No Reino dos Açores, Sua Alteza José Manuel Bolieiro decidiu que, em 2026, a corte experimentará a grandiosa invenção da semana de quatro dias de labor. Ouviram-se vivas ao Rei e ergueram-se copos à saúde da realeza laboral. Ser monarca, porém, não é ofício de almofada; é preciso agradar à corte primeiro e, depois, distribuir pequenas migalhas douradas à plebe, mantendo o brilho do trono.
A semana de quatro dias é, sem dúvida, uma jóia de governação, medida popularíssima que animará a corte e o reino. É uma medida experimental, que acabará em definitiva e terá, no futuro, de ser alargar a toda a administração pública, bem como ao sector privado, por uma questão de justiça social e por pressão sindical.
Faltou, contudo, ao Rei, explicar como pretende conjugar a música do descanso com a partitura do serviço. Começa como uma experiência-piloto, depois um édito régio promulga a vontade real e, por fim, uma lei universal do reino estenderá a medida a todo o Feudo.
Contas feitas, para repor o quinto dia evaporado, haverá incumbência de contratar legiões de servidores: médicos e enfermeiros para os hospitais, professores e auxiliares para as escolas, estivadores para os portos e todos pagos com o ouro do erário. Espera-se, pois, que o monarca tenha já descoberto uma mina nas Sete Cidades.
E quando a luminosa ideia for coroada em decreto real, a plebe dará vivas ao Rei. Contudo, os artesãos e os burgueses irão sentir as consequências. Na restauração, novos criados e cozinheiros terão de ser contratados, fazendo erguer-se também os preços. Nos mercados e hipermercados, mais mãos para menos dias e os preços dos produtos subirão à altura dos anjos, para fazer face aos encargos com mais servos contratados. A grandiosa medida do monarca terá futuro pestilento, fazendo disparar os preços e sufocando a plebe, que fome já passa, com tantos impostos e custos altos.
Assim caminha o reino para o repouso celestial. E eu, humilde Conde da Musgueira, recordo ao soberano as sábias palavras do Eclesiastes: “Melhor é o fim das coisas do que o princípio delas, e o paciente de espírito é melhor do que o altivo de coração.”
Conde da Musgueira*
- Capitão Donatário da Bananalândia
*Membro da Ordem dos Insurgentes
Rubrica satírica