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Entre Luz e Horizonte: Pontes de Futuro entre Portugal e os Estados Unidos

Há nascimentos que acontecem em silêncio, como quem lança uma semente ao vento, confiando que o tempo fará o resto. Assim nasceu, em 1985, a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento — não apenas de um decreto, mas de uma obra de fé no poder do encontro. Surgiu num tempo em que Portugal e os Estados Unidos, aliados antigos, procuravam renovar o seu pacto de confiança e amizade. Fruto direto do Acordo de Cooperação e Defesa de 1983, que garantiu a permanência norte-americana nas Lajes, na ilha Terceira, nos Açores, a Fundação nasceu de um gesto simbólico e visionário: transformar a presença estratégica em cooperação cultural, científica e humana, converter o que era apenas base militar em base de conhecimento, diálogo e futuro.
Mas a FLAD nasceu também de algo mais profundo — do pulsar invisível da diáspora portuguesa, que ao longo de séculos tem sido ponte viva entre as margens do Atlântico. Nos Estados Unidos, essa diáspora é força política, económica, cultural e social; é comunidade que trabalha, representa, cria, preserva e transforma. É ela que prolonga o país na distância, fazendo de cada açoriano, madeirense ou continental emigrado um embaixador de identidade e de esperança. A FLAD compreende que Portugal não termina no continente nem nos arquipélagos, mas continua onde vivem os seus descendentes — nas cidades da Nova Inglaterra, na Califórnia, em New Jersey, no Havai, na Flórida, em Massachusetts —, lugares onde o português se mistura com o inglês e onde a saudade se traduz em ação. Por isso, ao longo de quatro décadas, a Fundação tem apostado em projetos que honram o passado e criam horizontes, transformando a memória em energia criadora, o vínculo em visão. A FLAD entende a diáspora não como herança estática, mas como laboratório vivo de futuros possíveis — um corpo que pensa e sente Portugal enquanto o reinventa todos os dias.
Desde 1985, a FLAD tem sido uma força constante do Atlântico — uma conversa que não se interrompe entre Portugal e os Estados Unidos, feita de ciência e arte, de educação e visão política. Dotada de um capital inicial de 85 milhões de euros, a Fundação nasceu portuguesa e privada, mas com vocação pública e universal: contribuir para o desenvolvimento nacional através da cooperação científica, técnica, cultural, educativa, comercial e empresarial entre os dois países.
A sua criação coincidiu com um tempo em que Portugal, recém-saído da transição democrática, reafirmava o seu lugar no mundo. Após a adesão ao Plano Marshall em 1948 e à fundação da NATO em 1949, a nação procurava novos horizontes. A FLAD representou essa nova etapa — o momento em que a diplomacia se transformou em partilha de saberes e em que o Atlântico passou a ser visto não como obstáculo, mas como método de trabalho.
Quarenta anos depois, a sua missão mantém-se luminosa e clara: promover o desenvolvimento de Portugal, dos portugueses e das comunidades luso-descendentes através da cooperação com os Estados Unidos da América. Uma missão que se cumpre através de quatro grandes pilares — Ciência e Tecnologia, Educação, Arte e Cultura, e Relações Transatlânticas —, campos onde a Fundação tem afirmado o talento português e a vocação universal de um país que aprendeu a projetar-se sem perder as suas raízes.
A FLAD é uma ponte ponderada e determinante. Não é uma fundação de gestos efémeros, mas de resultados que permanecem. Bolsas de estudo, programas académicos, residências artísticas, conferências e redes de inovação são as colunas invisíveis que sustentam a sua obra. É ali, entre o visível e o silencioso, que Portugal encontra novas formas de existir no mundo — e de dialogar com ele.
Sob a presidência de Nuno Morais Sarmento, a FLAD entrou numa nova etapa de renovação e presença estratégica. Em poucos meses, o atual presidente uniu celebração e propósito, transformando as comemorações dos quarenta anos da Fundação num gesto de futuro. A atenção dada aos Açores, à realidade da diáspora portuguesa — sobretudo à açoriana nos Estados Unidos — reflete uma consciência profunda: a de que a identidade portuguesa não se esgota nas fronteiras geográficas, mas se prolonga nas comunidades que a vivem e reinventam todos os dias.
Entre os projetos de maior alcance recente, destaca-se a Cimeira das Cidades Irmãs, um sonho antigo agora tornado realidade. Esta cimeira simboliza o que a FLAD faz de melhor: criar pontes que se multiplicam em laços concretos, de cidade a cidade, de escola a escola, de universidade a universidade, de empresa a empresa. É um gesto de diplomacia transformadora, que pode vir a ser a peça essencial de uma nova arquitetura de proximidade entre Portugal e os Estados Unidos — um movimento contínuo de pessoas, ideias e afetos em torno da cultura, da educação, da indústria, do comércio, da tecnologia, da ciência e do desporto.
Essa é a diplomacia do século XXI: uma diplomacia de humanidade, feita de gestos pequenos e efeitos duradouros. Ao apostar nas pessoas, nas comunidades e nas instituições que as servem, a FLAD mostra que o desenvolvimento não é apenas económico, mas também cultural e social. E, ao fortalecer as comunidades luso-americanas, cumpre o desígnio de fazer da diáspora não apenas memória, mas força viva de criação e continuidade.
Membro do Centro Português de Fundações (CPF) e do Centro Europeu de Fundações (EFC), a FLAD é hoje reconhecida como uma das mais relevantes instituições portuguesas. Mas o seu verdadeiro prestígio não se mede por títulos: mede-se pela capacidade de escutar, de inspirar e de unir. Quer ser — e é — uma instituição acessível, moderna, humana e justa, aberta às ideias e projetos que fortalecem a relação entre Portugal e os Estados Unidos, com os Açores no coração da travessia.
Quarenta anos depois, a história da FLAD é também a história de um país que encontrou no Atlântico não só o alicerce da sua história, mas, sobretudo, a sua metáfora de futuro. É uma história de constância e metamorfose — de uma ponte que se recusa a ser apenas estrutura e prefere ser movimento.
E talvez seja essa a sua verdadeira lição: que a ponte mais duradoura não é a que se ergue sobre o mar, mas a que mantém o mar em diálogo eterno consigo próprio.
Enquanto houver mares a escutar e horizontes a imaginar, haverá FLAD, e haverá Portugal a acreditar que o futuro, tal como o Atlântico, só existe quando é partilhado.
Diniz Borges

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