A Rua da Piedade, nos Arrifes, parece ambicionar ser autoestrada. Tem corpo de viela, traços de atalho e ilusões de grandeza. Todos os dias, camiões e autocarros atravessam este estreito trecho da freguesia com a confiança de um avião a levantar voo na aerogare Nuno Bettencourt. Não conheço bem as marcas dos camiões mais vendidos na ilha, mas se tivesse de adivinhar diria que eram Roça Fachadas GTI.
Caro leitor, tanto você como eu sabemos que a Rua da Piedade não é um caso único. O problema repete-se em toda a ilha. Vivemos num arquipélago onde as vias requerem que o volante seja usado em legitima defesa. De manhã, o desfile sempre acontece: centenas, talvez milhares, de viaturas “descem” os Arrifes, onde vive uma parte considerável dos habitantes de Ponta Delgada. Todos convergem por duas veias capilares: Rua da Piedade e Rua da Saúde. São o funil do concelho, duas artérias que, num país civilizado, jamais seriam consideradas de duplo sentido. Nem num ataque súbito de delírio administrativo. Se a isto juntarmos um trânsito diário de dezenas de camiões, carregados de inércia que custa a ser travada, condutores de automóveis que aceleram para lá do considerado criminoso, estamos perante um problema que exige ação imediata. A população da nossa ilha não tem de aceitar que as estradas que dão acesso às suas habitações sejam verdadeiras armadilhas, pondo em risco diariamente quem simplesmente tenta sair de casa. Capelas, Fajã de Baixo, Relva… São Miguel está cheio destas ruas projetadas para carroças, mas usadas por camiões TIR.
Não cabem dois carros na Rua da Piedade!
Nem cabem na da Saúde, nem em muitas outras ruas de São Miguel. A entrada da Piedade tem 4.60 metros de largura. Acredite, caro leitor, eu próprio medi, arriscando a vida, fita métrica na mão tal qual um “Indiana Jones” dos Arrifes. Um camião médio, com espelhos, vai aos 2,8-3 metros de largura, e até pode achar que não sou grande coisa a matemática, mas garanto-lhe que 3+3 não são 4,60. Nem lá perto. Por agora, caro leitor, já deve desconfiar que sou habitante de alguma zona entre o início e o fim da rua em questão. Não é verdade que isso é mentira! Mas, por favor, não retire nobreza à minha clamação pública. É um protesto público à absurda impossibilidade geométrica que continua a passar por “planeamento urbano”. Já vi um camião a raspar numa casa. Literalmente a raspar. Levou consigo a tinta, um pedaço de reboco e continuou como se fosse natural. Várias vezes, ao tentar colocar o meu filho na cadeirinha pelo lado da rua, levei com apitadelas de utentes da viela, indignados com a minha ousadia em abrir a porta do carro, interrompendo o trânsito da autoestrada de 4,4 metros de largura.
Há, contudo, soluções e algumas melhorias já foram efetuadas aqui na ilha. Começam a surgir ruas de sentido único, libertando espaço para passeios decentes, onde um peão pode circular sem arriscar uma carga de ombro de uma viatura. A maioria de nós certamente se recorda do caso de São Roque, que em tempos foi o ponto de ligação entre Ponta delgada e o lado Este da ilha. Hoje, a freguesia foi devolvida aos seus habitantes. Os peões voltaram a existir, as portas voltaram a abrir-se sem medo, e até já se observam pessoas a empurrar um carrinho de bebé sem precisar de rezar antes um Ave-Maria.
Nos Arrifes, a solução (na minha opinião) é simples, e o impacto seria imediato e mensurável para uma boa parte da população de Ponta Delgada. Em primeiro lugar, é urgente melhorar o acesso entre a parte superior da freguesia e a via rápida “Capelas- Ponta Delgada”. A abertura desta via aliviaria significativamente o trânsito local. Neste momento, essa ligação (entre a travessa da Piedade e a via rápida) é feita pela Rua da Grotinha, onde mal cabe um carro e que, para espanto de quem a atravessa, é também de dois sentidos. De Seguida, seria essencial ligar a Rua da Piedade à Rua da Saúde a meio percurso, criando um eixo de ligação que permitisse transformar ambas em sentido único alternado. Desta forma, metade de cada rua seria de entrada, a outra de saída. Simples, seguro e eficaz, que acabaria de vez com o cruzamento impossível e os duelos de retrovisores.
Faça este exercício comigo, caro leitor:
Para além de devolverem aos habitantes dos Arrifes segurança, cada um dos 8 mil habitantes ganharia, digamos, 4 minutos diários na comuta. Parece pouco? Vamos multiplicar. São trinta e dois mil minutos por dia devolvidos à freguesia. Em apenas uma semana, seriam 224 mil minutos, ou 155 dias de vida comunitária poupados. Num ano, essa poupança ascenderia a 11,6 milhões de minutos, o que se traduz em cerca de 22 anos comunitários devolvidos à população, só em tempo perdido no trânsito homicida dos arrifes.
Por favor, não se agarre à calculadora! Apesar das contas estarem (mais ou menos) certas, estou apenas a ser hiperbólico. Mas acho que a mensagem passa. Entre esses dias todos poupados, imagino que se pudesse usar até um deles para votar em quem decida finalmente fazer alguma coisa…
Philip San-Bento Pontes