou do governo regional – e quer beneficiar ainda do efeito de redução salarial à custa dos trabalhadores. Nesta ótica os trabalhadores serão duplamente penalizados: como residentes e como trabalhadores.
No palco deste negócio de privatização, na boca de cena, surge mais um interveniente.
Carlos Tavares, ex-líder de um dos maiores fabricantes de automóveis, que também faz parte do consórcio decide falar à comunicação regional. Não afirma nada de novo mas confirma que o negócio só se concretizará se houver um acordo com os trabalhadores da empresa e se o passivo/dívida da empresa for excluído e assumido pelo governo regional.
Pondo o ónus da decisão do consórcio nos trabalhadores, afirma que “se os empregados não quiserem salvar a sua própria empresa, também têm a capacidade, autoridade, para destruir” a mesma. Autoridade? Dada por quem?
Reafirma, como “quem sabe” que para o negócio se fazer os novos donos têm que ter uma “mochila que não está carregada de passivo e fazer isso com os trabalhadores”.
Lindo! E nós residentes nos Açores, entre os quais incluo os trabalhadores, vamos levar às costas durante anos e de certo transmitir aos nossos descendentes, aquilo que estes senhores acham ser os pontos negativos do negócio. Haja costas para tal!
É Carlos Tavares que afirma que a “empresa é pequena” mas tem “400 milhões de euros de receita, 10 aviões, 1,5 milhões de passageiros e hub em Ponta Delgada”. E tudo isto e as benesses oferecidas pelo governo regional só vai custar 15 milhões de euros ao consórcio? Como se fazem estas avaliações, se nem as dívidas da empresa são consideradas?
No entretanto surge-me uma pergunta de leigo, possivelmente mal informado: como está a situação do A330 “Cachalote”, sabendo-se que a Sata, através da Azores Airlines já foi condenada a pagar 2,7 milhões de euros à Hi Fly e o ministério público investiga alguns intervenientes no processo de leasing do avião e não há ainda decisões. Espantoso mas ninguém fala disto.
Diz-se que o custo total estimado associado a este negócio poderá atingir os 50 milhões de euros. “Isto” ainda vai sobrecarregar mais a tal “mochila” referida por Carlos Tavares? Não será antes um “barril”, como aqueles que no passado nos enviavam das américas, em vez de uma “mochila”?
Possivelmente durante o dia de amanhã teremos uma surpresa, com o governo regional a publicitar qual foi a decisão tomada durante a reunião entre as partes envolvidas na privatização da Azores Airlines. Quer seja “sim” ou “não” a decisão, tenho quase a certeza que muito se irá ainda passar, nomeadamente na escassez de tempo para tratar da “venda direta” e da privatização do handling, de acordo com as determinações comunitárias.
Um “nim” também será possível se decidirem marcar uma terceira reunião.

J. Rosa Nunes
Prof. Doutor

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