Durante muito tempo, pensou-se que a missão dos jornais era apenas contar o que aconteceu: registar os factos, transmitir as notícias, dar conta do mundo. Esta função informativa continua a ser essencial, sobretudo quando exercida com rigor, clareza e responsabilidade. Mas há uma outra missão, menos visível e talvez mais urgente, a de formar consciências, ajudar a pensar, a compreender, a participar. É a função pedagógica do jornalismo, que transforma o jornal num verdadeiro serviço público.
Informar é dizer que houve uma reunião na junta de freguesia. Mas formar explicar o que estava em causa, que decisões foram tomadas, como isso afeta a vida das pessoas. Quando um jornal local acompanha uma mudança nas regras da pesca artesanal, uma declaração errónea do governo, ou esclarece os impactos de uma nova medida de saúde pública, está a educar para a cidadania. Ajuda o leitor a entender o seu lugar no mundo, como quem oferece não apenas o mapa, mas também a bússola. Esta função formativa não se limita à transmissão de conhecimento técnico. Envolve também o cultivo da curiosidade, o estímulo à reflexão e o convite à participação. Um jornal que explica o que está por trás das decisões políticas, que contextualiza os fenómenos sociais e traduz os saberes especializados para uma linguagem acessível está a cumprir uma missão pedagógica, contribuindo para uma sociedade mais consciente, mais crítica e solidária.
Este tipo de jornalismo exige mais do que saber escrever. Requer formação, ética e escuta. O jornalista torna-se um intérprete entre o saber e o quotidiano, alguém que traduz o complexo sem simplificá-lo em demasia, que organiza o conhecimento para que seja útil e compreensível. Nos Açores, onde a realidade insular tem ritmos próprios e desafios específicos, esta função assume ainda mais importância. Explicar o que implicam as decisões governamentais, as alterações climáticas, ou as transformações culturais — tudo isto faz parte do trabalho jornalístico. Por vezes requer investigação complexa e método num enquadramento profissional que na sua evolução exige preparação apropriada.
Nos Açores, os cursos de jornalismo têm vindo a reforçar esta dimensão formativa, apostando numa formação superior que integra não apenas técnicas de escrita e reportagem, mas também fundamentos éticos, sociais e filosóficos. A especialização não é apenas uma questão de carreira, mas sobretudo uma resposta à complexidade crescente da sociedade e à responsabilidade que a imprensa assume ao moldar a visão do mundo. A formação ética e epistemológica do jornalista é a chave que lhe permite distinguir entre o ruído e o sentido, ou discriminar entre o dado e o contexto.
Num arquipélago como o nosso, o jornal local transcende a definição arcaica de meio de comunicação. Dá forma à metáfora de espelho conceptual onde a comunidade se vê, se reconhece e se interroga. É também uma memória viva, que regista não só os acontecimentos, mas os gestos, as vozes, os silêncios. Quando uma publicação popular entrevista um mestre de embarcações tradicionais, ou acompanha o percurso de uma escola que resiste ao despovoamento ou despe a pobreza das roupas da inação política, os responsáveis cumprem e promovem esta missão pedagógica. Está a dar sentido ao que acontece, a ligar o passado ao presente, a construir o futuro. Esta proximidade permite ao jornal local exercer uma pedagogia do quotidiano ao acompanhar os ritmos da terra, os desafios das famílias, as iniciativas das associações. Transforma-se num espaço de escuta e de cuidado. Não é apenas uma janela para o mundo, mas também uma casa onde a comunidade se reúne para pensar em conjunto.
A função pedagógica da comunicação social não se traduz em luxo ou preferência pessoal de quem o dirige ou executa o direito de propriedade, mas numa necessidade incontornável. Num tempo marcado pela sobrecarga informativa, pela desinformação e pela fragmentação societária, o jornal que explana e contextualiza com conhecimento, que escuta e respeita as normas deontológicas e civilidade eleva-se a símbolo ativo de instrumento de cidadania. Torna-se um aliado da democracia, da cultura e da memória. Nos Açores, esta missão ganha contornos muito concretos. A imprensa popular, mesmo sem grandes recursos, pode ser um espaço de formação, de diálogo e de transformação. Pode ajudar a vincular o saber ao exercício institucional de soberania — a traduzir o mundo para quem o vive conscientemente, e proativa o futuro. Porque informar é necessário, mas formar é urgente.
A dinâmica cultural que define o processo contínuo da modernidade está a transformar, nos Açores, o tecido social, as instituições que o sustentam e uma visão mais sofisticada do mundo. Os jornais, e uma plêiade de jornalistas jovens com o saber académico e na prática do seu múnus, revelam já uma notável capacidade de adaptação cognitiva e profissional, ligando o arquipélago ao ritmo evolutivo da espécie humana.
Manuel Leal