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COP30: Blue Azores será apresentado como inspiração para muitos países

Entre 13 e 14 de outubro, realizou-se em Brasília, capital federal do Brasil, a Pré-COP30,Reunião Ministerial Preparatória para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30). O encontro reuniu os principais negociadores e líderes de 67 países. Nesta entrevista exclusiva, a Enviada Especial para os Oceanos, Marinez Scherer, mostrou-se satisfeita com a resposta dos Açores ao seu convite e está confiante que essa participação será uma das mais relevantes.

“Os oceanos estão a ser usados na sua totalidade no planeta, ainda sem organização”, constata Marinez Scherer, ainda que esteja em vigor um acordo mundial que estabelece regras para a conservação e uso sustentável da biodiversidade marinha em águas internacionais (alto-mar), que não pertencem a nenhum país. A economia azul, que se baseia em tudo que o mar provê de maneira justa e sustentável, é uma mudança crítica sobre a forma como opera a economia marinha hoje. Essa uma das razões dos trabalhos terem como foco as áreas protegidas, planeamento espacial marinho, gestão costeira integrada e planos-clima. A agenda acontecerá na Blue Zone e tem como meta agilizar o consenso e a ação conjunta imediata, por meio do conhecimento de casos de sucesso e soluções internacionais de impacto, como o Programa Blue Azores.

Açores participam do debate
como exemplo

O Programa Blue Azores vai estar em evidência já na primeira semana da COP30, com representantes do Governo e da Fundação Oceano Azul. A relação entre Açores e Marinez Scherer vem de antes da COP30.
Marinez Scherer é fundadora e mentora do Instituto Ambientes em Rede, é bióloga e professora universitária e foi convidada para ser uma das 20 enviadas especiais setoriais para a preparação da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que acontecerá em novembro, em Belém (PA).
Marinez representará o sector dos oceanos, contribuindo directamente para fortalecer a pauta marinha na agenda climática global.
Em 2019, teve a oportunidade de conhecer o arquipélago, os seus investigadores e as similaridades de uso de ferramentas utilizadas nos Açores e no Brasil para planeamento participativo. Ao ser questionada sobre instituições a serem convidadas para a conferência do clima, não teve dúvidas em recomendar o Blue Azores, que está é membro da organização Ocean Breaktroughs, que congrega os principais actores que se ocupam dos cinco pilares fundamentais da ciência na área: conservação marinha, energia renovável oceânica, transporte marítimo, alimentos marinhos e turismo costeiro.

“Pude conhecer o Blue Azores e comecei a entender a relação do Governo dos Açores com a Fundação Oceano Azul e o Instituto Wyatt, dos Estados Unidos, que é uma filantropia. Nesse processo é muito bom ver essa parceria de trazer doadores, fundações e vontade política. Os Açores fizeram estudos para identificar as áreas prioritárias e estão a conservar essas áreas. Estão fazendo um ótimo trabalho”.

A COP30 quer ser a montra
de um mar de gente que faz
acontecer

A Presidência da COP30 inovou ao nomear enviados especiais para ajudar na mobilização e organização das propostas e, sobretudo, criou um vínculo efectivo entre a sociedade em geral e a conferência. Com Marina Scherer, ao todo, são vinte e dois enviados especiais brasileiros e sete internacionais, que formam essa caixa de ressonância, responsável pela conexão com o governo, academia, organizações não-governamentais, empresas e todos os envolvidos na temática clima-oceanos. Segundo Scherer “são inúmeras as iniciativas, no entanto a COP30 tem uma estrutura bastante formal de participação e parte de sua missão é furar a bolha”, ou seja, trazer à tona o máximo de soluções assertivas e até então desconhecidas. Scherer acredita que ainda falta muita comunicação, educação e convencimento sobre a centralidade da atividade marinha na vida humana. “É que nós não mora mos no oceano. Só vemos que é vasto e enorme mas muita coisa está a acontecer lá”, declara.

“Meu sonho é que o oceano esteja no mesmo nível de discussão que florestas e energia. A minha surpresa é não estar ainda. É o principal regulador climático, 90% do calor da terra é o oceano que absorve. É o oceano que absorve pelo menos um quarto do carbono.”

Mutirão Azul recebe projectos
de toda a sociedade

Sob a sua liderança, foi lançada a plataforma digital Mutirão Azul, em que qualquer cidadão, organização não governamental, instituição, empresa ou outra pode inscrever um projecto que já tenha sido posto em prática ou esteja em andamento. Seja uma nova política, ou conhecimento tecnológico, modelo de financiamento ou uma iniciativa comunitária, a intenção é deixar esse espaço aberto até mesmo depois da COP30. A entrega final será um dossiê para a Presidência da COP e COP31, consolidando as diversas acções que necessitem de aceleração para ganhar escala e fazer diferença pelo futuro dos mares e oceanos. Scherer enaltece que algumas dessas inscrições apontam para inovação e para a biotecnologia.

“Para o oceano ser nosso aliado no combate às mudanças do clima, precisamos ter os ecossistemas costeiros e os oceanos saudáveis. E para isso, precisamos de muita gestão, governança, gestão inclusiva, com base ecossistêmica e com planejamento.”

Aceleração em diversas frentes

Cada um dos 30 objectivos da COP tem um grupo de activação, formado maioritariamente por organizações e iniciativas em nível global, não governamentais e privadas, como a Climate Champions, Marrakech Partnership, Ocean Breakthrough, entre outras. No Brasil, a novidade é que esses grupos também terão a presença dos ministérios contribuindo força nessa tarefa. “Vamos trabalhar com o que já está sendo feito e o que precisa de ser acelerado, de financiamento ou de capacitação, ou que precisa de comunicação”, afirma Scherer, orientada pela premissa de que esta é a COP da implementação.

“Mesmo que as iniciativas identificadas sejam de âmbito local ou em pequenas ONGs, existe a vontade de ajudar. Estamos desenhando um plano de aceleração. Ainda que tudo isso não dependa exclusivamente de nós, qual foi a ideia: abrir essa porta. Quem quiser falar, tem a chance.”

Investimento do bem

O grupo de activação tem conversado com doadores e com filantropos no sentido de captar o investimento necessário, que é tão grande quanto os oceanos. “É preciso restaurar manguezais, restaurar corais, melhorar a vulnerabilidade das áreas costeiras frente a eventos extremos e, o que é mais caro, descarbonizar as frotas de navegação, levar para o oceano as energias renováveis e tudo isso de forma justa, para não atropelar, não deslocar os modos de vidas das populações tradicionais. E como incluir essas pessoas, as populações tradicionais e indígenas nos processos de decisão?”. Esta é uma equação nada simples a ser enfrentada junto aos diversos interesses, tendo a ética com o maior peso.

Ecoar as vozes do oceano

A Blue Zone contará como Pavilhão dos Oceanos, dominado pelo meio acadêmico-científico, com apoio dos governos do Brasil e do Pará. No entanto, em toda a Green Zone, pavilhões de organizações não governamentais tratarão do assunto. Serão diversas actividades simultâneas. Da programação aberta, dedicada aos diversos públicos, a “Casa Vozes do Oceano” ocupará um tradicional ponto turístico em Belém, a “Casa das Onze Janelas”, casario da indústria da cana de açúcar, do século XVIII. No começo do ano, a UNESCO lançou esse guia e kit para consciencialização e intercâmbio de conhecimentos e a relação entre a vida humana e oceanos, até para os que não vivem nas regiões costeiras. Também em 2025, reconheceu o Brasil como o primeiro país a se comprometer oficialmente com o “Currículo Azul”, em que estudantes serão instruídos para a protecção e conservação desde a infância. As mulheres também estarão em destaque, representadas pela primeira-dama do Brasil, Janja Lula da Silva, como porta-voz e Liga das Mulheres pelos Oceanos, entre outras organizações que lidam com as questões de gênero no segmento.

“Ele (o oceano) está aguentando, mas já estamos com processos de acidificação pela quantidade de carbono que está sendo absorvido. O aquecimento começa a mudar as espécies, as correntes. É um longo processo, mas se não cuidarmos dos oceanos, não tem vida na terra.”

Marinez Scherer é bióloga, professora e coordenadora do Laboratório de Gestão Costeira Integrada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). É Doutora em Ciências do Mar pela Universidade de Cadiz, Espanha. De 2023 a 2024, participou do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil, como Coordenadora-Geral de Gerenciamento Costeiro e Planejamento Espacial Marinho no Departamento de Oceano e Gestão Costeira da Secretaria Nacional de Mudança do Clima. Scherer se declara uma mulher do mar, com o qual mantém uma relação indissociável de sua vida, com direito a muitas braçadas onde reside, em Florianópolis, capital de Santa Catarina, considerada carinhosamente como a 10ª Ilha dos Açores.
O workshop foi conduzido Ana Tonie mesa de abertura oficial mediada pelo economista e diplomata André Corrêa do Lago, respectivamente directora-executiva e presidente da COP30. Marcaram presença autoridades locais e internacionais, como o Vice Presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, a Ministra do Meio Ambiente e do Clima, Marina Silva, a Ministra para os Povos Indígenas, Sônia Guajajara e do secretário-executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), Simon Stiell.
Acompanhe a COP30 com Marisa Furtado, correspondente exclusiva do Diário dos Açores, no Brasil.

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