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Quando o silêncio da osteoporose se torna um problema de saúde pública

Há vários desafios no tratamento da osteoporose em Portugal: não só existe um subdiagnóstico, ou seja, muitas pessoas com osteoporose desconhecem que têm a doença, frequentemente porque os médicos não consideram esta hipótese, como há também muitos que, apesar de diagnosticados e de terem realizado densitometria óssea, não iniciam tratamento devido a hesitações que, muitas vezes, não têm fundamento.
Há ainda um terceiro grupo de doentes, composto por aqueles que têm diagnóstico, a quem foi prescrito o tratamento, mas que não o cumprem. De facto, a adesão terapêutica na osteoporose é baixa, porque estamos a falar de uma doença silenciosa, em que os doentes não sentem o real benefício dos fármacos, pelo menos no curto prazo, o que compromete a sua motivação para manterem o tratamento.
Esta situação remete-nos para outra questão essencial: o reduzido nível de literacia sobre a doença na população em geral. Existe uma ideia errada de que a osteoporose se manifesta através de dor quando, na realidade, trata-se de uma doença assintomática que apenas causa dor na presença de uma fratura.
Estes dados revelam que muitos desconhecem o que é a osteoporose e, mesmo quando conhecem, tendem a desvalorizar a doença porque a consideram uma fatalidade associada ao envelhecimento, assumindo que é normal, à medida que envelhecemos, ter os ossos mais frágeis e sofrer fraturas. Mas não é normal: não é normal uma senhora com 75 anos fraturar a anca e ficar dependente de uma cadeira de rodas e não é normal uma mulher de 65 anos sofrer uma fratura vertebral.
Quanto aos médicos de medicina geral e familiar, que constituem a porta de entrada destes doentes no sistema de saúde e que os acompanham, o problema não reside no desconhecimento sobre a osteoporose ou as suas consequências, mas sim o facto de colocarem a doença no fim da lista de prioridades nas consultas. No entanto, a abordagem da osteoporose é tão simples que deveria merecer outra posição.
Afinal, estamos a falar de mais de 600 mil pessoas em Portugal com a doença, grande parte delas com risco de fratura e grande parte delas também que, se fossem tratadas, iriam evitar ter essa fratura.
É verdade que existem outras doenças preocupantes, como as cardiovasculares ou o cancro, mas existe uma ferramenta de uso clínico, o FRAX, que permite avaliar rapidamente o risco real de um doente vir a sofrer uma fratura. E o seu preenchimento não demora mais do que 30 ou 60 segundos, pelo que é fundamental promover a sua utilização sistemática.
Até porque, apesar de a osteoporose ser uma doença reumática, o que a coloca no âmbito da reumatologia, quando falamos de um problema que impacta tantas pessoas em Portugal como este, não é viável que a reumatologia acompanhe todos os doentes, pelo que o papel do reumatologista, no contexto da osteoporose, está mais relacionado com o apoio a situações em que o médico de família tenha dúvidas ou necessite de orientação especializada.
Acabamos por ser aqueles médicos de última linha no tratamento da osteoporose, ou seja, somos o garante que, no caso de haver dúvidas da medicina geral e familiar, tentaremos encontrar o melhor tratamento e a abordagem mais adequada para cada doente. Refiro-me, por exemplo, aos doentes mais graves, com risco muito elevado de fratura.
Quando se fala de osteoporose, é também importante referir que existem muitas opções terapêuticas com eficácia comprovada na prevenção de fraturas, que é o grande objetivo do tratamento. Vale a pena tratar, vale a pena investir e vale a pena propor aos doentes que cumpram o tratamento, explicando-lhes o seu real benefício.
Depois, existem ainda medidas muito fáceis, não farmacológicas, que devemos adotar desde tenra idade, como garantir um aporte cálcio de mais ou menos de 1000 a 1200 mg por dia, algo relativamente fácil com o leite e os seus derivados, bastando dois copos de leite por dia. No entanto, como muitas pessoas abandonaram o consumo de lácteos, devem procurar fontes alternativas.
É igualmente essencial a vitamina D, obtida através da exposição solar ou de suplementação, assim como todas as medidas que implicam a prevenção de quedas, nomeadamente em casa e, muito importante ainda, a prática de exercício físico em carga. E isto não implica irmos para o ginásio gastar imenso dinheiro: a partir dos 60 anos, uma simples caminhada de 40 minutos por dia é muito importante para ganhar massa óssea e uma medida relativamente simples e acessível a todos nós.
A realidade é que a osteoporose é uma doença demasiado importante, demasiado impactante na vida de quem dela sofre para a ignorar ou a considerar um problema exclusivo dos mais velhos. Havendo medidas de eficácia comprovada para o prevenir, temos de as adotar, temos de as conhecer e não podemos continuar a desvalorizar um problema que afeta mais de 600 mil portugueses.

Tiago Meirinhos*

*Médico reumatologista

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