A maioria de nós, açorianos, cresceu com a imagem quase mítica do padeiro, esse herói madrugador que, antes de o sol nascer, já anda de carrinha pelas ruas, distribuindo pão quente e esperança. “O padeiro é sempre o primeiro”, dizia-se lá em casa, entre o som do rádio e o cheiro a café acabado de fazer. E lá estava ele, pontual e fiel, a deixar o pão à porta, como se fosse o Pai Natal diário da nossa fome matinal.
Mas nem tudo o que parece pão fresco o é. O padeiro que vemos nas ruas, com o seu sorriso sonolento e o saco cheio de papo-secos, muitas vezes não é o verdadeiro padeiro. O verdadeiro, esse sim, é o artista anónimo que, de madrugada, entre farinha e forno, dá forma ao milagre do pão. Enquanto uns dormem, ele amassa, molda e coze. No fim, quem aparece com as honras é o outro, o que chega primeiro, o que se mostra, o que recolhe os louros.
E é aqui, caro leitor, que a metáfora começa a cozer. Porque também na política, essa padaria de promessas, há sempre um padeiro de ocasião. Chega com o pão quente das boas notícias, distribui sorrisos, corta fitas, posa para as fotografias e, claro, é o primeiro a recolher aplausos. No entanto, o verdadeiro padeiro ficou lá atrás, na sombra, a trabalhar sem que ninguém o veja, a garantir que há massa para cozer.
Nos Açores, esta figura do pseudo padeiro político é particularmente conhecida. Surge de repente, com ar de quem acabou de inventar o pão, e apressa-se a anunciar o que outros já prepararam pacientemente no forno das ideias e da ação. É aquele que aparece nas inaugurações, nos comunicados e nas redes sociais, sempre a tempo da fotografia, nunca a tempo da labuta. Gosta de fazer parecer que o pão é seu, quando, na verdade, limitou-se a conduzir a carrinha e a entregar o trabalho dos outros com um sorriso estratégico.
Há sempre um que domina a arte da aparência. Em certos gabinetes, ouve-se o tilintar das palavras “compromisso”, “mudança” e “proximidade”, mas o fermento da verdade raramente lá chega. É tudo instantâneo, como pão de pacote: parece bom, cheira bem, mas falta-lhe substância. O verdadeiro padeiro, o que se levanta cedo e enfrenta o calor do forno, raramente aparece. Prefere o silêncio do trabalho à música das câmaras.
Não é preciso grande esforço mental para perceber que o mundo está cheio desses distribuidores de pão alheio. Uns chamam-se políticos, outros gestores, outros ainda responsáveis de comunicação. Têm todos uma característica comum: aparecem sempre depois do trabalho feito, mas antes das palmas.
Em suma, o padeiro que chega primeiro nem sempre é o obreiro do pão. Às vezes é só o motorista da carrinha, o mensageiro de serviço, o arauto das boas notícias que se apressa a tocar a buzina do mérito alheio. E nós, com a nossa boa-fé açoriana, continuamos a agradecer-lhe o pão quente da manhã, esquecendo-nos de quem realmente o cozeu.
Tal como no mercado das padarias, também na política convém perceber quem tem a receita e quem apenas conduz a carrinha. Há uma hierarquia natural que deve ser respeitada, porque nem sempre o motorista é quem sabe lidar com o forno. E, no entanto, há quem insista em ser sempre o primeiro a aparecer com o pão quente das boas notícias, como se cada entrega fosse um gesto de salvação. No fundo, não passa de uma tentativa de reforçar a sua posição, confundindo protagonismo com trabalho e manchete com mérito.
Carlos Pinheiro