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Algumas notas avulsas sobre as autárquicas

Uma primeira nota foi a autêntica vitória de pirro, tanto nos Açores como no País, do partido da extrema-direita portuguesa que dá pelo nome de Chega. Um sinal de que o seu caminho para a rápida e autoanunciada tomada do poder, alimentada pelos resultados eleitorais do passado recente, levou agora um valente trompicão. O poleiro e o cantar de alto a que se estavam acostumando, viram-se repentinamente obrigados a baixar de altura e a piar mais fininho…Muitos dos milhares de votos previamente anunciados como adquiridos pelo seu líder nacional, que agora se apresentou visivelmente cabisbaixo, afinal não chegaram a sair da casa da mãe (o PSD), ficando-se o seu partido pela conquista de 3 Câmaras Municipais, muito atrás da CDU (que conquistou 12), situação que, aliás, com o seu habitual desaforo de linguagem, tinha afirmado que seria “impensável” que viesse a acontecer!
Mas nem por isso este partido da extrema-direita deixou de fazer estragos. Pela preciosa ajuda de uns escassos 12 votos “úteis” (???), de entre aqueles que, cedendo à chantagem, saíram da CDU para se entregarem à coligação de Alexandra Leitão (PS/Livre/BE/PAN), a CDU de João Ferreira, que até cresceu em número de votos, não ficou à frente do Chega em Lisboa, tendo mesmo, com essa quase ridícula diferença eleitoral, perdido para a extrema-direita a eleição do seu segundo vereador.
Mas não foi só o azar, como no caso anterior, que bateu à porta da CDU. Aqui transcrevemos, para juízo do leitor, uma notícia da “Antena 1” lida na manhã seguinte ao domingo eleitoral, no noticiário das 08,00h (07,00h nos Açores): “…em 1º lugar o PSD, com136 Câmaras, em 2º o PS, com 126 Câmaras, em 3º as listas de cidadãos, com 20, depois o CDS que conseguiu conquistar 6 e com o pior resultado de sempre a CDU, com 12…”
Porque não se continuou com o 4º e o 5º e se puseram 6 Câmaras do CDS a valer mais que 12 da CDU? E porque não se comentaram os outros resultados, mas se acompanhou o resultado da CDU com um comentário depreciativo? Esta notícia, tal como foi redigida pelo editorialista e lida numa rádio pública prestigiada, parece francamente tendenciosa e com falta de rigor, visando propositadamente a desvalorização e o tratamento discriminatório negativo de uma força política em particular: a CDU…” Se fosse, ainda vá, mas não foi infelizmente um caso isolado e antes vai assumindo foros de uma norma de comportamento editorial depreciativo frequentemente utilizada em relação à CDU e ao PCP. E, queira-se ou não, sem qualquer legitimidade, este facto acaba mesmo por provocar, em maior ou menor grau, mossa nos resultados destas forças políticas, mais do que se simples e objetivamente os refletisse tal como acontecem. São já hoje indesmentíveis as múltiplas vezes em que, de forma enganosa, a comunicação social ou os seus comentadores de serviço prenunciaram o desaparecimento do PCP e da CDU…
Nos Açores, relevo para as entradas de leão de duas listas concelhias de Cidadãos Eleitores (Santa Cruz das Flores e Ponta Delgada) ambas oriundas de divergências pessoais internas com o PS e a queda de uma outra em S. Jorge (Calheta), oriunda de divergências pessoais internas com o PSD. Quanto à CDU, com exceção dos do Faial, S. Jorge e Santa Maria, os resultados eleitorais foram bastante modestos. Mas, para além da sua análise crítica interna, como se imporá fazer, outras exigências políticas que não as eleitorais, tal como a luta previsível e necessária contra as reformas laborais que a direita no poder (PSD/CDS), aliada com o IL e o Chega, pretendem impor aos trabalhadores e aos portugueses em geral, determinam que a ação das forças (verdadeiramente) de esquerda no país não se trave apenas no campo eleitoral e prossiga também sob outras formas, porque ela é indispensável para barrar o caminho do retrocesso que tais reformas nos forçariam a percorrer caso viessem a ser aprovadas na Assembleia da República.

Mário Abrantes

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